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Substantivo Masculino

por Tiago Lopes

O blog de literatura da VIP. Porque nem só de orgias, bebedeiras e jogatinas vive um homem.



Talese e a Máfia

Na edição da revista VIP que está nas bancas, tem um texto meu sobre Honra Teu Pai, obra-prima no estilo new journalism sobre a Máfia em Nova York no meio do século XX. Aclamado desde sua publicação em 1971, Honra Teu Pai foi o primeiro livro-reportagem a escancarar as intimidades da Máfia. Com uma escrita precisa e elegante, Gay Talese dedicou aproximadamente sete anos entre pesquisas, entrevistas e trabalho de campo — ou seja, convivendo com mafiosos como Bill Bonanno, filho do poderoso chefão Joseph Bonanno.

Joseph Bonanno, protagonista de Honra Teu Pai

Não se trata de um livro sobre tiroteios, dinheiro sujo e negócios com cheiro de sangue. Para mim, Honra Teu Pai é menos ação e mais drama. Por exemplo: depois do desaparecimento do pai, Bill deve encarar uma guerra contra os companheiros mafiosos, todos ávidos pelo lugar de Joseph. Mas mais que mostrar quem dá as cartas no mundo do crime de Nova York, Bill deve lutar consigo mesmo para decidir se deseja continuar o legado do pai.

Uma nova edição do livro — publicado pela primeira vez no Brasil com o título Os Honrados Mafiosos (Expressão e Cultura, 1972) um ano depois de sair nos EUA — acaba de chegar pela Companhia das Letras. Você pode ler um trecho aqui. Entrevistei Gay Talese para a ocasião — coincidentemente no dia em que Joseph Massino, ex-líder da família Bonanno condenado a prisão perpétua em 2004 acusado de oito assassinatos, entrou para a história ao ser o primeiro chefão de NY a colaborar com os federais e falar em um tribunal sobre as atividades criminosas da organização como testemunha do governo. A conversa com Gay Talese não coube na integra lá na revista. Por isso, publico agora o bate-papo em sua versão “uncut”.

De onde veio seu interesse em escrever sobre a Máfia?
Eu me interessei em escrever sobre a Máfia porque meu pai sempre disse que a Máfia não existia, que era uma invenção da imprensa e do FBI. Meu pai era um italiano orgulhoso da sua nacionalidade que ressentia ver seu país descrito como uma terra de gângsteres. Ele acreditada que a imprensa americana tinha interesse na história da Máfia porque isso vendia jornais. E mesmo que isso seja verdade, eu queria contar a verdade sobre a Máfia. Ela realmente existia? Sua existência foi exagerada pela mídia e pelo governo dos EUA para justificar o aumento de verbas destinadas a forças da lei? A imprensa americana constantemente insulta ítalo-americanos de bem ao reportar as batalhas ações e intrigas da Máfia em cidades como Nova York e Chicago? De qualquer forma, em 1965, durante meu último ano como repórter do New York Times, eu encontrei Bill Bonanno, filho do chefe da família Bonanno, Joseph, e isso chamou a atenção para perseguir minha curiosidade de muitos anos atrás sobre a Máfia.

Devido às atividades criminosas da família Bonanno, houve algum momento em que o senhor temeu pela própria vida?
Sim, eu frequentemente temia pela minha vida enquanto estive com Bill Bonanno, seus companheiros gângsteres e guarda-costas. Mas eu acreditava que eu devia aceitar os riscos se quisesse a história da Máfia. Perceba que eu queria a verdade, não estava escrevendo ficção, inventando coisas da minha cabeça.

Na composição da história, desde o encontro com Bill até a publicação, qual foi o maior desafio?
A parte mais difícil ao escrever Honra Teu Pai foi minha determinação em contar a verdade sem machucar pessoas inocentes que estavam envolvidas na história. Por exemplo, a mulher de Bill Bonanno, Rosalie, e seus quatro filhos, que nem eram adolescentes quando comecei a escrever o livro, em 1971. Eles não eram criminosos; apenas se relacionavam com uma família do crime. Eram crianças que tiveram a infelicidade de ter nascido dentro de uma organização criminosa. Então eu quis escrever com muito cuidado e ponderação sobre as quatro crianças.

