Para você o que é melhor: explorar novos horizontes ou sentar naquele mesmo bar em que chama o garçom pelo nome?

Por Antonio Prata
Ilustrações: Fido Nesti

Talvez seja uma característica masculina, talvez apenas um traço meu – ou, como diz minha mulher, um defeito. O negócio é que descobri, aos 33 anos, que não gosto de novidades. Isso inclui: viagens a lugares desconhecidos, passeios por galerias de arte, estudos frequentes do guia de fim de semana em busca dos horizontes intocados de nossa grande cidade.

Não tenho prazer na exploração, mas no reconhecimento. Gosto de ir correr no parque do meu bairro, fazendo sempre o mesmo trajeto: dou a volta no laguinho, passo atrás do bambuzal, depois vou em direção ao estacionamento e sinto aquela tranquilidade. Aí está o cenário amigo de tantas das minhas tardes. Mais do que descobrir artistas, gosto de ler livros e ver filmes dos meus autores e diretores preferidos. Mais um do Kurt Vonnegut, mais um do Woody Allen: que bom poder reencontrar o mesmo estilo, as mesmas idiossincrasias. Sou feliz nos bares em que chamo o garçom pelo nome e cujo cardápio posso invocar, a qualquer momento, na tela da memória.

Sabe cachorro que adota um tapete encardido e dali não sai, por mais que você compre camas acolchoadas ou faça uma casinha de madeira? Pois eu sou esse cachorro. E minha mulher, que adora novidades, é a pessoa que vem tentando, há quatro anos, seduzir-me com as camas acolchoadas e casinhas de madeira.

Eis o problema: sou um Homer Simpson, casado com uma Marca Pola. Chega sábado, ela quer me levar para ver um espetáculo incrível de fantoches checos que dançam balalaica ao som de uma banda performática búlgara, ou ao Teatro Municipal, para ouvir o coral de monges tibetanos exilados no Canadá, ou a um badalado restaurante de comida coreana feita por um chef cearense – no fim da zona norte.

Beleza. Em teoria,  acho tudo isso fantástico. Se, antes de nascer, pudesse ter optado entre o modelo que adora os fantoches checos e o que prefere a velha poltrona, encarnaria no primeiro, sem dúvida. Ponho até um polegar para cima, no Facebook, sobre cada um dos programas citados: Antonio likes this. A vida é curta, o mundo é grande, é preciso vê-lo enquanto é tempo. Mas o que posso fazer se, na prática, não sou assim?

Demorou para que eu assumisse esse meu provincianismo existencial. Por anos, tentei acostumar-me a gostar de lugares onde não tenho o costume  de ir. Esforcei-me, em sábados e domingos, para não ficar mal-humorado enquanto buscávamos vaga no estacionamento abarrotado da bienal. Esmerei-me em manter o mesmo inabalado sorriso no rosto quando minha mulher propunha, diante de mapas abertos: “Aí a gente aluga um carro aqui, cruza a cordilheira, pega um barco ali, vai até essas ilhas, faz uma trilha até…”. Não sei se  o que mais me assusta na frase são os verbos – aluga, cruza, pega, vai, faz – ou os substantivos – carro, cordilheira, barco, ilhas, trilha –, mas, em respeito ao sujeito – a gente –, já atravessei até deserto em lombo de  cavalo. Confesso que, em muitos momentos, enquanto o sol se punha atrás dos montes arenosos, por exemplo, alongando  as belas sombras dos cactos por metros e metros sobre rochas vermelhas, eu aproveitei. Mas não conseguia evitar um vergonhoso pensamento: “Acho que estaria mais feliz no quiosque do Ademir, lá em Ubatuba”.

Depois que assumi essa minha, digamos, posição, tento defender-me das acusações de “preguiçoso” e “encostado” invocando supostos traços genéticos e antropológicos. Num domingo, lutando para conseguir ver Corinthians e Ponte Preta, em vez de assistir ao Encouraçado Potemkin, no Memorial da América Latina, criei a seguinte teoria: por muitos séculos, as mulheres ficaram em casa, cuidando da vida doméstica, enquanto os homens saíam pelo mundo, para caçar, pilhar, conquistar, guerrear ou, nos últimos 100  anos, bater o cartão. Agora, elas querem recuperar, nos sábados, nos domingos, nas férias e nos feriados de suas juventudes, o tempo perdido em centenas de anos de cama, mesa e banho, enquanto nós, que trazemos em  nosso DNA a exaustão dos exploradores e dos escravos, de gregos e troianos, mouros e cristãos, só queremos uma poltrona, um copo de cervejae Corinthians e Ponte Preta, às 5h30 da tarde.

Você acha que minha explicação colou? Claro que não. Consegui assistir ao jogo, mas triste, porque minha mulher foi sozinha ao filme,  e ficou um pouco chateada. O que eu posso fazer? Eu amo  minha mulher. Eu gosto muito da minha poltrona. Uma quer me levar para longe. A outra quer manter-me bem perto. Por que tanta dificuldade? Será o cansaço dos antigos navegadores e dos escravos nas galés, que acomete meus velhos músculos, ou apenas uma falha de caráter, uma preguiça monstro que impedeme de ir ao teatro, ao cinema e aos confins do mundo, ver como o sol se põe?

Não sei, meu amor. Não sei. Mas fora isso, até que eu sou legal, vai?