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Substantivo Masculino

por Tiago Lopes

O blog de literatura da VIP. Porque nem só de orgias, bebedeiras e jogatinas vive um homem.



Talese e a Máfia

Na edição da revista VIP que está nas bancas, tem um texto meu sobre Honra Teu Pai, obra-prima no estilo new journalism sobre a Máfia em Nova York no meio do século XX. Aclamado desde sua publicação em 1971, Honra Teu Pai foi o primeiro livro-reportagem a escancarar as intimidades da Máfia. Com uma escrita precisa e elegante, Gay Talese dedicou aproximadamente sete anos entre pesquisas, entrevistas e trabalho de campo — ou seja, convivendo com mafiosos como Bill Bonanno, filho do poderoso chefão Joseph Bonanno.

Joseph Bonanno, protagonista de Honra Teu Pai

Não se trata de um livro sobre tiroteios, dinheiro sujo e negócios com cheiro de sangue. Para mim, Honra Teu Pai é menos ação e mais drama. Por exemplo: depois do desaparecimento do pai, Bill deve encarar uma guerra contra os companheiros mafiosos, todos ávidos pelo lugar de Joseph. Mas mais que mostrar quem dá as cartas no mundo do crime de Nova York, Bill deve lutar consigo mesmo para decidir se deseja continuar o legado do pai.

Uma nova edição do livro — publicado pela primeira vez no Brasil com o título Os Honrados Mafiosos (Expressão e Cultura, 1972) um ano depois de sair nos EUA — acaba de chegar pela Companhia das Letras. Você pode ler um trecho aqui. Entrevistei Gay Talese para a ocasião — coincidentemente no dia em que Joseph Massino, ex-líder da família Bonanno condenado a prisão perpétua em 2004 acusado de oito assassinatos, entrou para a história ao ser o primeiro chefão de NY a colaborar com os federais e falar em um tribunal sobre as atividades criminosas da organização como testemunha do governo. A conversa com Gay Talese não coube na integra lá na revista. Por isso, publico agora o bate-papo em sua versão “uncut”.

De onde veio seu interesse em escrever sobre a Máfia?
Eu me interessei em escrever sobre a Máfia porque meu pai sempre disse que a Máfia não existia, que era uma invenção da imprensa e do FBI. Meu pai era um italiano orgulhoso da sua nacionalidade que ressentia ver seu país descrito como uma terra de gângsteres. Ele acreditada que a imprensa americana tinha interesse na história da Máfia porque isso vendia jornais. E mesmo que isso seja verdade, eu queria contar a verdade sobre a Máfia. Ela realmente existia? Sua existência foi exagerada pela mídia e pelo governo dos EUA para justificar o aumento de verbas destinadas a forças da lei? A imprensa americana constantemente insulta ítalo-americanos de bem ao reportar as batalhas ações e intrigas da Máfia em cidades como Nova York e Chicago? De qualquer forma, em 1965, durante meu último ano como repórter do New York Times, eu encontrei Bill Bonanno, filho do chefe da família Bonanno, Joseph, e isso chamou a atenção para perseguir minha curiosidade de muitos anos atrás sobre a Máfia.

Devido às atividades criminosas da família Bonanno, houve algum momento em que o senhor temeu pela própria vida?
Sim, eu frequentemente temia pela minha vida enquanto estive com Bill Bonanno, seus companheiros gângsteres e guarda-costas. Mas eu acreditava que eu devia aceitar os riscos se quisesse a história da Máfia. Perceba que eu queria a verdade, não estava escrevendo ficção, inventando coisas da minha cabeça.

Na composição da história, desde o encontro com Bill até a publicação, qual foi o maior desafio?
A parte mais difícil ao escrever Honra Teu Pai foi minha determinação em contar a verdade sem machucar pessoas inocentes que estavam envolvidas na história. Por exemplo, a mulher de Bill Bonanno, Rosalie, e seus quatro filhos, que nem eram adolescentes quando comecei a escrever o livro, em 1971. Eles não eram criminosos; apenas se relacionavam com uma família do crime. Eram crianças que tiveram a infelicidade de ter nascido dentro de uma organização criminosa. Então eu quis escrever com muito cuidado e ponderação sobre as quatro crianças.