Por que a Máfia, uma organização criminosa, fascina tanto o público?
A história da Máfia é como um faroeste urbano, um drama sobre homens armados que dirigem carrões em grandes cidades, atirando uns nos outros, lutando por território e lucro. É como nos filmes de cowboy, com homens armados montando cavalos. Se cowboys são Clint Eastwood, Gary Cooper ou Robert Redford, milhões de pessoas ficam fascinadas. Elas respondem à ação, à fúria, à intriga, ao risco, ao aspecto da vingança e até mesmo romantizam épicos de cowboy. Isso acontece com a Máfia também.

Mas há algo que podemos de fato admirar na Máfia, como honra?
Honra? Sim, honra é parte da mensagem. Como também é a perda dela. Hoje mesmo um chefe da família Bonanno, Joseph Massino, está demonstrando uma falta de honra ao falar abertamente no tribunal sobre suas atividades criminosas. Na época em que Joseph Bonanno era o chefe, a ormeta [o código de silêncio da Máfia] era estritamente forçada. Mas seu filho, Bill, violou este código ao falar comigo. Eu fui o primeiro escritor a conseguir que um homem da Máfia falasse abertamente sobre a vida no crime. E hoje nós temos outro exemplo: Joseph Massino. O que isso indica? Indica que as regras de disciplina estão ficando cada vez mais fracas no decorrer do tempo. As gangues italianas não são mais como costumavam ser em décadas passadas. Nos velhos tempos, quando meu pai dizia que a Máfia não existia, a Máfia se calava sobre sua própria existência. Ormeta era de fato uma regra.

E como é a situação hoje?
Os novos mafiosos não são bem organizados. Eles não estão juntos como costumavam estar. Quando eu era um jovem reporter, na década de 1960, os ítalo-americanos eram uma minoria nos EUA. Eles se casavam entre si, eram católicos, vistos como “de fora”. A Máfia era underground. Agora os ítalo-americanos são assimilados e a nova minoria nos EUA são os muçulmanos. Não existe uma Máfia muçulmana, pelo que sabemos. Mas e se no future surgir uma Máfia muçulmana? Muçulmanos são tidos como terroristas, por mais injusto que isso seja. Recentemente tivemos uma audiência no congresso sobre muçulmanos na América e se eles eram uma ameaça. Isso me lembrou que gerações atrás havia audiência no congresso sobre criminosos ítalo-americanos.


Da revista: dezembro*

Keith, o indestrutível
O stone gente boa abre o arquivo de drogas e outros abusos

Aos 66 anos e ainda na ativa, Keith Richards é o ser humano mais cotado para sobreviver ao apocalipse, junto com as baratas. Com quase meio século de Rolling Stones cravado nos calos que carrega nos dedos, o guitarrista acumula histórias do nascimento do rock e, em especial, da banda que influenciou gerações. Em seu novo livro de memórias, Vida (Globo Livros, 672 páginas, R$ 49,90), Keith repassa suas lembranças – aquelas que sobreviveram às drogas – sobre momentos públicos ou pouco conhecidos dos Rolling Stones, como a turnê de 1972 apelidada de Alvorecer de Cocaína e Tequila e o tempo em que os ingleses da banda ficaram hospedados na mansão Playboy. Excelente livro para quem curte os bastidores imundos do rock. Confira um trecho:

“Eu atribuo minha sobrevivência não apenas à máxima qualidade das drogas que eu tomava. Eu era muito meticuloso em relação à quantidade. Eu nunca usaria um pouco mais para ficar mais chapado. É aí que a maioria das pessoas se f*de com as drogas. A ganância nunca me afetou.”

***

Inspire-se no maior ator anti-hollywoodiano
Biografia de Paul Newman revela um homem avesso à badalação do cinema e bem-sucedido em tudo

Paul Newman: Uma Vida (Agir, 496 páginas, R$ 59,90), nova biografia do crítico Shawn Levy, mostra as facetas do homem que se deu bem no cinema, no automobilismo e até mesmo na indústria alimentícia. E que, de quebra, foi um grande filantropo. Veja três “gols” de Paul Newman que você não encontra nas locadoras:

