“Vocês estão cercados pela abundância da Amazônia. Aproveitem!” Com esta deixa, o jurado Dale DeGroff deu início à prova em que os 16 melhores barmen do mundo fariam drinques com os produtos de um mercado local. No caso, a feira do Bairro Peixoto, em Copacabana, a 3 094 quilômetros de Belém e cujas frutas mais exóticas eram a goiaba e a jaca.

Uma nuvem de gente diferente bagunçou a ordem da manhã carioca. De colete, camisa social e chapéu, o representante de Trinidad e Tobago cheirava tudo o que podia; a gatinha libanesa, única mulher classificada, comprava beiju de tapioca; o tailandês de gravata-borboleta se esforçava em vão para se comunicar com os feirantes em espanto, assim como Tim Philips, o australiano que viria a se sagrar campeão. Atrás deles, equipes de TV atropelavam os aposentados que tentavam escolher caquis e ameixas. Em questão de minutos, todo esse pessoal entrou de volta nas vans e sumiu.

Assim transcorreram os quatro dias da final global da World Class, competição bancada pela gigante Diageo, maior fabricante de destilados do mundo. Um circo com 700 pessoas foi instalado no Rio de Janeiro. Um pelotão de executivos, clientes, jornalistas internacionais e a produção de um reality show televisivo foi à Guanabara acompanhar o desempenho da elite dos bartenders, vindos de 39 países, selecionados entre 15 mil profissionais. Os melhores drinques do mundo foram preparados lá, mas só os jurados do concurso – a elite dessa elite – os provaram. A cidade ignorou quase totalmente a trupe. Ela, afora a feira “amazônica”, a visita obrigatória à churrascaria e alguns shows constrangedores de dança folclórica, também não conheceu o Rio.

1. A musa das arábias
Não bastasse ser a única mulher classificada para a final da World Class, Varia Dellalian é uma barwoman jovem e sexy num país árabe em que a religião majoritária, o islamismo, veta o álcool. “É um bocadinho difícil”, diz a concorrente libanesa. Cristã de origem armênia, Varia trabalha no bar Momo at The Souks, em Beirute, onde atende cristãos e muçulmanos. “Quem vai ao bar não é religioso.” No Rio, ela desconcentrou os outros concorrentes com seu charme – na cerimônia de encerramento do concurso, posou para fotos sentada no colo do vencedor Tim Philips. Acabou eliminada na penúltima etapa, mas levou para casa o prêmio de melhor drinque na categoria retro chic, em que precisava executar clássicos da coquetelaria.

Enquanto o veranico de julho levava os cariocas à praia, os participantes do torneio passaram quatro dias confinados no hotel Copacabana Palace. Foram cerca de 440 coquetéis preparados em oito desafios temáticos. Um deles foi a prova da feira. Outro, batizado de retro chic, pedia a execução de um coquetel clássico e a releitura de mais um. Essa onda nostálgica, maior aposta da indústria de destilados, foi o fio condutor da competição – e por isso a atriz americana Christina Hendricks, a ruiva da série Mad Men, apareceu para enfeitar o evento.

Como o Brasileirão, é um campeonato de pontos corridos. O vencedor foi escolhido pela soma de suas pontuações em todas as provas. O ganhador da etapa brasileira, Paulo Freitas, competiu no próprio escritório – ele trabalha no Bar do Copa, no Copacabana Palace –, mas saiu logo na primeira bateria de eliminatórias. “A pressão é muito maior num torneio internacional”, disse o carioca, que desbancou 30 bartenders na fase local da World Class.

Do outro lado do balcão, julgando os drinques, estavam os ídolos dos bartenders jovens. O americano Dale DeGroff, citado no início deste texto, é o responsável pelo renascimento do cosmopolitan – sua receita, servida no Rainbow Room de Nova York, caiu nas graças de Madonna. Spike Marchant, que chefiou vários bares em Londres,  criou e coordena o World Class. Gary Regan, uma instituição da coquetelaria nova-iorquina, é um rebelde de 60 anos que anda com um olho – só o direito – pintado.

