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Substantivo Masculino

por Tiago Lopes

O blog de literatura da VIP. Porque nem só de orgias, bebedeiras e jogatinas vive um homem.



Retrospectiva: março

Em breve, o mundo ganhará livros sobre a horta de Michelle Obama e Katy Perry. Animador, não?

Dia 3: O grupo editorial português Babel anuncia que inicia em março suas atividades no Brasil. A editora deve trazer obras nas áreas de literatura, infantojuvenil, artes e culinária. O curador é Luiz Ruffato, autor de O Livro das Impossibilidades e Eles Eram Muitos Cavalos (ambos da Record). Entre os primeiros lançamentos da editora no Brasil estarão edições fac-similares de raridades de clássicos da literatura portuguesa – como Mensagem, de Fernando Pessoa, e Espumas Flutuantes, de Castro Alves – e do primeiro catálogo do MoMa, o museu de arte moderna de Nova York, de 1929.

Dia 8: De acordo com a agência EFE, mansão que inspirou O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, pode ser demolida. Situada em Sands Points, Long Island, a propriedade – chamada de Lands Ends – tem 109 anos, 25 quartos, mais de 50 mil metros quadrados e está avaliada em US$ 30 milhões. O proprietário, David Brodsky, não consegue vender a mansão colonial cuja manutenção diária é avaliada em US$ 4.500.

Dia 10: Para Bento 16 lança Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição, segundo volume da obra papal sobre a vida do Cristo.

Dia 16: Michelle Obama, primeira-dama dos Estados Unidos, deve escrever um livro sobre a horta que plantou na Casa Branca. O livro será ilustrado com fotos da dita horta, assim como outras mantidas em áreas urbanas e escolas dos EUA. A informação é do grupo editorial Crown, que anunciou sua publicação para abril de 2012. E assim se enriquece a literatura universal…

Dia 17: Mary Hudson, administradora de uma igreja na Califórnia e mãe de Katy Perry, anuncia que vai escrever um livro sobre a vida da filha. E assim se enriquece a literatura universal…

Dia 22: A Câmara Brasileira do Livro anuncia mudanças no mais tradicional prêmio literário do Brasil. A partir de edição de 2011 do Jabuti, não haverá distinção para segundo e terceiro lugares. Apenas os primeiros colocados em cada categoria serão anunciados – evitando, assim, que se repita o quiproquó de 2010, quando o grupo editorial Record se retirou da peleja por tempo indeterminado por se sentir prejudicado quando a obra vencedora na categoria Romance (Se Eu Fechar os Olhos Agora, de Edney Silvestre) perdeu o prêmio de Livro de Ficção do Ano para o segundo colocado (Leite Derramado, de Chico Buarque). Outra alteração diz respeito à quantidade de categorias: a partir deste ano, serão 29 – oito a mais que em suas edições anteriores. Três categorias são inéditas: gastronomia, ilustração e turismo/hotelaria. Outras quatro categorias foram partilhadas.

Dia 22: A primeira leitura global de Dom Quixote de La Mancha, do escritor espanhol Miguel de Cervantes, chega ao fim com um total de 4.308 internautas de 104 países. Com o apoio da Real Academia Espanhola e da Associação de Academias de Língua Espanhola, a gincana literária teve início no dia 30 de setembro, quando internautas começaram a postar seus vídeos no canal youtube.com/elquijote. Mais de 2 mil vídeos compões a obra transmitida no YouTube.

Dia 26: Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, anuncia que, até outubro, vai dobrar o número de ônibus-biblioteca que rodam a cidade. Hoje há quatro veículos circulando por seis roteiros cada, com um acervo de cerca de 3 mil obras da literatura infantojuvenil e adulta, além de jornais, HQs e revistas. Em 2010, 112 mil usuários fizeram empréstimo de 149 mil livros – o número de público é 55% maior ao das bibliotecas municipais, assim como o volume de empréstimo: 164% superior.

Dia 30: O livro Grande Alma: Mahatma Gandhi e sua Luta com a Índia, de Joseph Lelyveld, tem sua venda proibida no estado de Gujarat e causa revolta no restante da Índia. Segundo resenhas de dois jornais, a obra mostra Gandhi como bissexual e racista.