Por que a Máfia, uma organização criminosa, fascina tanto o público?
A história da Máfia é como um faroeste urbano, um drama sobre homens armados que dirigem carrões em grandes cidades, atirando uns nos outros, lutando por território e lucro. É como nos filmes de cowboy, com homens armados montando cavalos. Se cowboys são Clint Eastwood, Gary Cooper ou Robert Redford, milhões de pessoas ficam fascinadas. Elas respondem à ação, à fúria, à intriga, ao risco, ao aspecto da vingança e até mesmo romantizam épicos de cowboy. Isso acontece com a Máfia também.

Mas há algo que podemos de fato admirar na Máfia, como honra?
Honra? Sim, honra é parte da mensagem. Como também é a perda dela. Hoje mesmo um chefe da família Bonanno, Joseph Massino, está demonstrando uma falta de honra ao falar abertamente no tribunal sobre suas atividades criminosas. Na época em que Joseph Bonanno era o chefe, a ormeta [o código de silêncio da Máfia] era estritamente forçada. Mas seu filho, Bill, violou este código ao falar comigo. Eu fui o primeiro escritor a conseguir que um homem da Máfia falasse abertamente sobre a vida no crime. E hoje nós temos outro exemplo: Joseph Massino. O que isso indica? Indica que as regras de disciplina estão ficando cada vez mais fracas no decorrer do tempo. As gangues italianas não são mais como costumavam ser em décadas passadas. Nos velhos tempos, quando meu pai dizia que a Máfia não existia, a Máfia se calava sobre sua própria existência. Ormeta era de fato uma regra.

E como é a situação hoje?
Os novos mafiosos não são bem organizados. Eles não estão juntos como costumavam estar. Quando eu era um jovem reporter, na década de 1960, os ítalo-americanos eram uma minoria nos EUA. Eles se casavam entre si, eram católicos, vistos como “de fora”. A Máfia era underground. Agora os ítalo-americanos são assimilados e a nova minoria nos EUA são os muçulmanos. Não existe uma Máfia muçulmana, pelo que sabemos. Mas e se no future surgir uma Máfia muçulmana? Muçulmanos são tidos como terroristas, por mais injusto que isso seja. Recentemente tivemos uma audiência no congresso sobre muçulmanos na América e se eles eram uma ameaça. Isso me lembrou que gerações atrás havia audiência no congresso sobre criminosos ítalo-americanos.


Getúlio Vargas, esses muitos homens

Lira Neto

Lira Neto: não às existências em linha reta

Getúlio Vargas não é uma figura fácil de ser descrita. Para uns, foi o “pai dos pobres” devido à atenção dedicada aos trabalhadores — foi ele quem criou o salário mínimo e a carteira profissional, por exemplo; para outros, foi um ditador egocêntrico, alguém que perseguiu opositores e que abusou do populismo para cair nas graças da nação. Talvez pelo trabalho desumano de desconstruir sua pessoa sem paixão — apesar de algumas tentativas –, Getúlio apenas teve biógrafos que pendiam para o bem e para o mal. Deixou a vida para entrar para a História, e a História pode enganar.

O jornalista cearense Lira Neto tomou para si tal fardo e se propôs a fazer uma biografia de Getúlio, esses muitos homens. Tão logo deixou os originais de Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão na editora, passou a trabalhar na obra da vida do político gaúcho. Desde agosto de 2009 tem se debruçado a traduzir no papel aquele que foi um dos mais controversos políticos brasileiros. Esta será a sexta biografia de Lira Neto — O Poder e a Peste: A Vida de Rodolfo Teófilo (1999), Castello: A Marcha para a Ditadura (2004), O Inimigo do Rei: uma biografia de José de Alencar (2006), Maysa: Só Numa Multidão de Amores (2007) e Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão (2009). A previsão é que a obra, ainda sem data para ser lançada, seja densa como nenhuma outra do jornalista: deve ter três volumes de aproximadamente 500 páginas cada. Eu bati um papo com Lira Neto para saber mais da obra e do político.

