Ê, meu amigo Charlie Sheen…
Um encontro com o astro renegado no boteco mais sujo do Rio de Janeiro, em pleno Carnaval
Por Marcos Nogueira
Ilustração: Marina Stivi

Por que aqui? Charlie Sheen, o louco, o drogado, o mestre da merda no ventilador, veio secretamente passar o Carnaval no Brasil e eu, por um golpe de sorte, soube e consegui uma entrevista. Quero saber se o cara é um farsante. Quero saber por que ele faz o que faz. Mas antes quero saber por que raio ele marcou o encontro no boteco mais imundo do canto errado de Copacabana, num antro de prostitutas banguelas.
“Hum, prostitutas…”, penso enquanto bebo um gole de cerveja. Nesse momento de refl exão profunda, o celular vibra: era uma mensagem direta do Twitter que dizem ser de Charlie: Precisei descer em SP. Incrível, os detectores de fumaça dos aviões brasileiros funcionam. Vou pegar o próximo voo. Tome um uísque por mim. c
Quem sou eu para desobedecer Charlie Sheen? Escaneio a prateleira empoeirada com os olhos até achar a familiar garrafa quadrada com a faixa vermelha. Ciente do risco, peço uma dose sem gelo e tuíto: Ok, espero. Vem fazer o q no Brasil?
O primeiro gole desce rasgando. Ainda me recuperava dele quando chegou novo tuíte: Trabalho. Você sabia que estou procurando uma estagiária? As mulheres daí são AWESOME. c
O gringo está certo, isso elas são. Espero duas horas, bebendo e observando o louco de rua que ignora a proibição de fumar e a puta que não para de coçar os países baixos. O bloco carnavalesco lá fora faz barulho suficiente para ninguém ouvir nada aqui dentro. Os cascos vazios de cerveja já se acumulam. Comer? Fora de cogitação. Recebo outra mensagem. Pousou. Diz uma coisa: quanto $ preciso para liberar uma coisinha que TROLLS da polícia não gostaram de ver na minha mala? c
Só na presença do meu advogado eu digo o que respondi. Aliás, nem lembro bem, culpa das cervejas e do joãozinho paraguaio. A biscate da virilha de fogo resolve dar atenção para mim, o que não é bom. Finjo ser gringo e ela fi nge acreditar. Pede uns dólares, eu não dou e ela me deixa em paz. Eis que mais um tuíte aparece no meu celular. Um ladrão #FASTBALL levou minha bagagem, carteira e celular. Preciso desmarcar. See you. c
Charlie saiu #WINNING. Me fez de idiota, o sacripanta. De onde tuitaria se tivesse sido roubado? Peço a conta, mas o luso atrás do balcão balança a cabeça em negativa e aponta para a porta, indicando que alguém já se encarregou da penosa. Na saída, o mendigo fumante caminha em direção ao Carnaval abraçado à garota de programa que me assediou minutos antes. Ele tira o casaco encardido, o chapéu e a barba postiça para se perder entre outros 16 Charlies Sheen que pulam ao som de Cabeleira do Zezé e confraternizam com os Obamas, as Dilmas, as Ladies Gaga e os Kadafis.
Apoio-me no batente, perplexo. Com um copo na mão, o dono do bar interrompe meus pensamentos impublicáveis. “Aquele senhor americano também pediu para eu entregar a ti esta bebida.” O que é? “Leva cachaça, jurubeba, campari e se chama sangue…” Desvio o olhar para o celular, que tinha nova mensagem:
#TIGERBLOOD! c










