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Saideira VIP

As crônicas bem-humoradas que fecham todas as edições de VIP.



70 anos de Ali

Ele brigou no ringue por seus títulos de boxe e brigou fora dele para combater o racismo. Alegre, desbocado, artístico, técnico, inovador, Muhammad Ali transcendeu o esporte como nenhum outro. Um mito para o qual outros mitos prestaram reverência – Por Marcelo Orozco

Que os reis, deuses e gênios de outras modalidades desculpem, mas Muhammad Ali é o maior ícone saído do esporte. Um mito pop e social. Ele faz 70 anos em 17 de janeiro, fragilizado pelo Mal de Parkinson causado pelos socos que tomou nos ringues e com a imagem histórica intacta graças a estes fatores:

O boxeador
Nos ringues, Ali foi brilhante, vencedor e inovador. Campeão olímpico e três vezes campeão mundial profissional (aos 22, 32 e 36 anos). Inteligente e estratégico, aplicava golpes certos na hora certa sem desperdício espalhafatoso de força. Superou Golias demolidores e se esquivava da maioria dos socos com uma agilidade incomum para m peso-pesado. E demoliu o clichê de que lutador deve bancar o guerreiro com cara de mau: sorria, dançava, zombava. Criou alegria num meio bruto.

O ativista
Ali aproveitou seus triunfos para ser ouvido num assunto sério: o racismo, ainda fortíssimo nos Estados Unidos dos anos 1960. Nascido com o nome de Cassius Marcellus Clay no segregador Sul americano, ele viveu ingenuamente até não ser atendido em um restaurante logo após ter sido campeão olímpico em 1960. Ferido com a injustiça, converteu-se aos engajados Muçulmanos Negros de Malcolm X e mudou seu nome para Muhammad Ali depois de ganhar o título mundial em 1964.
Seus ataques à discriminação pareciam apenas bravata. Até que ele tomou uma atitude radical: recusou-se a servir na Guerra do Vietnã em 1967. Para ele, não fazia sentido combater um povo distante por um país em que os negros eram tratados como pessoas de segunda classe. Teve seu cinturão cassado, foi proibido de lutar e esteve bem próximo de ir preso. Manteve-se firme. Aos poucos, a opinião pública virou a seu favor. Em 1970, ele voltou aos ringues como gigante moral e herói popular.

O ícone dos ícones
Por tudo que fazia, Ali virou ímã de ícones de outras áreas. Bob Dylan o citou numa música. Os Beatles lhe serviram de bobos da corte. Frank Sinatra fotografou sua luta contra Joe Frazier em 1971 para a revista Life. Woody Allen o entrevistou na TV. O adolescente Michael Jackson o fez de capacho numa foto. Pelé fez dele o principal convidado de sua despedida do futebol em 1977.
Simulou golpes com Elvis Presley e Sylvester Stallone. Posou para Andy Warhol fazer quadros que hoje valem muito em leilões. E sua luta épica com George Foreman em 1974 rendeu um livro de um dos principais escritores do século 20 (A Luta, de Norman Mailer) e um documentário que ganhou Oscar (Quando Éramos Reis).

O rei da autopromoção
Ali não tinha vergonha de se promover de vários jeitos. Tanto que foi um “pai” do MMA: em 1976, decidiu um suposto Campeonato Mundial de Artes Marciais com Antonio Inoki, campeão japonês de luta livre . O combate foi patético e terminou empatado. Mais bizarra que essa, só a “luta” de Ali contra o Superman numa HQ lançada em 1978 (a editora Panini acaba de lançar no Brasil uma edição em capa dura dessa história).
Autointitulado “The Greatest” (O maior) desde o início da carreira, Ali lançou três obras com esse nome: um LP, um livro e um filme. Mas a verdadeira “bíblia” dele é Greatest of All Time, enorme livro de luxo lançado em três versões pela editora Taschen. Uma, com mil cópias numeradas e autografadas por Ali, custa US$ 15 mil. Outra sai por US$ 6 mil. A mais básica está por US$ 150. Poucos têm cacife para receber um tratamento privilegiado (e sem medo de encalhe) como esse.