Com a faca e o livro na mão

O nosso designer Dair Biroli tuitou (@biroli) a dica com a seguinte mensagem: “isso é doentio.” Fui conferir e achei que tinha tudo a ver com este blog…

Conheço quem usa livros para enfeitar a mesa da sala (uma sugestão bacana é Jazzlife, de Willian Claxton, pela Taschen). Para se distrair no banheiro (acredite: ler qualquer título de Malcolm Gladwell ajuda o intestino a funcionar). Até mesmo para calçar aquela escrivaninha bamba ou prender a porta (nestes casos, a espessura ou o peso da obra é determinante). Mas o artista plástico norte-americano Brian Dettmer foi além. Ele usa livros para fazer esculturas. Talhando folhas de manuais e enciclopédias, Dettmer cria peças em relevo que ora seguem o tema original do título, ora subvertem a proposta inicial do autor do livro. Não se trata de colagem — o material usado nas esculturas é todo parte da obra.

Em seu site, Dettmer explica o processo de criação:

Neste trabalho eu começo com um livro existente e lacro suas bordas, criando um recipiente fechado cheio de potencial a ser descoberto. Corto na superfície do livro e passo a dissecá-lo a partir do começo. Trabalho com facas, pinças e instrumentos cirúrgicos para esculpir uma página por vez, expondo cada camada durante o corte em torno de ideias e imagens de interesse. Nada dentro dos livros é realocado ou implantado, apenas removido. Imagens e ideias são reveladas para expor histórias e memórias alternativas. Meu trabalho é uma colaboração com o material existente e os seus antigos criadores, e as peças finalizadas expõem novas relações com os elementos internos do livro exatamente no local onde eles têm estado desde a sua concepção original.

Para conhecer mais do trabalho interessante de Brian Dettmer, visite seu site e seu flickr.

Em tempo: na sua opinião, que livro ( com ilustrações ou não) daria uma bela escultura? Responda nos comentários e ganhe… um… er… Bem, não ganhe nada. Mas responda, ok?


Duas coisas antes do Carnaval

Coisa 1: uma dica de literatura

Sérgio Rodrigues, do blog de literatura Todoprosa, da Veja, publicou hoje um post sobre ótimos contos de Carnaval. Ele cita alguns títulos em que a folia é tema — ou cenário, contexto etc. — e, no meio de sua relação, menciona O Bebê de Tarlatana Rosa, de João do Rio.

Lembro quando primeiro me deparei com este texto — que, da alegria do Carnaval, não traz nada. Foi quando li Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, da Objetiva. (Inclusive, eis uma sugestão de leitura enriquecedora.) Eu prendia a respiração a cada frase do conto de João do Rio. Faltava-me o ar. É melancólico e insano. Indico a leitura do texto, mas não garanto a reação ou o ânimo que seus parágrafos hão de inspirar no leitor. Quem quiser lê-lo, clique aqui.

Como bem disse João do Rio, “não há quem não saia no Carnaval disposto no excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias”. Aproveite!

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Coisa 2: um conto para celebrar o Carnaval

Saudoso Malandro

O malandro morreu e, por alguma lei divina, foi aos céus como todos os pierrôs, colombinas, arlequins, polichinelos, bambas e congêneres. Descontente estava, porém. Corroia-lhe a alma haver morrido sem ter consumado sequer uma noite com certa beata, de olhos verdes como o verde da Mangueira. Benê, sambista inquilino do céu, não tinha sossego justamente onde a paz deveria reinar. Pois que o malandro foi ter com o diabo. Fez um escarcéu no céu e desceu.

O tinhoso apenas plantou um sorriso nos lábios e antecipou um abraço quase fraternal ao ver Benê no inferno. Sabe-se que o diabo é um anfitrião ímpar aos que pisam seu solo soturno. É envolvente tal qual uma mulher, se, de fato, mulher não for.

- Quero voltar à Terra, doutor – disse ao cão o malandro. Explicou que sua escola de samba faria em breve o último ensaio geral antes de sair na Sapucaí, o que era verdade. Contudo, por vergonha ou discrição, preferiu omitir a tal moça, real motivo para desejar ascender ao mundo dos vivos.

- Eu tenho muito apreço por ti, nego. Admirava teu modo de vida: cachaça, cabrocha e jogo do bicho. – retrucou a besta, sorrindo-lhe cumplicidade. – Por isso, farei uma proposta simples. – expôs o diabo, mão esquerda posta sobre o ombro daquele homem, olhos pregados no escapulário de Nossa Senhora que Benê trazia no peito. – Te colocarei na Terra, como queres. Em contrapartida, tu deves fazer um samba para mim. Um samba qualquer. Um samba com nenhuma ponta de saudade. Se não conseguires tal feito, nego, aí tu ficas aqui. Para sempre eu te terei. – arrematou o diabo, sílaba por sílaba.

