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Substantivo Masculino

por Tiago Lopes

O blog de literatura da VIP. Porque nem só de orgias, bebedeiras e jogatinas vive um homem.



Aldous Huxley: um profeta anarquista

Em sua obra máxima, Admirável Mundo Novo, o inglês Aldous Huxley descreveu, em 1932, uma sociedade futurista pautada pela ordem excessiva — desde o controle genético por gerações ao condicionamento mental em prol de uma suposta harmonia plena.

Uma pílula da felicidade. A religião tida como artifício do ignorante. Fertilização in vitro. Lavagem cerebral por meio da propaganda. Tais eram ferramentas de controle social que propunham uma felicidade ilusória em que nada se questiona. Conflitos e dúvidas não faziam parte do cotidiano de tal civilização, cujas ansiedades eram controladas quimicamente pelo soma, uma droga que extirpa os indícios de insatisfação. Com todos os homens felizes — ou induzidos à felicidade –, o controle sobre a sociedade é infinito, pois se restringem as escolhas da vida.

Algumas de suas previsões são realidade hoje. Ainda que nos droguemos em busca de uma certa felicidade, ainda que possamos procriar por meio de tubos de ensaio, ainda que nos deixemos seduzir pela ideia panfletária de ordem para o progresso, o futuro proposto por Huxley é catastrófico. No processo evolutivo, as dúvidas, os medos, os credos, os conflitos têm um papel fundamental. O homem é o que é devido às indagações de gerações anteriores. Ou seja, de forma resumida e até mesmo ingênua, a curiosidade que matou o gato fez sobreviver o homem.

Talvez você, leitor, extraia outras lições de Admirável Mundo Novo. O que eu aprendi diz muito sobre a dádiva da anarquia (moderada, claro) e sobre sempre ir além do que se mostra por aí. É duvidar da ordem em demasia, do condicionamento perpetrado pelo sistema. Ou, como dizem hoje em dia, “pensar fora do quadrado”. Amanhã, 22 de novembro, é aniversário de 47 anos da morte de Aldous Huxley. Que sua mensagem perdure por gerações, por séculos depois de Ford.

Achei este trecho do documentário End Game, de Alex Jones. Trata-se de um discurso de Aldous Huxley sobre a ditadura científica do futuro retratada em Admirável Mundo Novo.


Taxi Driver, o livro

A Taschen acaba de lançar um livro sensacional para os fãs de um bom filme. Trata-se de Schapiro, Taxi Driver, obra que traz imagens sobre o filme Taxi Driver, rodado em 1976, sob a batuta do genial Martin Scorsese. Steve Schapiro, fotojornalista que fez o trabalho do pôster do filme na época, retratou os bastidores deste clássico durante as filmagens. São 328 páginas repletas de imagens — das quais 95% nunca foram publicadas antes — com toda a loucura do veterano da Guerra do Vietnã e taxista inconformado Travis Bickle (Robert De Niro),  a pureza perdida da prostituta de 12 anos Iris (Jodie Foster) e a cabo eleitoral por quem Travis tem uma queda, Betsy (Cybill Shepherd). Para quem tem uma grana de sobra — afinal, é um investimento de 700 dólares –, esta é uma dica bem bacana.

Eu já escrevi um post sobre livros que se tornam filmes, mas nunca havia pensado no inverso: filmes que se tornam livros — em fotos ou mesmo em textos. Na minha opinião, Cães de Aluguel daria um bom livro; Avatar não. E para você? Que filmes resultariam numa boa obra literária? E quais aqueles que não seriam dignos de preencher uma folha de papel?

(Dica do Gustavo Bacan, nosso editor de arte.)


O Rei deveria estar nu

Será que nem toda história pode ser contada assim, em páginas de livro? É verdade que alguns personagens simplesmente não cabem no papel, nas palavras? Aparentemente, qualquer esforço, por maior que fosse, seria inútil para traduzir o Rei Pelé, que completa hoje 70 anos. Por isso compartilho do sentimento de Mauricio Stycer:

Há dezenas de livros sobre Pelé, além de centenas – sobre outros personagens – que contam histórias a respeito do craque. Há dois grandes documentários (…), além de uma infinidade de programas jornalísticos e filmes que relatam a sua história. Por que, apesar de tudo isso, tenho a sensação que não conheço Pelé direito?

Edson Arantes do Nascimento é o “desconhecido” mais ilustre do Brasil. Sabe-se muito a respeito dos seus feitos dentro das quatro linhas, e muito pouco sobre sua vida. Não houve, infelizemente, alguém que se devotasse a escrever sua biografia “definitiva”. Talvez porque ela seja impossível de ser escrita com a mesma genialidade com a qual o Rei conduzia a bola pelos gramados.

Torço pelo dia em que teremos uma biografia de Pelé, que remonte a época dos ensinamentos do pai Dondinho, também jogador, em Três Corações, Minas Gerais; que refaça a viagem do garoto e sua família até Bauru; que rememore o convite ao moleque de 15 anos para treinar no Santos Futebol Clube.