As deusas do Canal Brasil

A sessão Como Era Gostoso…, exibida nas madrugadas da TV a cabo, nos faz relembrar (ou conhecer) as musas do cinema erótico que embalaram tantos amores solitários no passado

Helena Ramos
Com seu jeitinho de menina ingênua do interior (que sempre se deixa seduzir por algum espertalhão), Helena era a estrela máxima do cinema erótico brasileiro nos anos 1970 e 1980.
O auge: O pico de popularidade de Helena veio em Mulher Objeto (1981), um drama erótico dirigido por Silvio de Abreu (aquele das novelas) que, de tão chato, merece ser visto sem volume.

Matilde Mastrangi
A grande estrela da fase derradeira da pornochanchada (anos 1980) fez filmes mais ousados que a média do gênero, com nudez frontal.
O auge: O grande momento de Matilde Mastrangi não foi no cinema. Em 1983, ela fez um strip-tease e leiloou a própria calcinha na boate Gallery, ponto de encontro da alta sociedade paulistana de então.

Vera Fischer
Entre a coroação no Miss Brasil e o estrelato na TV, Vera e a pinta em seu seio direito construíram uma sólida carreira nas pornochanchadas.
O auge: Nenhuma pornochanchada supera A Super Fêmea (1973), em que a nudez da mulher mais desejada do Brasil era exposta ao grande público. O enredo era apenas um detalhe.

Adele Fátima
Adele encantava pela doçura e pelo talento dramático… a quem queremos enganar? Adele Fátima conquistou o Brasil com uma das bundas mais fabulosas que já passaram por este planeta.
O auge: Adele brilhou em Histórias que Nossas Babás não Contavam (1979), uma sátira aos contos de fadas. Ela interpretava Clara das Neves, uma princesa que se esconde na cabana de sete anões lascivos para fugir do caçador interpretado pelo hilário Costinha.

Nádia Lippi
A ruivinha Nádia tinha vida dupla na década de 1970: era uma atriz famosa de telenovelas (como Pai Herói, Globo, 1979) que podia ser vista nua em comédias eróticas no cinema.
O auge: Nádia reluz em A Árvore dos Sexos, uma história surreal dirigida por Silvio de Abreu sobre uma árvore de frutos fálicos que engravidam as mulheres, permitindo que elas tenham uma vida sexual liberada (se engravidassem, a culpa era da planta).

Aldine Müller
Se alguém ameaçava o reinado de Helena Ramos nas pornochanchadas, era a gaúcha Aldine Müller, ex-rainha da Festa da Uva de Caxias do Sul. Ela fez mais de 20 filmes e, para alguns, era mais bonita e gostosa que a colega-rival.
O auge: Aldine já tinha uma reputação (de filmes do naipe de A Ilha das Cangaceiras Virgens e As Meninas Querem… Os Coroas Podem) quando fez Ninfas Diabólicas (1978), um marco do cinema erótico de terror nacional.

Nicole Puzzi
Os homens da época enlouqueciam com corpo esguio, com o nariz empinado e com a carinha de moça de família dessa paranaense – mas, principalmente, por saber que ela ERA uma moça de família.
O auge: Foi a grande musa da melhor fase do diretor Walter Hugo Khouri, participando dos filmes O Prisioneiro do Sexo (1979), O Convite ao Prazer (1980), Eros, o Deus do Amor (1981) e Eu (1987).

Enredos de pornochanchadas em menos de 140 toques
O Bem-dotado – O Homem de Itu (1978): Nuno Leal Maia, um caipira de grande ingenuidade e bilau enorme, leva as damas da sociedade paulista à loucura na cama
Kung Fu Contra as Bonecas (1975): Chang, meio chinês e meio nordestino, enfrenta um bando de cangaceiros afrescalhados para vingar as mortes de seu pai e sua irmã
Gugu, o Bom de Cama (1980): Agildo Ribeiro vive um costureiro gay que é obrigado a casar e tem um filho que também se torna um costureiro gay
O Libertino (1974): o comediante Costinha é um político ultraconservador que mantém uma mansão secreta cheia de mulheres para satisfazer seus desejos
A Ilha das Cangaceiras Virgens (1976): donas de uma pousada, lindas garotas são obrigadas a virar bandoleiras eróticas para vingar um ataque a seus hóspedes
A obra de Walter Hugo Khouri: Marcelo é um homem atormentado que alterna crises existenciais com transas pouco convencionais


