Repare: os motivos e as desculpas que as pessoas dão para beber são, muitas vezes, tão legais quanto as histórias protagonizadas por essas mesmas pessoas quando bebem

Por Felipe Van Deursen
Ilustração: Bruno Borges

Luiza morava com um cara que tinha bruxismo. Rangia os dentes muito alto quando dormia. “Eu só conseguia pegar no sono alcoolizada”, dizia. Às reticências de resposta, defendia-se: “Gente, é sério!” Ismael e Felipe se embriagam para movimentar a economia do país. “O bar da esquina está falindo, vamos ajudar.” Marcos também tem motivações estratégicas. Bebe cachaças de regiões pobres, feitas por produtores locais.

Renata e Lívia gostam de bons drinques para tentar sentir o gosto da angostura em taças de uma época que não lhes pertence. Ana e Julio já beberam por recomendações médicas. O álcool entra no sangue, o líquido invade o corpo, as pedras deixam o rim.

Trajano e Paulo tomaram um porre após um enterro. Era o dia mais triste da vida deles cheia de confetes. Marina, Fernanda, Juliana e Amanda usam o frio como desculpa para esvaziar a adega – e ganhar abraço e colo quentes. Fred e Dudu não precisam de explicação porque estão curando a ressaca. No bar.

Claudia faz convocações semanais às amigas para falar da promoção, da demissão, do peguete novo, do ex, da última viagem e do superdesconto incrível que pegou naquele site de compra coletiva. Dani, amiga dela, ia sempre no mesmo horário ao mesmo bar porque queria ficar amiga do garçom famoso. Conseguiu, e manteve o ritual, agora com direito a beijinhos e atendimento preferencial. Guilherme paga a primeira rodada dos fiéis parceiros de cadeira de ferro quando seu time ganha no Brasileiro, seu time ganha no torneio da firma, seu time perde e ele perde a aposta junto, quando fecha um negócio, quando é promovido.

Bernardo tomou o porre da vida quando viu seu Fluminense campeão. Sabia, no fundo, que podia ser o único título que presenciaria na vida. Tiago disse “eu mereço” quando abriu a primeira lata após um rolé bem-sucedido de skate. Ficou 20 minutos sobre a prancha e quatro horas no bar. Thati passou seis dias sem beber e convocou a turma da faculdade para curar sua crise de abstinência. Mateus bebe porque pode. É artista. Rodolfo vai para o boteco com os amigos para rebater os boatos de que ele estava numa pior.

Eu vi todos eles bebendo e buscando um motivo para si e para os outros, mesmo quando não houvesse motivo algum, como Marcelo, que bebe porque não tem mais o que fazer. Testemunhei alegrias e tristezas, fúteis ou não, legitimadas no fundo de um copinho americano. Fechei contas e chorei saideiras, ao lado de amigos de infância e conhecidos de Facebook. Acordei dezenas de vezes prometendo não beber mais às segundas.

Desculpe, esqueci dos meus motivos. Arrumei muita desculpa para beber e esquecer. Mas esqueci que saudade não se afoga em álcool.