Autor

Substantivo Masculino

por Tiago Lopes

O blog de literatura da VIP. Porque nem só de orgias, bebedeiras e jogatinas vive um homem.



Discos para ler ou literatura para ouvir?

Um usuário do Flickr conhecido como See Gee fez algo bem bacana e original: transformou álbuns célebres em capas de livros. Tem Bad, de Michael Jackson, como capa de um “thriller” (sacou o duplo sentido?), Blood on the Tracks, de Bob Dylan, e Never Mind the Bullocks, do Sex Pistols, como ficções pulp…

Segue uma amostra do trabalho de See Gee:

(Dica do Jardel Sebba, leitor voraz e apreciador de boa música.)

 


Com a faca e o livro na mão

O nosso designer Dair Biroli tuitou (@biroli) a dica com a seguinte mensagem: “isso é doentio.” Fui conferir e achei que tinha tudo a ver com este blog…

Conheço quem usa livros para enfeitar a mesa da sala (uma sugestão bacana é Jazzlife, de Willian Claxton, pela Taschen). Para se distrair no banheiro (acredite: ler qualquer título de Malcolm Gladwell ajuda o intestino a funcionar). Até mesmo para calçar aquela escrivaninha bamba ou prender a porta (nestes casos, a espessura ou o peso da obra é determinante). Mas o artista plástico norte-americano Brian Dettmer foi além. Ele usa livros para fazer esculturas. Talhando folhas de manuais e enciclopédias, Dettmer cria peças em relevo que ora seguem o tema original do título, ora subvertem a proposta inicial do autor do livro. Não se trata de colagem — o material usado nas esculturas é todo parte da obra.

Em seu site, Dettmer explica o processo de criação:

Neste trabalho eu começo com um livro existente e lacro suas bordas, criando um recipiente fechado cheio de potencial a ser descoberto. Corto na superfície do livro e passo a dissecá-lo a partir do começo. Trabalho com facas, pinças e instrumentos cirúrgicos para esculpir uma página por vez, expondo cada camada durante o corte em torno de ideias e imagens de interesse. Nada dentro dos livros é realocado ou implantado, apenas removido. Imagens e ideias são reveladas para expor histórias e memórias alternativas. Meu trabalho é uma colaboração com o material existente e os seus antigos criadores, e as peças finalizadas expõem novas relações com os elementos internos do livro exatamente no local onde eles têm estado desde a sua concepção original.

Para conhecer mais do trabalho interessante de Brian Dettmer, visite seu site e seu flickr.

Em tempo: na sua opinião, que livro ( com ilustrações ou não) daria uma bela escultura? Responda nos comentários e ganhe… um… er… Bem, não ganhe nada. Mas responda, ok?


O Grande Gatsby em 8 bits

F. Scott Fitgerald morreu sem ver O Grande Gatsby se tornar um dos maiores romances do século XX. Nos 15 últimos anos de vida, sua obra vendeu 25 mil exemplares. De livro fadado ao fracasso diante do materialismo amoral dos EUA nos anos 1920, O Grande Gatsby se tornou uma referência em aulas de História ao redor dos EUA. Mas não é só nas escolas que os jovens podem aprender sobre o consumismo desenfreado e a atuação de gângsteres na época da Lei Seca.

The Great Gatsby for NES é um suposto emulador de um jogo feito para Nintendo por volta dos anos 1990. Segundo o autor do site que disponibiliza o game, ele pagou 50 centavos por um protótipo em uma venda de garagem. “Depois de tirar o pó do meu NES, em vinte minutos ele funcionou e, Jesus, que estranho! Era uma versão não lançada de um cartucho japonês chamado Doki Doki Toshokan: Gatsby no Monogatari, mas eu não encontrei nada a respeito”, comenta.

O game é interessante. Joguei a primeira fase, em que Nick Carraway deve recolher moedas, matar garçons e encontrar Jim Gatsby em uma de suas luxuosas festas. Divertido para passar o tempo, The Great Gatsby for NES é um prato cheio para os fãs de jogos old school e de literatura.


