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Substantivo Masculino

por Tiago Lopes

O blog de literatura da VIP. Porque nem só de orgias, bebedeiras e jogatinas vive um homem.



Da revista: novembro

Há uma mulher. Ela me odeia
Grande nome da literatura húngara chega ao Brasil com Uma Mulher

Uma é anã. A outra tem o tamanho de um búfalo. Péter Esterházy passeia pela fauna feminina em Uma Mulher (Cosac Naify, 184 páginas, R$ 43), seu primeiro livro lançado no Brasil, apesar de o escritor húngaro ter mais de 30 publicados lá fora. São 97 textos que descrevem 97 mulheres. Ou seria apenas uma mulher em 97 facetas? Difícil saber. Além disso, com humor e perspicácia, Esterházy consegue confundir ainda mais os limites de amor e ódio. Tudo parece a mesma coisa. E não é?

Às vezes amado e odiado simultaneamente, Esterházy mantém aquele olhar curioso de homem diante da mulher que não se faz compreender. A dama da irracionalidade. A rainha do bem-me-quer-mal-me-quer. Uma mulher que é, na verdade e ao mesmo tempo, muitas mulheres: a minha, a sua, a nossa. (A nossa?)

O autor mapeia a alma feminina com o zelo e o medo que todo homem deveria ter ao tentar desmistificar o sexo frágil – que, de frágil mesmo, só tem as unhas recém-pintadas. A difereça entre o húngaro e nós é que ele faz tal serviço com maestria. E prudência, o que é fundamental na Hungria, terra onde se cunhou o provérbio “A mulher de um homem imprudente é quase uma viúva”.

3 perguntas para Péter Esterházy

Afinal, há quantos tipos de mulher no mundo?
Eu diria que há exatamente tantos tipos de mulheres quanto de homens. Ou os tipos de mulheres dependem de nossos pontos de vista, de como nós as olhamos. Ainda ontem ela era uma rainha, era tão brilhante, que nós tínhamos que fechar os olhos; e hoje, cinzenta, não se a vê de forma alguma.

Durante a escrita de Uma Mulher, que mulher permeou seus pensamentos? Em quem se inspirou?
Eu já me esqueci… Era uma mulher? A rainha ou essa cinzenta? Ou um homem? Ou uma flor? Não sei mais, mas estava muito inspirado.

Descrever a natureza feminina não é uma empreitada vã?
Sim, seria um trabalho infinito (porém nada ruim). Eu gostaria de falar menos sobre a natureza feminina (ou masculina), e mais sobre a relação entre duas pessoas. E falar sobre essa relação somente com a (questionável) ajuda dos corpos. O que significa quando dois corpos estão para sempre juntos e tão próximos? O que parece essa busca sempre desesperadora por… pelo quê? Pela perfeição? Pelo infinito amor através do finito corpo? A propósito, a veracidade a respeito das coisas mais inverossímeis de um texto é o mais belo na literatura.

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Literatura para o apocalipse
Sobreviveu ao fim do mundo? Leia

É isso aí, leitor. O ano de 2012 se aproxima e logo a Terra passará por mudanças catastróficas, de acordo com as profecias maias. O Sol se alinhará com o centro da galáxia, o eixo da Terra sofrerá alteração e aí, amigo, f*deu: teremos terremotos, vulcões, enchentes… A data dessa muvuca cósmica é 21 de dezembro de 2012, o que significa muitas coisas — a mais importante é: não veremos o estádio do Corinthians pronto. Mas não lamente, condenado leitor. Até 2012, podemos convencer a Sandy a ser capa da VIP. Ou ainda nos prepararmos para passar pelo apocalipse sem traumas. Para este segundo item, VIP escolheu quatro livros que você deve começar a ler neste exato momento.

Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas
Dale Carnegie | Nacional | 320 páginas | R$ 55
O que é: uma “bíblia” que se dispõe a postular mandamentos sobre o relacionamento interpessoal, ensinando maneiras de fazer as pessoas gostarem de você e para convencê-las a pensar do seu modo.
Utilidade prática: aliados são importantes nos momentos críticos. Imagine aquele seu vizinho com quem você sempre manteve uma rixa. Se o estoque de ervilha em lata dele for maior que o seu, é bom fazer dele um amigo de infância.

