Autor

Substantivo Masculino

por Tiago Lopes

O blog de literatura da VIP. Porque nem só de orgias, bebedeiras e jogatinas vive um homem.



Retrospectiva: dezembro

Se você é pobre, não leia este post, pois dezembro foi um mês rico no mundo das letras. Surgiu um grande nome no panteão da literatura universal: Vera Fischer. Alguém aí duvida que sua série de livros será riquíssima, de grande valia social e de inestimável contribuição para o avanço intelectual da humanidade? Eu apostaria milhões que, em poucos anos, o nome dela será cogitado para uma cadeira na ABL. Mas como você provavelmente é pobre, não tem dinheiro para a aposta — tampouco para apreciar o beletrismo de Vera Fischer. Que pena. Terá de se contentar com José Saramago, outro nome bastante falado no meio literário mas nem tão talentoso quanto Vera Fischer. O único Nobel da literatura lusófona deve ter uma obra póstuma lançada em 2011. Confira o que aconteceu no último mês do último ano e da década.

Dia 1°: Fuvest informa que uma de suas questões está anulada. O enunciado da questão em questão (que infame!) traz quatro linhas do livro O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e lança pergunta sobre o momento histórico ao qual o trecho se refere. A resposta correta seria alguma que indicasse o período pré-abolição da escravatura, mas das cinco alternativas, nenhuma era a correta.

Dia 3: Pilar del Río, viúva de José Saramago, anuncia a publicação de obra inacabada do Nobel de Literatura em 2011. O livro está pela metade e se chama Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas. Na Feira Internacional do Livro de Guadalajara, Pilar adianta o enredo: “Um honesto pai de família vai trabalhar numa fábrica de armas, onde o trabalho consiste em fazer bem uma arma que vai matar outra pessoa.”

Dia 4: Fernando Morais, autor de Olga, Chatô e O Mago, afirma que quer escrever um livro sobre os bastidores do governo Lula. Segundo o escritor, um pedido já foi feito ao ex-presidente que, até aquele momento, nada havia respondido.

Dia 7: A famosa casa de leilões Sotheby’s anuncia que baterá o martelo para uma cópia de Aves na América, do ambientalista John James Audubon. Foram produzidos apenas 200 exemplares da obra, considerada um dos principais livros de história natural do século 19 e o livro ilustrado mais caro do mundo.

Dia 8: Aves da América é leiloado pelo valor de 7,32 milhões de libras (mais de R$ 19,8 milhões). Com isso, estabelece-se um novo recorde: até então, outro exemplar da mesma obra fora vendido, em 2000, por aproximadamente R$ 15 milhões.

Dia 13: Vera Fischer, que é rica, anuncia o lançamento de Serena, primeiro de uma série de dez livros ricos escritos pela atriz rica em um ano riquíssimo. No alto da sua riqueza, a atriz comenta sua nem tão rica predileção pelos personagens ricos: “Eu não sei escrever para gente pobre.”

Dia 13: Polícia britânica começa a investigar se houve crime de ódio nos atos de vandalismo a aproximadamente 40 livros com temáticas gays na Universidade Harvard. De acordo com o relatório dos seguranças, alguém teria urinado nas obras em 24 de novembro.

Dia 13: Com a certeza de que não terá papel na administração pública federal do governo Dilma Rousseff, Henrique Meirelles afirma que escreverá um livro sobre sua experiência a frente do Banco Central.

Dia 14: Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus, de Evandro Affonso Ferreira, leva o prêmio de Melhor Romance do Ano da Associação Paulista de Críticos de Arte. Adélia Prado arrebata o prêmio na categoria Poesia com A Duração do Dia. Em Contos, Crônicas e Reportagens, o prêmio fica com Diógenes Moura, autor de Ficção Interrompida. Boris Fausto é vencedor na categoria Biografias, com Memórias de um Historiador de Domingo.

Dia 20: José Hamilton Ribeiro e José Carlos Marão lançam Realidade Re-vista, livro da editora Realejo que traz os bastidores de mais de 20 reportagens de fôlego da Realidade, a mais audaciosa revista já feita no Brasil.

Dia 20: Phillip Greaves, autor e editor do livro The Pedophile’s Guide to Love and Pleasure: a Child-lover’s Code of Conduct (em tradução livre, “O guia do pedófilo para o amor e o prazer: um código de conduta para o amante da criança”), é preso na Flórida. Apesar de classificar sua obra como autoajuda, Greaves foi acusado de distribuição de material obsceno e apologia à pedofilia.