Por que biografar Getúlio Vargas?
Getúlio é, sem dúvida, o principal personagem da história republicana brasileira. Já se escreveram centenas de livros sobre ele. Mas faltava uma biografia moderna, jornalística, a seu respeito. A ideia é justamente tentar suprir esta lacuna.

Quais aspectos da vida de Getúlio o senhor acredita que terão mais destaque na biografia, segundo a sua pesquisa até o momento?
Em se tratando de Getúlio, é difícil se falar de um período específico de sua trajetória. Pretendo ser o mais abrangente possível. Por isso mesmo, a ideia inicial é a de que deverá ser uma trilogia – e não um único volume. Interessa-me mostrar como Getúlio transformou o Brasil e como ele próprio foi sendo transformado pelas circunstâncias históricas que acabou produzindo ao longo de sua ação política. Como se trata de uma biografia, procurarei estabelecer relações entre a trajetória pública e a vida privada do personagem, em busca das explicações e das inevitáveis contradições que essas duas esferas da existência possam conter.

Em que fase o senhor está na concepção da biografia e o que acredita que será mais trabalhoso?
Sou essencialmente um repórter e, como tal, considero que o mais trabalhoso — e também o mais instigante — é o trabalho de apuração e pesquisa. Estou trabalhando na biografia de Getúlio há apenas um ano. Nesse meio tempo, concentrei-me na, digamos, “pré-história” do biografado, ou seja, no Getúlio anterior à chegada à presidência da República. É um período fascinante, este, o do Rio Grande do Sul à época da República Velha. Em tal trecho da história, há assassinatos, guerras, traições e intrigas políticas a perder de vista.

Getúlio, Padre Cícero, José de Alencar, Maysa. Como o senhor decide quem biografar? Que elementos o personagem deve ter?
Escolho meu biografados pelo potencial de contradições e controvérsias que eles encarnam. Não biografaria existências em linha reta. Gosto de personagens dúbios, enigmáticos, controvertidos, que foram amados e odiados na mesma medida. No fundo, a despeito das dessemelhanças entre meus biografados, tenho me dedicado a biografar uma única “pessoa”, desde sempre: o poder. É ele o meu alvo de investigação predileto.

Getúlio ainda é um político muito presente na vida pública. Tanto que muitos políticos contemporâneos se comparam a ele. A que se deve isso?
Getúlio soube construir uma imagem pública poderosa, com base em seu inegável magnetismo pessoal e numa eficiente máquina de propaganda política. Tenho obrigação de mostrar como isso se deu e, em que medida, isso se entranhou na sociedade brasileira.

Como o senhor se define politicamente?
Nunca me filiei a nenhum partido político. Não pertenço a nenhuma igreja ou religião. Nem escola de samba eu tenho. No futebol, aqui em São Paulo, nenhum time me mobiliza. Sou um descrente profissional.

FHC disse, antes de receber a faixa presidencial em 1994, que o legado da Era Vargas atravancava o presente do Brasil. Mais de 15 anos se passaram — oito de governo Lula — e agora vivemos a gestão da primeira mulher na Presidência, Dilma Rousseff. A Era Vargas acabou?
Por várias vezes, a chamada Era Vargas recebeu seu atestado de óbito. Mas, para o bem e para o mal, continua mais viva do que nunca.

Há previsão de quando a obra será publicada?
O que vai determinar isso é o ritmo da pesquisa e, posteriormente, da fase de escrita. Serão, no mínimo, cinco anos de trabalho, em regime de dedicação exclusiva. Parece muito. Mas, em se tratando de Getúlio, é bem pouco. Só um obsessivo como eu toparia tal desafio.


