Autor

Substantivo Masculino

por Tiago Lopes

O blog de literatura da VIP. Porque nem só de orgias, bebedeiras e jogatinas vive um homem.



Da revista: dezembro*

Keith, o indestrutível
O stone gente boa abre o arquivo de drogas e outros abusos

Aos 66 anos e ainda na ativa, Keith Richards é o ser humano mais cotado para sobreviver ao apocalipse, junto com as baratas. Com quase meio século de Rolling Stones cravado nos calos que carrega nos dedos, o guitarrista acumula histórias do nascimento do rock e, em especial, da banda que influenciou gerações. Em seu novo livro de memórias, Vida (Globo Livros, 672 páginas, R$ 49,90), Keith repassa suas lembranças – aquelas que sobreviveram às drogas – sobre momentos públicos ou pouco conhecidos dos Rolling Stones, como a turnê de 1972 apelidada de Alvorecer de Cocaína e Tequila e o tempo em que os ingleses da banda ficaram hospedados na mansão Playboy. Excelente livro para quem curte os bastidores imundos do rock. Confira um trecho:

“Eu atribuo minha sobrevivência não apenas à máxima qualidade das drogas que eu tomava. Eu era muito meticuloso em relação à quantidade. Eu nunca usaria um pouco mais para ficar mais chapado. É aí que a maioria das pessoas se f*de com as drogas. A ganância nunca me afetou.”

***

Inspire-se no maior ator anti-hollywoodiano
Biografia de Paul Newman revela um homem avesso à badalação do cinema e bem-sucedido em tudo

Paul Newman: Uma Vida (Agir, 496 páginas, R$ 59,90), nova biografia do crítico Shawn Levy, mostra as facetas do homem que se deu bem no cinema, no automobilismo e até mesmo na indústria alimentícia. E que, de quebra, foi um grande filantropo. Veja três “gols” de Paul Newman que você não encontra nas locadoras:

  1. Apesar do sucesso no cinema, em filmes como Rebeldia Indomável, Butch Cassidy e A Cor do Dinheiro, Paul Newman ganhou mais dinheiro com sua empresa alimentícia. Mas todo o lucro da Newman’s Own era revertido à caridade. Estima-se que, em 25 anos de filantropia, Paul tenha doado quase meio bilhão de dólares a instituições criadas por ele, como colônias de férias para crianças com câncer.
  2. Galã de Hollywood, poderia aproveitar o farto mundo de sexo, drogas e rock’n’roll característico dos bastidores da indústria cinematográfica. Contudo, Newman preferiu se manter afastado dos holofotes e da badalação e foi morar no outro lado dos EUA, em Connecticut, onde viveu por meio século ao lado de Joanne Woodward, sua segunda mulher.
  3. Newman tinha mais de 40 anos quando decidiu levar o automobilismo a sério. Participou de provas como 24 Horas de Le Mans e 24 Horas de Daytona. Apesar da idade e do problema de daltonismo, conquistou quatro títulos nacionais e duas vitórias como piloto profissional, além de outros oito títulos nacionais e quase 200 vitórias à frente de sua equipe, a Newman-haas Racing.

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Outros lançamentos

Nada me Faltará
Lourenço Mutarelli | Companhia das Letras
136 páginas | R$ 37

Só com diálogos, sem descrições, Lourenço Mutarelli mantém o tempo suspenso em todas as páginas de Nada me Faltará. Após um ano sumido, Paulo reaparece. Mas, para ele, nada aconteceu – o tempo não passou. Ele não tem vontade de trabalhar, de sair, nem saudade da mulher e da filha, também desaparecidas. A suspeita: teria ele dado fim à família? Livro de narrativa ligeira e suspense de primeira com boa dose de loucura.

Snuff
ChuCk Palahniuk | Rocco
208 páginas | R$ 32
Eis um convite para a gravação de um filme pornô histórico: uma conceituada atriz quer bater o recorde de 600 parceiros. Chuck Palahniuk leva o leitor aos bastidores da produção, a conversas com outros parceiros – como o número 137, ex-apresentador de TV, e o 72, jovem que guarda boas memórias de ver a atriz em cena – e a descrições pormenorizadas das atividades sexuais. Bem sacana… digo, bacana.

* Antes tarde do que nunca, não é?


