Não é difícil chegar ao prédio de Neymar, em Santos. Basta abrir a janela do carro, no semáforo, e perguntar ao primeiro motorista que parar ao lado. Ele será capaz de apontar o topo desse prédio, de longe, como se lá em cima morasse o príncipe, o papa, alguém que paira acima das nuvens, mas que um dia será nome de rua. O difícil, mesmo, é chegar ao próprio Neymar. E não apenas porque esse prédio perto da praia, para o qual ele se mudou há um ano, com seus pais e irmãos, é uma dessas torres altas, sólidas, supervigiadas e até meio intimidadoras, quase uma fortaleza vertical. Além disso, da questão do acesso físico, deve-se levar em conta que o garoto-prodígio Neymar da Silva Santos Jr., no que diz respeito ao contato com jornalistas, não costuma jogar tão lépido e solto quanto no ataque do Santos; ao contrário, quase se esconde atrás de uma forte linha de zagueiros – os sacerdotes que cuidam do mito e de tudo o que ele vale. Eles protegem e administram tudo o que se refere a Neymar: a carreira, a imagem, a agenda, o dinheiro e de certo modo até o simples uso da boca: as coisas que ele deve comer e as coisas que ele deve dizer (ou não dizer).

O hall do prédio ostenta pinturas em série, de um modernismo retrô, mas apressado, feitas por alguém que abusou das tintas. Três fontes borbulhantes, já perto do elevador, não disfarçam o cheiro forte e adocicado de algum produto de limpeza, como se também essa pessoa houvesse exagerado um pouco no serviço. Neymar mora em uma cobertura triplex, com piscina e sauna. Vidraças panorâmicas mostram o mar. Cenário admirável, mesmo com o dia cinzento, de chuva fina, que dá a Santos um leve aspecto londrino.

Neymar não quis ir para Londres. Em agosto deste ano, recusou uma proposta do Chelsea, que se dispunha a desembolsar por ele, cobrindo a multa contratual, algo equivalente a R$ 90 milhões. Na Inglaterra, o salário desse menino nascido em Mogi das Cruzes seria em torno de R$ 1,3 milhão por mês, contra os atuais R$ 160 mil que ganha no Santos, elevados a um patamar perto de R$ 500 mil, supõe-se, se acrescidos do que ainda recebe por conta de patrocínios e ações de marketing.

Não ir para Londres, portanto, para Neymar foi como recusar um prêmio da Mega-Sena. A decisão ele tomou sozinho, assegura, depois de ter ouvido conselhos de seu pai, também chamado Neymar, da mãe e de outras pessoas mais chegadas. “Foi difícil”, admite. E é possível que esse garoto de cabelo moicano, cuja figura evoca os índios guerreiros dos Estados Unidos e também os punks ingleses da década de 1980, sem conseguir disfarçar a timidez por trás da irreverência, na época da oferta milionária dos ingleses nem sequer possuía a noção exata da magnitude do dinheiro que estava em jogo. Não teria tido acesso às cifras, assopra um dos homens que guarnecem a entrada da área: “O Neymar escolheu com o coração”.

“O dinheiro não era o mais importante”, Neymar diz. Neymar diz ou alguém diz isso pela boca dele? Não raro, o jovem, ainda franzino de corpo, parece recitar frases neutras e genéricas combinadas antes, “nos vestiários”, como se costuma dizer, de modo a evitar embaraços. Isso ele já teve de sobra neste ano glorioso, mas conturbado. Brigou com o técnico e foi alvo de especulações.

Afinal, por que Neymar não foi para Londres? Dentro da casa dele, não é difícil entender. Basta olhar em torno. Neste dia londrino, em que devido à chuva o Santos acabou por cancelar o treino da tarde, ele pode fazer o que gosta sem sair de casa. Enquanto as ondas do mar espumam lá longe, Neymar está com os olhos grudados em um laptop todo branco, entre outros rapazes, um dos quais também moicano. No canto da sala, uma tela mais alta exibe um desses videogames de futebol que parecem um jogo de verdade. O som é de pagode. Podia ser sertanejo, que Neymar também aprecia. No centro da sala, sobre o feltro claro e tinindo de novo de uma mesa de sinuca, bolas coloridas deslizam com as tacadas violentas de um dos membros do grupo, que treina sozinho.