Casamento aberto

Se existe o colesterol bom, existe também a adrenalina ruim. E nenhuma adrenalina é pior do que a sensação de ser descoberto

Por Renato Krausz
Ilustração Bruno Borges

Sempre que estava bêbado no bar com a rapaziada, ele costumava dizer: “Mulher não pode encher o saco, porra!”. Era uma crítica indireta aos amigos e ao patético jogo de cintura com o qual precisavam se desdobrar a cada pedido de alvará para o chope, o pôquer, o futebol, a balada. No íntimo, ele se vangloriava por ser entre todos na turma o que mais liberdade tinha. “Saio quando quero, faço o que quero.” E de fato era mesmo. Não só com a atual mulher, mas também com as últimas três ou quatro namoradas. Quem pensasse que ele só escolhia mulheres liberais estava enganado. Todas essas garotas já haviam passado por relacionamentos em que os cinzeiros voam e que começam na cama redonda e terminam no divã.

Mas com ele não. Ele sabia doutriná-las. E as mulheres aprendem rápido. Ele dizia a elas que o ciúme não leva a nada. Que respeitar privacidade é fundamental. Antes as cartas eram invioláveis, e agora também passaram a ser os e-mails, as redes sociais, os celulares e as gavetas do criado-mudo. Sempre incentivou a vida social do casal ao mesmo tempo que defendia a individual de ambos. “Sai um pouco, linda”, costuma dizer ao telefone, quando viaja a negócios.

Que fique claro: não é nem nunca foi uma estratégia arquitetada para poder aprontar das suas. Ele realmente acredita nisso. Sua contrapartida é contundente e sincera. Ele sabe como poucos ouvir uma mulher. Elogia-as olhando nos olhos, não importando se estão no primeiro dia ou no sétimo ano juntos. Nunca deixou de desejá-las nem de deixá-las cientes disso.

O limite acertado desde o começo era a fidelidade. “Temos liberdade, mas estamos juntos e vamos ficar só com o outro, ok?” Era este o acordo. Mas trata-se de um limite que, é necessário dizer, ele não tinha por hábito respeitar. Porque também nunca deixou de desejar as outras mulheres.

E, com isso, apesar de não precisar responder a interrogatórios sobre onde e com quem estava, ele carregava consigo para cima e para baixo a sensação angustiante de ser pego no pulo do gato. Se existe o colesterol bom, existe também a adrenalina ruim. E nenhuma adrenalina é pior do que essa.

Foi assim que a semente do casamento aberto começou a brotar dentro dele. Precisava incutir aos poucos a ideia na cabeça da mulher, e aproveitou a brecha aberta numa festa em que ela, exalando felicidade e vodca, deu selinhos nas amigas e nos amigos mais próximos.

Ele era um cara que convencia as mulheres. Mesmo sua esposa sabendo que uma coisa não tinha nada a ver com a outra, acabou aceitando na base do vamos ver aonde isso vai parar. Um novo acordo estava selado. E ele então se sentia mais altivo. Tinha tanta vantagem para contar aos amigos que até perdia a vontade de falar.

E belo dia lá estava ele no apartamento de uma antiga colega de faculdade que reencontrara pelo Facebook. Vinho, queijos, beijos, amassos. Elogiava-a olhando nos olhos. Transaram duas vezes e, ao contrário do que ele estava acostumado a fazer, não se vestiu para ir embora logo depois. A sensação de que podia estar ali o enchia de paz e o esvaziava de culpa. Relaxou e acabou adormecendo.

Acordou com sol ainda fraco, porém já suficiente para esquentar o travesseiro pela fresta da janela. Faltavam 15 minutos para as 8 horas. Levantou-se num espasmo, com o rosto crispado e uma palpitação nos olhos, enquanto saltitava num pé só para vestir as calças. O celular registrava sete ligações não atendidas. “Mas seu casamento não é aberto?”, perguntou ela. “São 8 da matina. Casamento aberto tem hora!”


