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Substantivo Masculino

por Tiago Lopes

O blog de literatura da VIP. Porque nem só de orgias, bebedeiras e jogatinas vive um homem.



Duas coisas antes do Carnaval

Coisa 1: uma dica de literatura

Sérgio Rodrigues, do blog de literatura Todoprosa, da Veja, publicou hoje um post sobre ótimos contos de Carnaval. Ele cita alguns títulos em que a folia é tema — ou cenário, contexto etc. — e, no meio de sua relação, menciona O Bebê de Tarlatana Rosa, de João do Rio.

Lembro quando primeiro me deparei com este texto — que, da alegria do Carnaval, não traz nada. Foi quando li Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, da Objetiva. (Inclusive, eis uma sugestão de leitura enriquecedora.) Eu prendia a respiração a cada frase do conto de João do Rio. Faltava-me o ar. É melancólico e insano. Indico a leitura do texto, mas não garanto a reação ou o ânimo que seus parágrafos hão de inspirar no leitor. Quem quiser lê-lo, clique aqui.

Como bem disse João do Rio, “não há quem não saia no Carnaval disposto no excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias”. Aproveite!

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Coisa 2: um conto para celebrar o Carnaval

Saudoso Malandro

O malandro morreu e, por alguma lei divina, foi aos céus como todos os pierrôs, colombinas, arlequins, polichinelos, bambas e congêneres. Descontente estava, porém. Corroia-lhe a alma haver morrido sem ter consumado sequer uma noite com certa beata, de olhos verdes como o verde da Mangueira. Benê, sambista inquilino do céu, não tinha sossego justamente onde a paz deveria reinar. Pois que o malandro foi ter com o diabo. Fez um escarcéu no céu e desceu.

O tinhoso apenas plantou um sorriso nos lábios e antecipou um abraço quase fraternal ao ver Benê no inferno. Sabe-se que o diabo é um anfitrião ímpar aos que pisam seu solo soturno. É envolvente tal qual uma mulher, se, de fato, mulher não for.

- Quero voltar à Terra, doutor – disse ao cão o malandro. Explicou que sua escola de samba faria em breve o último ensaio geral antes de sair na Sapucaí, o que era verdade. Contudo, por vergonha ou discrição, preferiu omitir a tal moça, real motivo para desejar ascender ao mundo dos vivos.

- Eu tenho muito apreço por ti, nego. Admirava teu modo de vida: cachaça, cabrocha e jogo do bicho. – retrucou a besta, sorrindo-lhe cumplicidade. – Por isso, farei uma proposta simples. – expôs o diabo, mão esquerda posta sobre o ombro daquele homem, olhos pregados no escapulário de Nossa Senhora que Benê trazia no peito. – Te colocarei na Terra, como queres. Em contrapartida, tu deves fazer um samba para mim. Um samba qualquer. Um samba com nenhuma ponta de saudade. Se não conseguires tal feito, nego, aí tu ficas aqui. Para sempre eu te terei. – arrematou o diabo, sílaba por sílaba.

O malandro aceitou a proposta num ímpeto. Em vida, fora autor de inúmeros sambas e choros. Não lhe seria grande empreitada compor uma peça. Aquele havia de ser um bom negócio: veria sua morena em troca de um samba qualquer. Antes de reentrar o mundo de cá, ainda ouviu a única instrução do diabo: quando achasse conveniente deixar a terra dos vivos, Benê deveria ter o escapulário arrancado do peito.

Chegou por estes lados e logo adentrou o barracão. Trazia consigo um chapéu branco na cabeça, Nossa Senhora no peito e um sorriso de prepotência e ironia naquela cara de cafajeste. Nada temia – e o que havia de temer um homem de pacto amarrado com o diabo?

No mar de texturas, sons e sabores do samba, Benê avistou, do outro lado da quadra, sua morena Beatriz. Em vida e carne, o malandro desejara com devoção aquela mulher de olhos verdes como o verde da Mangueira. Aquela que nunca cedera, apesar das investidas de Benê. Entre apaixonado e libertino, o sambista tentara sem sucesso uma noite, um beijo, um abraço, uma atenção distraída, que fosse. Tentara como se desejasse redenção. Benê cruzou a quadra.