Gol de letras

Edney Silvestre talvez seja um bom lateral esquerdo. Bernardo Carvalho tem cara de quem faz suas firulas no meio-campo. Michel Laub pode até ser um cabeceador primoroso. Joca Reiners Terron deve ficar plantado na banheira. Todos esses craques das letras e outros nomes igualmente campeões estão na edição 2010/2011 da Copa de Literatura Brasileira (CLB), ideia que Lucas Murtinho nacionalizou a partir do Tournament of Books, do site The Morning News.

Ao contrário do Brasileirão, a CLB não funciona por pontos corridos. As 16 obras brasileiras escolhidas para a competição se enfrentam em oito jogos mata-mata. Os oito melhores seguem para as quartas-de-final, os quatro vencedores para a semifinal e, então, os dois invictos se enfrentam na finalíssima — sem a narração de Galvão Bueno. Quem decide o vencedor de cada jogo é um jurado previamente escolhido. Nesta Copa, o árbitro elege quem segue adiante e quem cai (como em alguns campeonatos de futebol ao redor do mundo). O vitorioso na final da peleja literária não ganha prêmio algum, exceto o título — o que, convenhamos, já é grande coisa se pensarmos que o campeão derrotou nomes de peso da literatura brasileira.

Em 2007, o campeão foi Luiz Antonio de Assis Brasil com o seu Música Perdida; na edição seguinte, Cristovão Tezza conquistou o título com O Filho Eterno; na Copa de 2009, Carola Saavedra levantou o caneco com Flores Azuis. Nesta edição, para quem você vai torcer? Confira os participantes, escolha um e vista a camisa do seu… livro.

Oitavas de final

JOGO 1

Como desaparecer completamente,
de Andre de Leones (Rocco, 2010)
x
Olhos secos,
de Bernardo Ajzenberg (Rocco, 2009)

Jurado: Marcos Vinícius

JOGO 2

O filho da mãe,
de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras, 2009)
x
Se eu fechar os olhos agora,
de Edney Silvestre (Record, 2009)

Jurado: Fabio S. Cardoso

JOGO 3

Azul-corvo,
de Adriana Lisboa (Rocco, 2010)
x
Hotel novo mundo,
de Ivana Arruda Leite (Editora 34, 2009)

Jurado: Mauricio Raposo

JOGO 4

Do fundo do poço se vê a lua,
de Joca Reiners Terron (Companhia das Letras, 2010)
x
Os malaquias,
de Andrea Del Fuego (Língua Geral, 2010)

Jurado: Eric Novello

JOGO 5

Uma leve simetria,
de Rafael Bán Jacobsen (Não Editora, 2009)
x
Algum lugar,
de Paloma Vidal (7Letras, 2009)

Jurado: Vinicius Castro

JOGO 6

Outra vida,
de Rodrigo Lacerda (Alfaguara, 2009)

x
O gato diz adeus,
de Michel Laub (Companhia das Letras, 2009)

Jurada: Tamara Sender

JOGO 7

Sinuca embaixo d’água,
de Carol Bensimon (Companhia das Letras, 2009)

x
Elza, a garota,
de Sérgio Rodrigues (Objetiva, 2009)

Jurado: Lucas Murtinho

JOGO 8

Nada a dizer,
de Elvira Vigna (Companhia das Letras, 2010)
x

O livro dos mandarins,
de Ricardo Lísias (Alfaguara, 2009)

Jurado: Kelvin Falcão

Quartas de final

JOGO 9

Vencedor do jogo 1 x Vencedor do jogo 2

Jurado: Bernardo Brayner

JOGO 10

Vencedor do jogo 3 x Vencedor do jogo 4

Jurado: Antônio Xerxenesky

JOGO 11

Vencedor do jogo 5 x Vencedor do jogo 6

Jurado: Leandro Oliveira

JOGO 12

Vencedor do jogo 7 x Vencedor do jogo 8

Jurada: Simone Campos

Semifinais

JOGO 13

Vencedor do jogo 9 x Vencedor do jogo 10

Jurado: Carlos André Moreira

JOGO 14

Vencedor do jogo 11 x Vencedor do jogo 12

Jurado: Dr. Plausível

Final

JOGO 15

Vencedor do jogo 13 x Vencedor do jogo 14

Jurados: Todos + Fernando de Freitas Leitão Torres


Um mundo de Lolita

O autor e tradutor alemão Dieter E. Zimmer há muito mantém um fascínio por Lolita, obra-prima de Vladimir Nabokov. Tanto que resolveu fazer uma exposição on-line das capas de Lolita publicadas em 33 países. Covering Lolita traz 154 peças, desde a primeira capa (da edição francesa de 1955) até uma edição alemã chamada Wirbelsturm Lolita (em tradução livre, “O Furacão Lolita”), de 2008. Algumas são medonhas, como as capas das edições turca de 1959 e francesa de 1963.