Diz-me por que bebes

Repare: os motivos e as desculpas que as pessoas dão para beber são, muitas vezes, tão legais quanto as histórias protagonizadas por essas mesmas pessoas quando bebem

Por Felipe Van Deursen
Ilustração: Bruno Borges

Luiza morava com um cara que tinha bruxismo. Rangia os dentes muito alto quando dormia. “Eu só conseguia pegar no sono alcoolizada”, dizia. Às reticências de resposta, defendia-se: “Gente, é sério!” Ismael e Felipe se embriagam para movimentar a economia do país. “O bar da esquina está falindo, vamos ajudar.” Marcos também tem motivações estratégicas. Bebe cachaças de regiões pobres, feitas por produtores locais.

Renata e Lívia gostam de bons drinques para tentar sentir o gosto da angostura em taças de uma época que não lhes pertence. Ana e Julio já beberam por recomendações médicas. O álcool entra no sangue, o líquido invade o corpo, as pedras deixam o rim.

Trajano e Paulo tomaram um porre após um enterro. Era o dia mais triste da vida deles cheia de confetes. Marina, Fernanda, Juliana e Amanda usam o frio como desculpa para esvaziar a adega – e ganhar abraço e colo quentes. Fred e Dudu não precisam de explicação porque estão curando a ressaca. No bar.

Claudia faz convocações semanais às amigas para falar da promoção, da demissão, do peguete novo, do ex, da última viagem e do superdesconto incrível que pegou naquele site de compra coletiva. Dani, amiga dela, ia sempre no mesmo horário ao mesmo bar porque queria ficar amiga do garçom famoso. Conseguiu, e manteve o ritual, agora com direito a beijinhos e atendimento preferencial. Guilherme paga a primeira rodada dos fiéis parceiros de cadeira de ferro quando seu time ganha no Brasileiro, seu time ganha no torneio da firma, seu time perde e ele perde a aposta junto, quando fecha um negócio, quando é promovido.

Bernardo tomou o porre da vida quando viu seu Fluminense campeão. Sabia, no fundo, que podia ser o único título que presenciaria na vida. Tiago disse “eu mereço” quando abriu a primeira lata após um rolé bem-sucedido de skate. Ficou 20 minutos sobre a prancha e quatro horas no bar. Thati passou seis dias sem beber e convocou a turma da faculdade para curar sua crise de abstinência. Mateus bebe porque pode. É artista. Rodolfo vai para o boteco com os amigos para rebater os boatos de que ele estava numa pior.

Eu vi todos eles bebendo e buscando um motivo para si e para os outros, mesmo quando não houvesse motivo algum, como Marcelo, que bebe porque não tem mais o que fazer. Testemunhei alegrias e tristezas, fúteis ou não, legitimadas no fundo de um copinho americano. Fechei contas e chorei saideiras, ao lado de amigos de infância e conhecidos de Facebook. Acordei dezenas de vezes prometendo não beber mais às segundas.

Desculpe, esqueci dos meus motivos. Arrumei muita desculpa para beber e esquecer. Mas esqueci que saudade não se afoga em álcool.


Jim Morrison no Rock in Rio

E se o vocalista do The Doors ressurgisse inesperadamente depois de dado como morto por 40 anos?

Por Marcelo Orozco
Ilustração: Zé Otavio

A campainha toca e o dono da casa interrompe seus exercícios matinais de Bach no teclado para atender – sem interfone nem empregada, como em tantas ficções ligeiras. Dá de cara com Jim Morrison, seu velho colega na banda The Doors. Vasta cabeleira branca, rugas, manchas de velhice na pele, barriga proeminente. Nada daquele mito raro que ele foi na juventude – um cara capaz de ser sex symbol para as mulheres e modelo a imitar para os homens. Mas o olhar penetrante e as ossudas maçãs do rosto seguiam inconfundíveis. A voz também.

– Olá, Ray. Faz tempo, não?

