A maçonaria dos carros de luxo

Um grupo exclusivo e secreto de donos de superesportivos como a Ferrari F430? Sim, isso existe. Mas é melhor não espalhar por aí...

Na Rodovia Castelo Branco, em São Paulo, um congestionamento chama minha atenção. São apenas carros esportivos e extremamente exclusivos como a Lamborghini Gallardo Super Trofeo Stradale (só existem duas unidades no Brasil), a Ferrari 458 Itália e a F430. Como repórter da revista QUATRO RODAS, não resisti. Segui o comboio que terminava em uma concessionária Mercedes-Benz em Alphaville, em São Paulo. Eram mais de 300 bólidos reunidos. Os mais comuns ali eram os Porsches, que somavam 80. Ferraris, já havia visto mais de 30. Uma frota valiosa de cerca de 100 milhões de reais no total.

O encontro acontece a cada três meses e é considerado o maior de esportivos da América do Sul. Porém não basta ter um carrão para participar. É preciso pertencer a um grupo extremamente exclusivo e disputado chamado Motorgrid. Trata-se de uma confraria surgida em 2013. O fundador Eduardo Schkair Junior, 27 anos, até então dono de uma Ferrari, certa vez decidiu juntar pouco mais de 16 esportivos para fazer um bate e volta de São Paulo ao Guarujá. “É muito difícil ter um esportivo no Brasil, nos sentimos sempre inseguros. Achei que ir acompanhado por outros nos traria uma sensação de maior segurança”, conta Schkair.

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Uma Ferrari F430 e um Porsche 911 (Christian Castanho/Reprodução)

O clima informal conquistou os donos de Porsche, Ferrari e Lamborghini, e o grupo se oficializou na base do boca a boca. Atualmente são pouco mais de 700 membros. E já existem cerca de 3 mil na espera. “Não temos estrutura para tanta gente, por isso aceitamos a entrada de novos sócios aos poucos”, diz.

Sigilo

De início, ninguém do Motorgrid quis falar comigo. Só depois que um amigo membro da comunidade me indicou é que tive acesso a eles. Soube então que para ser aceito é necessária a indicação de um sócio e passar pelo crivo dos demais. A conduta é muito parecida com a da maçonaria. O sócio que indicou fica responsável pelo comportamento do “afilhado”. Se alguém sofrer uma penalização por má conduta, o padrinho também é penalizado. O nome do postulante a sócio é divulgado por mensagem nos grupos de WhatsApp (são três) para a apreciação de todos. “Se dois membros tiverem algo contra a pessoa, ela não entra”, conta Schkair.

Os maçons carregam símbolos de status, como anéis com esquadro e compasso gravados. Já os sócios do Motorgrid são contemplados com uma pulseira com o logo do clube. O adorno também tem valor em baladas e restaurantes. Casas famosas de São Paulo e do interior, como o Na Lorena, nos Jardins, a Anzu, em Itu, e a Loroc, em Valinhos, reservam camarotes para os membros Motorgrid com direito a vaga reservada na porta. A maioria deles não gosta de deixar o carro na mão de manobristas. Em restaurantes cobiçados como o Forneria San Paolo, na zona sul da capital, o sócio ganha um drinque de cortesia exclusivo e mesas especiais.

No Instagram

Os encontros primam pelo clima família, com a predominância de casais com filhos e homens acompanhados das namoradas. Engraçadinhos são suspensos sob a ameaça de expulsão (até hoje, apenas dois foram excluídos, acusados de provocar colegas na rodovia). Para novos sócios a entrada no Motorgrid significa bem mais do que regalias e eventos exclusivos. “Eu havia sofrido seguidos assaltos andando com meus carros e tinha medo de sair de casa. A entrada no grupo me devolveu a alegria de viver”, conta Renne Gonçalves, 30 anos, que fez até uma tatuagem no abdome com o nome do grupo. Hoje ele trabalha para o Motorgrid voluntariamente e é responsável pela arrecadação, contagem e entrega dos alimentos que os sócios doam nos encontros. No mais recente foram 2 300 quilos distribuídos em três instituições de caridade.

No caso do empresário Allyson Simões, 40 anos, os eventos são uma oportunidade de conferir os principais lançamentos do mercado de luxo. “Muitas vezes os modelos nem chegaram às lojas e já posso ver de perto no encontro e ouvir a opinião do dono”, diz Simões. A graça é ver o bem alheio, mostrar o próprio, tirar fotos, e sair ao som de aceleradas de fazer o chão vibrar.

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Eduardo Schkair, fundador do Motorgrid (Christian Castanho/Reprodução)

Os encontros têm atraído também patrocinadores, como lojas de carros, marcas de relógios e de pneus – são 16 no total. Há nomes de peso como IWC Schaffhausen, grife de relógios oficial da Mercedes na Fórmula 1, o grupo de concessionárias Itatiaia e o grupo Grand Brasil. As empresas ajudam a cobrir os custos de até 100 mil reais por evento. “Depois que começamos a patrocinar o clube, nosso movimento aumentou em 30%”, conta Ricardo Fanin, diretor da Itatiaia.

O grupo tem um site no qual divulga as coberturas dos eventos e publica testes dos esportivos nos quais Schkair anda a convite das montadoras. Muitas vezes ele recebe um carro que nem chegou às mãos da mídia especializada e tem acesso a viagens exclusivas das marcas premium. Atualmente dirige uma Mercedes C63 AMG (R$ 615,9 mil) e um Jaguar F-Pace (R$ 406,3 mil), cedidos pelas marcas. Schkair transformou-se em uma espécie de “it-boy” dos bólidos. No próximo mês o grupo deve lançar um canal no YouTube e até o fim do ano abrirá um encontro ao público. Maçonaria, sim – mas com direito a conta no Instagram.

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