AMG: mais que um Mercedes

A AMG, divisão de desempenho da montadora alemã, completa 50 anos levando performance prêt-à-porter à sobriedade estrelada

Nem precisa ser um expert no assunto. Falou em Mercedes, a primeira imagem que vem à cabeça, até dos desavisados, é a classuda montadora alemã, sinônimo de sofisticação, tradição, conforto, sobriedade. Tendo essa denominação como carro-chefe, qualquer número, sigla ou nome que se cole na sequência já ganha, automaticamente, um atestado de qualidade. É um Mercedes-Benz, e pronto.

Curioso é essa situação se inverter quando pronunciamos aquelas três letrinhas mágicas, que talvez quase ninguém saiba o que significam, mas quase todos entendem em que se traduz: AMG. Ato contínuo, faz-se o coro: “Se é AMG, é um Mercedes esportivo!”. Em outras palavras, anda muito.

Nada é por acaso. Sim, a AMG é a divisão dos carros bons de velocidade da Mercedes-Benz. Nasceu de forma independente há 50 anos — em 1o de junho de 1967 — para produzir bólidos que fizessem os pilotos verem o mundo passar mais rápido. Objetivo atingido com perfeição, graças aos homens por trás da sigla: Hans Werner Aufrecht, que entrou com o “A”, e Erhard Melcher, com o “M”, ambos com a criatividade a serviço da velocidade. E o “G”? Vem de Großaspach, a cidade de Aufrecht, a primeira “sede” da AMG antes mesmo de a empresa ter sido fundada.

Os engenheiros Aufrecht e Melcher, funcionários da Daimler-Benz, trabalhavam com afinco no desenvolvimento de motores de corrida para o 300 SE, até que chegou a notícia de que a divisão de automobilismo seria descontinuada. Talvez na época, anos 60, nem se usasse esse eufemismo. Talvez tenham dito que a brincadeira havia acabado, hora de ir se divertir na garagem de casa.

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O C36 de 1993, primeiro modelo criado em parceria com a divisão de performance (Divulgação/Reprodução)

Opa, alguém disse garagem? Boa ideia. Os dois pegaram ferramentas e macacões e foram para a casa de Aufrecht, mas não para se lamentar. Combinaram de continuar aprimorando o motor durante o tempo livre. Considerando que trabalhavam na Daimler-Benz, o tempo livre deve ter sido noite adentro e fins de semana afora. Mas não foi um tempo jogado fora. Em 1965, Manfred Schiek, colega de “firma”, correu o campeonato alemão de carros de turismo com o motor 300 SE desenvolvido pela dupla e se deu bem: ganhou dez vezes. Foi mais do que suficiente para que os construtores começassem a ficar sob o holofotes, tornando-se referência entre os pilotos que queriam ganhar tempo nas pistas.

Estava tudo muito bem, mas o inquieto Aufrecht não se deu por satisfeito — já viu algum empreendedor satisfeito? Pensou consigo: “E se começássemos a produzir motores de carros de competição para carros com roupagens de ruas, atendendo também os pilotos do dia a dia, de fim de semana?”. O plano era ambicioso, eles precisariam do tal tempo livre o dia todo. Em outras palavras, dedicar à empresa as horas necessárias. Melcher entendeu aonde o amigo queria chegar e, a história está aí para comprovar, topou. Em 1966, os parceiros se desligaram da Daimler-Benz e, no ano seguinte, fundaram a “Aufrecht Melcher Großaspach Ingenieurbüro, Konstruktion und Versuch zur Entwicklung von Rennmotoren”, que para nosso consumo podemos chamar de AMG mesmo.

Apesar das ambições da dupla de atender aos tais bólidos disfarçados de bons-moços das ruas, era nas pistas que a AMG se sobressairia. Em 1971, ocorreria o primeiro grande feito da empresa: nas 24 horas de Spa-Francorchamps, o AMG Mercedes 300 SEL 6.8 foi o campeão em sua classe, ficando no segundo lugar geral. Ninguém acreditava que um sedã daquele porte havia deixado para trás os concorrentes mais leves. Nascia o mito em torno da AMG, que se consolidaria nos anos seguintes.

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GT C Roadster (Divulgação/Reprodução)

Dali em diante, a AMG começou a personalizar e preparar carros para o mercado, expandindo sua reputação de produzir veículos de alto desempenho, mas sem nunca abrir mão da companhia da Daimler no desenvolvimento de produtos e soluções. Até que, nos anos 90, a empresa assinou acordo de cooperação com a própria Daimler-Benz. Foi o passo decisivo para a marca deixar de ser vista como de nicho. A AMG podia se beneficiar da ampla rede de concessionárias e assistência técnica da Mercedes-Benz pelo mundo. Em 1993, foi revelado o Mercedes-Benz C 36 AMG, primeiro veículo desenvolvido conjuntamente. A parceria durou até 2005, quando a agora DaimlerChrysler adquiriu 100% das ações da AMG.

A gama de modelos Mercedes-AMG é composta hoje por mais de 40 veículos, começando nos 367 cavalos de potência e chegando aos 630, contemplando roadsters, cupês, sedãs e SUVs. Convenhamos, é potência demais para sair às ruas. Uma boa hora para entrar em cena o AMG Driving Academy, serviço que consiste em organizar roteiros em lugares como a Lapônia, Suécia (no inverno) e pistas de corrida como o Laço Norte de Nürburgring, na Alemanha. O participante pode até pilotar o SLS AMG GT3, a versão de competição do modelo “Asas de Gaivota”. A AMG, afinal, nasceu para as provas. Que o diga a equipe Mercedes-AMG Petronas Motorsport, na Fórmula 1, que já está dando o que falar no começo da temporada.

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