Para começar

A gente nunca esquece a primeira namorada, a primeira transa, o primeiro carro, o primeiro porre, o primeiro pé na bunda, o primeiro tudo. Para o bem e para o mal, toda estreia deixa marcas. Este é meu primeiro post. Espero que ele seja tão bom quanto minha primeira namorada.
Terminado o primeiro parágrafo. As primeiras linhas. Para o começo do Substantivo Masculino, apropriei-me — descaradamente, aliás — da ideia do colega de casa Sérgio Rodrigues, do blog Todoprosa da VEJA. Sérgio é, na minha opinião e entre muitas qualidades que lhe cabem, o maior colecionador de começos do Brasil. Explico: há mais de quatro anos, desde que mantinha seu espaço no finado NoMínimo, Sérgio brinda seus leitores com os melhores começos de obras da literatura universal. Achei a ideia pertinente para este primeiro post. Por isso, vasculhei alguns livros da minha biblioteca e separei três começos que são brilhantes.
Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável.
O começo do último livro do austríaco André Gorz, Carta a D. (Cosac Naify, 78 páginas), é marcante pela profundidade sentimental resumida em poucas palavras, o que viria a calhar hoje em dia, tempos de relacionamentos com até 140 caracteres. O livro todo é uma declaração de amor a Dorine, companheira do escritor por quase 60 anos. Nada tem de ficção: a paixão tão real quanto a doença degenerativa da amada. Tanto que Gorz, ao perceber que a vida de Dorine logo chegaria ao fim, se suicidou junto à mulher em 2007.
Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu-da-boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.
Eu me lembro da minha fascinação quando terminei de ler pela primeira vez a obra-prima de Vladimir Nabokov, Lolita (Companhia das Letras, 360 páginas). A história de Humbert Humbert, um professor de meia idade que cai de amores pela enteada de 12 anos, mistura a loucura de um homem diante da mulher proibida. O enredo é perverso; Humbert Humbert, doentio. Ainda assim, a narrativa é refinada ao ponto de fazer os leitores se compadecerem com a dor e a angústia do pobre diabo. O começo do livro é de uma sensualidade elegante, o que é bastante raro tanto na ficção quanto fora dela, no mundo real.
No dia seguinte ninguém morreu.
As Intermitências da Morte, de José Saramago (Companhia das Letras, 208 páginas) não é exatamente o melhor livro do português Nobel de Literatura. Parece que se divide em duas partes: a primeira, quando os cidadãos deixam de morrer e o caos da eternidade se instaura na região, e a segunda, quando a Morte se materializa. Ainda assim, é superior à maioria dos livros que saem hoje em dia. Acostumado a frases longas, com pontuação incomum aos olhos menos treinados, e a parágrafos que se arrastam por páginas e mais páginas, a concisão de Saramago em “No dia seguinte ninguém morreu” destoa do normal. Contudo, estas cinco primeiras palavras têm o poder de causar um grande impacto na cabeça do leitor que se dispõe a refletir: “Já imaginou se houvesse um dia em que ninguém morresse?”
Há várias outras obras cujas primeiras linhas atraem o leitor. Na sua opinião, quais outros começos de livros merecem destaque?