Getúlio Vargas, esses muitos homens

Lira Neto

Lira Neto: não às existências em linha reta

Getúlio Vargas não é uma figura fácil de ser descrita. Para uns, foi o “pai dos pobres” devido à atenção dedicada aos trabalhadores — foi ele quem criou o salário mínimo e a carteira profissional, por exemplo; para outros, foi um ditador egocêntrico, alguém que perseguiu opositores e que abusou do populismo para cair nas graças da nação. Talvez pelo trabalho desumano de desconstruir sua pessoa sem paixão — apesar de algumas tentativas –, Getúlio apenas teve biógrafos que pendiam para o bem e para o mal. Deixou a vida para entrar para a História, e a História pode enganar.

O jornalista cearense Lira Neto tomou para si tal fardo e se propôs a fazer uma biografia de Getúlio, esses muitos homens. Tão logo deixou os originais de Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão na editora, passou a trabalhar na obra da vida do político gaúcho. Desde agosto de 2009 tem se debruçado a traduzir no papel aquele que foi um dos mais controversos políticos brasileiros. Esta será a sexta biografia de Lira Neto — O Poder e a Peste: A Vida de Rodolfo Teófilo (1999), Castello: A Marcha para a Ditadura (2004), O Inimigo do Rei: uma biografia de José de Alencar (2006), Maysa: Só Numa Multidão de Amores (2007) e Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão (2009). A previsão é que a obra, ainda sem data para ser lançada, seja densa como nenhuma outra do jornalista: deve ter três volumes de aproximadamente 500 páginas cada. Eu bati um papo com Lira Neto para saber mais da obra e do político.

Por que biografar Getúlio Vargas?
Getúlio é, sem dúvida, o principal personagem da história republicana brasileira. Já se escreveram centenas de livros sobre ele. Mas faltava uma biografia moderna, jornalística, a seu respeito. A ideia é justamente tentar suprir esta lacuna.

Quais aspectos da vida de Getúlio o senhor acredita que terão mais destaque na biografia, segundo a sua pesquisa até o momento?
Em se tratando de Getúlio, é difícil se falar de um período específico de sua trajetória. Pretendo ser o mais abrangente possível. Por isso mesmo, a ideia inicial é a de que deverá ser uma trilogia – e não um único volume. Interessa-me mostrar como Getúlio transformou o Brasil e como ele próprio foi sendo transformado pelas circunstâncias históricas que acabou produzindo ao longo de sua ação política. Como se trata de uma biografia, procurarei estabelecer relações entre a trajetória pública e a vida privada do personagem, em busca das explicações e das inevitáveis contradições que essas duas esferas da existência possam conter.

Em que fase o senhor está na concepção da biografia e o que acredita que será mais trabalhoso?
Sou essencialmente um repórter e, como tal, considero que o mais trabalhoso — e também o mais instigante — é o trabalho de apuração e pesquisa. Estou trabalhando na biografia de Getúlio há apenas um ano. Nesse meio tempo, concentrei-me na, digamos, “pré-história” do biografado, ou seja, no Getúlio anterior à chegada à presidência da República. É um período fascinante, este, o do Rio Grande do Sul à época da República Velha. Em tal trecho da história, há assassinatos, guerras, traições e intrigas políticas a perder de vista.

Getúlio, Padre Cícero, José de Alencar, Maysa. Como o senhor decide quem biografar? Que elementos o personagem deve ter?
Escolho meu biografados pelo potencial de contradições e controvérsias que eles encarnam. Não biografaria existências em linha reta. Gosto de personagens dúbios, enigmáticos, controvertidos, que foram amados e odiados na mesma medida. No fundo, a despeito das dessemelhanças entre meus biografados, tenho me dedicado a biografar uma única “pessoa”, desde sempre: o poder. É ele o meu alvo de investigação predileto.

Getúlio ainda é um político muito presente na vida pública. Tanto que muitos políticos contemporâneos se comparam a ele. A que se deve isso?
Getúlio soube construir uma imagem pública poderosa, com base em seu inegável magnetismo pessoal e numa eficiente máquina de propaganda política. Tenho obrigação de mostrar como isso se deu e, em que medida, isso se entranhou na sociedade brasileira.

Como o senhor se define politicamente?
Nunca me filiei a nenhum partido político. Não pertenço a nenhuma igreja ou religião. Nem escola de samba eu tenho. No futebol, aqui em São Paulo, nenhum time me mobiliza. Sou um descrente profissional.

