Autor

Substantivo Masculino

por Tiago Lopes

O blog de literatura da VIP. Porque nem só de orgias, bebedeiras e jogatinas vive um homem.



Um mundo de Lolita

O autor e tradutor alemão Dieter E. Zimmer há muito mantém um fascínio por Lolita, obra-prima de Vladimir Nabokov. Tanto que resolveu fazer uma exposição on-line das capas de Lolita publicadas em 33 países. Covering Lolita traz 154 peças, desde a primeira capa (da edição francesa de 1955) até uma edição alemã chamada Wirbelsturm Lolita (em tradução livre, “O Furacão Lolita”), de 2008. Algumas são medonhas, como as capas das edições turca de 1959 e francesa de 1963.

Duas das peças são brasileiras. Posso estar enganado, mas creio que saíram quatro edições no Brasil, sendo três pela Companhia das Letras — duas convencionais e uma de bolso –, além de uma edição que integrou a coleção da Folha.

As capas que mais gostei são as das edições italiana, de 1969, e alemã, de 1974 (ao lado).

Quem não conhece Lolita, pode ler um trecho aqui.

(Dica marota de Luiz Gustavo Leme, fotógrafo peralta e leitor compulsivo de Julia, Bianca e Sabrina.)


Para começar

Lolita

A gente nunca esquece a primeira namorada, a primeira transa, o primeiro carro, o primeiro porre, o primeiro pé na bunda, o primeiro tudo. Para o bem e para o mal, toda estreia deixa marcas. Este é meu primeiro post. Espero que ele seja tão bom quanto minha primeira namorada.

Terminado o primeiro parágrafo. As primeiras linhas. Para o começo do Substantivo Masculino, apropriei-me — descaradamente, aliás — da ideia do colega de casa Sérgio Rodrigues, do blog Todoprosa da VEJA. Sérgio é, na minha opinião e entre muitas qualidades que lhe cabem, o maior colecionador de começos do Brasil. Explico: há mais de quatro anos, desde que mantinha seu espaço no finado NoMínimo, Sérgio brinda seus leitores com os melhores começos de obras da literatura universal. Achei a ideia pertinente para este primeiro post. Por isso, vasculhei alguns livros da minha biblioteca e separei três começos que são brilhantes.

Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável.

O começo do último livro do austríaco André Gorz, Carta a D. (Cosac Naify, 78 páginas), é marcante pela profundidade sentimental resumida em poucas palavras, o que viria a calhar hoje em dia, tempos de relacionamentos com até 140 caracteres. O livro todo é uma declaração de amor a Dorine, companheira do escritor por quase 60 anos. Nada tem de ficção: a paixão tão real quanto a doença degenerativa da amada. Tanto que Gorz, ao perceber que a vida de Dorine logo chegaria ao fim, se suicidou junto à mulher em 2007.

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu-da-boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.

Eu me lembro da minha fascinação quando terminei de ler pela primeira vez a obra-prima de Vladimir Nabokov, Lolita (Companhia das Letras, 360 páginas). A história de Humbert Humbert, um professor de meia idade que cai de amores pela enteada de 12 anos, mistura a loucura de um homem diante da mulher proibida. O enredo é perverso; Humbert Humbert, doentio. Ainda assim, a narrativa é refinada ao ponto de fazer os leitores se compadecerem com a dor e a angústia do pobre diabo. O começo do livro é de uma sensualidade elegante, o que é bastante raro tanto na ficção quanto fora dela, no mundo real.

No dia seguinte ninguém morreu.

As Intermitências da Morte, de José Saramago (Companhia das Letras, 208 páginas) não é exatamente o melhor livro do português Nobel de Literatura. Parece que se divide em duas partes: a primeira, quando os cidadãos deixam de morrer e o caos da eternidade se instaura na região, e a segunda, quando a Morte se materializa. Ainda assim, é superior à maioria dos livros que saem hoje em dia. Acostumado a frases longas, com pontuação incomum aos olhos menos treinados, e a parágrafos que se arrastam por páginas e mais páginas, a concisão de Saramago em “No dia seguinte ninguém morreu” destoa do normal. Contudo, estas cinco primeiras palavras têm o poder de causar um grande impacto na cabeça do leitor que se dispõe a refletir: “Já imaginou se houvesse um dia em que ninguém morresse?”

Há várias outras obras cujas primeiras linhas atraem o leitor. Na sua opinião, quais outros começos de livros merecem destaque?