Seria injusto, contudo, alegar que não há boas obras no mercado. Principalmente em imagens e fotografias. O melhor exemplo é Pelé – Minha Vida em Imagens (Cosac Naify, 100 páginas, 109 ilustrações). Pela narração do próprio Edson, Pelé se mostra em fotografias — algumas inéditas, como uma em que aparece tocando violão numa espreguiçadeira. Além disso, a obra é repleta de relíquias, como a primeira carteirinha de jogador na Liga Bauruense de Esporte, de 1956, e o ingresso do seu último jogo (Cosmos x Santos, em 1o de outubro de 1977). Outro ponto forte é a relação de todos os 1.367 jogos de Pelé como profissional, nos quais marcou 1.283 gols. Isso desmente a versão anterior, de que Pelé teria participado de 1.363 jogos, e feito 1.281 gols.

Mas convenhamos, o texto que ilustra as imagens (e não o contrário) nada tem de novidade, sendo uma mera tradução da autobiografia de Pelé feita por um ghost-writer e publicada pela editora inglesa Simon & Schuster há alguns anos. Neste aniversário de 70 anos, algum biógrafo brasileiro competente poderia pensar em presentear os brasileiros — e todos os fãs de futebol do mundo — com uma obra textual digna do Rei. Ou será que a língua perde o peso e o valor diante de um grande homem, uma lenda?

(Imagens: Reprodução do livro Pelé – Minha Vida em Imagens/Cosac Naify)


Livros em um cinema perto de você

Semana passada eu assisti a um filme bem bacana que logo chegará aos cinemas. Trata-se de Malu de Bicicleta, uma competente adaptação do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, sob a direção de Flavio Tambellini. É um romance, mas sem todo aquele açúcar que atrai as (muitas) mulheres carentes. É romance para homem. Sobre o filme, falarei mais na revista VIP de dezembro.

Toquei neste assunto porque, ao fim de Malu de Bicicleta, tive aquela mesma sensação que me tomou de assalto nos créditos finais de Cabeça a Prêmio, filme dirigido por Marco Ricca, baseado na obra homônima de Marçal Aquino e lançado no último agosto. Os dois filmes são igualmente bons, bem feitos, com histórias que escapam da tríade favorita do cinema nacional: nordeste, favela e, mais recentemente, espiritismo. Cada um com seu enredo, claro, mas além de fugirem do lugar-comum, eles têm duas semelhanças: 1) ambos são adaptações de bons livros brasileiros, o que não é empreitada fácil; e 2) apesar de filmes muito bons, trazem-me à mente aquela velha pergunta: o livro é melhor que o filme?

Entre 2009 e 2010, me peguei com esta indagação algumas vezes, principalmente quando assisti A Morte de Quincas Berro D’Água, O Bem Amado e Budapeste. Todos com seus méritos, diga-se, mas seriam tais filmes capazes de emprestar do espectador as mesma emoções que a obra impressa?

Escrever é uma arte. Adaptar é outra. Cada uma tem as suas peculiaridades, obviamente. Falei com um mestre em ambos os ofícios, Marçal Aquino, para saber o que ele pensa.

Quais foram as dificuldades ao colaborar na adaptação de Cabeça a Prêmio para o cinema?
Foram as de sempre: encontrar as formas específicas de transformar em linguagem audiovisual aquilo que pertencia à linguagem literária, atendendo às necessidades e propostas do diretor.

Você também adaptou, entre outros, O Cheiro do Ralo, livro de Lourenço Mutarelli, em companhia do diretor Heitor Dhalia. É mais complicado adaptar a própria obra ou a de um outro escritor?
Pessoalmente, não vejo muita diferença entre trabalhar na adaptação de um texto próprio ou de outro autor. O importante, no caso, é não respeitar em excesso a matriz literária, já que o essencial é atender às necessidades específicas do roteiro. Fidelidade não é um valor a ser observado quando se fala em adaptar um livro pro cinema. O importante é estabelecer um diálogo com a obra literária.

É comum a gente ouvir que “o livro é melhor que o filme”, por melhor que o filme seja. A que se deve isso?
Sou escritor. Então, para mim, o livro vai ser sempre melhor que o filme. Fora isso, livro é livro, filme é filme. São linguagens distintas. Adaptar é, sim, trair a obra original.

Quais as melhores adaptações já realizadas?
Há várias adaptações de obras literárias pro cinema de que gosto muito, tanto aqui no cinema brasileiro quanto no estrangeiro. São Bernardo, do Leon Hirszman, é exemplar na captação da essência do universo e, mais que isso, da voz do Graciliano. Cidade de Deus é um trabalho espetacular; o livro do Paulo Lins tem múltiplas possibilidades, é dureza abordar aquilo. E Lavoura Arcaica, pela ousadia do Luiz Fernando Carvalho, que, para mim, realizou a mais literária das adaptações já feitas pelo cinema brasileiro. A Insustentável Leveza do Ser, do Philip Kaufman, é muito interessante, assim como, mais recentemente, Onde os Fracos Não Têm Vez, a belíssima adaptação que os irmãos Coen fizeram do romance do Cormac McCarthy.

E as piores?
De adaptações ruins, o mundo está cheio, mas nunca me lembro delas. Esquecer também é necessário.