Tudo isso, da sauna à sinuca, do pagode ao videogame, e muito mais, Neymar poderia ter em Londres, se tivesse ido. Bem mais difícil seria ter a seu lado, lá, esses rapazes, seus velhos camaradas. E eles estão a seu lado nesta tarde sem treino: Joclécio (“Jô”) e Gustavo, ambos de 18 anos, como o próprio Neymar, e mais Gil, de 22. Só falta Cosme, um pouco mais velho, 25, para completar o quinteto.  Neymar os conheceu na infância ou na igreja evangélica. Ainda hoje podem ser vistos juntos num feriado na ribombante praia de Maresias, no litoral norte de São Paulo. Ok, estão juntos, mas já não é como antes. Os fãs cercam Neymar por todos os lados, pedindo fotos e autógrafos. Ele gosta. É o lado bom da fama, para ele ainda novidade. Mas, justamente por isso, nada será como antes. Esses momentos íntimos, com os amigos, tornam-se raros. Uma pelada na areia com eles, agora, só um pouco antes do Natal. No resto do ano, Neymar joga, viaja, aparece na TV, tem vida de celebridade. Mesmo se tivesse tempo para uma pelada, talvez não pudesse arriscar-se a uma contusão boba na praia; já chega o risco a que está exposto como profissional e exímio driblador diante da sanha assassina da defesa adversária.

Nem mesmo ao shopping, ali perto, essa turminha pode ir como ia – de ônibus – no passado recente. Hoje o Volvo XC-60 de Neymar espera por eles lá embaixo, mas é preciso escolher a melhor hora para o ídolo ir saborear um Big Mac sem causar tumulto. No início da tarde, por exemplo, quando o shopping está mais sossegado. Escolhendo o momento, dá até para Neymar ir ao cinema. Ele gosta de comédias e filmes de ação. Nos últimos tempos, curtiu Salt e Tropa de Elite 2.

Neymar passou à elite do futebol brasileiro não muito tempo depois de sua estreia aos 17 anos no time profissional do Santos, em um jogo contra o Oeste, no Pacaembu, em 7 de março de 2009. Desde então ressuscita aquela pergunta de praxe, no Brasil: estaremos diante de um novo Pelé?

Muita gente do mundo da bola não admite ir tão longe. “Se ele virar um Coutinho ou um Pagão, está bom demais”, prognosticou Pepe, referindo-se a dois jogadores que, como ele, fizeram história no grande Santos de meados do século passado. Já o técnico Muricy Ramalho, hoje no Fluminense, acha que Neymar chegará ao nível de Robinho. O próprio Pelé descarta um sucessor à altura, mas exalta,  em Neymar, três atributos incomuns: rapidez, facilidade para tocar a bola e visão de jogo.

Esta última qualidade, que não se vê muito em jogadores jovens, é definida por Neymar de maneira também surpreendente. Para ele, ter visão de jogo significa “ver o companheiro de outra forma, como  ninguém tá vendo”. Mas não acha que, no Santos, seja ele próprio o  maior especialista no assunto. Não poupa elogios a seu amigo (também evangélico) e parceiro de fama, o meio-campista Paulo Henrique Ganso, que enxerga atalho no campo e por ali lhe passa a bola bem redonda, no momento exato. Foi assim que Neymar, ao final de sua segunda temporada como profissional, este ano, já conseguia ultrapassar a marca de meia centena de gols marcados pelo Santos. Foi também considerado o melhor jogador do Campeonato Paulista, competição na qual fora eleito o jogador-revelação em 2009. Tornou-se também, em 2010, artilheiro da Copa do Brasil, tendo assinalado a mesma quantidade do que o número de sua camiseta: 11.

