E se o vocalista do The Doors ressurgisse inesperadamente depois de dado como morto por 40 anos?

Por Marcelo Orozco
Ilustração: Zé Otavio

A campainha toca e o dono da casa interrompe seus exercícios matinais de Bach no teclado para atender – sem interfone nem empregada, como em tantas ficções ligeiras. Dá de cara com Jim Morrison, seu velho colega na banda The Doors. Vasta cabeleira branca, rugas, manchas de velhice na pele, barriga proeminente. Nada daquele mito raro que ele foi na juventude – um cara capaz de ser sex symbol para as mulheres e modelo a imitar para os homens. Mas o olhar penetrante e as ossudas maçãs do rosto seguiam inconfundíveis. A voz também.

– Olá, Ray. Faz tempo, não?

Ray Manzarek, o tecladista que cofundou The Doors com Jim numa praia californiana, teve a certeza imediata de que aquele visitante era seu antigo parceiro. Supostamente encontrado morto, aos 27 anos, numa banheira num apartamento fuleiro de Paris em 3 de julho de 1971. Supostamente. Porque poucas pessoas teriam visto o corpo; e porque não houve autópsia e o enterro foi ligeiríssimo e sem alarde.

Esses mistérios criaram uma daquelas lendas urbanas da música pop, em que grandes artistas fartos da popularidade forjavam suas mortes e iam passar o resto de sua existência em algum lugar perdido – o coração da África, a aldeia de Marlon Brando no filme Apocalypse Now ou uma ilha no Pacífico. Morrison seria vizinho de Elvis Presley, John Lennon, Jimi Hendrix e alguns outros abruptamente desaparecidos. Uma biografia que se dizia séria alimentou essa história, insinuando que Jim viveria como um bwana africano sob o codinome Mr. Mojo Risin.

Pois agora Manzarek tinha uma lenda urbana à sua porta. E teve um acesso de raiva.

– Então você esteve vivo mesmo nesse tempo todo! Como você pôde fazer isso, Jim? Você acabou com a carreira dos outros Doors!

Inabalável, quase zen, Jim baixou a temperatura da conversa.

– Acabei nada. Primeiro, sei que vocês ainda gravaram dois discos sem mim e fracassaram. E sei que vocês se sustentaram relançando várias vezes o que gravei. Lá na ilha secreta, volta e meia chegava à mercearia local um The Best of The Doors ou The Very Best of The Doors ou The Absolute Best of The Doors… Sempre com as mesmas músicas e capas parecidas. Enfim, fome você não passou, Ray.

Ray pensou um pouco e ficou mais amistoso. Convidou Jim a entrar para contar o que fez em suas quatro décadas como “morto”.

– De Paris, fugi para a África. Fui mercador de armas por um tempo. Como o Rimbaud, saca? (Ray preferiu não observar que aquilo era crime. Jim apenas quis imitar seu ídolo, o poeta francês Arthur Rimbaud.)

Na África, Jim conseguiu um mapa para a tal ilha secreta e se mandou para lá. Enquanto Morrison descrevia sua rotina do anonimato, Ray foi chegando à conclusão de que uma Mega-Sena pousara em seu colo: a volta do The Doors com formação original.

Talvez Jim, com atuais 67 anos, não tivesse mais condições de trajar uma calça de couro preta. Mas a oportunidade era boa demais para desperdiçar.

– Jim, chega de ilha. Você ainda é um dos caras mais adorados do rock. Nós TEMOS de voltar com The Doors! Algo monumental… Já sei: com uns telefonemas, a gente acerta um show como atração principal do Rock in Rio no Brasil!

– Atração principal? Xi… acho que não vai rolar.

– Por quê?!

– Porque o Elvis também cansou da ilha e quer voltar.