É o fim da careca?

Em breve, a medicina será capaz não só de interromper o processo da calvície como também de revertê-lo

Uma boa notícia para quem se preocupa em estar ficando careca: você provavelmente não perdeu os seus cabelos. Simplesmente eles encolheram tanto que se tornaram invisíveis. Como isso pode ser bom? Simples: a ciência está avançando no sentido de fazer com que esses mesmos fios voltem a crescer. A solução, dizem pesquisadores, está próxima – mas os médicos preferem não arriscar uma data. “Não é possível dar um prazo”, diz a dermatologista Mônica Aribi, de São Paulo. “No meio da década passada, muitos médicos e pesquisadores se entusiasmaram com as perspectivas das células-tronco e deram um prazo de cinco anos para o fim da calvície. Esse prazo não se cumpriu. Estão sendo necessárias mais pesquisas do que se imaginava. Mas as possibilidades de tratamento já melhoraram bastante. Em boa parte dos casos, a gente consegue estacionar o processo e até recuperar fios.”

Principal causa do sumiço dos cabelos, a alopecia androgenética, popularmente conhecida como calvície, ataca mais de 25 milhões de homens só no Brasil. Embora não seja uma doença, mobiliza muitos esforços da indústria farmacêutica, já que, com uma legião de pessoas descontentes com a própria imagem, a “cura” da calvície deverá render fortunas. As linhas de pesquisa são muitas – e várias delas são bastante promissoras.

O que vem por aí

No ano passado, cientistas da Samumed, uma startup de biotecnologia de San Diego, nos Estados Unidos, anunciaram a descoberta de um agente de uso tópico que seria capaz de regenerar a matriz germinativa do bulbo capilar, estrutura que fica dentro do folículo capilar – grosso modo, o buraquinho de onde saem os fios e onde reside o problema da calvície [veja quadro ao lado]. O produto, chamado de smo4554, está em fase de estudos clínicos nos Estados Unidos. Segundo a empresa, uma pesquisa com 300 pacientes mostrou que todos que usaram a substância apresentaram aumento na qualidade e densidade dos fios de cabelo. Mas ainda é preciso observar dosagem, efeitos colaterais e durabilidade.

Outro medicamento sendo pesquisado por um grupo de australianos é o minoxidil para uso oral. A substância, um vasodilatador que aumenta a circulação na região do couro cabeludo e, assim, promove a recuperação de alguns fios, já é usada hoje em loções. “Na fase de estudos clínicos do uso oral, ele tem tido ótimos resultados”, diz a médica Bruna Duque Estrada Pinto, coordenadora do departamento de cabelos e unhas da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Segundo ela, o uso oral pode ser mais eficiente na condução da substância até a área que a necessita – o folículo.

A causa

A origem da alopecia está no mau funcionamento do metabolismo da raiz do cabelo, dentro do folículo piloso. Em sua ponta está o bulbo, que contém a matriz germinativa: conjunto de células-tronco prontas para se transformar em um novo fio de cabelo. O defeito começa aí. Não se sabe a razão, a genética de algumas pessoas determina que, em certas regiões do corpo, elas percam a capacidade de produzir novos fios saudáveis. Há muito já se relaciona isso com a ação do hormônio testosterona. Quando ele se une à enzima 5-alfarredutase, presente nos folículos, forma o dihidrotestosterona (DHT). Ele destrói a capacidade germinativa do bulbo capilar, principalmente na região de cima da cabeça de homens. Na parte traseira, não – e por isso se usam folículos de lá para implantes.

Para fazer a substância chegar ao destino, cientistas lançam mão de tecnologias cada vez mais modernas. Criado pela Alamantec, empresa de biotecnologia mineira, o Alotec deve chegar ao mercado ainda este ano. “Nosso produto se baseia em nanotecnologia”, diz Robson Santos, CEO da Alamantec. “A substância ativa é a angiotensina. Para que ela chegasse diretamente ao destino, a encapsulamos em um lipossoma [minúscula esfera de gordura] que tem afinidade com os folículos pilosos.”

O que existe hoje

A condução é sempre uma questão. A finasterida, por exemplo, que bloqueia a ação da 5-alfarreductase, enzima que contribui para a calvície, não funciona bem em forma de loção: suas moléculas, muito grandes, não são facilmente absorvidas pela pele. A ingestão oral apresenta ótimos resultados, mas em raros casos pode causar perda de libido e até impotência. A mesoterapia pode ser a solução mais indicada para certas pessoas. São pequenas injeções que levam o medicamento para a camada da pele onde estão os folículos. Cada sessão sai por cerca de 500 reais. Na fase inicial, é necessária uma por semana.

Por enquanto, porém, apesar de caro (entre 15 mil e 30 mil reais), o implante ainda é uma das alternativas mais eficazes. Além da técnica tradicional, na qual se retira uma faixa do couro cabeludo para separar os folículos, hoje existe um método conhecido como FUE (follicular unit extraction), no qual se extrai folículo por folículo. “Ele é importante para pacientes sem muita elasticidade do couro cabeludo porque já fizeram mais de um procedimento ou para jovens com tendência a alargamento da cicatriz”, diz Francisco Le Voci, coordenador do ambulatório de cabelos do Departamento de Dermatologia da Faculdade de Medicina do ABC-SP.

No entanto, como o número de folículos saudáveis que uma pessoa tem para autodoação é limitado, muitas pesquisas hoje trabalham no desenvolvimento da clonagem deles. “Retiramos uma pequena biópsia do tecido da parte traseira do crânio e isolamos as células germinativas”, conta Lee Buckler, CEO da Replicel, empresa de biotecnologia canadense. “Levamos para um laboratório, produzimos milhões e reinjetamos na cabeça do paciente. Essas células vão repovoar os folículos dormentes e reiniciar as interações celulares responsáveis pelo crescimento da fibra capilar.” O tratamento, em fase de teste em seres humanos no Japão, não deve apresentar riscos de degeneração celular (que podem levar ao câncer), e deve chegar ao mercado de lá no ano que vem. O preço será o mesmo de um transplante. Ou seja, em breve só será careca quem quiser – ou não tiver dinheiro para o tratamento.