Talese e a Máfia

Na edição da revista VIP que está nas bancas, tem um texto meu sobre Honra Teu Pai, obra-prima no estilo new journalism sobre a Máfia em Nova York no meio do século XX. Aclamado desde sua publicação em 1971, Honra Teu Pai foi o primeiro livro-reportagem a escancarar as intimidades da Máfia. Com uma escrita precisa e elegante, Gay Talese dedicou aproximadamente sete anos entre pesquisas, entrevistas e trabalho de campo — ou seja, convivendo com mafiosos como Bill Bonanno, filho do poderoso chefão Joseph Bonanno.

Joseph Bonanno, protagonista de Honra Teu Pai
Não se trata de um livro sobre tiroteios, dinheiro sujo e negócios com cheiro de sangue. Para mim, Honra Teu Pai é menos ação e mais drama. Por exemplo: depois do desaparecimento do pai, Bill deve encarar uma guerra contra os companheiros mafiosos, todos ávidos pelo lugar de Joseph. Mas mais que mostrar quem dá as cartas no mundo do crime de Nova York, Bill deve lutar consigo mesmo para decidir se deseja continuar o legado do pai.
Uma nova edição do livro — publicado pela primeira vez no Brasil com o título Os Honrados Mafiosos (Expressão e Cultura, 1972) um ano depois de sair nos EUA — acaba de chegar pela Companhia das Letras. Você pode ler um trecho aqui. Entrevistei Gay Talese para a ocasião — coincidentemente no dia em que Joseph Massino, ex-líder da família Bonanno condenado a prisão perpétua em 2004 acusado de oito assassinatos, entrou para a história ao ser o primeiro chefão de NY a colaborar com os federais e falar em um tribunal sobre as atividades criminosas da organização como testemunha do governo. A conversa com Gay Talese não coube na integra lá na revista. Por isso, publico agora o bate-papo em sua versão “uncut”.
De onde veio seu interesse em escrever sobre a Máfia?
Eu me interessei em escrever sobre a Máfia porque meu pai sempre disse que a Máfia não existia, que era uma invenção da imprensa e do FBI. Meu pai era um italiano orgulhoso da sua nacionalidade que ressentia ver seu país descrito como uma terra de gângsteres. Ele acreditada que a imprensa americana tinha interesse na história da Máfia porque isso vendia jornais. E mesmo que isso seja verdade, eu queria contar a verdade sobre a Máfia. Ela realmente existia? Sua existência foi exagerada pela mídia e pelo governo dos EUA para justificar o aumento de verbas destinadas a forças da lei? A imprensa americana constantemente insulta ítalo-americanos de bem ao reportar as batalhas ações e intrigas da Máfia em cidades como Nova York e Chicago? De qualquer forma, em 1965, durante meu último ano como repórter do New York Times, eu encontrei Bill Bonanno, filho do chefe da família Bonanno, Joseph, e isso chamou a atenção para perseguir minha curiosidade de muitos anos atrás sobre a Máfia.
Devido às atividades criminosas da família Bonanno, houve algum momento em que o senhor temeu pela própria vida?
Sim, eu frequentemente temia pela minha vida enquanto estive com Bill Bonanno, seus companheiros gângsteres e guarda-costas. Mas eu acreditava que eu devia aceitar os riscos se quisesse a história da Máfia. Perceba que eu queria a verdade, não estava escrevendo ficção, inventando coisas da minha cabeça.
Na composição da história, desde o encontro com Bill até a publicação, qual foi o maior desafio?
A parte mais difícil ao escrever Honra Teu Pai foi minha determinação em contar a verdade sem machucar pessoas inocentes que estavam envolvidas na história. Por exemplo, a mulher de Bill Bonanno, Rosalie, e seus quatro filhos, que nem eram adolescentes quando comecei a escrever o livro, em 1971. Eles não eram criminosos; apenas se relacionavam com uma família do crime. Eram crianças que tiveram a infelicidade de ter nascido dentro de uma organização criminosa. Então eu quis escrever com muito cuidado e ponderação sobre as quatro crianças.
Por que a Máfia, uma organização criminosa, fascina tanto o público?
A história da Máfia é como um faroeste urbano, um drama sobre homens armados que dirigem carrões em grandes cidades, atirando uns nos outros, lutando por território e lucro. É como nos filmes de cowboy, com homens armados montando cavalos. Se cowboys são Clint Eastwood, Gary Cooper ou Robert Redford, milhões de pessoas ficam fascinadas. Elas respondem à ação, à fúria, à intriga, ao risco, ao aspecto da vingança e até mesmo romantizam épicos de cowboy. Isso acontece com a Máfia também.
Mas há algo que podemos de fato admirar na Máfia, como honra?
Honra? Sim, honra é parte da mensagem. Como também é a perda dela. Hoje mesmo um chefe da família Bonanno, Joseph Massino, está demonstrando uma falta de honra ao falar abertamente no tribunal sobre suas atividades criminosas. Na época em que Joseph Bonanno era o chefe, a ormeta [o código de silêncio da Máfia] era estritamente forçada. Mas seu filho, Bill, violou este código ao falar comigo. Eu fui o primeiro escritor a conseguir que um homem da Máfia falasse abertamente sobre a vida no crime. E hoje nós temos outro exemplo: Joseph Massino. O que isso indica? Indica que as regras de disciplina estão ficando cada vez mais fracas no decorrer do tempo. As gangues italianas não são mais como costumavam ser em décadas passadas. Nos velhos tempos, quando meu pai dizia que a Máfia não existia, a Máfia se calava sobre sua própria existência. Ormeta era de fato uma regra.
E como é a situação hoje?
Os novos mafiosos não são bem organizados. Eles não estão juntos como costumavam estar. Quando eu era um jovem reporter, na década de 1960, os ítalo-americanos eram uma minoria nos EUA. Eles se casavam entre si, eram católicos, vistos como “de fora”. A Máfia era underground. Agora os ítalo-americanos são assimilados e a nova minoria nos EUA são os muçulmanos. Não existe uma Máfia muçulmana, pelo que sabemos. Mas e se no future surgir uma Máfia muçulmana? Muçulmanos são tidos como terroristas, por mais injusto que isso seja. Recentemente tivemos uma audiência no congresso sobre muçulmanos na América e se eles eram uma ameaça. Isso me lembrou que gerações atrás havia audiência no congresso sobre criminosos ítalo-americanos.


Deve haver, em alguma cultura perdida e mais avançada que a nossa, a versão de que o homem inventou a roda unicamente para facilitar o transporte de bebidas alcoólicas de um lado para outro. Tá certo. Isso é papo de bêbado, apenas. A roda não é um marco na história. Não tanto quanto a vida de Piotr Arsênievich Smirnov, escravo originário de uma pequena aldeia que, mesmo sem educação, deu início ao império da vodca na Rússia na metade do século 19. Ele é responsável pela mais célebre marca de vodca do mundo, a Smirnoff. Agora, a vida de Smirnov está nas páginas de O Rei da Vodca (Zahar, 364 páginas, R$ 39), da jornalista americana Linda Himelstein.
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Uma é anã. A outra tem o tamanho de um búfalo. Péter Esterházy passeia pela fauna feminina em Uma Mulher (Cosac Naify, 184 páginas, R$ 43), seu primeiro livro lançado no Brasil, apesar de o escritor húngaro ter mais de 30 publicados lá fora. São 97 textos que descrevem 97 mulheres. Ou seria apenas uma mulher em 97 facetas? Difícil saber. Além disso, com humor e perspicácia, Esterházy consegue confundir ainda mais os limites de amor e ódio. Tudo parece a mesma coisa. E não é?
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