- Pensei que tivesse morrido, nego. – disse a bela mulher. Não trazia espanto nos belos olhos.

- Morri e voltei. Estava com vontade de te ver. – respondeu o malandro.

Beatriz achou graça. Ruborizou. Raras são as mulheres que ruborizam hoje em dia. A morena remendou um “não brinca com uma coisa dessas” e forjou displicência. Em verdade, aquela mulher estava satisfeita em ver o malandro, motivo secreto de algumas de suas noites maldormidas e dos calores noturnos.

- Eu tô aqui por você, nega. – sussurrou a voz rouca de Benê no ouvido de Beatriz.Tomou a mulher pelos braços e nada mais disse.

Sem que a mulher protestasse, em pouco tempo estavam numa construção ao lado do barracão. Logo ela gemeu um “eu sempre te quis, nego, e sempre soube que te teria”. Repetia a frase e era interrompida por beijos e mordidas de Benê. Com a morena nua nos braços, colados corpos, haveria de valer a pena o acordo com o diabo. Ele queria ir devagar; ela estava em êxtase e lhe arranhava a carne. “Eu sempre soube que te teria, nego.” Emaranhada nos pelos e beijos de Benê, Beatriz rasgava a pele do malandro. Contorcia-se bruscamente, apesar de nem terem começado de fato. Num de seus solavancos, arrancou do peito de Benê o escapulário.

O malandro percebeu o escapulário na mão de sua mulher e a ouviu gemer mais um “eu sempre soube que te teria, nego.” Num piscar de olhos, estava de volta ao inferno, trazido não por Virgílio, mas pelas mãos de sua morena. Nessa barca de bamba, Beatriz o conduzira de volta aos confins do nada.

Frustrado e incontido em desejos, ainda sentindo o cheiro da mulher, o coitado sambista quis desfazer o pacto. Alegaria que o diabo não sustentou sua parte no acordo. Ademais, se o diabo fosse esperto, saberia que promessas de malandro não se cumprem. Faria do inferno um inferno e não aceitaria estar de voltar sem ter possuído de fato sua Beatriz.

- Teu desejo foi explícito e atendido. Tuas razões, explanadas. Mas não tenho como deferir teu pedido. – objetou o diabo, pleno em suas razões legais. – Tu querias ver o último ensaio geral da tua escola. Foi-te concedido.

O malandro se calou.

- Anda. Prepara-te para meu samba. – completou o diabo.

O malandro concordou.

Eis senão quando o malandro não conseguiu fazer o samba. O cavaco não chorava como devia. Tampouco a letra fazia sentido. Não havia poesia, ritmo. Tentava criar algo, mas a saudade da morena permeava seus pensamentos, anuviando qualquer deixa de samba.

- Mas o que te acontece? Cadê aquela tua cadência? – zombou o diabo, dono de todo o escárnio.

Benê apenas pensava em Beatriz. Sentiu o coração, outrora vadio e compassado no ronco da cuíca, pesar-lhe no peito.

- Eu sempre soube que te teria, nego. – disse o senhor dos excomungados, mirando com os olhos verdes como o verde da Mangueira, antes de trancafiar Benê para todo o sempre. Desde então, céu e inferno ficaram sem samba.


10 livros para as férias de verão

VIP selecionou uma dezena de títulos para você curtir nas férias de verão.

O Que se Passa na Cabeça dos Cachorros
Malcolm Gladwell | Sextante
400 páginas | R$ 39,90
Esta coletânea de crônicas traz os melhores artigos publicados por Gladwell na revista The New Yorker, desde 1996. O autor examina alguns enigmas da humanidade, como a razão para Bush apostar que Saddam Hussein mantinha armas de destruição em massa ou por que teremos mais acidentes espaciais como o do Challenger. Livro para ler aos poucos, com calma.
Leia um trecho.

