Estado civil
Depois de aprovar a união entre pessoas do mesmo sexo, o México deu mais um passo na tentativa de modernizar uma das mais antigas criações da humanidade: o casamento. Façamos disso uma bandeira
Por Renato Krausz
Ilustração Viti
O Congresso do México está discutindo a criação de uma lei para estabelecer o casamento renovável, que prevê contratos temporários de matrimônio, prorrogáveis a cada dois anos. A ideia é reduzir o número de divórcios e facilitar os procedimentos administrativos no caso de o romance acabar.
Dois anos seriam um tempo suficiente para o casal perceber se um tem a ver com o outro ou não. O negócio vai bem? Está todo mundo satisfeito? Assina por mais dois anos.
A proposta – que parece ter sido retirada de Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman – é boa. Tão boa que resolvemos dar aos congressistas de lá e do resto do mundo algumas outras opções que podem lançar um sopro de modernidade a essa arcaica instituição criada para unir pessoas, mas que muitas vezes acaba fazendo justamente o oposto.
Casamento rotativo: semelhante ao que ocorre na proposta mexicana, a cada dois anos o casal decide se continua junto ou se… troca de cônjuge. Parágrafo único: a chance de destrocar existe, mas todo mundo tem que querer.
Half marriage: o grande ensaísta americano H.L. Mencken (1880-1956) escreveu que só existem dois tipos de pessoas realmente felizes: “As mulheres casadas e os homens solteiros”. Que tal criar um tipo de casamento em que o casal se sinta exatamente assim, ela casada e ele solteiro?
Casamento com Index Tellus Prohibitorum: o uso do latim é só para ficar mais pomposo. Na hora de assinar a união no cartório, cada cônjuge entrega também uma lista de três procedimentos proibidos. Se você for se casar pela primeira vez e não souber o que escrever, anote estas dicas: 1) querer discutir a relação; 2) dizer que está com dor de cabeça; e 3) um dia achar um saco o que hoje acha legal.
Casamento pós-sartriano: a grande sacada de Sartre foi, em outras palavras, dizer que quanto mais você amarra uma pessoa, mais distante fica dela. Cada certidão de casamento emitida a partir da promulgação desta lei traria a inscrição: “No exercício da minha liberdade, eu me prendo a você”. E caberia ao juiz de paz ou ao padre sempre reforçar: “Ou seja, meus jovens, não encheis o saco mutuamente, porque isso afastar-vos-á um do outro”.
Casamento analógico: em vez de enviar um SMS, escreva um bilhete de próprio punho para sua mulher. Fica vetado ao casal usar o celular, as redes sociais, o e-mail, o MSN e qualquer outro meio surgido nos últimos 20 anos para se comunicar entre si – e consequentemente para vigiar um ao outro. Vai viajar a trabalho? Mande uma carta para ela. Ou então um cartão-postal.
Casamento com separação parcial de almas e comunhão total de corpos: esse é o ideal. Primeira emenda: a poligamia torna-se obrigatória e revogam-se as disposições em contrário.


Aos 10 anos, eu acreditava que a idade adulta começava aos 20. Aos 20, achei que ainda não havia chegado lá e decretei que adultos eram só os com mais de 30. (Convenhamos, apenas seis primaveras depois da oitava série, você é, no máximo, um pós-adolescente: provavelmente ainda mora com os pais, deixa a toalha molhada em cima da cama e siglas como IPTU ou FGTS fazem muito menos sentido do que MILF ou THC.) Ao completar a terceira década de vida, contudo, não tive como protelar: alguns fios brancos no queixo, projetos de rugas nos cantos dos olhos e entradas moderadas avançando pelo couro – já não tão – cabeludo me atestavam, no espelho: eis aí um espécime maduro, acabado e plenamente desenvolvido de homo sapiens. E sabe o quê? Fiquei bastante contente com a descoberta.
Só tive o que comemorar, portanto, quando terminaram essas duas fases de tutela e me vi finalmente livre. Aos 30, você escolhe bola, campo e o time em que quer jogar. Tá bom, pode reclamar que sua bola não é uma Jabulani, que o gramado está mais para uma várzea do Tamanduateí do que para o tapete do Camp Nou, que no seu time só tem perna de pau. Mas uma das vantagens da idade adulta é que, ao contrário da infância e da adolescência, que passam num piscar de olhos – ou num xixizinho e numa ejaculação precoce, para nos atermos a imagens mais condizentes com o assunto –, a maturidade dura quatro décadas; é tempo suficiente para você se acostumar consigo mesmo ou para mudar a situação. E talvez seja essa a maior lição da maturidade: saber discernir entre as coisas que você pode e precisa lutar para mudar e aquelas que deve simplesmente aceitar. Na infância ou na adolescência, ser ruim nos esportes era algo que me atormentava. “Por que, ó, Deus, fizeste-me o último a ser escolhido em todos os times, na educação física?”, eu perguntaria ao Senhor, se Nele acreditasse e decidisse importuná-lo com meus resmungos. Hoje, isso é apenas um dado, quase indiferente, como ter cabelo castanho ou ser canhoto.