Ray Manzarek, o tecladista que cofundou The Doors com Jim numa praia californiana, teve a certeza imediata de que aquele visitante era seu antigo parceiro. Supostamente encontrado morto, aos 27 anos, numa banheira num apartamento fuleiro de Paris em 3 de julho de 1971. Supostamente. Porque poucas pessoas teriam visto o corpo; e porque não houve autópsia e o enterro foi ligeiríssimo e sem alarde.

Esses mistérios criaram uma daquelas lendas urbanas da música pop, em que grandes artistas fartos da popularidade forjavam suas mortes e iam passar o resto de sua existência em algum lugar perdido – o coração da África, a aldeia de Marlon Brando no filme Apocalypse Now ou uma ilha no Pacífico. Morrison seria vizinho de Elvis Presley, John Lennon, Jimi Hendrix e alguns outros abruptamente desaparecidos. Uma biografia que se dizia séria alimentou essa história, insinuando que Jim viveria como um bwana africano sob o codinome Mr. Mojo Risin.

Pois agora Manzarek tinha uma lenda urbana à sua porta. E teve um acesso de raiva.

– Então você esteve vivo mesmo nesse tempo todo! Como você pôde fazer isso, Jim? Você acabou com a carreira dos outros Doors!

Inabalável, quase zen, Jim baixou a temperatura da conversa.

– Acabei nada. Primeiro, sei que vocês ainda gravaram dois discos sem mim e fracassaram. E sei que vocês se sustentaram relançando várias vezes o que gravei. Lá na ilha secreta, volta e meia chegava à mercearia local um The Best of The Doors ou The Very Best of The Doors ou The Absolute Best of The Doors… Sempre com as mesmas músicas e capas parecidas. Enfim, fome você não passou, Ray.

Ray pensou um pouco e ficou mais amistoso. Convidou Jim a entrar para contar o que fez em suas quatro décadas como “morto”.

– De Paris, fugi para a África. Fui mercador de armas por um tempo. Como o Rimbaud, saca? (Ray preferiu não observar que aquilo era crime. Jim apenas quis imitar seu ídolo, o poeta francês Arthur Rimbaud.)

Na África, Jim conseguiu um mapa para a tal ilha secreta e se mandou para lá. Enquanto Morrison descrevia sua rotina do anonimato, Ray foi chegando à conclusão de que uma Mega-Sena pousara em seu colo: a volta do The Doors com formação original.

Talvez Jim, com atuais 67 anos, não tivesse mais condições de trajar uma calça de couro preta. Mas a oportunidade era boa demais para desperdiçar.

– Jim, chega de ilha. Você ainda é um dos caras mais adorados do rock. Nós TEMOS de voltar com The Doors! Algo monumental… Já sei: com uns telefonemas, a gente acerta um show como atração principal do Rock in Rio no Brasil!

– Atração principal? Xi… acho que não vai rolar.

– Por quê?!

– Porque o Elvis também cansou da ilha e quer voltar.


Seis estratégias vikings contra dragões da rede

A internet tem sido um refúgio das simpáticas, que despistam sua imagem para esconder a falta de dotes físicos. Como descobrir se elas fazem isso? Confira seis indícios trazidos pela experiência araponga nos domínios estéticos da web

Por Fabrício Carpinejar
Ilustração: Bruno Borges

CITAR O PEQUENO PRÍNCIPE: o livro curiosamente voltou à lista dos mais vendidos no país. Eu sei o motivo. Antes, era leitura obrigatória de 100% das concorrentes a miss. Todas as candidatas citavam como a grande obra da humanidade. Agora, as bruacas fizeram uma revolução sexual e tomaram Saint-Exupéry para si. Se a mulher menciona que “o essencial é invisível aos olhos”, ponha na cabeça que ela não é bonita e nunca será. Está dando a letra de que não se importa – não com a sua – com a própria aparência. Pede perdão antecipado. Espere uma Fiona, sem depilação e desalinhada.

