A editora Cosac Naify lança amanhã a primeira edição brasileira traduzida diretamente do russo de Guerra e Paz, maior livro do Tolstói. Por enquanto, o “maior” se refere só ao tamanho físico (são mais de duas mil páginas). Como ainda não li, não sei se é real a possibilidade de superar Anna Kariênina. Se for, quero ler com óculos de sol para não queimar a vista.

Considero Anna Kariênina a maior obra de ficção já registrada em papiros ocidentais. Li a edição da Cosac Naify (daí a tremenda ansiedade por uma de Guerra e Paz feita com o mesmo cuidado [beirando a frescura, vá lá]) há dois anos e escrevi um texto sobre em recantos menos vistos da internet. Reproduzo aqui novamente, como um aquecimento para as próximas duas mil páginas que devo atravessar fazendo muito esforço para não invocar a imagem do Henry Fonda.

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Gosto de pensar que Anna Kariênina só é o enorme livro que é porque Tolstói criou maneiras tão elevadas de descrever diversas vezes, e sem repetir uma sentença que fosse, a beleza da Anna que, se essas descrições estivessem muito próximas umas das outras, o leitor talvez experimentasse um tipo de arrebatamento tão latente que poderia chegar perto da insanidade, tamanha a excitação experimentada. Sem exagero.

E a excitação não é só sexual, é mais pela admiração absurda à maneira de escrever do Tolstói, nascida exatamente no momento em que as sentenças vão se seguindo e formando uma imagem tão exata, tão única e tão perfeita de sua personagem. Se essa imagem fosse, por exemplo, a de uma grande sala lotada de pessoas e seus detalhes, seria quase que igualmente impressionante, o “quase” fica por conta da distância entre objetos inanimados e a mulher mais bonita já inventada.

Entre um estranho e outro que a Anna vai topando com no decorrer do livro (são nesses encontros, geralmente, que o Tolstói providencia o maná de sua literatura), acontece muita coisa, grande parte dessas situações  não relacionadas com o adultério da citada. É aí que o Tolstói acalma um pouco os espíritos de quem o acompanha. Substitui o arrebetamento via-Anna por um que é acionado sempre… Bem, sempre. Por todos os diálogos, pelas soluçõs pensadas por alguns personagens para a melhoria das políticas russas em relação ao trabalho, à eduação, ao comportamento social e, principalmente, pela descrição de encontros sociais de grande porte, como bailes, idas ao teatro e a clubes. Só que não numa escala assustadoramente grande, como quando a beleza da Anna é apontada pela 4.587.545ª vez.

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Rússia com selo “Manoel Carlos” de aprovação

Anna Kariênina foi o primeiro livro do Tolstói que li. Antes, o que conhecia de literatura russa se resumia a alguns livros do Dostoiévski. Por conta disso, achava que a Rússia era o lugar mais pobre do mundo. A literatura do Dostoiévski é genialmente fedida. Os personagens dos núcleos menos abastados passam a impressão de que nunca lavam as roupas de baixo. Os da alta sociedade não convencem em relação à riqueza que dizem que possuem, devem usar colônia de supermercado o tempo todo.

Já a Rússia do Tolstói é o extremo oposto de tudo isso. Até os seus mujiques passam a impressão de serem os mais asseados de toda a literatura. Em um momento de Anna Kariênina, Liévin, personagem que tem sua história contada paralelamente à da Anna, recebe a visita do seu irmão moribundo. Aí, eu acredito que o Tolstói fez uma grande concessão em favor de sua ambição perfeitamente atingida, a de deixar para as geraçõs seguintes, até o fim dos tempos, a reprodução exata da época em que viveu: ele não podia deixar de fora os pobres.

Se os livros do Dostoiévski estão infestados de indigentes, é certo que a Rússia tinha lá o seu bom quinhão deles. Tolstói criou o livro mais clube-exclusivo-do-milhão que já li, mas a reprodução exata do seu tempo ficaria imcompleta sem ao menos um pobre em desgraça. O Nikolai (irmão do Liévin), e tudo que veio juntamente com ele, é como se fosse uma brecha na porta que dá para o quintal de uma mansão portentosa, e esse quintal é um pântano feio, frio e fétido que nunca é mostrado às visitas. É como ver a barba do Dostoiévski espreitando por essa mesma brecha.