O malandro aceitou a proposta num ímpeto. Em vida, fora autor de inúmeros sambas e choros. Não lhe seria grande empreitada compor uma peça. Aquele havia de ser um bom negócio: veria sua morena em troca de um samba qualquer. Antes de reentrar o mundo de cá, ainda ouviu a única instrução do diabo: quando achasse conveniente deixar a terra dos vivos, Benê deveria ter o escapulário arrancado do peito.

Chegou por estes lados e logo adentrou o barracão. Trazia consigo um chapéu branco na cabeça, Nossa Senhora no peito e um sorriso de prepotência e ironia naquela cara de cafajeste. Nada temia – e o que havia de temer um homem de pacto amarrado com o diabo?

No mar de texturas, sons e sabores do samba, Benê avistou, do outro lado da quadra, sua morena Beatriz. Em vida e carne, o malandro desejara com devoção aquela mulher de olhos verdes como o verde da Mangueira. Aquela que nunca cedera, apesar das investidas de Benê. Entre apaixonado e libertino, o sambista tentara sem sucesso uma noite, um beijo, um abraço, uma atenção distraída, que fosse. Tentara como se desejasse redenção. Benê cruzou a quadra.

- Pensei que tivesse morrido, nego. – disse a bela mulher. Não trazia espanto nos belos olhos.

- Morri e voltei. Estava com vontade de te ver. – respondeu o malandro.

Beatriz achou graça. Ruborizou. Raras são as mulheres que ruborizam hoje em dia. A morena remendou um “não brinca com uma coisa dessas” e forjou displicência. Em verdade, aquela mulher estava satisfeita em ver o malandro, motivo secreto de algumas de suas noites maldormidas e dos calores noturnos.

- Eu tô aqui por você, nega. – sussurrou a voz rouca de Benê no ouvido de Beatriz.Tomou a mulher pelos braços e nada mais disse.

Sem que a mulher protestasse, em pouco tempo estavam numa construção ao lado do barracão. Logo ela gemeu um “eu sempre te quis, nego, e sempre soube que te teria”. Repetia a frase e era interrompida por beijos e mordidas de Benê. Com a morena nua nos braços, colados corpos, haveria de valer a pena o acordo com o diabo. Ele queria ir devagar; ela estava em êxtase e lhe arranhava a carne. “Eu sempre soube que te teria, nego.” Emaranhada nos pelos e beijos de Benê, Beatriz rasgava a pele do malandro. Contorcia-se bruscamente, apesar de nem terem começado de fato. Num de seus solavancos, arrancou do peito de Benê o escapulário.

O malandro percebeu o escapulário na mão de sua mulher e a ouviu gemer mais um “eu sempre soube que te teria, nego.” Num piscar de olhos, estava de volta ao inferno, trazido não por Virgílio, mas pelas mãos de sua morena. Nessa barca de bamba, Beatriz o conduzira de volta aos confins do nada.

Frustrado e incontido em desejos, ainda sentindo o cheiro da mulher, o coitado sambista quis desfazer o pacto. Alegaria que o diabo não sustentou sua parte no acordo. Ademais, se o diabo fosse esperto, saberia que promessas de malandro não se cumprem. Faria do inferno um inferno e não aceitaria estar de voltar sem ter possuído de fato sua Beatriz.

- Teu desejo foi explícito e atendido. Tuas razões, explanadas. Mas não tenho como deferir teu pedido. – objetou o diabo, pleno em suas razões legais. – Tu querias ver o último ensaio geral da tua escola. Foi-te concedido.

O malandro se calou.

- Anda. Prepara-te para meu samba. – completou o diabo.

O malandro concordou.

Eis senão quando o malandro não conseguiu fazer o samba. O cavaco não chorava como devia. Tampouco a letra fazia sentido. Não havia poesia, ritmo. Tentava criar algo, mas a saudade da morena permeava seus pensamentos, anuviando qualquer deixa de samba.

- Mas o que te acontece? Cadê aquela tua cadência? – zombou o diabo, dono de todo o escárnio.

Benê apenas pensava em Beatriz. Sentiu o coração, outrora vadio e compassado no ronco da cuíca, pesar-lhe no peito.

- Eu sempre soube que te teria, nego. – disse o senhor dos excomungados, mirando com os olhos verdes como o verde da Mangueira, antes de trancafiar Benê para todo o sempre. Desde então, céu e inferno ficaram sem samba.