A mecânica que entende mais de motor do que a maioria dos homens

Thais Roland é uma figura quase renascentista: entende de motores de carros antigos à computação - sem contar que é professora

 

Thais Roland e um de seus brinquedos, o torquímetro

Thais Roland e um de seus brinquedos, o torquímetro (Marcus Steinmeyer/VIP)

Visto de fora, o galpão pintado de amarelo localizado no bairro de Mirandópolis, na zona sul de São Paulo, passa despercebido pela maioria das pessoas que transitam no local. A fachada é comum, com uma porta pequena para pedestres e dois portões para veículos.

Quem o conhece, no entanto, sabe que o lugar é especial. Nem tanto pelos carrões que, naquela quinta-feira de julho, estavam estacionados lá: dois Opalas, um marrom (1975) e um verde (1976), um Dodge Charger (1972) e a réplica de um Cobra (1967). Mas, sim, pela moça de longos cabelos negros que, simpática e confiante, costuma debruçar-se sobre os motores para deixá-los tinindo.

Mecânica formada pelo Senai e especializada na restauração de motores de carros antigos, Thais Roland, 36 anos, fala com propriedade sobre temas áridos à maior parte das mulheres (e, sim, de homens), como carburadores, pistões e platinados.

(Marcus Steinmeyer/VIP)

Ela trabalha na oficina Ricardo Oppi Restaurações, também na zona sul da capital paulista. Aos sábados, dá cursos de mecânica no galpão de Mirandópolis.

“Os carros modernos não têm graça”, afirma Thais, enquanto mostra os carrões da garagem, cujos motores foram restaurados por ela e explica o funcionamento de cada parte das máquinas. “É tudo eletrônico, não dá para fazer quase nada sem a ajuda de computador. Mas, quando você abre o capô de um carro antigo, é outra história. Dá para ver a engenharia funcionando de verdade, é simples, é bonito.”

Desde pequena, Thais ajudava o avô a fazer pequenos consertos nos carros – daí surgiu o gosto pelas engrenagens. Apesar disso, resolveu cursar a faculdade de ciências da computação. Não se arrepende da carreira que construiu na área, mas, no fim das contas, a paixão falou mais alto.

(Marcus Steinmeyer/VIP)

Aos 28 anos, abriu mão de um salário bacana e de uma posição estável na carreira para começar tudo do zero – desta vez, fazendo o que sempre quis. Thais mergulhou na formação técnica do Senai em manutenção automotiva e, ao fim de dois anos de curso, foi a única mulher a conseguir o diploma, com direito a ser oradora da turma.

As coisas fluíram tão bem que hoje ela se pergunta por que demorou tanto para fazer isso.

Uma mulher no meio

Thais conta que sofreu preconceito por ser mulher na área… de tecnologia. “Tinha todas as certificações obrigatórias para dar aula de especialização Cisco [tipo de programação para redes de tecnologia], mas, mesmo assim, perdi a conta de quantas vezes os alunos me pediram o número da carteirinha para conferir a minha certificação. Era muito desagradável.”

Como dominava muito bem o assunto, conta que “colocava o cara no lugar dele em cinco minutos, até ele baixar a bola e começar a me respeitar”.

(Marcus Steinmeyer/VIP)

O que ela não imaginava – e, na verdade, ninguém imagina mesmo – é que esse tipo de situação nunca aconteceria com ela nas oficinas. Como já vinha de outro ambiente de trabalho bastante masculino, sabia que poderia ser difícil se encaixar e quebrar a barreira do preconceito machista.

Mas, ao conhecer a rotina do novo “escritório”, impressionou-se. “As coisas mudam quando você faz parte do time. O pessoal começou a cuidar de mim como se fosse uma irmãzinha, e depois percebeu que estou ali para trabalhar igual a eles, não sou diferente só por ser garota.” Na oficina, ela é a única mulher entre quatro pessoas.

O jeito despachado, a simpatia e a desenvoltura, além da prévia experiência como professora de tecnologia, fizeram com que Thais quisesse dar aulas de mecânica. Nos cursos, ela trata de funilaria, pintura e, claro, restauração de motores de carros antigos.

As turmas são geralmente mistas, mas a presença feminina ainda é praticamente zero: as mulheres, afirma Thais, se sentem pouco confortáveis em interagir e fazer perguntas quando há homens na sala.

(Marcus Steinmeyer/VIP)

Para deixar as moças mais à vontade, ela teve a ideia de criar workshops exclusivamente femininos. Sucesso total. “Aparecem garotas de todo tipo, as que querem mexer no próprio carro, as que não querem ser passadas para trás pelo mecânico, enfim, meninas que procuram informação para entender melhor esse universo.”