  1. Apesar do sucesso no cinema, em filmes como Rebeldia Indomável, Butch Cassidy e A Cor do Dinheiro, Paul Newman ganhou mais dinheiro com sua empresa alimentícia. Mas todo o lucro da Newman’s Own era revertido à caridade. Estima-se que, em 25 anos de filantropia, Paul tenha doado quase meio bilhão de dólares a instituições criadas por ele, como colônias de férias para crianças com câncer.
  2. Galã de Hollywood, poderia aproveitar o farto mundo de sexo, drogas e rock’n’roll característico dos bastidores da indústria cinematográfica. Contudo, Newman preferiu se manter afastado dos holofotes e da badalação e foi morar no outro lado dos EUA, em Connecticut, onde viveu por meio século ao lado de Joanne Woodward, sua segunda mulher.
  3. Newman tinha mais de 40 anos quando decidiu levar o automobilismo a sério. Participou de provas como 24 Horas de Le Mans e 24 Horas de Daytona. Apesar da idade e do problema de daltonismo, conquistou quatro títulos nacionais e duas vitórias como piloto profissional, além de outros oito títulos nacionais e quase 200 vitórias à frente de sua equipe, a Newman-haas Racing.

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Outros lançamentos

Nada me Faltará
Lourenço Mutarelli | Companhia das Letras
136 páginas | R$ 37

Só com diálogos, sem descrições, Lourenço Mutarelli mantém o tempo suspenso em todas as páginas de Nada me Faltará. Após um ano sumido, Paulo reaparece. Mas, para ele, nada aconteceu – o tempo não passou. Ele não tem vontade de trabalhar, de sair, nem saudade da mulher e da filha, também desaparecidas. A suspeita: teria ele dado fim à família? Livro de narrativa ligeira e suspense de primeira com boa dose de loucura.

Snuff
ChuCk Palahniuk | Rocco
208 páginas | R$ 32
Eis um convite para a gravação de um filme pornô histórico: uma conceituada atriz quer bater o recorde de 600 parceiros. Chuck Palahniuk leva o leitor aos bastidores da produção, a conversas com outros parceiros – como o número 137, ex-apresentador de TV, e o 72, jovem que guarda boas memórias de ver a atriz em cena – e a descrições pormenorizadas das atividades sexuais. Bem sacana… digo, bacana.

* Antes tarde do que nunca, não é?


Getúlio Vargas, esses muitos homens

Lira Neto

Lira Neto: não às existências em linha reta

Getúlio Vargas não é uma figura fácil de ser descrita. Para uns, foi o “pai dos pobres” devido à atenção dedicada aos trabalhadores — foi ele quem criou o salário mínimo e a carteira profissional, por exemplo; para outros, foi um ditador egocêntrico, alguém que perseguiu opositores e que abusou do populismo para cair nas graças da nação. Talvez pelo trabalho desumano de desconstruir sua pessoa sem paixão — apesar de algumas tentativas –, Getúlio apenas teve biógrafos que pendiam para o bem e para o mal. Deixou a vida para entrar para a História, e a História pode enganar.

O jornalista cearense Lira Neto tomou para si tal fardo e se propôs a fazer uma biografia de Getúlio, esses muitos homens. Tão logo deixou os originais de Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão na editora, passou a trabalhar na obra da vida do político gaúcho. Desde agosto de 2009 tem se debruçado a traduzir no papel aquele que foi um dos mais controversos políticos brasileiros. Esta será a sexta biografia de Lira Neto — O Poder e a Peste: A Vida de Rodolfo Teófilo (1999), Castello: A Marcha para a Ditadura (2004), O Inimigo do Rei: uma biografia de José de Alencar (2006), Maysa: Só Numa Multidão de Amores (2007) e Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão (2009). A previsão é que a obra, ainda sem data para ser lançada, seja densa como nenhuma outra do jornalista: deve ter três volumes de aproximadamente 500 páginas cada. Eu bati um papo com Lira Neto para saber mais da obra e do político.

Por que biografar Getúlio Vargas?
Getúlio é, sem dúvida, o principal personagem da história republicana brasileira. Já se escreveram centenas de livros sobre ele. Mas faltava uma biografia moderna, jornalística, a seu respeito. A ideia é justamente tentar suprir esta lacuna.