FHC disse, antes de receber a faixa presidencial em 1994, que o legado da Era Vargas atravancava o presente do Brasil. Mais de 15 anos se passaram — oito de governo Lula — e agora vivemos a gestão da primeira mulher na Presidência, Dilma Rousseff. A Era Vargas acabou?
Por várias vezes, a chamada Era Vargas recebeu seu atestado de óbito. Mas, para o bem e para o mal, continua mais viva do que nunca.

Há previsão de quando a obra será publicada?
O que vai determinar isso é o ritmo da pesquisa e, posteriormente, da fase de escrita. Serão, no mínimo, cinco anos de trabalho, em regime de dedicação exclusiva. Parece muito. Mas, em se tratando de Getúlio, é bem pouco. Só um obsessivo como eu toparia tal desafio.


Retrospectiva: janeiro

Caso indeferido de plágio e anúncios de novos livros. Bíblia e Corão. Reabertura de uma grande biblioteca e recorde na venda de e-books. Um escritor brasileiro vetado e outro acometido de um AVC… Janeiro foi um mês de altos e baixos. Veja alguns destaques nesta retrospectiva.

Dia 7: Justiça norte-americana dá ganho de causa a J. K. Rowling, autora da série Harry Potter, em caso de plágio. De acordo com a acusação, J. K. Rowling teria reproduzido trechos de The Adventures of Willy the Wizard — No 1 Livid Land, escrito em 1987 por Adrian Jacobs, hoje falecido, no quarto título da série do bruxinho supimpa, Harry Potter e o Cálice de Fogo.

Dia 9: Apesar de ter se declarado católica durante a campanha presidencial de 2010, a agora presidente (com ‘e’ mesmo) Dilma Rouseff retira crucifixo e Bíblia de seu gabinete. Em nota, a Secretaria de Comunicação Social explicou que o crucifixo pertencia ao ex-presidente Lula e que a Bíblia está em uma sala contígua ao gabinete.

Dia 10: Por meio de seu blog, Paulo Coelho afirma que o Irã está vetando suas obras no país. O post contém um e-mail de Arash Hejazi, editor de Paulo Coelho no Irã, que diz (e eu não traduzi porque são 23h54 de um domingo e eu estou com sono):

(…) unfortunately I was informed today that the Ministry of Culture and ‘Islamic Guidance’ in Iran has banned all of your books, even the unauthorized versions published by other publishers. My friends have been told that no book that has Paulo Coelho’s name on it will be authorized to be published in Iran any more.

Dia 13: A embaixada do Irã no Brasil nega que o país tenha proibido os livros de Paulo Coelho.

Dia 13: Eva Gabrielsson, viúva de Stieg Larsson, diz estar pronta para concluir o quarto título de Millennium, série de livros policiais que já vendeu mais de 45 milhões de exemplares em todo o mundo. Antes de ter um ataque do coração fatal em 2004, Stieg Larsson deixou escritas as 200 páginas iniciais da sequência de Os Homens que Não Amavam as Mulheres, A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar. Desde a morte do autor, Eva Gabrielsson — com quem Stieg Larsson viveu por 32 anos, apesar de nunca ter oficialmente se casado — tem disputado com a família do escritor o direito sobre as obras na justiça sueca.

Dia 16: Aos 73 anos, Moacyr Scliar, autor de Manual da Paixão Solitária, premiado com o Jabuti na categoria Melhor Livro de Ficção em 2009, sofre um acidente cerebral isquêmico (AVC). Ele estava internado desde o dia 11 de janeiro devido a uma cirurgia de retirada de tumores benignos no intestino.

Dia 18: Anthony Horowitz, autor das histórias do espião adolescente Alex Rider, é escolhido pelos herdeiros de Arthur Conan Doyle para dar sequência à saga de Sherlock Holmes. O romance, ainda sem nome, deve sair no mercado internacional em setembro deste ano. É a primeira vez que os herdeiros do sir dão aval para um romance protagonizado por Sherlock Holmes desde a publicação do último título, em 1915.

Dia 19: Reino Unido nega visto a Terry Jones, pastor norte-americano que, em 2010, ameaçou queimar o Corão. O motivo, segundo autoridades locais, são as opiniões radicais de Terry em relação ao islamismo e seu livro sagrado. O líder do Dove World Outreach Center e autor da obra Islam is the Devil (“Islã é do demônio”, em tradução livre) havia anunciado, em setembro último, o desejo de criar o Dia Internacional da Queima do Corão — 11 de setembro, mesmo dia dos  atentados terroristas de 2001, nos EUA.