O Monge e o Executivo
James C. Hunter | Sextante | 44 páginas | R$ 19,90
O que é: misto de ficção e autoajuda, trata-se de um best-seller que enfoca a liderança como uma via dupla: o líder é aquele disposto a servir.
Utilidade prática: depois do fim do mundo, será preciso que um homem lidere os poucos sobreviventes à reconstrução da Terra — e à perpetuação da espécie com as mais belas gatas pós-apocalípticas. Esse homem será o ser supremo, o todo-poderoso, alguém como Steve Jobs, Neymar ou você.

CIA: Manual Oficial de Truques e Espionagem
Keith Melton e Robert Wallace | Lua de Papel | 224 páginas | R$ 34,90
O que é: uma seleção de truques que o mágico John Mulholland (sim, um mágico) ensinou à CIA na década de 1950, quando a Guerra Fria era uma ameaça mundial.
Utilidade prática: você aprenderá truques importantes que garantirão sua sobrevivência — ou ao menos entreterão os sobreviventes. Exemplo: cifrar mensagens de acordo com o entrelaçar do cadarço do sapato, o que evitará que zumbis detectem a comunicação.

Veja Como Se Faz
Derek Fagerstrom, Lauren Smith e The Show Me Team | Sextante | 320 páginas | R$ 49,90
O que é: uma seleção com 500 instruções para atividades cotidianas — ou nem tanto — de maneira ilustrada.
Utilidade prática: depois do apocalipse, o mundo precisará de um MacGyver. Ele pode ser você, contanto que você saiba como proceder diante das adversidades. Apenas no capítulo Sobrevivência, há 19 lições que vão desde testar se uma planta é comestível até se defender de um tubarão, o que será essencial no caso de enchentes e tsunamis.


O Rei deveria estar nu

Será que nem toda história pode ser contada assim, em páginas de livro? É verdade que alguns personagens simplesmente não cabem no papel, nas palavras? Aparentemente, qualquer esforço, por maior que fosse, seria inútil para traduzir o Rei Pelé, que completa hoje 70 anos. Por isso compartilho do sentimento de Mauricio Stycer:

Há dezenas de livros sobre Pelé, além de centenas – sobre outros personagens – que contam histórias a respeito do craque. Há dois grandes documentários (…), além de uma infinidade de programas jornalísticos e filmes que relatam a sua história. Por que, apesar de tudo isso, tenho a sensação que não conheço Pelé direito?

Edson Arantes do Nascimento é o “desconhecido” mais ilustre do Brasil. Sabe-se muito a respeito dos seus feitos dentro das quatro linhas, e muito pouco sobre sua vida. Não houve, infelizemente, alguém que se devotasse a escrever sua biografia “definitiva”. Talvez porque ela seja impossível de ser escrita com a mesma genialidade com a qual o Rei conduzia a bola pelos gramados.

Torço pelo dia em que teremos uma biografia de Pelé, que remonte a época dos ensinamentos do pai Dondinho, também jogador, em Três Corações, Minas Gerais; que refaça a viagem do garoto e sua família até Bauru; que rememore o convite ao moleque de 15 anos para treinar no Santos Futebol Clube.

Seria injusto, contudo, alegar que não há boas obras no mercado. Principalmente em imagens e fotografias. O melhor exemplo é Pelé – Minha Vida em Imagens (Cosac Naify, 100 páginas, 109 ilustrações). Pela narração do próprio Edson, Pelé se mostra em fotografias — algumas inéditas, como uma em que aparece tocando violão numa espreguiçadeira. Além disso, a obra é repleta de relíquias, como a primeira carteirinha de jogador na Liga Bauruense de Esporte, de 1956, e o ingresso do seu último jogo (Cosmos x Santos, em 1o de outubro de 1977). Outro ponto forte é a relação de todos os 1.367 jogos de Pelé como profissional, nos quais marcou 1.283 gols. Isso desmente a versão anterior, de que Pelé teria participado de 1.363 jogos, e feito 1.281 gols.