Livros riscados

Para o jornalista Kleyson Barbosa, ler livros não basta. É preciso dialogar com eles. Trocar sensações com seus autores por meio das palavras impressas no papel. Os melhores trechos ganham de Kleyson um grifo que eterniza o sentimento experimentado ao lê-los. Para compartilhar essa mania de sublinhar o que mais gosta nas obras, o jornalista criou o Grifei num Livro, blog com trechos marcados por ele e pelos leitores. Shakespeare, Caio Fernando Abreu, Jorge Amado, Italo Calvino… Vale tudo, desde que seja bom. A coleção aumenta a cada dia. Falei com Kleyson para saber mais sobre o projeto.

Você não tem dó de grifar seus livros?
Não, nenhuma. Na verdade, eu adoro livro marcado, grifado, sublinhado. Desde pequeno acho bacana você “sentir” que alguém se emocionou ao ler aquela parte. Tem um casal de amigos meus — que não são mais um casal hoje — que um dia, falando sobre grifar, contaram que se apaixonaram porque viram o que o outro tinha escrito no livro. Foram vendo afinidades e tal. Eu sei lá por que, desde pequeno, fico impressionado com isso. Antes, eu tinha dó, confesso. Só marcava as páginas. Mas depois eu comecei a grifar e aí foi.

De onde surgiu a ideia de fazer um tumblr de livros grifados? Desse casal de amigos?
Não, nem foi. Eu sempre quis ter um tumblr. E eu adoro projetos, sabe? Meus amigos brincam que eu penso num blog a cada dia. Só que se eu tenho ideias mil de projetos, eu tenho tempo zero pra eles. Um dia uma amiga me pediu um trecho de uma peça — ah, eu coleciono trechos de peças de teatro — e ela postou no tumblr dela. Eu achei lindo e falei “por que não faço um tumblr com grifos dos livros?”. A ideia é simples: eu já grifo mesmo; é só fotografar. Daí criei o tumblr — que não é só um tumblr viu? É um projeto todo: tem instagram também.

Você usa tumblr e instagram, que são o que há de mais “tendência” hoje. Ao mesmo tempo, os trechos grifados são de livros antigos — Clarice, Drummond, até Shakespeare. Literatura feita há mais tempo é mais “grifável”? Apetecem mais aos olhos do que a literatura do século XXI?
Não, nem é. É que vem mais por aí. Hoje mesmo era pra eu ter postado José Paulo Paes — que nem é old, vá. Tem Kurt Vonnegut na espreita. Tem Nick Hornby. Foi só porque os livros mais clássicos estavam coincidentemente na minha estante primeiro. Por ora, tem frases clássicas de Clarice e Shakespeare que eu sei de cor. Tenho um carinho todo pelos dois. Caio Fernando Abreu também. Fiz um “Caio Fernando Day”, viu lá? Só trechos dele no dia.

Para você, o que um trecho ou uma sentença deve ter para ser grifada? Há critérios?
Sim. Que toquem. E “é só isso”, como diz a música do João Gilberto [Bim Bom]. Sou um moço romantico. Daí, se tocou eu grifo, seja pela boa sacada, pela boa piada, pela capacidade de expressar algo especial.

Qual é o seu escritor mais grifado?
Cortázar, acho. E Caio Fernando. Não sei isso de cor mesmo, não é algo que fico noiado procurando. É de coração a coisa, sabe?

O tumblr é colaborativo, né? Galera pode mandar seus grifos…
Claro! Mandem, por favor: grifeinumlivro@gmail.com. Ficarei feliz em receber colaborações. Sabe que rolou algo bacana: muita gente já veio me falar que também grifa livro. Amei os comentários.


Antonio Prata tem uma fazenda de formigas

[CAPA] Meio Intelectual, Meio de EsquerdaEu não entendo algumas coisas. Dentre as minhas incompreensões, estão a mente feminina durante a TPM, a mente feminina fora da TPM, a cobrança de juros sobre juros, pessoas que fazem corações com as mãos, a conversa sobre o clima com um estranho no elevador e “onde raios foi parar o outro pé da meia, porra?” Fato é que as questões mundanas me fascinam mais do que a busca por respostas corretas para perguntas filosóficas como “de onde viemos” ou “para onde vamos”.

