Em 1941, o sueco Frans G. Bengtsson lançou a primeira parte de um dos grandes livros do século XX, tão incrível que o fato de não existir uma tradução para o português da obra depõe contra o nosso país do mesmo jeito que qualquer derrota da seleção em Copa do Mundo. E é justamente por ser ligeiramente desconhecida do grande público, ao menos fora do seu país de origem, que The Long Ships suscita os superlativos mais exagerados (e os pleonasmos mais panacas) por parte de quem lê ao menos algumas das suas primeiras páginas.

A Suécia, em uma imagem (a moça está ouvindo Abba)

Comecei a ler a maior obra da Suécia – e dúvido que alguém lembre de outra coisa, além do pornô, para me contestar – tão logo passei a escrever para a seção Cabeça da Revista VIP. O livro se encaixa perfeitamente na linha editorial da revista, caso estivesse sendo publicada desde o século X, quando o homem cool da época era o viking mais nobre do vilarejo.

Em The Long Ships, quem ocupa esse posto é Orm. Capturado ainda adolescente por vikings que tentavam saquear a propriedade da sua família, ele é levado em uma das viagens de coleta de provimentos que a classe fazia sempre antes do inverno. Na época, o bullying era praticado com espadas e machados como um meio de sobrevivência para quem vivia nos países nórdicos. Roubando de gente mais civilizada, que já entendia a importância da colheita e do ajuntamento de riquezas, os vikings garantiam o sustento da família, o amor da esposa e das amantes e o respeito dos amigos por toda uma temporada. Tirando a espada e o machado, os objetivos de quem enfrenta o mercado de trabalho continuam os mesmos.

No caminho de Orm, surgem vários continentes e religiões, muitas mulheres e guerras. A seguir, alguns dos pontos altos do livro:

1) As primeiras 50 páginas contam como Orm e sua família viviam antes do sequestro e como o mundo funcionava ao redor deles. Em 50 páginas, Bengtsson conseguiu fazer o que George R.R. Martin está tentando até agora no seu Game of Thrones, que já está com 5 mil páginas, cagando muitão para a concisão.

2) Dependendo da direção dos ventos, Orm e seus comparsas estacionavam em países dominados pelo Islamismo ou pelo Cristianismo. Em todos, eles enfrentaram uma grande comoção das autoridades locais para que se convertessem. Eventualmente, preferiram Cristo a Alá, mas nunca deixaram de culpar ou agradecer à sorte pelas graças e desgraças que caiam sob suas cabeças. Cormac McCarthy é outro escritor que defende veementemente a influência do acaso na vida do homem e seus livros são essas coisas incríveis aê.

3) Amantes: a sociedade sempre condenou, mas sabe se fazer de desentendida quando você é graduado em Administração de Poligamia. Em um momento de The Long Ships, o genro conta a seu sogro que está viúvo. Segue diálogo em tradução livre:

Sogro: “O que aconteceu com a minha filha?”

Genro viúvo: “Ela descobriu que pulei a cerca e ficou com tanta raiva que começou a soltar sangue pela boca e, ploft, morreu.”

Sogro: “Tsc tsc. Jovens, nenhum respeito pela vida.”

4) Na época dos vikings, balada boa durava, no mínimo, uma semana. Se não acontecesse ao menos uma briga seguida de morte, a festa seria considerada um fracasso digno de reunião na firma em pleno feriado prolongado.

5) Quando Orm, depois de se ferir gravemente em uma batalha, tem os seus cabelos escovados por uma mulher, ela se espanta e avisa a ele que faltam piolhos na sua cabeça. Orm se sente um homem tão amaldiçoado que nem os insetos se interessam pelo seu “sangue ruim”. No dia seguinte, na mesma situação, a mulher acha um piolho. Ele fica tão feliz que a pede em casamento. Ao menos para essa superstição, vale a máxima “o que acontece na Idade Média, fica na Idade Média”.

Se a minha opinião de novato ainda não inspira confiança, dê ouvidos ao Michael Chabon, um dos melhores escritores em atividade (cada casa deveria ter uma cópia de As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay ao lado da Bíblia), responsável pela introdução da edição da New York Review Books de The Long Ships. Ele fala do livro com a mesma paixão que uma cheerleader dedica ao seu time. Segue uma tradução livre do primeiro parágrafo dessa introdução:

Na minha carreira de leitor, encontrei apenas três pessoas que conheciam The Long Ships. Como eu, todas criaram uma afeição imediata pela obra. Quatro de quatro*: de uma pequena, mas irrefutável amostra, posso declarar que esse livro, publicado na Suécia durante a Segunda Guerra Mundial, está pronto para fornecer alegria duradoura a cada ser humano da face da Terra, caso deem uma chance.

Já deu para perceber que os leitores de The Long Ships disputam, incoscientemente, quem consegue falar do livro da maneira mais superlativa possível. Ganhar do Chabon é difícil. Essa é a minha humilde tentativa.

*Quase adultero a contagem da amostra do Chabon na tradução. A sacanagem da língua portuguesa desconhece fronteiras.