Mas convenhamos, o texto que ilustra as imagens (e não o contrário) nada tem de novidade, sendo uma mera tradução da autobiografia de Pelé feita por um ghost-writer e publicada pela editora inglesa Simon & Schuster há alguns anos. Neste aniversário de 70 anos, algum biógrafo brasileiro competente poderia pensar em presentear os brasileiros — e todos os fãs de futebol do mundo — com uma obra textual digna do Rei. Ou será que a língua perde o peso e o valor diante de um grande homem, uma lenda?

(Imagens: Reprodução do livro Pelé – Minha Vida em Imagens/Cosac Naify)


The book is on the road

Três bermudas? Ok. Escova de dentes? Ok. Perfume? Ok. O cabo do iPod? Ok.

Estou prestes a ir para Marília, cidade no interior de São Paulo que cheira a biscoito de chocolate, minha terra natal. Fico uma semana lá. Serão dias muito cansativos: acordar ao meio-dia, almoçar, cochilar vendo desenho animado, acordar às 3 da tarde, trabalhar (de leve) durante uma hora, cochilar vendo qualquer imbecilidade na TV aberta, levantar às 7, sair para o bar, voltar às 3, dormir. Todo mês fico ansioso para voltar à “terrinha” e, por isso, faço a mala com antecedência. Na hora da arrumação sempre tenho a seguinte dúvida: que livro levar para ler durante as seis horas de viagem?

Creio que alguns de vocês têm o mesmo dilema. Assim, pensei em três dicas para ajudá-los a escolher melhor o que e como ler durante as viagens.

  • Páginas por km/h

Você não vai conseguir ler as 1288 páginas de Os Miseráveis, de Victor Hugo, de cabo a rabo nos 50 minutos do voo Rio-São Paulo. Por outro lado, o graphic novel Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, é muito pouco para os 5684 quilômetros que separam Brasília de Ouagadougou, capital de Burkina Faso, no continente africano.

Saber quantas páginas cabem na sua viagem é fundamental. Prefira uma coletânea de contos para viagens curtas. Como bem define Júlio Cortazar, “no combate entre um texto e seu leitor, o romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto deve ganhar por nocaute”. Ou seja, é aquele texto com maior impacto dramático em menos linhas possíveis. Outra opção bem bacana é uma seleção de crônicas. Seguem alguns livros legais:

Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século
Vários autores, organização de Italo Moriconi
Objetiva
622 páginas, R$ 72,90

200 Crônicas Escolhidas
Rubem Braga
Record
490 páginas, R$ 37,90

Já para viagens de média duração, de quatro seis horas, opte por novelas – prosas nem tão curtas quanto o conto e nem tão longas quanto o romance. Não é nenhum absurdo passar um quarto do dia com os olhos voltados a um livro. Principalmente se ele tiver uma escrita fluida e um enredo envolvente. Pelas minhas contas, seis horas é o tempo necessário para você ir do começo ao fim de uma novela ou um romance curto, de 180 páginas. Dependendo da obra, dá até para você ter uma pausa e pedir outra dose de uísque à comissária ou parar em um restaurante de beira de estrada para comer aquele delicioso bolinho de carne duvidosa. Sugiro os seguintes títulos:

Três Novelas Exemplares
Miguel de Cervantes
Arte & Letra
184 páginas, R$ 32

O Velho e o Mar
Ernest Hemingway
Bertrand Brasil
128 páginas, R$ 31

No caso de viagens longas, com mais de seis horas, uma biografia ou um livro de memórias vem a calhar. Escolha um personagem de sua predileção — pode ser um grande jogador de futebol, um empresário bem sucedido, um ditador sanguinário ou um artista de renome — e conheça um pouco mais de sua vida. Você não apenas terá momentos agradáveis durante o voo chato como também aprenderá algumas lições que podem ser usadas na sua vida. Confira duas obras legais:

O Anjo Pornográfico
Ruy Castro
Companhia das Letras
464 páginas, R$ 62,50

Recados da Bola
Vários autores, organização de Jorge Vasconcellos
Cosac Naify
240 páginas, R$ 99

  • O bom e velho “livro de papel”

Uma pesquisa da Nielsen Norman Group realizada em julho deste ano revelou que ler em Kindle 2 e iPad leva mais tempo do que apreciar a obra em seu formato impresso. Segundo o estudo, a velocidade de leitura em iPad é 6,2% mais lenta; em Kindle 2, 10,7%.