Quais aspectos da vida de Getúlio o senhor acredita que terão mais destaque na biografia, segundo a sua pesquisa até o momento?
Em se tratando de Getúlio, é difícil se falar de um período específico de sua trajetória. Pretendo ser o mais abrangente possível. Por isso mesmo, a ideia inicial é a de que deverá ser uma trilogia – e não um único volume. Interessa-me mostrar como Getúlio transformou o Brasil e como ele próprio foi sendo transformado pelas circunstâncias históricas que acabou produzindo ao longo de sua ação política. Como se trata de uma biografia, procurarei estabelecer relações entre a trajetória pública e a vida privada do personagem, em busca das explicações e das inevitáveis contradições que essas duas esferas da existência possam conter.

Em que fase o senhor está na concepção da biografia e o que acredita que será mais trabalhoso?
Sou essencialmente um repórter e, como tal, considero que o mais trabalhoso — e também o mais instigante — é o trabalho de apuração e pesquisa. Estou trabalhando na biografia de Getúlio há apenas um ano. Nesse meio tempo, concentrei-me na, digamos, “pré-história” do biografado, ou seja, no Getúlio anterior à chegada à presidência da República. É um período fascinante, este, o do Rio Grande do Sul à época da República Velha. Em tal trecho da história, há assassinatos, guerras, traições e intrigas políticas a perder de vista.

Getúlio, Padre Cícero, José de Alencar, Maysa. Como o senhor decide quem biografar? Que elementos o personagem deve ter?
Escolho meu biografados pelo potencial de contradições e controvérsias que eles encarnam. Não biografaria existências em linha reta. Gosto de personagens dúbios, enigmáticos, controvertidos, que foram amados e odiados na mesma medida. No fundo, a despeito das dessemelhanças entre meus biografados, tenho me dedicado a biografar uma única “pessoa”, desde sempre: o poder. É ele o meu alvo de investigação predileto.

Getúlio ainda é um político muito presente na vida pública. Tanto que muitos políticos contemporâneos se comparam a ele. A que se deve isso?
Getúlio soube construir uma imagem pública poderosa, com base em seu inegável magnetismo pessoal e numa eficiente máquina de propaganda política. Tenho obrigação de mostrar como isso se deu e, em que medida, isso se entranhou na sociedade brasileira.

Como o senhor se define politicamente?
Nunca me filiei a nenhum partido político. Não pertenço a nenhuma igreja ou religião. Nem escola de samba eu tenho. No futebol, aqui em São Paulo, nenhum time me mobiliza. Sou um descrente profissional.

FHC disse, antes de receber a faixa presidencial em 1994, que o legado da Era Vargas atravancava o presente do Brasil. Mais de 15 anos se passaram — oito de governo Lula — e agora vivemos a gestão da primeira mulher na Presidência, Dilma Rousseff. A Era Vargas acabou?
Por várias vezes, a chamada Era Vargas recebeu seu atestado de óbito. Mas, para o bem e para o mal, continua mais viva do que nunca.

Há previsão de quando a obra será publicada?
O que vai determinar isso é o ritmo da pesquisa e, posteriormente, da fase de escrita. Serão, no mínimo, cinco anos de trabalho, em regime de dedicação exclusiva. Parece muito. Mas, em se tratando de Getúlio, é bem pouco. Só um obsessivo como eu toparia tal desafio.


Retrospectiva: dezembro

Se você é pobre, não leia este post, pois dezembro foi um mês rico no mundo das letras. Surgiu um grande nome no panteão da literatura universal: Vera Fischer. Alguém aí duvida que sua série de livros será riquíssima, de grande valia social e de inestimável contribuição para o avanço intelectual da humanidade? Eu apostaria milhões que, em poucos anos, o nome dela será cogitado para uma cadeira na ABL. Mas como você provavelmente é pobre, não tem dinheiro para a aposta — tampouco para apreciar o beletrismo de Vera Fischer. Que pena. Terá de se contentar com José Saramago, outro nome bastante falado no meio literário mas nem tão talentoso quanto Vera Fischer. O único Nobel da literatura lusófona deve ter uma obra póstuma lançada em 2011. Confira o que aconteceu no último mês do último ano e da década.

Dia 1°: Fuvest informa que uma de suas questões está anulada. O enunciado da questão em questão (que infame!) traz quatro linhas do livro O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e lança pergunta sobre o momento histórico ao qual o trecho se refere. A resposta correta seria alguma que indicasse o período pré-abolição da escravatura, mas das cinco alternativas, nenhuma era a correta.