Dia 20: A revista Crain’s New York Business informa que o cantor e compositor Bob Dylan assinou contrato com a editora Simon & Schuster para a publicação de seis novos títulos. Dois livros seriam sequências de Crônicas: Volume 1, publicado em 2004; um terceiro seria baseado no programa de rádio de Dylan, da cadeia Sirium XM; os demais não tiveram seus temas revelados. Não há previsão para a publicação das obras.

Dia 25: Depois de passar por um longo período de reformas, modernização e restauração de suas obras, a Biblioteca Mário de Andrade — a maior de São Paulo, com 327 mil títulos — é reaberta ao público. A reforma custou R$ 16,3 milhões e teve financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Outros R$ 500,9 mil foram investidos na revitalização da praça Dom José Gaspar, local onde há estátuas de escritores como Dante e do próprio Mário de Andrade.

Dia 27: A Amazon anuncia que a venda de livros digitais superou o comércio de obras impressas em formato brochura em 2010. Para cada 100 livros do formato vendidos no ano passado, 115 foram comercializados para Kindle. Há seis meses, a loja virtual havia anunciado que o número de e-books vendidos no site já era superior ao de livros de capa dura. Nesta categoria, a proporção é de três títulos no formato digital para cada capa dura.


Livros riscados

Para o jornalista Kleyson Barbosa, ler livros não basta. É preciso dialogar com eles. Trocar sensações com seus autores por meio das palavras impressas no papel. Os melhores trechos ganham de Kleyson um grifo que eterniza o sentimento experimentado ao lê-los. Para compartilhar essa mania de sublinhar o que mais gosta nas obras, o jornalista criou o Grifei num Livro, blog com trechos marcados por ele e pelos leitores. Shakespeare, Caio Fernando Abreu, Jorge Amado, Italo Calvino… Vale tudo, desde que seja bom. A coleção aumenta a cada dia. Falei com Kleyson para saber mais sobre o projeto.

Você não tem dó de grifar seus livros?
Não, nenhuma. Na verdade, eu adoro livro marcado, grifado, sublinhado. Desde pequeno acho bacana você “sentir” que alguém se emocionou ao ler aquela parte. Tem um casal de amigos meus — que não são mais um casal hoje — que um dia, falando sobre grifar, contaram que se apaixonaram porque viram o que o outro tinha escrito no livro. Foram vendo afinidades e tal. Eu sei lá por que, desde pequeno, fico impressionado com isso. Antes, eu tinha dó, confesso. Só marcava as páginas. Mas depois eu comecei a grifar e aí foi.

De onde surgiu a ideia de fazer um tumblr de livros grifados? Desse casal de amigos?
Não, nem foi. Eu sempre quis ter um tumblr. E eu adoro projetos, sabe? Meus amigos brincam que eu penso num blog a cada dia. Só que se eu tenho ideias mil de projetos, eu tenho tempo zero pra eles. Um dia uma amiga me pediu um trecho de uma peça — ah, eu coleciono trechos de peças de teatro — e ela postou no tumblr dela. Eu achei lindo e falei “por que não faço um tumblr com grifos dos livros?”. A ideia é simples: eu já grifo mesmo; é só fotografar. Daí criei o tumblr — que não é só um tumblr viu? É um projeto todo: tem instagram também.

Você usa tumblr e instagram, que são o que há de mais “tendência” hoje. Ao mesmo tempo, os trechos grifados são de livros antigos — Clarice, Drummond, até Shakespeare. Literatura feita há mais tempo é mais “grifável”? Apetecem mais aos olhos do que a literatura do século XXI?
Não, nem é. É que vem mais por aí. Hoje mesmo era pra eu ter postado José Paulo Paes — que nem é old, vá. Tem Kurt Vonnegut na espreita. Tem Nick Hornby. Foi só porque os livros mais clássicos estavam coincidentemente na minha estante primeiro. Por ora, tem frases clássicas de Clarice e Shakespeare que eu sei de cor. Tenho um carinho todo pelos dois. Caio Fernando Abreu também. Fiz um “Caio Fernando Day”, viu lá? Só trechos dele no dia.

Para você, o que um trecho ou uma sentença deve ter para ser grifada? Há critérios?
Sim. Que toquem. E “é só isso”, como diz a música do João Gilberto [Bim Bom]. Sou um moço romantico. Daí, se tocou eu grifo, seja pela boa sacada, pela boa piada, pela capacidade de expressar algo especial.