Duas das peças são brasileiras. Posso estar enganado, mas creio que saíram quatro edições no Brasil, sendo três pela Companhia das Letras — duas convencionais e uma de bolso –, além de uma edição que integrou a coleção da Folha.

As capas que mais gostei são as das edições italiana, de 1969, e alemã, de 1974 (ao lado).

Quem não conhece Lolita, pode ler um trecho aqui.

(Dica marota de Luiz Gustavo Leme, fotógrafo peralta e leitor compulsivo de Julia, Bianca e Sabrina.)


O sexo ruim vem da Irlanda

Rowan Somerville: nenhuma diferença entre fazer sexo e alfinetar borboletas.

“Sexo é como pizza: mesmo ruim é bom”, certo? Não na literatura. Pergunte ao escritor irlandês Rowan Somerville. Ele é o vencedor da 18ª edição do Bad Sex in Fiction Award, prêmio da tradicional revista Literary Review concedido ao autor que teve a cara de pau de publicar a pior passagem sobre sexo no ano. Em 2010, seu livro The Shape of Her (que ainda não chegou ao Brasil, mas cujo título seria algo como “O Formato Dela”) foi a obra com a descrição mais bizarra:

Like a lepidopterist mounting a tough-skinned insect with a too blunt pin he screwed himself into her.
(Em tradução livre, “Como um lepidopterologista prendendo um inseto de pele dura com um alfinete muito grosso, ele se atarrachou dentro dela”. Para quem se pergunta o que raios é um lepidopterologista: é o cientista que estuda mariposas e congêneres.)

É a primeira vez que a Irlanda leva o troféu de pior sexo na literatura desde o lançamento do prêmio, em 1993. Por enquanto, os ingleses somam a maioria dos títulos: 11; EUA têm três; Escócia, dois; Índia, um. E não é apenas peixe pequeno que enfeia o sexo, comparando-o a coisas esdrúxulas — na lista dos laureados estão Norman Mailer (2007) e Tom Wolfe (2004), para citar os dois mais conhecidos no Brasil.

É bom lembrar que uma descrição de sexo malfeita não torna a obra ruim. Assim que chegou às livrarias gringas, The Shape of Her recebeu boas críticas. Mas a Literary Review é como uma mulher mal comid… digo, mal amada. Não importa se o cara é bom sujeito, se tem algum talento e é um bom provedor: ela fala mal do sexo que tem em casa invejando a vida sexual da amiga do lado. Para “celebrar” a conquista, Rowan Somerville escreveu um post no blog de literatura do Guardian. Abaixo, trechos do texto, uma mistura de fúria e gratidão.

Na última segunda-feira, eu estava em Paris quando a Literary Review me mandou um e-mail com a notícia irritante que eu era o favorito para “vencer” o prêmio Bad Sex 2010. “Que honra”, disse com sarcasmo, feliz por haver uma barreira internacional, um canal d’água e 950 anos de sangue ruim entre mim e esta desonra não bem-vinda. (…) Se seguiram a isso e-mails de desespero crescente, culminando na notícia de que eu era de fato o… bem… vencedor.

Que saco, pensei. Eis The Shape of Her, altamente recomendado por pesos-pesados da crítica literária como Guardian, Irish Times , Economist e muitos deles, inclusive o respeitado Boyd Tonkin do Independent, apontando para o tratamento dado ao sexo na obra como um mérito particular… e ainda assim essa revistinha que mal é conhecida além deste prêmio decide me tornar infâme como um escritor que não consegue escrever sobre sexo.

É bem difícil de engolir. Leva-se anos para escrever um romance e, se você for sério em relação ao que faz, muito sacrifício. Mas apesar das críticas excelentes, The Shape of Her não vendeu bem: para ser honesto, o livro tinha desaparecido. (…)

Apesar da afirmação da revista de que “é apenas uma brincadeira”, há uma atmosfera de bullying peculiar às escolas públicas. Se você se recusa a aparecer na cerimônia, como fez o excelente Sebastian Faulks, eles o criticam por anos. Mas todos nós sabemos o que deve ser feito com os que praticam bullying, então subi no trem e me apresentei ao Army and Navy Club, no St. Jaimes’s Square, na noite de segunda-feira, às 8.