Por preferir os mistérios do mundo, admiro Antonio Prata. Seus textos no blog no Estadão me lembram uma fazenda de formigas. Com uma diferença: as formigas somos nós. Do lado de cá do vidro, corremos de lá para cá, sem propósito aparente; do lado de lá, Antonio escreve nossa insanidade diária com a mesma disposição de um garoto prestes a apanhar uma lupa e queimar as pobres formigas.

O resultado dessa brincadeira — nós, formigas; Antonio, moleque curioso e endiabrado — pode ser conferido em Meio Intelectual, Meio de Esquerda, coletânea de textos que sai este mês pela Editora 34. São 78 crônicas que vão desde a luta de classes nos botecos sujos da vida até a cultura do banheiro público rabiscado, passando pela vizinha que curte YMCA e que nunca é vista no prédio e pela falta que uma coifa faz. Eu só posso ter respeito por um escritor que fala sobre tudo, inclusive coifas.

Eu li uma crônica do Fabrício Corsaletti, A Avó do Antonio Prata, em que ele te liga para propôr um tema para crônica. É comum o pessoal fazer isso?
Não é comum. O Fabrício é muito amigo meu e a gente fala muito de literatura. Às vezes ele me manda textos dele, às vezes eu mando pra ele… Engraçado é que esse telefonema gerou Domingo [uma das crônicas do livro], que começa falando que o Fabrício me ligou. É aquela ligação.

É impressão minha ou você realmente é irônico?
O humor é a ferramenta que eu mais uso e a ironia é uma maneira enviesada de encarar a realidade. Mas o meu interesse pela ironia é sempre por aquela ironia que nos ajuda a lidar com as coisas. Nada cáustico.

Quais foram os critérios para a seleção de crônicas publicadas em Meio Intelectual, Meio de Esquerda?
Qualidade mesmo. Primeiro eu selecionei todas as crônicas que escrevi — mais de 300 — e depois reduzimos para umas 60. O critério foi o seguinte: se alguma crônica balançasse, a gente derrubava. Tudo o que era médio a gente tirou.

O que pode ser tema de crônica?
Qualquer coisa. As pessoas acham que a maior dificuldade é achar um tema, mas o trabalho é maior para achar um enfoque do tema. Qualquer coisa pode virar crônica. As que eu começo sem noção de onde vão parar são as melhores. Você começa falando de uma coisa e termina falando de outra. As melhores são aquelas em que eu não sei o tema.

Mas o que mais te fascina? O sofá boiando no rio ou a mulher desconhecida por quem se apaixona no bar?
Sou mais o sofá. [Risos] Me interessa mais o absurdo das pequenas coisas, o que é sem sentido, aquilo que passa despercebido.

TRECHO: Baixe a crônica A Gostosa, da coletânea Meio Intelectual, Meio de Esquerda, de Antonio Prata.

EM TEMPO: Lançamento e sessão de autógrafos de Meio Intelectual, Meio de Esquerda, de Antonio Prata (Editora 34, 2010)
Local: Centro Cultural Rio Verde (Rua Belmiro Braga, 181 – Vila Madalena – tel. 11-3459-5321)
Data e horário: 9 de novembro de 2010, das 19h00 às 22h30


Sobre cafetinas

[FOTO] Sérgio Maggio

Sérgio na Ladeira da Montanha, em meio aos "bregas" | Foto de Claudia Ferrari

Quando foi lançado, em fevereiro de 2009, Conversas de Cafetinas (Arquipélago Editorial, 160 páginas) me passou despercebido. Eu não era repórter de cultura e acompanhava a literatura como um mero leitor, escolhendo um título aqui e outro acolá. Aí veio o Jabuti 2010 que, além de premiar os melhores títulos lançados no ano anterior, serve de guia para muitos leitores — confesso que faço parte deste grupo. Foi então que tropecei em Conversas de Cafetinas, de Sérgio Maggio, finalista do Jabuti na categoria reportagem.