Universo que, segundo Thais, tem se mostrado cada vez mais aberto à presença feminina. Especialmente quando se trata de pinturas. “Muitos caras deixam passar pequenos detalhes que fazem diferença no resultado final, por isso alguns amigos meus, donos de oficinas, têm procurado meninas para fazer isso”, conta.

Bom e velho Mavecão

Thais trabalha há três anos em um projeto pessoal: o árduo processo de restauração de seu próprio Ford Maverick SL 1975, carinhosamente batizado de Damien.

Damien, o Ford Maverick 1975 restaurado por Thais

“Damien”, o Ford Maverick 1975 restaurado por Thais (Marcus Steinmeyer/VIP)

“Meu maior sonho desde pequena era ter um Maverick”, revela. “Na verdade, nunca achei que realmente teria um. Sempre foi algo inalcançável, meio impossível de se concretizar, então nem me iludia.”

Mas, certo dia, de dentro do ônibus a caminho do trabalho, ela conseguiu enxergar uma placa de “vende-se” afixada em um carro estacionado em frente a uma oficina. Foi até o local e viu que o automóvel já tinha vivido dias melhores – o que não a desanimou.

“Sinceramente, ele estava horrível, deveria afugentar qualquer um que tivesse algum resquício de sanidade.” O carro, preto, estava com a pintura tão queimada que ficou com aspecto envelopado. Para completar, o motor não funcionava e aquele interior… “todo branco, novinho, parecia carro de cafetão”.

“Minha alma gritava: leva ele! E meu bolso suplicava: pede pra alguém te dar um tapa na cara!”, relembra. Depois de meses de negociação, em 9 de janeiro de 2013, o carro, finalmente, foi para o nome de sua nova dona, que até chorou quando foi ao cartório transferir os documentos.

A paixão pelo Maverick já foi eternizada na pele

A paixão pelo Maverick já foi eternizada na pele (Marcus Steinmeyer/VIP)

Thais divide suas experiências com Damien e outros temas no blog Coisa de Meninos Nada, que atualiza frequentemente com vídeos e textos. Ele foi criado em 2008 e, aos poucos, vê aumentar o número de visualizações. Muita gente tomou conhecimento do Maverick e passou a dar palpite sobre o que ela devia ou não fazer com o carro.

As pessoas não entendem que eu gosto da old school, e aí começam umas discussões sem sentido”, diz ela. Em uma das mais recentes, ao saber que Thais optaria por manter o carburador, um cara inconformado falou que ela tinha que trocar a peça pela injeção eletrônica, muito melhor.

“Mas é óbvio que é muito melhor, deixa o carro mais econômico, mais eficiente. Só que eu gosto de carburador, e é o carburador que vai para o meu carro”, explica, sem rodeios – e sem parar de sorrir.

A tecnologia melhorou o desempenho dos carros, mas a questão vai muito além disso. Thais não está nem um pouco preocupada em discutir com os palpiteiros de plantão se os motores modernos são melhores ou mais potentes que os clássicos – ela já sabe (e provavelmente muito mais do que eles).

Respeitosamente, ela conquistou seu espaço em um meio predominantemente masculino. Ao optar por manter o carburador e o platinado em Damien, ela está cultivando uma paixão de seus 10 anos de idade. E que, desde então, vem sendo muito bem alimentada.


PREVINA ESTRAGOS: quatro dicas de Thais Roland para você cuidar melhor de sua máquina

1 – Atenção ao filtro de ar

Carros com ar-condicionado precisam que o filtro de cabine seja trocado regularmente, e o sistema higienizado. Usar produtos antibactericidas é bacana também, mas não substitui a troca do filtro, senão a higienização não é eficiente.

2 – Pedal não é apoio de pé

Nunca apoie a mão na alavanca de câmbio, nem o pé no pedal da embreagem. Essas práticas imprimem força sobre partes do sistema de transmissão, que aumenta o desgaste e diminui a durabilidade de algumas peças.

3 – Motor cascão

Por ser um processo delicado, só lave o motor do carro quando realmente houver necessidade, por exemplo, na volta de uma viagem à praia. Verifique o tipo de produto que a empresa vai usar para que as vedações (especialmente as dos módulos eletrônicos) não sejam danificadas.

4 – Estepe cheio

Calibre os pneus do carro a cada 15 dias seguindo as especificações do manual do proprietário. Não se esqueça de fazer a mesma coisa no estepe!