(…)

Sou anunciado como vencedor e aperto a mão do franzino Michael Winner e encaro o público. Tenho em mente algumas palavras para dizer a eles sobre o quão grotesco é isso… mas quando olho os rostos à minha frente, fica claro que seria uma perda de tempo. Elas são apenas pessoas que estão ali para se divertirem, nem mais, nem menos. Por isso, em vez do que havia imaginado dizer, digo: “Não há nada mais inglês do que sexo ruim. Então, em nome de uma nação, eu agradeço”, e saio do palco com com um sorriso.

(…)

Sejamos francos: este prêmio ridículo colocou meu romance de volta aos jornais e websites ao redor do mundo e, embora o editor interino da revista tenha me enviado um e-mail perguntando se eu tinha gostado da festa e eu tenha respondido “tanto quanto uma visita televisionada a um proctologista”, não creio que essa publicidade fará mal a mim ou ao livro. Então, embora isso me surpreenda, eu sou muito grato a eles.

Para você, leitor do Substantivo Masculino, que livro brasileiro deveria entrar na lista de obras com as piores passagens de sexo? Escreva aí nos comentários sua resposta. Quem sabe a gente não faz o nosso próprio prêmio!


Uma história em várias mãos, com Tim Burton

Exquisite corpse, em tradução livre, significa “cadáver requintado”. Mas o termo também designa a técnica usada para escrever uma história de maneira colaborativa, onde um escreve um trecho, o outro complementa e assim por diante. Tanto na tradução mórbida como na explicação suave, ninguém melhor para incorporar o termo que o escritor e cineasta Tim Burton, pai do Edward Mãos-de-Tesoura, da Noiva Cadáver e homem que deu um tom sombrio a Alice no País das Maravilhas. Sua nova empreita é um exquisite corpse – em ambos os sentidos.

Tim Burton’s Cadavre Exquis é a experiência de escrever uma história em várias mãos. O cineasta lançou a primeira frase – “Stainboy, using his obvious expertise, was called in to investigate mysterious glowing goo on the gallery floor”. A partir dela, usuários do Twitter complementam a narrativa com uma frase e a hashtag #BurtonStory. Tim Burton – o próprio! – escolhe as melhores frases do dia e vai tecendo o texto.

A história segue até o dia 6 de dezembro. Se você tem um inglês afiado e uma mente fértil, fica aqui o convite. Por ora, a história está com 14 colaborações, assim:

[1] Stainboy, using his obvious expertise, was called in to investigate mysterious glowing goo on the gallery floor [2] He felt his heart pounding hard against his ribs. As he bent down, he saw his own reflection on the surface of the puddle. [3] Withholding his breath, he lightly poked the surface of the puddle. The surface shifted strangely, slowly spinning into action. [4] Stainboy took a step back as the goo continued to spin faster and faster. A sharp cold wind whipped round the room. [5] The chandelier swung, the art on the walls shook against the walls, and the goo began to take form. [6] Slowly beginning to encircle Stainboy, the gelatinous mountain of goo looked almost familiar. [7] Stainboy’s eyes narrowed as he tentatively lifted his hand towards the goo, allowing it to hover inches from the surface. [8] Suddenly the goo sprang up, covering his hand. Stainboy tried to pull away but the harder he fought, the stronger it got. [9] The goo pulled him closer and closer. He suddenly realized why the goo looked strangely familiar. [10] But how did the goo end up on the gallery floor? And more importantly, why? [11] It clung tightly to him, he could feel the chill of the gelatinous goo creep up his arm, true to his nature he did not panic. [12] A plan was what he needed. Stainboy had always been the curious type, but right now, he had no desire to wait and see. [13] As the goo continued to engulf his body, Stainboy noticed the chandelier, now swinging furiously. Could he reach it? [14] Stainboy reached up as high as his arm would allow, the goo keeping him just inches out of reach of the chandelier.

(Peguei a dica do blog da sempre atenta Raquel Cozer, A Biblioteca de Raquel.)