Uma vida dedicada às mulheres
Homem que é homem luta desde a infância para conquistar garotas e decodificar sua complexidade
Por Renato Krausz
Ilustração: Bruno Borges
Fabiana foi a primeira mulher da minha vida. Nós estávamos na pré-escola e começamos a namorar. Foi na década de 1970. Ficamos completamente apaixonados. Tínhamos 5 anos. Não desgrudávamos um minuto. Na hora do intervalo, passávamos o tempo todo fingindo que estávamos nos casando. A gente andava de um lado para o outro do pátio da hoje extinta Escola Dinâmica, em SP, em posição de valsa, com os rostos colados, cantando a melodia da marcha nupcial. Achávamos que era assim que se casava. Até que alguém nos falou que estava errado e mostrou que o jeito certo seria com os braços entrelaçados. Eu não podia acreditar. Era muito chato da maneira certa. Fabiana também achava. Então continuamos a nos casar andando de um lado para o outro, em posição de valsa, com os rostos colados.
Acho que eu era bem feliz nessa época. Eu só pensava nela. Até que chegaram as férias de meio de ano. Eu e Fabiana não tínhamos ideia do que isso significava. Víamos um ao outro todos os dias na escola e era isso o que importava. Nunca trocamos telefones, nada disso. De repente, ficamos um mês inteiro sem nos ver. Minha vidinha virou um inferno. Eu chorava sem parar. Meu pai, tentando ajudar, vinha com o catálogo telefônico na mão.
Qual é o nome dela? Fabiana. Fabiana do quê? Só Fabiana. Humm, deixa eu ver, será que é esse número aqui? – e meu pai apontava para um número qualquer numa página qualquer do catálogo.
Eu ligava aliviado, crente que o problema estava resolvido. Faltavam dois toques do telefone para eu enfim falar com Fabiana. Que nada. O número estava sempre errado. E eu tentava outro e mais outro, sempre com a mesma expectativa. Meu pai não fez isso para me sacanear, tenho certeza, apesar de ser uma puta sacanagem. Ele fez isso para me entreter. E para me fazer parar de encher o saco.
Passou-se o mês todo e eu reencontrei Fabiana em agosto, na escola. Nosso romance voltou com força total. Eu peguei o telefone dela para nunca mais passar por aquilo. Agora estava tudo bem, ufa. Voltamos a nos casar, andando de um lado para o outro, em posição de valsa, com os rostos colados.
Até que um dia, na piscina da escola, Fabiana chegou toda decidida. Ei, não quero mais namorar com você. Você é ruivo! Eu não gosto de ruivos. Meu cabelo na época, de tão claro, ficava mesmo meio avermelhado quando molhado.
E então, com os olhos ardendo pelo cloro, com um nó na garganta e os ombros encolhidos, ali dentro da piscina, eu tentei com toda a sinceridade do mundo (faltava-me na época o sarcasmo e a ironia) salvar o meu relacionamento. Eu não sou ruivo, eu juuuuuro! Mas não tinha jeito. Ela não queria e pronto. Fabiana ainda me confirmou essa decisão mais tarde, por telefone, na primeira (e última) ligação que eu fiz para ela na vida. Disse que até já tinha outro namorado. Aos 5 anos de idade eu levei a primeira punhalada de uma mulher. Cacete, como doeu.











1 comentário
A parte do: eu não sou ruivo, é de cortar o coração!