Dia 24: O Ministério da Cultura da Espanha anuncia a compra do mais significativo arquivo contemporâneo da literatura latino-americana, pertencente à agente Carmen Balcells. Figura importante na literatura de língua hispânica dos últimos 50 anos, Balcells é representante de autores como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda, Juan Carlos Onetti, Julio Cortázar e Isabel Allende. O negócio foi avaliado em 3 milhões de euros (R$ 6,64 milhões).

Dia 26: Julian Assange, fundador do WikiLeaks, declara ter fechado acordos de aproximadamente 1,2 milhão de euros para escrever sua autobiografia. De acordo com notícia do Guardian, Assange vendeu suas memórias às editoras Canongate, do Reino Unido (que deve desembolsar 380 mil euros, ou R$ 841,7 mil), e Knopf, dos EUA (que entrará com 600 mil euros, ou R$ 1,33 milhão). O manuscrito de Assange deve ser entregue às editoras em março de 2011. Outros 200 mil euros (R$ 443 mil) devem vir de editoras ao redor do mundo. No Brasil, o livro possivelmente chegará pela Companhia das Letras em data a ser definida, segundo a Folha.


Para começar

Lolita

A gente nunca esquece a primeira namorada, a primeira transa, o primeiro carro, o primeiro porre, o primeiro pé na bunda, o primeiro tudo. Para o bem e para o mal, toda estreia deixa marcas. Este é meu primeiro post. Espero que ele seja tão bom quanto minha primeira namorada.

Terminado o primeiro parágrafo. As primeiras linhas. Para o começo do Substantivo Masculino, apropriei-me — descaradamente, aliás — da ideia do colega de casa Sérgio Rodrigues, do blog Todoprosa da VEJA. Sérgio é, na minha opinião e entre muitas qualidades que lhe cabem, o maior colecionador de começos do Brasil. Explico: há mais de quatro anos, desde que mantinha seu espaço no finado NoMínimo, Sérgio brinda seus leitores com os melhores começos de obras da literatura universal. Achei a ideia pertinente para este primeiro post. Por isso, vasculhei alguns livros da minha biblioteca e separei três começos que são brilhantes.

Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável.

O começo do último livro do austríaco André Gorz, Carta a D. (Cosac Naify, 78 páginas), é marcante pela profundidade sentimental resumida em poucas palavras, o que viria a calhar hoje em dia, tempos de relacionamentos com até 140 caracteres. O livro todo é uma declaração de amor a Dorine, companheira do escritor por quase 60 anos. Nada tem de ficção: a paixão tão real quanto a doença degenerativa da amada. Tanto que Gorz, ao perceber que a vida de Dorine logo chegaria ao fim, se suicidou junto à mulher em 2007.

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu-da-boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.

Eu me lembro da minha fascinação quando terminei de ler pela primeira vez a obra-prima de Vladimir Nabokov, Lolita (Companhia das Letras, 360 páginas). A história de Humbert Humbert, um professor de meia idade que cai de amores pela enteada de 12 anos, mistura a loucura de um homem diante da mulher proibida. O enredo é perverso; Humbert Humbert, doentio. Ainda assim, a narrativa é refinada ao ponto de fazer os leitores se compadecerem com a dor e a angústia do pobre diabo. O começo do livro é de uma sensualidade elegante, o que é bastante raro tanto na ficção quanto fora dela, no mundo real.

No dia seguinte ninguém morreu.

As Intermitências da Morte, de José Saramago (Companhia das Letras, 208 páginas) não é exatamente o melhor livro do português Nobel de Literatura. Parece que se divide em duas partes: a primeira, quando os cidadãos deixam de morrer e o caos da eternidade se instaura na região, e a segunda, quando a Morte se materializa. Ainda assim, é superior à maioria dos livros que saem hoje em dia. Acostumado a frases longas, com pontuação incomum aos olhos menos treinados, e a parágrafos que se arrastam por páginas e mais páginas, a concisão de Saramago em “No dia seguinte ninguém morreu” destoa do normal. Contudo, estas cinco primeiras palavras têm o poder de causar um grande impacto na cabeça do leitor que se dispõe a refletir: “Já imaginou se houvesse um dia em que ninguém morresse?”

Há várias outras obras cujas primeiras linhas atraem o leitor. Na sua opinião, quais outros começos de livros merecem destaque?