Os Homens Que Encaravam Cabras
Jon Ronson | Record
304 páginas | R$ 42,90
O livro é um trabalho jornalístico sobre o grupo militar criado pelas Forças Armadas dos EUA em 1979 que buscavam para si poderes paranormais como ficar invisível, atravessar paredes ou matar uma cabra com o poder da mente, apenas encarando-a. A realidade é bem bizarra, né?

The Master Switch
(em inglês)
Tim Wu | Alfred A. Knopf
366 páginas | US$ 27,95 (+ frete e impostos)
Telefone, rádio, televisão, cinema e a internet. The Master Switch repassa a história da comunicação por um viés pouco explorado – a política, desde a apropriação feita pelos governos até o uso da máquina de comunicação. Bom livro para o fim das férias, quando a cabeça já pensa no trabalho.

Pornopopéia
Reinaldo Moraes | Objetiva
480 páginas | R$ 56,90
Vai fazer dois anos que este livro foi lançado, mas ainda não houve nenhum outro que trouxesse uma história de sexo e drogas tão boa quanto a do ex-cineasta marginal Zeca. Libertino, Pornopopéia é excelente leitura para aquela noite quente refrescada por caipirinhas.
Leia um trecho.

Eu Sou Ozzy
Ozzy Osbourne | Benvirá
416 páginas | R$ 49,90
Uma das melhores biografias do ano, Eu Sou Ozzy fala da vida do ex-frontman do Black Sabbath e ícone do rock Ozzy Osbourne. Sim, aquele que mordeu a cabeça de uma pomba, de um morcego… Mas além disso, ele é quem abriu fogo contra as galinhas que sua mulher criava. Precisa dizer mais? Hilário, é um excelente livro para as conversas de bar.

Chabadabadá
Xico Sá | Record
184 páginas | R$ 37,90
Um manual. Não há outra forma de definir esta obra do macho-alfa Xico Sá. São pequenos textos – todos muito divertidos – que observam como os homens estão perdidos neste mundo cada vez mais dominado pelas mulheres, e como lidar com as senhoras do zeitgeist. (Dica da VIP: homem que é homem nunca usa o termo zeitgeist. Soa afrescalhado.)

Cachalote
Daniel Galera e Rafael Coutinho | Quadrinhos na Cia.
280 páginas | R$ 45

Um marco nos romances gráficos no Brasil, Cachalote é um compêndio sobre o silêncio e o desejo de emergir do fundo do poço. Histórias em que o vazio é o protagonista da realidade. Toda felicidade é efêmera. Nenhuma redenção é plena. Excelente opção para aquela tarde de chuva tropical.
Leia um trecho.

Desgracida
Dalton Trevisan | Record
240 páginas | R$ 37,90
Desgracida é dividido em dois: a primeira parte traz noventa contos curtos e ácidos, cheios de erotismo e de misérias; a segunda, cartas de Dalton Trevisan a personalidades como Rubem Braga e Otto Lara Resende. Uma boa leitura para o fim de tarde, quando dá aquela esfriada de leve.

A Onda
Susan Casey | Zahar
328 páginas | R$ 29,90
Livro-reportagem que explora o fenômeno das ondas gigantes e a visão de grupos distintos diante dessa força natural – surfistas, marinheiros, cientistas… Enquanto uns se divertem, outros sofrem com as gigantes dos oceanos. Para ler de manhãzinha, sentado na areia e olhando o mar.

O Livro dos Mortos do Rock
David Comfort | Aleph
408 páginas | R$ 55
Além da música de primeira qualidade, Hendrix, Elvis, Lennon, Kurt, Jim, Jerry e Janis têm algo em comum: a morte precoce. Este livro conta a vida peculiar e o espírito autodestrutivo desses deuses da música, o que culminou em tragédia para todos eles. Para ler na rede.
Leia um trecho.


The book is on the road

Três bermudas? Ok. Escova de dentes? Ok. Perfume? Ok. O cabo do iPod? Ok.