Dia 3: Pilar del Río, viúva de José Saramago, anuncia a publicação de obra inacabada do Nobel de Literatura em 2011. O livro está pela metade e se chama Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas. Na Feira Internacional do Livro de Guadalajara, Pilar adianta o enredo: “Um honesto pai de família vai trabalhar numa fábrica de armas, onde o trabalho consiste em fazer bem uma arma que vai matar outra pessoa.”

Dia 4: Fernando Morais, autor de Olga, Chatô e O Mago, afirma que quer escrever um livro sobre os bastidores do governo Lula. Segundo o escritor, um pedido já foi feito ao ex-presidente que, até aquele momento, nada havia respondido.

Dia 7: A famosa casa de leilões Sotheby’s anuncia que baterá o martelo para uma cópia de Aves na América, do ambientalista John James Audubon. Foram produzidos apenas 200 exemplares da obra, considerada um dos principais livros de história natural do século 19 e o livro ilustrado mais caro do mundo.

Dia 8: Aves da América é leiloado pelo valor de 7,32 milhões de libras (mais de R$ 19,8 milhões). Com isso, estabelece-se um novo recorde: até então, outro exemplar da mesma obra fora vendido, em 2000, por aproximadamente R$ 15 milhões.

Dia 13: Vera Fischer, que é rica, anuncia o lançamento de Serena, primeiro de uma série de dez livros ricos escritos pela atriz rica em um ano riquíssimo. No alto da sua riqueza, a atriz comenta sua nem tão rica predileção pelos personagens ricos: “Eu não sei escrever para gente pobre.”

Dia 13: Polícia britânica começa a investigar se houve crime de ódio nos atos de vandalismo a aproximadamente 40 livros com temáticas gays na Universidade Harvard. De acordo com o relatório dos seguranças, alguém teria urinado nas obras em 24 de novembro.

Dia 13: Com a certeza de que não terá papel na administração pública federal do governo Dilma Rousseff, Henrique Meirelles afirma que escreverá um livro sobre sua experiência a frente do Banco Central.

Dia 14: Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus, de Evandro Affonso Ferreira, leva o prêmio de Melhor Romance do Ano da Associação Paulista de Críticos de Arte. Adélia Prado arrebata o prêmio na categoria Poesia com A Duração do Dia. Em Contos, Crônicas e Reportagens, o prêmio fica com Diógenes Moura, autor de Ficção Interrompida. Boris Fausto é vencedor na categoria Biografias, com Memórias de um Historiador de Domingo.

Dia 20: José Hamilton Ribeiro e José Carlos Marão lançam Realidade Re-vista, livro da editora Realejo que traz os bastidores de mais de 20 reportagens de fôlego da Realidade, a mais audaciosa revista já feita no Brasil.

Dia 20: Phillip Greaves, autor e editor do livro The Pedophile’s Guide to Love and Pleasure: a Child-lover’s Code of Conduct (em tradução livre, “O guia do pedófilo para o amor e o prazer: um código de conduta para o amante da criança”), é preso na Flórida. Apesar de classificar sua obra como autoajuda, Greaves foi acusado de distribuição de material obsceno e apologia à pedofilia.

Dia 24: O Ministério da Cultura da Espanha anuncia a compra do mais significativo arquivo contemporâneo da literatura latino-americana, pertencente à agente Carmen Balcells. Figura importante na literatura de língua hispânica dos últimos 50 anos, Balcells é representante de autores como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda, Juan Carlos Onetti, Julio Cortázar e Isabel Allende. O negócio foi avaliado em 3 milhões de euros (R$ 6,64 milhões).

Dia 26: Julian Assange, fundador do WikiLeaks, declara ter fechado acordos de aproximadamente 1,2 milhão de euros para escrever sua autobiografia. De acordo com notícia do Guardian, Assange vendeu suas memórias às editoras Canongate, do Reino Unido (que deve desembolsar 380 mil euros, ou R$ 841,7 mil), e Knopf, dos EUA (que entrará com 600 mil euros, ou R$ 1,33 milhão). O manuscrito de Assange deve ser entregue às editoras em março de 2011. Outros 200 mil euros (R$ 443 mil) devem vir de editoras ao redor do mundo. No Brasil, o livro possivelmente chegará pela Companhia das Letras em data a ser definida, segundo a Folha.