FRAGMENTAÇÃO: um dos recursos da feia na rede é nunca usar uma foto do rosto inteiro ou do corpo nas páginas pessoais do Facebook, do Orkut, do Twitter, do MSN e do blog. É um detalhe da face, aquilo que ela acha menos problemático, pode ser um olho, um ouvido, a boca, até um pé. Esconde seu trauma bancando a cult. Toda feia é seguidora de Jean-Luc Godard e dos enquadramentos camicases.

EMOTICONS: conhece a namorada que traz o ursinho de pelúcia para a primeira noite com você? Na internet, existe algo pior: os emoticons, desenhos nas cavernas do MSN. Feia abusa desse recurso e infantiliza a linguagem para ganhar empatia.

SEM WEBCAM: a menos favorecida não vai aparecer na webcam para uma conversa no Skype (muito menos aceitará encontro presencial no primeiro mês). A câmera dela vive quebrada.

TERMOS AVOENGOS: o dicionário é a bolsa da feia, sua necessaire, ela esbanja uma média de sinônimos superior a uma mulher comum de sua idade. Parece bem mais velha, significa que dedicou boa parte de suas noites à leitura de clássicos, enquanto as cinderelas viraram as madrugadas em baladas. Se uma mulher comum é tagarela, com uma média de 20 mil palavras por dia, as menos bonitas têm uma bagagem de mais de 30 mil palavras diárias. Ela empregará expressões lustradas por Brasso e do tempo de Camilo Castelo Branco, a exemplo de soslaio, esguelha, claudicante, pernóstico.

ROMANTISMO DOS NICKNAMES: feia que é feia não faz propaganda enganosa, a ponto de alardear que é gostosa, linda, quente, fatal. Sua timidez percorrerá os cumes do romantismo poético e da astrologia. Seu nome em chat será uma metáfora. Quanto mais lírico e esotérico, pior a face. Se ela falar com você com o nickname “admiradora_do_ sol” ou “destino_das_estrelas” ou “sacerdotisa_do_mar”, prepare-se para o vale das sombras.
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Fabrício Carpinejar é cronista e jornalista, homem-monstro, pós-graduado em segundas intenções, autor de Borralheiro (Bertrand Brasil), entre outros.


Ê, meu amigo Charlie Sheen…

Um encontro com o astro renegado no boteco mais sujo do Rio de Janeiro, em pleno Carnaval

Por Marcos Nogueira
Ilustração: Marina Stivi

Por que aqui? Charlie Sheen, o louco, o drogado, o mestre da merda no ventilador, veio secretamente passar o Carnaval no Brasil e eu, por um golpe de sorte, soube e consegui uma entrevista. Quero saber se o cara é um farsante. Quero saber por que ele faz o que faz. Mas antes quero saber por que raio ele marcou o encontro no boteco mais imundo do canto errado de Copacabana, num antro de prostitutas banguelas.

“Hum, prostitutas…”, penso enquanto bebo um gole de cerveja. Nesse momento de refl exão profunda, o celular vibra: era uma mensagem direta do Twitter que dizem ser de Charlie: Precisei descer em SP. Incrível, os detectores de fumaça dos aviões brasileiros funcionam. Vou pegar o próximo voo. Tome um uísque por mim. c

Quem sou eu para desobedecer Charlie Sheen? Escaneio a prateleira empoeirada com os olhos até achar a familiar garrafa quadrada com a faixa vermelha. Ciente do risco, peço uma dose sem gelo e tuíto: Ok, espero. Vem fazer o q no Brasil?

O primeiro gole desce rasgando. Ainda me recuperava dele quando chegou novo tuíte: Trabalho. Você sabia que estou procurando uma estagiária? As mulheres daí são AWESOME. c

O gringo está certo, isso elas são. Espero duas horas, bebendo e observando o louco de rua que ignora a proibição de fumar e a puta que não para de coçar os países baixos. O bloco carnavalesco lá fora faz barulho suficiente para ninguém ouvir nada aqui dentro. Os cascos vazios de cerveja já se acumulam. Comer? Fora de cogitação. Recebo outra mensagem. Pousou. Diz uma coisa: quanto $ preciso para liberar uma coisinha que TROLLS da polícia não gostaram de ver na minha mala? c