Qual é o seu escritor mais grifado?
Cortázar, acho. E Caio Fernando. Não sei isso de cor mesmo, não é algo que fico noiado procurando. É de coração a coisa, sabe?

O tumblr é colaborativo, né? Galera pode mandar seus grifos…
Claro! Mandem, por favor: grifeinumlivro@gmail.com. Ficarei feliz em receber colaborações. Sabe que rolou algo bacana: muita gente já veio me falar que também grifa livro. Amei os comentários.


Crua e bela

A bela Pola: literatura crua e filosofia cozida. {Foto de Axel Chaulet}

Depois de ter anunciado sua vinda à Feira Literária Internacional de Paraty, em julho de 2011,  a argentina Pola Oloixaraca está cotada para o título de musa da Flip. Mas ela não é só um rostinho bonito, não: em 2010, quanto contava 33 anos, Pola foi um dos 22 nomes eleitos pela revistra Granta como “os melhores jovens escritores de língua espanhola”. Sua obra de estreia, Las Teorías Salvajes, é considerado por alguns críticos como um clássico em espanhol do século 21.

Talvez seja, de fato. A obra é um tratado filosófico do microuniverso das vidas de Kamtchowski, Pabst e todos nós. O pano de fundo é o mundo atual e sua grosseria, misto de eventos bestas — como a paixão por MMORPG — e crueis — por exemplo, Kamtchowski vai parar na internet, em sex tape com garotos com Síndrome de Down. Pola é assim: crua. Crua e bela.

Em tempo: Pola já deu as caras na revista ALFA, nossa irmã. Leia aqui seu texto sobre tecnologia e o momento em que inteligências artificiais poderão substituir os humanos em tomadas de decisão.


Saudoso NP

Por quase um mês, o bebê-diabo esteve na primeira página do NP.

Por quase um mês, o bebê-diabo esteve na primeira página do NP.

Tudo andava muito calmo no Notícias Populares em 10 de maio de 1975. Calmo demais. Nada parecia matar a fome de notícias esdrúxulas da equipe. Para preencher os espaços em branco, a redação do NP passou a vasculhar as matérias rejeitadas recentemente. Encontraram uma sobre uma criança que havia nascido com deformidades físicas em São Bernardo dos Campos, no ABC paulista. O bebê havia nascido com uma protuberância no cóccix e duas na testa. Nada muito importante: na própria maternidade os médicos realizaram pequenas cirurgias e corrigiram as saliências. A matéria não chegou a ser publicada, mas deu origem a um dos casos mais bizarros do jornalismo brasileiro: o bebê-diabo. No dia seguinte, a primeira página do NP trazia a manchete “Nasceu o diabo em São Paulo”. Eis o começo do texto:

Durante um parto incrivelmente fantástico e cheio de mistérios, correria e pânico por parte de enfermeiros e médicos, uma senhora deu a luz num hospital de São Bernardo do Campo, a uma estranha criatura, com aparência sobrenaturais, que tem todas as características do Diabo, em carne e osso. O bebêzinho, que já nasceu falando e ameaçou sua mãe de morte, tem o corpo totalmente cheio de pelos, dois chifres pontiagudos na cabeça e um rabo de aproximadamente cinco centimetros, além do olhar feroz, que causa medo e arrepios. Parece que tudo começou na Semana Santa, quando o marido da mulher, que é muito religioso, convidou-a para ir à igreja, ver a procissão. A mulher grávida, bateu com as mãos na barriga e respondeu indignada:

– Não vou, enquanto este diabo aqui não nascer.

E foi o que realmente aconteceu. A mulher acabou tendo como filho um monstrinho horripilante, peludo, que ao falar, mais parece que está mugindo.

(…)

Entre crônicas inventadas e notícias que atendiam às necessidades de classes menos favorecidas, o Notícias Populares fez história no Brasil. Uma história interessante e cheia de humor que foi contada no livro Nada Mais que a Verdade (Summus Editorial, 256 páginas, R$ 63,90), publicado em 2001 e que chega agora em versão revista e ampliada.

A obra, de autoria de Celso de Campos Jr., Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Maik Rene Lima, faz o percurso cronológico deste que foi um dos mais populares diários sensacionalistas do Brasil, nascido em 1963 e que deixou de existir há 10 anos. Entre acertos e erros, o NP fez escola entre os jornalistas e sua história merece esse registro.

Para ler um trecho do livro, clique aqui.