Sérgio, hoje subeditor de cultura do Correio Braziliense, começou em 1997 a desnudar a realidade das cafetinas de Salvador. Cafetinas, não: “donas de casa”, como preferem ser chamadas. “Visitei mais de 30 prostíbulos, fiquei diante de 17 cafetinas, e oito delas decidiram contar as suas histórias”, comenta o jornalista, que dedicou um ano ao trabalho. Durante esse período, zanzou pelas ladeiras de Salvador à procura não de prostitutas, mas sim daquelas que estavam no comando do comércio do prazer.

O resultado é um livro primoroso, recheado de boas histórias. Desde cafetinas consideradas “mãezonas” até a mulher que nunca foi prostituta, mas que comanda um “brega” (gíria para prostíbulo). Desiludidas com o amor, violentadas na infância ou mesmo felizes no matrimônio, as cafetinas retratadas por Sérgio remetem às ficções de Jorge Amado — se ficções fossem. São perfis curtos, que misturam o prazer do sexo à dor da vida dessas mulheres brutas.

Por que escolheu as cafetinas de Salvador como tema?
Primeiro porque estava ali, vivendo e morando em Salvador. Segundo porque eu cresci afetado pela literatura de Jorge Amado, que é repleta de cafetinas e casas de bordéis. A ideia inicial era ver como estavam essas casas no fim do século 20. A figura da cafetina se situava neste período entre o romantismo dos livros de Jorge Amado e a crueza das páginas policiais, nas quais elas apareciam serviciando menores. Um dos meus objetivos era encontrar a mulher de carne e osso, humanizada.

Muitas delas não se definem como cafetinas, mas sim “donas de casa” e outros termos. Para você, que frequentou os bregas durante a concepção do livro, o que é uma cafetina?
As mulheres que entrevistei rejeitavam, em sua maioria, essa denominação porque atrelavam isso às profissionais que escravizavam menores, sobretudo. Então cafetina era uma associação ao noticiário policial. Eles se consideravam donas de casa, porque mantinham o funcionamento da casa sem problemas com a polícia, sobretudo. Evitavam trabalhar com menores, mulheres viciadas e barraqueiras. Porque isso chamava a atenção das autoridades para as casas, chamadas de tolerância. O cerco com a prostituição de menores, sobretudo, aumentou no fim do século 20. E ter presença de menores implicava não só na prisão, mas no fim do negócio. Pra mim, eu não faço a distinção. Cafetina é a mulher que comanda e lucra com o negócio.

Você cita que “a prostituição tem múltiplos caminhos de chegada”. Quais os mais comuns?
Sem dúvida, a desestrutura familiar. Muitas meninas fugiam de casa porque eram abusadas por parentes, inclusive pai e irmãos. A violência em casa, o alcoolismo e as drogas no lar. Mas há muitos motivos. Inclusive o livre desejo de se prostituir e ter a atividade como profissão.

Há bastante referências à liberação sexual feminina como motivo para a pouca frequência nos bregas. Frequentar prostíbulos está em desuso?
Sim, sobretudo nas grandes capitais. No interior, nem tanto. As doenças sexualmente transmissíveis, o risco de se expor e a liberação da mulher são alguns dos fatores para a decadência dessas casas. A prostituição se modernizou com a tecnologia. A vantagem das casas sempre foram a segurança da prostituta e a não necessidade de se expor na rua. Só que as tecnologias fizeram uma revolução nesse sentido. Com um celular, um site e um local seguro, a mulher faz o programa sem precisar se dividir os lucros

Houve cafetina ou prostituta que tentou te seduzir de alguma forma?
Sim.