Só na presença do meu advogado eu digo o que respondi. Aliás, nem lembro bem, culpa das cervejas e do joãozinho paraguaio. A biscate da virilha de fogo resolve dar atenção para mim, o que não é bom. Finjo ser gringo e ela fi nge acreditar. Pede uns dólares, eu não dou e ela me deixa em paz. Eis que mais um tuíte aparece no meu celular. Um ladrão #FASTBALL levou minha bagagem, carteira e celular. Preciso desmarcar. See you. c

Charlie saiu #WINNING. Me fez de idiota, o sacripanta. De onde tuitaria se tivesse sido roubado? Peço a conta, mas o luso atrás do balcão balança a cabeça em negativa e aponta para a porta, indicando que alguém já se encarregou da penosa. Na saída, o mendigo fumante caminha em direção ao Carnaval abraçado à garota de programa que me assediou minutos antes. Ele tira o casaco encardido, o chapéu e a barba postiça para se perder entre outros 16 Charlies Sheen que pulam ao som de Cabeleira do Zezé e confraternizam com os Obamas, as Dilmas, as Ladies Gaga e os Kadafis.

Apoio-me no batente, perplexo. Com um copo na mão, o dono do bar interrompe meus pensamentos impublicáveis. “Aquele senhor americano também pediu para eu entregar a ti esta bebida.” O que é? “Leva cachaça, jurubeba, campari e se chama sangue…” Desvio o olhar para o celular, que tinha nova mensagem:

#TIGERBLOOD! c


Uma vida dedicada às mulheres

Homem que é homem luta desde a infância para conquistar garotas e decodificar sua complexidade

Por Renato Krausz
Ilustração: Bruno Borges

Fabiana foi a primeira mulher da minha vida. Nós estávamos na pré-escola e começamos a namorar. Foi na década de 1970. Ficamos completamente apaixonados. Tínhamos 5 anos. Não desgrudávamos um minuto. Na hora do intervalo, passávamos o tempo todo fingindo que estávamos nos casando. A gente andava de um lado para o outro do pátio da  hoje extinta Escola Dinâmica, em SP, em posição de valsa, com os rostos colados, cantando a melodia da marcha nupcial. Achávamos que era assim que se casava. Até que alguém nos falou que estava errado e mostrou que o jeito certo seria com os braços entrelaçados. Eu não podia acreditar. Era muito chato da maneira certa. Fabiana também achava. Então continuamos a nos casar andando de um lado para o outro, em posição de valsa, com os rostos colados.

Acho que eu era bem feliz nessa época. Eu só pensava nela. Até que chegaram as férias de meio de ano. Eu e Fabiana não tínhamos ideia do que isso significava. Víamos um ao outro todos os dias na escola e era isso o que importava.  Nunca trocamos telefones, nada disso. De repente, ficamos um mês inteiro sem nos ver. Minha vidinha virou um inferno. Eu chorava sem parar. Meu pai, tentando ajudar, vinha com o catálogo telefônico na mão.

Qual é o nome dela? Fabiana. Fabiana do quê? Só Fabiana. Humm, deixa eu ver, será que é esse número aqui? – e meu pai apontava para um número qualquer numa página qualquer do catálogo.

Eu ligava aliviado, crente que o problema estava resolvido. Faltavam dois toques do telefone para eu enfim falar com Fabiana. Que nada. O número estava sempre errado. E eu tentava outro e mais outro, sempre com a mesma  expectativa. Meu pai não fez isso para me sacanear, tenho certeza, apesar de ser uma puta sacanagem. Ele fez isso para me entreter. E para me fazer parar de encher o saco.

Passou-se o mês todo e eu reencontrei Fabiana em agosto, na escola. Nosso romance voltou com força total. Eu peguei  o telefone dela para nunca mais passar por aquilo. Agora estava tudo bem, ufa. Voltamos a nos casar, andando de um lado para o outro, em posição de valsa, com os rostos colados.

Até que um dia, na piscina da escola, Fabiana chegou toda decidida. Ei, não quero mais namorar com você. Você é ruivo! Eu não gosto de ruivos. Meu cabelo na época, de tão claro, ficava mesmo meio avermelhado quando molhado.

