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Degustar cachaça branca com cachaça envelhecida é a mesma coisa que misturar champanhe com vinho tinto.” Esta frase de Rodrigo Oliveira, chef e dono do restaurante paulistano Mocotó, foi decisiva para que nos limitássemos às cachaças brancas na degustação para escolher a melhor pinga do Brasil. Escolha acertada: se o envelhecimento em barril confere sabores e aromas, esses mesmos componentes disfarçam o caráter fundamental da cachaça, a cana-de-açúcar.

Um time de dez especialistas e cachaceiros amadores degustou uma seleção de 12 cachaças brancas, previamente escolhidas segundo três critérios: 1) fossem excelentes; 2) representassem diferentes regiões do Brasil; e 3) viessem de alambiques de diferentes estilos. Não que a madeira estivesse totalmente ausente das amostras provadas: para ser considerada envelhecida, a pinga deve ser guardada por pelo menos um ano em barris pequenos, de até 700 litros. Algumas das bebidas testadas tinham passagem por barricas maiores, geralmente de madeiras consideradas neutras, que não alteram muito as características de cor e aroma.

A degustação foi feita às cegas. Isso significa que ninguém sabia o que estava bebendo. Todo mundo deu suas notas sem ser influenciado pela imagem da marca ou por um rótulo criativo. Reunidos no Mocotó, os degustadores avaliaram os aspectos visuais, olfativos e gustativos de cada cachaça, além da sensação final que ela deixa na boca. Cada um desses critérios ganhou nota de 1 a 5. A soma de todos os pontos de todos os jurados determinou o ranking, e duas cachaças com as notas finais mais baixas foram eliminadas da lista. Houve alguns empates: na ficha de um mesmo bebedor, foi comum que mais de uma pinga tenha recebido a mesma pontuação e – ainda bem – não houve consenso sobre a bebida campeã.

Gostamos tanto que já marcamos um novo teste para o próximo semestre, desta vez só com cachaças envelhecidas.

O RANKING

1º lugar – 163 pontos
SERRA ALMA DAS PRATAS
40% de álcool
Rio de Contas, BA
A campeã da degustação é feita com cana-de-açúcar orgânica na Chapada Diamantina e é armazenada por um ano em dornas de inox. Foi a amostra mais pontuada de três jurados – Elcio Fonseca, Illan Oliveira e eu (veja a lista de todos os jurados ali abaixo).
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2º lugar – 151 pontos
JOÃO MENDES PRATA
38% de álcool
Perdões, MG
Esta cachaça é armazenada por até três anos em barris de carvalho revestidos com parafina – o que impede a madeira de alterar a cor e o aroma. Ganhou a maior nota nas planilhas de Maurício Maia e Felipe Jannuzzi.
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EMPATE no 3º lugar – 150 pontos
MATO DENTRO PREMIUM PRATA
42% de álcool
São Luís do Paraitinga, SP
Esta repousa por seis meses em amendoim – uma madeira neutra, que não tem nada a ver com o petisco. Dois jurados – eu e Leandro Batista – deram à Mato Dentro a maior nota da degustação.
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FULÔ JEQUITIBÁ
38% de álcool
Nova Friburgo, RJ
Empatada na terceira posição, ela é bidestilada (o que suaviza alguns dos aromas típicos de cachaça) e descansada por três meses em tonéis de jequitibá. Foi a amostra favorita de Gabriela Monteleone. Também obteve a melhor pontuação na ficha de Maurício.
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4º lugar – 147 pontos
ARMAZÉM VIEIRA NOSSA SENHORA DO DESTERRO
40% de álcool
Florianópolis, SC
Araribá e grápia são as madeiras utilizadas para fazer as dornas em que esta bebida é armazenada por seis anos. Como os tonéis são enormes – até 16 mil litros –, a transferência de cor e aromas é relativamente pequena.
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5º lugar – 141 pontos
SERRA LIMPA PRATA
45% de álcool
Duas Estradas, PB
Esta paraibana arretada é a mais forte de todas as cachaças degustadas. Também foi a primeira aguardente de cana a receber o selo orgânico no Brasil. Passa seis meses em tonéis de freijó antes do engarrafamento.
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6º lugar – 140 pontos
LEBLON
40% de álcool
Patos de Minas, MG
Marca internacional, a Leblon é repousada em tonéis de carvalho de segundo uso – que passam menos aromas que os novos – e filtrada três vezes. Ganhou a melhor pontuação na ficha de Ricardo Lombardi.
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7º lugar – 139 pontos
JACUBA PRATA
40% de álcool
Coronel Xavier Chaves, MG
A Jacuba é uma branquinha sem nenhuma interferência de madeira: passa de seis meses a um ano em dornas de aço inox e, de lá, direto para a garrafa. Foi a pinga mais bem pontuada da ficha de Alceu Nunes.
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8º lugar – 136 pontos
MERCEDES PRATA
39% de álcool
Orizona, GO
Representante do estado de Goiás, a Mercedes também dispensa qualquer recipiente de madeira depois que sai do alambique. O triunvirato da VIP, Ricardo, Renato Krausz e Alceu, deu nota máxima para esta branquinha.
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9º lugar – 132 pontos
TÁBUA FLOR DE PRATA
41% de álcool
Taiobeiras, MG
Produzida na região de Salinas (a mais famosa do Brasil), a Tabua passa um ano em tonéis de jequitibá. Ganhou o maior número de pontos na planilha de Renato.
R$ 11,99, em imigrantesbebidas.com.br

A favorita dela
A única mulher do nosso grupo de provadores, além de gata, entende tudo de bebidas. Gabriela Monteleone é a sommelier responsável pela seleção de vinhos dos restaurantes do chef Alex Atala. Das cachaças degustadas, ela gostou mais da Armazem Vieira. Não por coincidência, é a que passa mais tempo em barril – esse período suaviza a bebida. “Ela é mais macia, quase como um conhaque, bastante sedutora”, diz Gabi. Na opinião dela, mulheres tendem a gostar mais de cachaças mais “arrendondadas”. Caso a branquinha seja meio agressiva, um bom truque é servi-la gelada para a sua gata.

Os jurados
Alceu Nunes:
diretor de Arte da VIP
Elcio Fonseca: jornalista e escritor
Felipe Jannuzzi: responsável pelo site Mapa da Cachaça
Gabriela Monteleone: sommelier dos restaurantes D.O.M. e Dalva e Dito
Illan Oliveira: dono da distribuidora de cachaças Solution
Leandro Batista: chefe de bar do restaurante Mocotó e especialista em cachaças
Marcos Nogueira: editor da VIP
Maurício Maia: responsável pelo blog O Cachacier
Renato Krausz: redator-chefe da VIP
Ricardo Lombardi: diretor de Redação da VIP