Entre seus gols, Neymar recorda a pequena obra-prima com a qual, em 4 de fevereiro de 2010, abriu o placar na vitória do Santos por 2 a 1 sobre o Santo André. Servido por Ganso, para variar, ele invade a área com movimentos esquivos e desconcertantes. Entorta um zagueiro, que cai sentado, e limpa mais dois para o arremate final. E o faz com um tiro cruzado, no canto. Aquelas coisas que parecem óbvias só depois que acontecem. No canto, sem pressa. Estilo Pelé. Com a diferença, é claro, que Pelé fazia um desses por semana.

[Aqui, uma paradinha para a teoria: “Gol bonito é um gol caprichado, em que você vai driblando”, define o próprio Neymar. De onde vem isso, não se sabe. Pelé acha que é dom divino. Neymar é lacônico: “Já nasci jogando assim”.]

A figura paternal (mas avassaladora) de Pelé é um desafio no destino de qualquer garoto que se atreva a fazer coisas geniais com a bola nos pés. É o caso de Neymar. No primeiro semestre deste ano, quando ele de fato andou abusando das firulas, recebeu exortações à humildade e um puxão de orelhas de parte do venerável patriarca da Vila Belmiro, que o censurava por jogar mais para a torcida e a  televisão do que para o time. E quando da rumorosa encrenca com Dorival Júnior, que resultaria na demissão do técnico, mas também, a seguir, na exclusão do próprio Neymar da convocação de setembro para a Seleção Brasileira, Pelé apoiou a decisão punitiva tomada por Mano Menezes.

Neymar não se mostra muito animado a comentar essas carraspanas e tampouco em falar sobre sua relação com Pelé. “Não sei nem onde ele mora”, resume. Mas já viu, na tela da TV, um grande número dos mais de mil gols do lendário camisa 10. “Tem um em que ele domina no peito e dá uma puxada, tem outro em que ele dá um chapéu…”, recorda.

De um modo ou de outro, Pelé está sempre presente, perto de Neymar, ao menos enquanto estiver no Brasil. Essas reprimendas e os próprios entreveros dentro do campo, com repercussão na imprensa, fizeram o garoto amadurecer. Sua cabeça mudou. É o que ele diz. Mas também aí não dá para saber se ele fala de per si. Talvez tenha um pouco da voz do outro Neymar, o pai. Em seu tempo de jogador ele passou por muitos clubes e, ao pendurar as chuteiras, tinha amealhado como patrimônio apenas um terreno. Hoje, aos 45 anos, administra a carreira milionária do filho, investindo sobretudo em imóveis. É também seu principal conselheiro.

O jovem Neymar, descalço, de bermuda xadrez, esparrama o corpo no amplo sofá da sala como se estivesse estirado na areia da praia. Nessa pose largadona de adolescente, como para compensar a timidez, ele brinca com o próprio pé. O pé que vale alguns milhões de euros. Já o cabelo, de corte moicano, foi inspirado em Beckham. Wanderley  Nunes, seu cabeleireiro de infância, lhe raspa as laterais da cabeça a cada 15 dias. Quanto ao penacho, o garoto o mantém nos trinques com aplicações diárias de modelador leave-in, inclusive nos dias de jogos.

Neymar estava sentado aí, nesse mesmo sofá, em julho, olhando para a TV, quando viu o Brasil ser eliminado da Copa da África. Na época, clamavam pela convocação dele. Poderia ter sido outra a sorte da Seleção de Dunga se Neymar estivesse lá? Ele dribla a pergunta. Agora, sim, é ele falando. Demonstra que já está aprendendo, por si, a evitar perguntas cavilosas de jornalistas. É bom que seja assim. Tudo indica que terá de se haver com elas nos próximos anos. Sobre a Copa passada, admite: “Eu me via jogando”.

Tudo indica que Neymar não estará aí, estirado nesse sofá, durante a Olimpíada de 2012, em Londres, quando poderá estourar aos olhos do mundo. Ou na próxima Copa, em 2014, no Brasil. Ninguém, hoje, duvidaria disso.