E então, com os olhos ardendo pelo cloro, com um nó na garganta e os ombros encolhidos, ali dentro da piscina, eu tentei com toda a sinceridade do mundo (faltava-me na época o sarcasmo e a ironia) salvar o meu relacionamento. Eu não sou ruivo, eu juuuuuro! Mas não tinha jeito. Ela não queria e pronto. Fabiana ainda me confirmou essa decisão mais tarde, por telefone, na primeira (e última) ligação que eu fiz para ela na vida. Disse que até já tinha outro  namorado. Aos 5 anos de idade eu levei a primeira punhalada de uma mulher. Cacete, como doeu.


O mundo de Gerson

Frequentemente alguma amiga vem reclamar sobre a relação do namorado com a pornografia

Por Liliane Prata
Ilustração: Bruno Borges

Elas tremem quando acham no computador do cara os tais “vídeos educativos”, para citar uma expressão clássica. Ou fotos, seja no PC ou no – ai, ai – banheiro. O ápice do susto feminino é quando alguma descobre que o amado, aquele homem que sabe tudo sobre mitologia grega e vinhos, já frequentou, hã, casas de moças de família. “Só para ver como era”, ele esclareceu.

Separo minhas amigas entre as que cresceram com irmãos do sexo masculino e as que ficaram entre mulheres. Mas não basta ter o irmão: precisa ter conversado muito com ele, o que inclui não ter sido poupada de alguns detalhes sórdidos. Faço parte desse grupo: cresci ouvindo meu irmão contando (com menos sutileza do que eu gostaria) os bastidores dos amantes de mitologia grega e vinhos. E acabo sendo a primeira a botar panos quentes quando uma amiga vem com a crise do “não pensei que ele fosse assim”.

Bem, ele é assim. Existe uma pequena chance de que ele não seja – assim como há quem não goste de batata frita. Mas quase todo homem curte pornografia e por isso nós, mulheres, temos que lidar com essa questão. Mesmo tendo irmão, já fiquei triste com um namorado que colecionava vídeos/fotos/canetas esferográficas com mulher pelada. Eu era mais nova e achava aquilo um saco. Tentei conversar, o que foi inútil – em discussão sobre mulher pelada, não cabe mesmo muita metafísica. Chegou uma hora que não deu mais.

Depois disso, fiquei pensando: por que tantas mulheres se chateiam com a pornografia? Não é só questão de se incomodar com o exagero. Acho que ou você aceita mais ou menos bem ou não: como entender cinco fotos e não sete, dois vídeos por semana e não cinco?

Às vezes, o problema pode ser este: ela se sentir trocada na hora do sexo. Uma amiga namorava um cara meigo, família, sossegado demais, para usarmos termos elegantes. Mas ele tinha toda uma libido paralela. Como o Gerson da novela, que, com aquele cabelinho de lado e cara de que passou lavanda, mantém um submundo mais roots por trás.

Ela terminou e dei meu total apoio. Ninguém quer conviver com a versão descafeinada de um homem.

Assim, sempre sugiro a uma amiga incomodada que pense se o buraco não é mais embaixo. Se, inclusive, ela está feliz na cama – e muito. Se é desejada. Se a gente é uma deusa para o cara, o silicone alheio não incomoda.

Se incomodar… Bom, aí pode ser resultado da crença de que o namorado dela é esse ser sensível que só quer saber de vinho e mitologia grega. Se você vende essa imagem para a menina, meu conselho é parar de varrer a pornografia para debaixo do tapete. Para aceitar seu passatempo numa boa, ela pode precisar de algum tempo de intimidade com essa realidade. Principalmente se ela não teve irmãos.

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Liliane Prata é jornalista e autora do blog lilianeprata.com.br/blog


Apresentando o iPhone 5

O celular da Apple é um fenômeno de vendas desde seu lançamento, há três anos. Nos últimos meses, o modelo da quarta geração esgotou em vários países (entre eles, Brasil e Japão). Agora Steve Jobs deve queimar alguns neurônios para criar novas funcionalidades para o iPhone 5*. Abaixo, algumas sugestões de aplicativos.

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