Um mundo de Lolita

O autor e tradutor alemão Dieter E. Zimmer há muito mantém um fascínio por Lolita, obra-prima de Vladimir Nabokov. Tanto que resolveu fazer uma exposição on-line das capas de Lolita publicadas em 33 países. Covering Lolita traz 154 peças, desde a primeira capa (da edição francesa de 1955) até uma edição alemã chamada Wirbelsturm Lolita (em tradução livre, “O Furacão Lolita”), de 2008. Algumas são medonhas, como as capas das edições turca de 1959 e francesa de 1963.

Duas das peças são brasileiras. Posso estar enganado, mas creio que saíram quatro edições no Brasil, sendo três pela Companhia das Letras — duas convencionais e uma de bolso –, além de uma edição que integrou a coleção da Folha.

As capas que mais gostei são as das edições italiana, de 1969, e alemã, de 1974 (ao lado).

Quem não conhece Lolita, pode ler um trecho aqui.

(Dica marota de Luiz Gustavo Leme, fotógrafo peralta e leitor compulsivo de Julia, Bianca e Sabrina.)


The book is on the road

Três bermudas? Ok. Escova de dentes? Ok. Perfume? Ok. O cabo do iPod? Ok.

Estou prestes a ir para Marília, cidade no interior de São Paulo que cheira a biscoito de chocolate, minha terra natal. Fico uma semana lá. Serão dias muito cansativos: acordar ao meio-dia, almoçar, cochilar vendo desenho animado, acordar às 3 da tarde, trabalhar (de leve) durante uma hora, cochilar vendo qualquer imbecilidade na TV aberta, levantar às 7, sair para o bar, voltar às 3, dormir. Todo mês fico ansioso para voltar à “terrinha” e, por isso, faço a mala com antecedência. Na hora da arrumação sempre tenho a seguinte dúvida: que livro levar para ler durante as seis horas de viagem?

Creio que alguns de vocês têm o mesmo dilema. Assim, pensei em três dicas para ajudá-los a escolher melhor o que e como ler durante as viagens.

  • Páginas por km/h

Você não vai conseguir ler as 1288 páginas de Os Miseráveis, de Victor Hugo, de cabo a rabo nos 50 minutos do voo Rio-São Paulo. Por outro lado, o graphic novel Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, é muito pouco para os 5684 quilômetros que separam Brasília de Ouagadougou, capital de Burkina Faso, no continente africano.

Saber quantas páginas cabem na sua viagem é fundamental. Prefira uma coletânea de contos para viagens curtas. Como bem define Júlio Cortazar, “no combate entre um texto e seu leitor, o romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto deve ganhar por nocaute”. Ou seja, é aquele texto com maior impacto dramático em menos linhas possíveis. Outra opção bem bacana é uma seleção de crônicas. Seguem alguns livros legais:

Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século
Vários autores, organização de Italo Moriconi
Objetiva
622 páginas, R$ 72,90

200 Crônicas Escolhidas
Rubem Braga
Record
490 páginas, R$ 37,90

Já para viagens de média duração, de quatro seis horas, opte por novelas – prosas nem tão curtas quanto o conto e nem tão longas quanto o romance. Não é nenhum absurdo passar um quarto do dia com os olhos voltados a um livro. Principalmente se ele tiver uma escrita fluida e um enredo envolvente. Pelas minhas contas, seis horas é o tempo necessário para você ir do começo ao fim de uma novela ou um romance curto, de 180 páginas. Dependendo da obra, dá até para você ter uma pausa e pedir outra dose de uísque à comissária ou parar em um restaurante de beira de estrada para comer aquele delicioso bolinho de carne duvidosa. Sugiro os seguintes títulos:

Três Novelas Exemplares
Miguel de Cervantes
Arte & Letra
184 páginas, R$ 32

O Velho e o Mar
Ernest Hemingway
Bertrand Brasil
128 páginas, R$ 31

No caso de viagens longas, com mais de seis horas, uma biografia ou um livro de memórias vem a calhar. Escolha um personagem de sua predileção — pode ser um grande jogador de futebol, um empresário bem sucedido, um ditador sanguinário ou um artista de renome — e conheça um pouco mais de sua vida. Você não apenas terá momentos agradáveis durante o voo chato como também aprenderá algumas lições que podem ser usadas na sua vida. Confira duas obras legais:

O Anjo Pornográfico
Ruy Castro
Companhia das Letras
464 páginas, R$ 62,50

Recados da Bola
Vários autores, organização de Jorge Vasconcellos
Cosac Naify
240 páginas, R$ 99

  • O bom e velho “livro de papel”

Uma pesquisa da Nielsen Norman Group realizada em julho deste ano revelou que ler em Kindle 2 e iPad leva mais tempo do que apreciar a obra em seu formato impresso. Segundo o estudo, a velocidade de leitura em iPad é 6,2% mais lenta; em Kindle 2, 10,7%.