De toda forma, reaparece o discurso da cautela. A tabelinha de Neymar, neste momento, não é com Ganso, mas com Eduardo Musa, do departamento de marketing do Santos. Os dois, juntos, lembram que outros jogadores talentosos haverão de surgir nesses mais de três anos que nos separam da próxima Copa; portanto, nem mesmo Neymar poderia considerar-se garantido com a camisa amarela. “Em sendo a bola redonda, tudo é possível”, já dizia Neném Prancha, o filósofo-técnico das praias cariocas.

Neymar estudou até o terceiro colegial. Guarda boa lembrança de uma professora chamada Regina, da escola da Praia Grande. Parou por causa do futebol. Se algum dia resolver cursar uma faculdade, é provável que seja a de educação física, seguindo o exemplo do pai. Mas a ideia de retomar os estudos é hoje, para ele, uma cogitação incabível. O futuro, para Neymar, vai até a próxima Copa. E já é muito.

Apesar de a recusa à proposta do Chelsea ter dado um brilho adicional à imagem de Neymar, sua ida para algum clube do exterior é questão de tempo. Com hesitante silêncio, diante da pergunta, ele parece admitir isso. O próprio Musa, fiel escudeiro, não ousa negá-lo.

Se Neymar pudesse escolher um país para viver, por seu próprio gosto, ele não seria outro senão a terra onde nasceu o Big Mac. Mas, como os caminhos do futebol apontam bem mais para a Europa, poderia ser também a terra onde nasceu a Ferrari, o carro com o qual ele sonha, ao lado de um Porsche. Ou ainda a Espanha, talvez. Há quatro anos, garoto de tudo, Neymar passou algumas semanas em Madri. Achou a cidade “maravilhosa”. No Real Madrid, tirou fotos ao lado de Beckham, Robinho e conheceu de perto os galácticos da época. Mas não quis ficar. Poderia ter ficado. Não era o momento.

Qual será o momento de Neymar? No campo, já sabemos. Ou melhor, Ganso sabe. Sabe muito bem quando deve enfiar-lhe a bola no atalho que se abre por uma fração de segundo, entre zagueiros, para o moicano dominá-la lá na frente e fazer um estrago na defesa adversária.

Para Pelé, no entanto, ainda não é o momento. Neymar ainda precisa tomar juízo, ganhar peso. Encorpar, como se costuma dizer. Neste fim de ano, ele atingiu a marca de 58 kg, cinco a mais do que tinha quando entrou no time principal do Santos. O clube estima que ele, aos 20 anos de idade, possa chegar a 64 kg. O peso ideal, em tese. Esse seria, portanto, o momento de Neymar.

Mas a coisa não é tão simples quando se trata de um ídolo precoce. Ganhar peso corporal é o de menos: isso os nutricionistas resolvem, aliados a uns bons Big Macs no shopping. O problema, de fato, é que esse garoto tímido já parece ter passado do peso ideal quando se trata de dinheiro, fama e assédio. Por isso, nessa tarde sem treino, de pagode e chuva fina, ele talvez torça, no íntimo, para que o jornalista não se demore muito. Outros moicanos o esperam no videogame.

7 MOMENTOS DE (BOM E MAU) GÊNIO
O gol em cima do Santo André em fevereiro de 2010. Um dos dez indicados pela Fifa ao Puskas Award de gol mais bonito do ano em todo o mundo

Uma obra-prima nos 10 x 0 sobre o Naviraiense na Copa do Brasil

O bate-boca que ajudou a derrubar o técnico Dorival Júnior no Santos

Uma compilação de grandes lances de Neymar

O pênalti com “paradona” que deixou Rogério Ceni indignado

Filminho publicitário: Neymar cruza para ele mesmo fazer o gol

Uma quina de gols nos 8 x 1 sobre o Guarani na Copa do Brasil

BÔNUS – O show de Neymar nos 4×2 sobre o Paraguai pelo Campeonato Sul-Americano Sub-20

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FOTÓGRAFO: MARCIO SCAVONE EDIÇÃO DE MODA: MARÍLIA CAMPOS MELLO ASSISTENTE DE FOTOGRAFIA: NOEL THOMAS PRODUÇÃO DE MODA: MARIA C. ESPIAUT BELEZA: PRISCILLA SANCHES

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