Outro ponto importante: se você for tão cabeça de vento quanto eu, é preferível esquecer um livro de R$ 40 na poltrona do ônibus do que um Kindle de R$ 600 ou um iPad de R$ 1,7 mil.

  • Dê uma chance aos livros de bolso

Eu sempre torci o nariz para os pocket books. Achava que a qualidade ruim do acabamento se estenderia à narrativa. Mas eu confesso que me enganei: apenas o papel de embrulhar pão merece desdém. Há bons títulos na versão pocket, que não perdem em termos de conteúdo em comparação à versão original. Ah, e eles saem mais em conta.


Para começar

Lolita

A gente nunca esquece a primeira namorada, a primeira transa, o primeiro carro, o primeiro porre, o primeiro pé na bunda, o primeiro tudo. Para o bem e para o mal, toda estreia deixa marcas. Este é meu primeiro post. Espero que ele seja tão bom quanto minha primeira namorada.

Terminado o primeiro parágrafo. As primeiras linhas. Para o começo do Substantivo Masculino, apropriei-me — descaradamente, aliás — da ideia do colega de casa Sérgio Rodrigues, do blog Todoprosa da VEJA. Sérgio é, na minha opinião e entre muitas qualidades que lhe cabem, o maior colecionador de começos do Brasil. Explico: há mais de quatro anos, desde que mantinha seu espaço no finado NoMínimo, Sérgio brinda seus leitores com os melhores começos de obras da literatura universal. Achei a ideia pertinente para este primeiro post. Por isso, vasculhei alguns livros da minha biblioteca e separei três começos que são brilhantes.

Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável.

O começo do último livro do austríaco André Gorz, Carta a D. (Cosac Naify, 78 páginas), é marcante pela profundidade sentimental resumida em poucas palavras, o que viria a calhar hoje em dia, tempos de relacionamentos com até 140 caracteres. O livro todo é uma declaração de amor a Dorine, companheira do escritor por quase 60 anos. Nada tem de ficção: a paixão tão real quanto a doença degenerativa da amada. Tanto que Gorz, ao perceber que a vida de Dorine logo chegaria ao fim, se suicidou junto à mulher em 2007.

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu-da-boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.

Eu me lembro da minha fascinação quando terminei de ler pela primeira vez a obra-prima de Vladimir Nabokov, Lolita (Companhia das Letras, 360 páginas). A história de Humbert Humbert, um professor de meia idade que cai de amores pela enteada de 12 anos, mistura a loucura de um homem diante da mulher proibida. O enredo é perverso; Humbert Humbert, doentio. Ainda assim, a narrativa é refinada ao ponto de fazer os leitores se compadecerem com a dor e a angústia do pobre diabo. O começo do livro é de uma sensualidade elegante, o que é bastante raro tanto na ficção quanto fora dela, no mundo real.

No dia seguinte ninguém morreu.

As Intermitências da Morte, de José Saramago (Companhia das Letras, 208 páginas) não é exatamente o melhor livro do português Nobel de Literatura. Parece que se divide em duas partes: a primeira, quando os cidadãos deixam de morrer e o caos da eternidade se instaura na região, e a segunda, quando a Morte se materializa. Ainda assim, é superior à maioria dos livros que saem hoje em dia. Acostumado a frases longas, com pontuação incomum aos olhos menos treinados, e a parágrafos que se arrastam por páginas e mais páginas, a concisão de Saramago em “No dia seguinte ninguém morreu” destoa do normal. Contudo, estas cinco primeiras palavras têm o poder de causar um grande impacto na cabeça do leitor que se dispõe a refletir: “Já imaginou se houvesse um dia em que ninguém morresse?”

Há várias outras obras cujas primeiras linhas atraem o leitor. Na sua opinião, quais outros começos de livros merecem destaque?