Estou prestes a ir para Marília, cidade no interior de São Paulo que cheira a biscoito de chocolate, minha terra natal. Fico uma semana lá. Serão dias muito cansativos: acordar ao meio-dia, almoçar, cochilar vendo desenho animado, acordar às 3 da tarde, trabalhar (de leve) durante uma hora, cochilar vendo qualquer imbecilidade na TV aberta, levantar às 7, sair para o bar, voltar às 3, dormir. Todo mês fico ansioso para voltar à “terrinha” e, por isso, faço a mala com antecedência. Na hora da arrumação sempre tenho a seguinte dúvida: que livro levar para ler durante as seis horas de viagem?

Creio que alguns de vocês têm o mesmo dilema. Assim, pensei em três dicas para ajudá-los a escolher melhor o que e como ler durante as viagens.

  • Páginas por km/h

Você não vai conseguir ler as 1288 páginas de Os Miseráveis, de Victor Hugo, de cabo a rabo nos 50 minutos do voo Rio-São Paulo. Por outro lado, o graphic novel Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, é muito pouco para os 5684 quilômetros que separam Brasília de Ouagadougou, capital de Burkina Faso, no continente africano.

Saber quantas páginas cabem na sua viagem é fundamental. Prefira uma coletânea de contos para viagens curtas. Como bem define Júlio Cortazar, “no combate entre um texto e seu leitor, o romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto deve ganhar por nocaute”. Ou seja, é aquele texto com maior impacto dramático em menos linhas possíveis. Outra opção bem bacana é uma seleção de crônicas. Seguem alguns livros legais:

Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século
Vários autores, organização de Italo Moriconi
Objetiva
622 páginas, R$ 72,90

200 Crônicas Escolhidas
Rubem Braga
Record
490 páginas, R$ 37,90

Já para viagens de média duração, de quatro seis horas, opte por novelas – prosas nem tão curtas quanto o conto e nem tão longas quanto o romance. Não é nenhum absurdo passar um quarto do dia com os olhos voltados a um livro. Principalmente se ele tiver uma escrita fluida e um enredo envolvente. Pelas minhas contas, seis horas é o tempo necessário para você ir do começo ao fim de uma novela ou um romance curto, de 180 páginas. Dependendo da obra, dá até para você ter uma pausa e pedir outra dose de uísque à comissária ou parar em um restaurante de beira de estrada para comer aquele delicioso bolinho de carne duvidosa. Sugiro os seguintes títulos:

Três Novelas Exemplares
Miguel de Cervantes
Arte & Letra
184 páginas, R$ 32

O Velho e o Mar
Ernest Hemingway
Bertrand Brasil
128 páginas, R$ 31

No caso de viagens longas, com mais de seis horas, uma biografia ou um livro de memórias vem a calhar. Escolha um personagem de sua predileção — pode ser um grande jogador de futebol, um empresário bem sucedido, um ditador sanguinário ou um artista de renome — e conheça um pouco mais de sua vida. Você não apenas terá momentos agradáveis durante o voo chato como também aprenderá algumas lições que podem ser usadas na sua vida. Confira duas obras legais:

O Anjo Pornográfico
Ruy Castro
Companhia das Letras
464 páginas, R$ 62,50

Recados da Bola
Vários autores, organização de Jorge Vasconcellos
Cosac Naify
240 páginas, R$ 99

  • O bom e velho “livro de papel”

Uma pesquisa da Nielsen Norman Group realizada em julho deste ano revelou que ler em Kindle 2 e iPad leva mais tempo do que apreciar a obra em seu formato impresso. Segundo o estudo, a velocidade de leitura em iPad é 6,2% mais lenta; em Kindle 2, 10,7%.

Outro ponto importante: se você for tão cabeça de vento quanto eu, é preferível esquecer um livro de R$ 40 na poltrona do ônibus do que um Kindle de R$ 600 ou um iPad de R$ 1,7 mil.

  • Dê uma chance aos livros de bolso

Eu sempre torci o nariz para os pocket books. Achava que a qualidade ruim do acabamento se estenderia à narrativa. Mas eu confesso que me enganei: apenas o papel de embrulhar pão merece desdém. Há bons títulos na versão pocket, que não perdem em termos de conteúdo em comparação à versão original. Ah, e eles saem mais em conta.