A pressão sobre os concorrentes aumentava ainda mais com a presença de cinco equipes gravando versões diferentes de um mesmo reality show (a ser exibido no Brasil pelo canal GNT). A superprodução incluiu eventos paralelos no hotel Fasano e a transformação do Bar do Copa no club londrino Mahiki. Culminou com uma cerimônia ao estilo Oscar – mas com show de mulatas – na Ilha Fiscal, que coroou o australiano Tim Philips. Naquela noite, o Rio era a capital mundial do coquetel; no dia seguinte, voltaria a beber caipirinha.

5 dicas de profissional
Meça as quantidades sempre, mesmo em drinques que você conhece de cor.
2  O gelo usado para fazer o coquetel não deve ser usado para servi-lo.
3  Uísque é a próxima bebida da vez.
4  Xarope é melhor que açúcar porque dissolve mais fácil. Faça em casa com 500 ml de água quente e 1 kg de açúcar.
A coqueteleira com coador embutido é o que você precisa em casa. Menor que a de boston (com dois copos), pode ser manejada com uma só mão.

Os drinques dos campeões
Tim Philips, o vencedor do World Class, trabalha no bar Hemmesphere, em Sydney, Austrália. Conheça agora algumas das receitas que ele e os vencedores de outras provas prepararam no Rio.

Morning glory fizz
Apresentado pelo campeão Tim Philips na prova retro chic

Ingredientes
1 60 ml de Talisker (ou outro uísque single malt)
2 20 ml de suco de limão-siciliano
3 20 ml de xarope de açúcar 4 10 ml de clara de ovo
5 1 colher (chá) de absinto
6 club soda

Preparo
Numa coqueteleira, bata duas vezes – colocando gelo na segunda vez – todos os ingredientes, menos a soda. Sirva num copo baixo e complete com soda.

El Presidente
Vencedor na categoria domínio da coquetelaria, de Olivier Jacobs, Bélgica

Ingredientes
1 45 ml de Zacapa 23 (ou outro rum escuro)
2 7 ml de licor Grand Marnier
3 20 ml de vermute Noilly Prat
4 1 colher (chá) de grenadine

Preparo
No mixing glass com gelo, misture todos os ingredientes líquidos. Coe sobre uma taça de martíni previamente gelada e, se quiser, decore com uma casca de limão.

Bloody mary
Vencedor na categoria retro chic, da libanesa Varia Dellalian

Ingredientes
1  50 ml de vodca
2  20 ml de molho inglês
10 ml de suco de limão-siciliano
4   1 colher (sopa) de Tabasco
5   1 colher (chá) de xarope de açúcar
6  2 pitadas de sal de aipo
7   2 pitadas de pimenta-do-reino
8 6 pitadas de sal
9 150 ml de suco de tomate

Preparo
Misture tudo num copo alto com gelo. Se quiser, decore com um talo de salsão, uma pimenta dedo-de-moça e uma fatia de limão.

A walk in the clouds
Vencedor na categoria coquetel autoral, do taiwanês Kae Yin

Ingredientes
30 ml de Zacapa 23 (ou outro rum escuro)
2  15 ml de Talisker (ou outro uísque single malt)
15 ml de Cynar
4  5 ml de licor de café
1 colher (chá) de bitter de ameixa

Preparo
Misture todos os ingredientes no mixing glass com gelo e coe sobre uma xícara de chá, também com gelo.

Iemanjá
Vencedor do desafio da feira, de Dennis Zoppi, Itália

Ingredientes
45 ml de gim
2 15 ml de xarope caseiro de camomila (deixe um saquinho de chá de camomila no xarope de açúcar por um dia)
3 5 folhas de arruda

Preparo
Na coqueteleira com gelo, bata todos os ingredientes e coe sobre uma taça de martíni previamente gelada (a receita original pede que a taça seja defumada com alecrim). Decore com uma flor vermelha, se quiser.

Matéria publicada na Revista VIP de agosto de 2012.