Deserto a dois: Califórnia no banco de um Harley-Davidson

Quer convencer sua namorada a andar de moto com você? Percorra as highways da costa oeste americana a bordo de uma Harley-Davidson CVO Limited 2017

Não existe felicidade plena com uma só bike na garagem. Essa é uma verdade universal do motociclista mais experimentado. Para o homem casado, porém, ser feliz assim requer muita estratégia. Passei noites em claro pensando na melhor forma de dizer à minha companheira que, apesar de estar muito feliz com ela e com minha Harley 883 carburada, ainda havia espaço para outra – moto, no caso. Isso porque a Flavia adora o conceito etéreo da motocicleta, mas só sobe na minha garupa em caso de extrema necessidade.

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O casal Fernando e Flavia, prova viva de que moto combina com romance (Fernando Cavalcanti/Reprodução)

No começo pensei em ir direto ao assunto: “Vamos vender o carro e comprar outra moto, que tal?”. Depois, temeroso por minha integridade física, achei essa estratégia arriscada demais. Para o plano funcionar mesmo ela tinha de se apaixonar pela ideia da outra moto, ter um daqueles momentos perfeitos em duas rodas: no meio do nada, com o sol e o vento na cara e a sensação de que isso é tudo que importa.

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Fernando no Joshua Tree Park (Fernando Cavalcanti/Reprodução)

E eis que surge a oportunidade ideal: uma viagem pelos Estados Unidos sobre uma Harley CVO Limited 2017, lançada por aqui no início do ano, ao preço de R$ 158,8 mil. Essa é uma das poucas motos que de tão confortáveis levam um casal por mais de 1 000 quilômetros sem ameaçar o relacionamento. Oh, yes! Da dura garupa da minha 883 para todo o conforto da rainha das tourings, a estradeira suprema. Das ruas esburacadas de São Paulo para as aveludadas highways da Califórnia. E assim encaramos 900 milhas de praia, deserto, montanha, dias quentes, noites frias e até neve. Foram cinco dias de sonho. Disneylândia dos meninos.

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Cactos da região (Fernando Cavalcanti/Reprodução)

Chegamos para retirar a CVO no Harley-Davidson Fleet Center, em Carson. Nunca tinha pilotado uma touring, muito menos uma CVO. Os primeiros quilômetros foram duros, me adaptando a tantas novidades. São 431 quilos de moto entre suas pernas. Lidar com ela parada requer mais jeito do que força. Andando, que é o que interessa, ela é um sonho; fácil no manejo, dócil e extremamente confortável. Quando o punho entorta, o mais novo motorzão Twin Cooled Milwaukee Eight 114 de 1870 cc e quatro válvulas por cilindro despeja seus 16.6 kgfm na correia e a moto vai que vai. Protegido pela carenagem, sem o vento na cara para avisar, num piscar de olhos você chega a 80 milhas por hora.

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O painel da CVO na State Route 86 (Fernando Cavalcanti/Reprodução)

Fomos direto para Santa Monica pela Highway 1. E não se engane. Para ir a qualquer lugar no litoral não vale rodar por nenhuma outra rodovia.

Só paramos para ver o sol se pôr no mar na quase deserta Mandalay State Beach. Já mais à noite, na busca por um lugar para dormir, descobrimos que o Motel 6 é quase sempre a melhor opção. E nada mais americano do que dormir em motel. Eu estava me adaptando muito bem à moto, e a Flavia mais ainda. Estava maravilhada com aquele conforto todo.

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Flavia no Joshua Tree Park (Fernando Cavalcanti/Reprodução)

Foi no dia seguinte, contudo, que a aventura começou de verdade. Saímos de Santa Barbara para encarar a Highway 2, que corta o parque Angeles National Forest. E, amigo, se você tiver que escolher uma só coisa para fazer de moto ao redor de Los Angeles, não pense duas vezes. Vá conferir os 106 quilômetros da Angeles Crest Highway, uma das estradas mais icônicas e cênicas dos Estados Unidos. Trata-se de uma sequência frenética de curvas que vão costeando a montanha e revelando uma série de cenários absolutamente deslumbrantes.

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(Fernando Cavalcanti/Reprodução)

Pegamos a Highway 2 no comecinho da tarde, cheios de cuidado, porque se você passar reto numa curva vai cair num despenhadeiro daqueles de desenho animado. Os quilômetros foram passando e a CVO e eu já estávamos quase como um só. Ao contrário das softails, a CVO pode deitar com vontade que não raspa. As freadas nas tomadas de curva eram muito tranquilas, os freios Brembo com ABS e distribuição de frenagem entre as duas rodas passam muita segurança. Conforme fomos subindo a temperatura foi caindo junto com a luz do sol. Comecei a me preocupar com a estrada e mais ainda com a Flavia. Resolvemos, então, ligar os bancos e manopla aquecida, e, acreditem, quando o frio aperta, isso é puro amor. Em pouco tempo a neve nos rodeava e finas placas de gelo se formavam na pista.

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State Route 86 e as montanhas da Angeles Crest Highway (Fernando Cavalcanti/Reprodução)

Logo chegamos à cidadezinha de Wrightwood. Paramos no primeiro posto para aquecer a alma com copos do típico “chafé” americano bem quente. Quando vi que, mesmo com aquele frio congelante, Flavia ainda tinha um sorriso no rosto entendi que a mágica estava feita. Foi uma alegria só. A viagem continuou pelos dias seguintes pelas mais emblemáticas paisagens da Califórnia: as retorcidas árvores do Joshua Tree National Park; a State Route 86 em direção ao Salton Sea, um lago gigante, o maior do estado; Salton City, praticamente uma cidade fantasma (acho que nem na Sibéria vi um lugar tão decadente); e San Diego, onde conferimos os agitos do Gaslamp Quarter. Era nossa última noite na estrada, meu coração estava apertado.
Eis que, entre cervejas e tragos de mescal, Flavia lamenta: “Não quero devolver esta moto”. Missão cumprida.

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