Como foi?
Isso sempre acontecia no início da abordagem sobretudo. Mas depois, esclarecido os objetivos, tudo ficava numa boa. Rolava muita cerveja, cigarro, tiragosto, algumas danças e uma possibilidade de diálogo de igual para igual. Não caí em tentação.


Livros em um cinema perto de você

Semana passada eu assisti a um filme bem bacana que logo chegará aos cinemas. Trata-se de Malu de Bicicleta, uma competente adaptação do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, sob a direção de Flavio Tambellini. É um romance, mas sem todo aquele açúcar que atrai as (muitas) mulheres carentes. É romance para homem. Sobre o filme, falarei mais na revista VIP de dezembro.

Toquei neste assunto porque, ao fim de Malu de Bicicleta, tive aquela mesma sensação que me tomou de assalto nos créditos finais de Cabeça a Prêmio, filme dirigido por Marco Ricca, baseado na obra homônima de Marçal Aquino e lançado no último agosto. Os dois filmes são igualmente bons, bem feitos, com histórias que escapam da tríade favorita do cinema nacional: nordeste, favela e, mais recentemente, espiritismo. Cada um com seu enredo, claro, mas além de fugirem do lugar-comum, eles têm duas semelhanças: 1) ambos são adaptações de bons livros brasileiros, o que não é empreitada fácil; e 2) apesar de filmes muito bons, trazem-me à mente aquela velha pergunta: o livro é melhor que o filme?

Entre 2009 e 2010, me peguei com esta indagação algumas vezes, principalmente quando assisti A Morte de Quincas Berro D’Água, O Bem Amado e Budapeste. Todos com seus méritos, diga-se, mas seriam tais filmes capazes de emprestar do espectador as mesma emoções que a obra impressa?

Escrever é uma arte. Adaptar é outra. Cada uma tem as suas peculiaridades, obviamente. Falei com um mestre em ambos os ofícios, Marçal Aquino, para saber o que ele pensa.

Quais foram as dificuldades ao colaborar na adaptação de Cabeça a Prêmio para o cinema?
Foram as de sempre: encontrar as formas específicas de transformar em linguagem audiovisual aquilo que pertencia à linguagem literária, atendendo às necessidades e propostas do diretor.

Você também adaptou, entre outros, O Cheiro do Ralo, livro de Lourenço Mutarelli, em companhia do diretor Heitor Dhalia. É mais complicado adaptar a própria obra ou a de um outro escritor?
Pessoalmente, não vejo muita diferença entre trabalhar na adaptação de um texto próprio ou de outro autor. O importante, no caso, é não respeitar em excesso a matriz literária, já que o essencial é atender às necessidades específicas do roteiro. Fidelidade não é um valor a ser observado quando se fala em adaptar um livro pro cinema. O importante é estabelecer um diálogo com a obra literária.

É comum a gente ouvir que “o livro é melhor que o filme”, por melhor que o filme seja. A que se deve isso?
Sou escritor. Então, para mim, o livro vai ser sempre melhor que o filme. Fora isso, livro é livro, filme é filme. São linguagens distintas. Adaptar é, sim, trair a obra original.

Quais as melhores adaptações já realizadas?
Há várias adaptações de obras literárias pro cinema de que gosto muito, tanto aqui no cinema brasileiro quanto no estrangeiro. São Bernardo, do Leon Hirszman, é exemplar na captação da essência do universo e, mais que isso, da voz do Graciliano. Cidade de Deus é um trabalho espetacular; o livro do Paulo Lins tem múltiplas possibilidades, é dureza abordar aquilo. E Lavoura Arcaica, pela ousadia do Luiz Fernando Carvalho, que, para mim, realizou a mais literária das adaptações já feitas pelo cinema brasileiro. A Insustentável Leveza do Ser, do Philip Kaufman, é muito interessante, assim como, mais recentemente, Onde os Fracos Não Têm Vez, a belíssima adaptação que os irmãos Coen fizeram do romance do Cormac McCarthy.

E as piores?
De adaptações ruins, o mundo está cheio, mas nunca me lembro delas. Esquecer também é necessário.