Getúlio Vargas, esses muitos homens

Lira Neto: não às existências em linha reta
Getúlio Vargas não é uma figura fácil de ser descrita. Para uns, foi o “pai dos pobres” devido à atenção dedicada aos trabalhadores — foi ele quem criou o salário mínimo e a carteira profissional, por exemplo; para outros, foi um ditador egocêntrico, alguém que perseguiu opositores e que abusou do populismo para cair nas graças da nação. Talvez pelo trabalho desumano de desconstruir sua pessoa sem paixão — apesar de algumas tentativas –, Getúlio apenas teve biógrafos que pendiam para o bem e para o mal. Deixou a vida para entrar para a História, e a História pode enganar.
O jornalista cearense Lira Neto tomou para si tal fardo e se propôs a fazer uma biografia de Getúlio, esses muitos homens. Tão logo deixou os originais de Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão na editora, passou a trabalhar na obra da vida do político gaúcho. Desde agosto de 2009 tem se debruçado a traduzir no papel aquele que foi um dos mais controversos políticos brasileiros. Esta será a sexta biografia de Lira Neto — O Poder e a Peste: A Vida de Rodolfo Teófilo (1999), Castello: A Marcha para a Ditadura (2004), O Inimigo do Rei: uma biografia de José de Alencar (2006), Maysa: Só Numa Multidão de Amores (2007) e Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão (2009). A previsão é que a obra, ainda sem data para ser lançada, seja densa como nenhuma outra do jornalista: deve ter três volumes de aproximadamente 500 páginas cada. Eu bati um papo com Lira Neto para saber mais da obra e do político.
Por que biografar Getúlio Vargas?
Getúlio é, sem dúvida, o principal personagem da história republicana brasileira. Já se escreveram centenas de livros sobre ele. Mas faltava uma biografia moderna, jornalística, a seu respeito. A ideia é justamente tentar suprir esta lacuna.
Quais aspectos da vida de Getúlio o senhor acredita que terão mais destaque na biografia, segundo a sua pesquisa até o momento?
Em se tratando de Getúlio, é difícil se falar de um período específico de sua trajetória. Pretendo ser o mais abrangente possível. Por isso mesmo, a ideia inicial é a de que deverá ser uma trilogia – e não um único volume. Interessa-me mostrar como Getúlio transformou o Brasil e como ele próprio foi sendo transformado pelas circunstâncias históricas que acabou produzindo ao longo de sua ação política. Como se trata de uma biografia, procurarei estabelecer relações entre a trajetória pública e a vida privada do personagem, em busca das explicações e das inevitáveis contradições que essas duas esferas da existência possam conter.
Em que fase o senhor está na concepção da biografia e o que acredita que será mais trabalhoso?
Sou essencialmente um repórter e, como tal, considero que o mais trabalhoso — e também o mais instigante — é o trabalho de apuração e pesquisa. Estou trabalhando na biografia de Getúlio há apenas um ano. Nesse meio tempo, concentrei-me na, digamos, “pré-história” do biografado, ou seja, no Getúlio anterior à chegada à presidência da República. É um período fascinante, este, o do Rio Grande do Sul à época da República Velha. Em tal trecho da história, há assassinatos, guerras, traições e intrigas políticas a perder de vista.
Getúlio, Padre Cícero, José de Alencar, Maysa. Como o senhor decide quem biografar? Que elementos o personagem deve ter?
Escolho meu biografados pelo potencial de contradições e controvérsias que eles encarnam. Não biografaria existências em linha reta. Gosto de personagens dúbios, enigmáticos, controvertidos, que foram amados e odiados na mesma medida. No fundo, a despeito das dessemelhanças entre meus biografados, tenho me dedicado a biografar uma única “pessoa”, desde sempre: o poder. É ele o meu alvo de investigação predileto.
Getúlio ainda é um político muito presente na vida pública. Tanto que muitos políticos contemporâneos se comparam a ele. A que se deve isso?
Getúlio soube construir uma imagem pública poderosa, com base em seu inegável magnetismo pessoal e numa eficiente máquina de propaganda política. Tenho obrigação de mostrar como isso se deu e, em que medida, isso se entranhou na sociedade brasileira.
Como o senhor se define politicamente?
Nunca me filiei a nenhum partido político. Não pertenço a nenhuma igreja ou religião. Nem escola de samba eu tenho. No futebol, aqui em São Paulo, nenhum time me mobiliza. Sou um descrente profissional.
FHC disse, antes de receber a faixa presidencial em 1994, que o legado da Era Vargas atravancava o presente do Brasil. Mais de 15 anos se passaram — oito de governo Lula — e agora vivemos a gestão da primeira mulher na Presidência, Dilma Rousseff. A Era Vargas acabou?
Por várias vezes, a chamada Era Vargas recebeu seu atestado de óbito. Mas, para o bem e para o mal, continua mais viva do que nunca.
Há previsão de quando a obra será publicada?
O que vai determinar isso é o ritmo da pesquisa e, posteriormente, da fase de escrita. Serão, no mínimo, cinco anos de trabalho, em regime de dedicação exclusiva. Parece muito. Mas, em se tratando de Getúlio, é bem pouco. Só um obsessivo como eu toparia tal desafio.











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