(Post dedicado aos colegas de redação Marcos Nogueira, Marcelo Orozco, Claudia Lima e Renato Krausz, jornalistas old school do bom NP.)


Gol de letras

Edney Silvestre talvez seja um bom lateral esquerdo. Bernardo Carvalho tem cara de quem faz suas firulas no meio-campo. Michel Laub pode até ser um cabeceador primoroso. Joca Reiners Terron deve ficar plantado na banheira. Todos esses craques das letras e outros nomes igualmente campeões estão na edição 2010/2011 da Copa de Literatura Brasileira (CLB), ideia que Lucas Murtinho nacionalizou a partir do Tournament of Books, do site The Morning News.

Ao contrário do Brasileirão, a CLB não funciona por pontos corridos. As 16 obras brasileiras escolhidas para a competição se enfrentam em oito jogos mata-mata. Os oito melhores seguem para as quartas-de-final, os quatro vencedores para a semifinal e, então, os dois invictos se enfrentam na finalíssima — sem a narração de Galvão Bueno. Quem decide o vencedor de cada jogo é um jurado previamente escolhido. Nesta Copa, o árbitro elege quem segue adiante e quem cai (como em alguns campeonatos de futebol ao redor do mundo). O vitorioso na final da peleja literária não ganha prêmio algum, exceto o título — o que, convenhamos, já é grande coisa se pensarmos que o campeão derrotou nomes de peso da literatura brasileira.

Em 2007, o campeão foi Luiz Antonio de Assis Brasil com o seu Música Perdida; na edição seguinte, Cristovão Tezza conquistou o título com O Filho Eterno; na Copa de 2009, Carola Saavedra levantou o caneco com Flores Azuis. Nesta edição, para quem você vai torcer? Confira os participantes, escolha um e vista a camisa do seu… livro.

Oitavas de final

JOGO 1

Como desaparecer completamente,
de Andre de Leones (Rocco, 2010)
x
Olhos secos,
de Bernardo Ajzenberg (Rocco, 2009)

Jurado: Marcos Vinícius

JOGO 2

O filho da mãe,
de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras, 2009)
x
Se eu fechar os olhos agora,
de Edney Silvestre (Record, 2009)

Jurado: Fabio S. Cardoso

JOGO 3

Azul-corvo,
de Adriana Lisboa (Rocco, 2010)
x
Hotel novo mundo,
de Ivana Arruda Leite (Editora 34, 2009)

Jurado: Mauricio Raposo

JOGO 4

Do fundo do poço se vê a lua,
de Joca Reiners Terron (Companhia das Letras, 2010)
x
Os malaquias,
de Andrea Del Fuego (Língua Geral, 2010)

Jurado: Eric Novello

JOGO 5

Uma leve simetria,
de Rafael Bán Jacobsen (Não Editora, 2009)
x
Algum lugar,
de Paloma Vidal (7Letras, 2009)

Jurado: Vinicius Castro

JOGO 6

Outra vida,
de Rodrigo Lacerda (Alfaguara, 2009)

x
O gato diz adeus,
de Michel Laub (Companhia das Letras, 2009)

Jurada: Tamara Sender

JOGO 7

Sinuca embaixo d’água,
de Carol Bensimon (Companhia das Letras, 2009)

x
Elza, a garota,
de Sérgio Rodrigues (Objetiva, 2009)

Jurado: Lucas Murtinho

JOGO 8

Nada a dizer,
de Elvira Vigna (Companhia das Letras, 2010)
x

O livro dos mandarins,
de Ricardo Lísias (Alfaguara, 2009)

Jurado: Kelvin Falcão

Quartas de final

JOGO 9

Vencedor do jogo 1 x Vencedor do jogo 2

Jurado: Bernardo Brayner

JOGO 10

Vencedor do jogo 3 x Vencedor do jogo 4

Jurado: Antônio Xerxenesky

JOGO 11

Vencedor do jogo 5 x Vencedor do jogo 6

Jurado: Leandro Oliveira

JOGO 12

Vencedor do jogo 7 x Vencedor do jogo 8

Jurada: Simone Campos

Semifinais

JOGO 13

Vencedor do jogo 9 x Vencedor do jogo 10

Jurado: Carlos André Moreira

JOGO 14

Vencedor do jogo 11 x Vencedor do jogo 12

Jurado: Dr. Plausível

Final

JOGO 15

Vencedor do jogo 13 x Vencedor do jogo 14

Jurados: Todos + Fernando de Freitas Leitão Torres