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Substantivo Masculino

por Tiago Lopes

O blog de literatura da VIP. Porque nem só de orgias, bebedeiras e jogatinas vive um homem.



Antonio Prata tem uma fazenda de formigas

[CAPA] Meio Intelectual, Meio de EsquerdaEu não entendo algumas coisas. Dentre as minhas incompreensões, estão a mente feminina durante a TPM, a mente feminina fora da TPM, a cobrança de juros sobre juros, pessoas que fazem corações com as mãos, a conversa sobre o clima com um estranho no elevador e “onde raios foi parar o outro pé da meia, porra?” Fato é que as questões mundanas me fascinam mais do que a busca por respostas corretas para perguntas filosóficas como “de onde viemos” ou “para onde vamos”.

Por preferir os mistérios do mundo, admiro Antonio Prata. Seus textos no blog no Estadão me lembram uma fazenda de formigas. Com uma diferença: as formigas somos nós. Do lado de cá do vidro, corremos de lá para cá, sem propósito aparente; do lado de lá, Antonio escreve nossa insanidade diária com a mesma disposição de um garoto prestes a apanhar uma lupa e queimar as pobres formigas.

O resultado dessa brincadeira — nós, formigas; Antonio, moleque curioso e endiabrado — pode ser conferido em Meio Intelectual, Meio de Esquerda, coletânea de textos que sai este mês pela Editora 34. São 78 crônicas que vão desde a luta de classes nos botecos sujos da vida até a cultura do banheiro público rabiscado, passando pela vizinha que curte YMCA e que nunca é vista no prédio e pela falta que uma coifa faz. Eu só posso ter respeito por um escritor que fala sobre tudo, inclusive coifas.

Eu li uma crônica do Fabrício Corsaletti, A Avó do Antonio Prata, em que ele te liga para propôr um tema para crônica. É comum o pessoal fazer isso?
Não é comum. O Fabrício é muito amigo meu e a gente fala muito de literatura. Às vezes ele me manda textos dele, às vezes eu mando pra ele… Engraçado é que esse telefonema gerou Domingo [uma das crônicas do livro], que começa falando que o Fabrício me ligou. É aquela ligação.

É impressão minha ou você realmente é irônico?
O humor é a ferramenta que eu mais uso e a ironia é uma maneira enviesada de encarar a realidade. Mas o meu interesse pela ironia é sempre por aquela ironia que nos ajuda a lidar com as coisas. Nada cáustico.

Quais foram os critérios para a seleção de crônicas publicadas em Meio Intelectual, Meio de Esquerda?
Qualidade mesmo. Primeiro eu selecionei todas as crônicas que escrevi — mais de 300 — e depois reduzimos para umas 60. O critério foi o seguinte: se alguma crônica balançasse, a gente derrubava. Tudo o que era médio a gente tirou.

O que pode ser tema de crônica?
Qualquer coisa. As pessoas acham que a maior dificuldade é achar um tema, mas o trabalho é maior para achar um enfoque do tema. Qualquer coisa pode virar crônica. As que eu começo sem noção de onde vão parar são as melhores. Você começa falando de uma coisa e termina falando de outra. As melhores são aquelas em que eu não sei o tema.

Mas o que mais te fascina? O sofá boiando no rio ou a mulher desconhecida por quem se apaixona no bar?
Sou mais o sofá. [Risos] Me interessa mais o absurdo das pequenas coisas, o que é sem sentido, aquilo que passa despercebido.

TRECHO: Baixe a crônica A Gostosa, da coletânea Meio Intelectual, Meio de Esquerda, de Antonio Prata.

EM TEMPO: Lançamento e sessão de autógrafos de Meio Intelectual, Meio de Esquerda, de Antonio Prata (Editora 34, 2010)
Local: Centro Cultural Rio Verde (Rua Belmiro Braga, 181 – Vila Madalena – tel. 11-3459-5321)
Data e horário: 9 de novembro de 2010, das 19h00 às 22h30


140 #1 [10-16/10/2010]

(Textos postados por seus autores entre os dias 10 e 16 de outubro. Siga no Twitter Millôr Fernandes, Fabricio Carpinejar, Vanessa Barbara, Xico Sá, Marcelo Rubens Paiva, Rafael Grampá, Veronica Stigger, Antonio Prata, Michel Laub e Joca Reiners Terron.)