Casamento aberto
Se existe o colesterol bom, existe também a adrenalina ruim. E nenhuma adrenalina é pior do que a sensação de ser descoberto
Por Renato Krausz
Ilustração Bruno Borges
Sempre que estava bêbado no bar com a rapaziada, ele costumava dizer: “Mulher não pode encher o saco, porra!”. Era uma crítica indireta aos amigos e ao patético jogo de cintura com o qual precisavam se desdobrar a cada pedido de alvará para o chope, o pôquer, o futebol, a balada. No íntimo, ele se vangloriava por ser entre todos na turma o que mais liberdade tinha. “Saio quando quero, faço o que quero.” E de fato era mesmo. Não só com a atual mulher, mas também com as últimas três ou quatro namoradas. Quem pensasse que ele só escolhia mulheres liberais estava enganado. Todas essas garotas já haviam passado por relacionamentos em que os cinzeiros voam e que começam na cama redonda e terminam no divã.
Mas com ele não. Ele sabia doutriná-las. E as mulheres aprendem rápido. Ele dizia a elas que o ciúme não leva a nada. Que respeitar privacidade é fundamental. Antes as cartas eram invioláveis, e agora também passaram a ser os e-mails, as redes sociais, os celulares e as gavetas do criado-mudo. Sempre incentivou a vida social do casal ao mesmo tempo que defendia a individual de ambos. “Sai um pouco, linda”, costuma dizer ao telefone, quando viaja a negócios.
Que fique claro: não é nem nunca foi uma estratégia arquitetada para poder aprontar das suas. Ele realmente acredita nisso. Sua contrapartida é contundente e sincera. Ele sabe como poucos ouvir uma mulher. Elogia-as olhando nos olhos, não importando se estão no primeiro dia ou no sétimo ano juntos. Nunca deixou de desejá-las nem de deixá-las cientes disso.
O limite acertado desde o começo era a fidelidade. “Temos liberdade, mas estamos juntos e vamos ficar só com o outro, ok?” Era este o acordo. Mas trata-se de um limite que, é necessário dizer, ele não tinha por hábito respeitar. Porque também nunca deixou de desejar as outras mulheres.
E, com isso, apesar de não precisar responder a interrogatórios sobre onde e com quem estava, ele carregava consigo para cima e para baixo a sensação angustiante de ser pego no pulo do gato. Se existe o colesterol bom, existe também a adrenalina ruim. E nenhuma adrenalina é pior do que essa.
Foi assim que a semente do casamento aberto começou a brotar dentro dele. Precisava incutir aos poucos a ideia na cabeça da mulher, e aproveitou a brecha aberta numa festa em que ela, exalando felicidade e vodca, deu selinhos nas amigas e nos amigos mais próximos.
Ele era um cara que convencia as mulheres. Mesmo sua esposa sabendo que uma coisa não tinha nada a ver com a outra, acabou aceitando na base do vamos ver aonde isso vai parar. Um novo acordo estava selado. E ele então se sentia mais altivo. Tinha tanta vantagem para contar aos amigos que até perdia a vontade de falar.
E belo dia lá estava ele no apartamento de uma antiga colega de faculdade que reencontrara pelo Facebook. Vinho, queijos, beijos, amassos. Elogiava-a olhando nos olhos. Transaram duas vezes e, ao contrário do que ele estava acostumado a fazer, não se vestiu para ir embora logo depois. A sensação de que podia estar ali o enchia de paz e o esvaziava de culpa. Relaxou e acabou adormecendo.
Acordou com sol ainda fraco, porém já suficiente para esquentar o travesseiro pela fresta da janela. Faltavam 15 minutos para as 8 horas. Levantou-se num espasmo, com o rosto crispado e uma palpitação nos olhos, enquanto saltitava num pé só para vestir as calças. O celular registrava sete ligações não atendidas. “Mas seu casamento não é aberto?”, perguntou ela. “São 8 da matina. Casamento aberto tem hora!”