Outro ponto importante: se você for tão cabeça de vento quanto eu, é preferível esquecer um livro de R$ 40 na poltrona do ônibus do que um Kindle de R$ 600 ou um iPad de R$ 1,7 mil.

  • Dê uma chance aos livros de bolso

Eu sempre torci o nariz para os pocket books. Achava que a qualidade ruim do acabamento se estenderia à narrativa. Mas eu confesso que me enganei: apenas o papel de embrulhar pão merece desdém. Há bons títulos na versão pocket, que não perdem em termos de conteúdo em comparação à versão original. Ah, e eles saem mais em conta.


Para começar

Lolita

A gente nunca esquece a primeira namorada, a primeira transa, o primeiro carro, o primeiro porre, o primeiro pé na bunda, o primeiro tudo. Para o bem e para o mal, toda estreia deixa marcas. Este é meu primeiro post. Espero que ele seja tão bom quanto minha primeira namorada.

Terminado o primeiro parágrafo. As primeiras linhas. Para o começo do Substantivo Masculino, apropriei-me — descaradamente, aliás — da ideia do colega de casa Sérgio Rodrigues, do blog Todoprosa da VEJA. Sérgio é, na minha opinião e entre muitas qualidades que lhe cabem, o maior colecionador de começos do Brasil. Explico: há mais de quatro anos, desde que mantinha seu espaço no finado NoMínimo, Sérgio brinda seus leitores com os melhores começos de obras da literatura universal. Achei a ideia pertinente para este primeiro post. Por isso, vasculhei alguns livros da minha biblioteca e separei três começos que são brilhantes.

Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável.

O começo do último livro do austríaco André Gorz, Carta a D. (Cosac Naify, 78 páginas), é marcante pela profundidade sentimental resumida em poucas palavras, o que viria a calhar hoje em dia, tempos de relacionamentos com até 140 caracteres. O livro todo é uma declaração de amor a Dorine, companheira do escritor por quase 60 anos. Nada tem de ficção: a paixão tão real quanto a doença degenerativa da amada. Tanto que Gorz, ao perceber que a vida de Dorine logo chegaria ao fim, se suicidou junto à mulher em 2007.

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu-da-boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.

Eu me lembro da minha fascinação quando terminei de ler pela primeira vez a obra-prima de Vladimir Nabokov, Lolita (Companhia das Letras, 360 páginas). A história de Humbert Humbert, um professor de meia idade que cai de amores pela enteada de 12 anos, mistura a loucura de um homem diante da mulher proibida. O enredo é perverso; Humbert Humbert, doentio. Ainda assim, a narrativa é refinada ao ponto de fazer os leitores se compadecerem com a dor e a angústia do pobre diabo. O começo do livro é de uma sensualidade elegante, o que é bastante raro tanto na ficção quanto fora dela, no mundo real.

No dia seguinte ninguém morreu.

As Intermitências da Morte, de José Saramago (Companhia das Letras, 208 páginas) não é exatamente o melhor livro do português Nobel de Literatura. Parece que se divide em duas partes: a primeira, quando os cidadãos deixam de morrer e o caos da eternidade se instaura na região, e a segunda, quando a Morte se materializa. Ainda assim, é superior à maioria dos livros que saem hoje em dia. Acostumado a frases longas, com pontuação incomum aos olhos menos treinados, e a parágrafos que se arrastam por páginas e mais páginas, a concisão de Saramago em “No dia seguinte ninguém morreu” destoa do normal. Contudo, estas cinco primeiras palavras têm o poder de causar um grande impacto na cabeça do leitor que se dispõe a refletir: “Já imaginou se houvesse um dia em que ninguém morresse?”

Há várias outras obras cujas primeiras linhas atraem o leitor. Na sua opinião, quais outros começos de livros merecem destaque?