Dois amigos num país distante

Velhos camaradas, em cima das clássicas Royal Enfield, pelas estradas fascinantes da Índia. A vida pode ser divertida

Pilotar uma moto pode, por vezes, ser um ato extremamente solitário e reflexivo. Para uma mente ocupada, rodar por uma estrada vazia num final de tarde pode economizar algumas sessões de terapia. Mas bom mesmo é pegar a estrada com os amigos, falando bobagens e explorando o desconhecido. São as duas pontas da mesma linha em que todo motociclista se equilibra.

Em fevereiro passado, fui convidado pela Royal Enfield para acompanhar Facundo Guerra pelas estradas do Rajastão, uma das regiões mais incríveis da Índia, e conhecer os modelos que em breve chegarão ao Brasil – em abril começará a funcionar a subsidiária da marca e será inagurada a primeira concessionária, em São Paulo. Facundo, figura que conheço de longa data, nunca teve um carro na vida e é um moto-dependente pesado. Vive em duas rodas desde sempre. Éramos, portanto, dois velhos camaradas em cima de motos projetadas muito antes de termos nascido, rodando num país fascinante. Poucas vezes a vida fica melhor que isso.

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Facundo Guerra roda pela Ajmer-Jaipur Express Railway (Divulgação/Reprodução)

Montar numa Royal Enfield nova é como encontrar um dinossauro, só que recém-nascido. Especialmente se for a Bullet, moto de 1932 que desde 1949 mantém mais ou menos a mesma forma, mas que agora conta com freio a disco e injeção eletrônica. Aliás, se há um lugar no mundo onde isso pode acontecer, esse lugar é a Índia. Por lá, o milenar e o contemporâneo se misturam de forma autêntica e confundem a cabeça de quem está acostumado às rasas representações na mídia ocidental. É tanta referência nova que passar cinco minutos no Johri Bazaar, de Jaipur, observando o povo, é suficiente para saturar de informação a retina e o cérebro. Muita novidade, tudo ao mesmo tempo agora.

Apesar de conhecer Facundo há uns bons anos, nunca tinha rodado com ele. Assim que chegamos ao hotel em Jaipur, a capital do Rajastão, e vimos as duas motos modelo Classic, com a mesma cara das motocicletas militares da Segunda Grande Guerra, desistimos da ideia de dormir cedo. Quase que numa molecagem, quebramos todos os protocolos e roubamos as motos para uma voltinha nem tão rápida assim. Não deu para segurar a ansiedade, e depois quase não conseguimos achar o caminho de volta. Na Índia nada é muito simples, principalmente o trânsito.

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Fernando Cavalcanti no Mercado de Pushkar (Divulgação/Reprodução)

Esqueça a contemplação

Arme-se de paciência e muita vontade de buzinar. Porque lá, como disse um dos nossos guias, buzinar não ofende, é um estilo de vida. As ruas são completamente lotadas de tudo quanto é tipo de coisa, de camelo a caminhão de três rodas. O prêmio de veículo mais inusitado foi para uma barraquinha de garapa ambulante, propulsionada pelo moedor de cana. Tem muita bicicleta e muita, muita gente. A mão é a inglesa, em que se dirige do lado esquerdo da rua. Não que isso faça muita diferença, porque tem sempre uma multidão na contramão. As vacas que circulam livremente também não se importam com esses detalhes. E elas são muitas e estão por toda parte. Apesar do caos absoluto, quase não há acidentes. É que, além de buzinar com vontade, todos os atores desse pandemônio seguem devagar, desviando uns dos outros sem raiva ou agressividade. Seguramente temos algo a aprender aí.

Nesse ponto outra vez a Índia e a Royal Enfield Classic seguem de mãos dadas. Elas não foram feitas para a velocidade, mas para seguir devagar e sempre com estilo. Na cidade, a primeira e a segunda marchas são bem alongadas – naquele trânsito louco raramente você vai usar mais do que a terceira. Na estrada, a posição confortável, o banco com molas e a velocidade de cruzeiro, por volta dos 100 km/h, convidam a aproveitar o caminho, olhar e sentir o ambiente ao redor e, principalmente, a esquecer a pressa de chegar.

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Homem preparando paan, comida típica feita de folhas e nozes, em Jaipur (Divulgação/Reprodução)

Nas nossas motos, o único indicativo de modernidade era o freio a disco na roda dianteira. De resto, era como estar montado num dinossauro mesmo. De acordo com a marca, os modelos que virão ao Brasil terão uma especificação semelhante aos que são exportados para a Europa, em torno de 27 hp de potência e 41 Nm de torque. Um ponto a ser notado é que as monocilíndricas Royal vibram muito – e olha que quem diz isso é o dono de uma Harley 883 carburada.

No dia seguinte voltamos ao plano original para fazer uma rápida adaptação à moto e ao trânsito, rodando por Jaipur e depois seguindo até Pushkar. Jaipur é conhecida como a Cidade Rosa porque quase todas as construções são terracota. Por lá, não faltam lugares interessantes para se visitar: City Palace, Hawa Mahal e Jal Mahal, entre outros. Por aí fomos nós dois, em primeira, segunda e terceira marchas, dividindo a atenção entre o cenário e o trânsito. Em uma única avenida era possível sentir pelo menos cinco aromas marcantes, dos bons aos ruins.

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Vendedora de miçangas no Jal Mahal (Divulgação/Reprodução)

Pausa para o curry

A gastronomia indiana é incrível. Forte, tem um sabor muito pronunciado. De volta ao Brasil, passei uma semana achando tudo que comia absolutamente sem tempero. Ficamos fãs do butter naan, um pão local. Carne de boi não há, já que por lá a vaca é sagrada, porco há muito pouco, mas frango e carneiro abundam. Os vegetarianos lá estão no paraíso. Deve ser um dos poucos lugares onde é mais fácil não comer carne do que o contrário. Também excelente é a cerveja Kingfisher, que é pouco gaseificada e acompanha bem a comida. Nos jantares, eu bebia a minha parte e a do Facundo, que não é muito chegado ao álcool.

Apesar de fascinados pela cidade, o que nós queríamos mesmo era rodar. E isso só era possível na estrada. Assim seguimos pela Ajmer-Jaipur Express Highway, até chegar a Pushkar. Nela os destaques foram os caminhões enfeitados que seguem por todas as pistas. Vimos carroças de carga puxadas por camelos e caminhões tão carregados de feno que mal se podia enxergar a cabine. Havia ainda todo tipo de figura pilotando todo tipo de coisa, um com o traje mais inusitado que o outro. Vimos uma 125 cc que levava uma família inteira, dois adultos e quatro crianças. O capacete é obrigatório, pero no mucho. Muitas vezes o homem pilotando usa, mas a mulher na garupa, não. Digno de nota é que toda moto tem, atrás do apoio de pé do passageiro, uma pequena plataforma e um gradeado. A plataforma serve para que as mulheres que usam o tradicional sari possam sentar de lado, apoiando os pés. O gradeado impede que a roupa seja tragada pelos raios da roda.

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Vacas sagradas no Templo de Brahma, ao amanhecer (Divulgação/Reprodução)

A viagem foi alucinante, contra o sol poente e com direito a parada para beber água num hotelzinho que parecia cenário de um filme de Bollywood. Nada, contudo, nos prepararia para o que iríamos encontrar no dia seguinte. Saímos cedo para ver o sol nascer no lago sagrado de Pushkar, no Templo de Brahma. Entre vacas e pombos, peregrinos se banhavam nas águas sagradas. A cidade, uma das mais simbólicas para o hinduísmo, merece uma visita demorada. De lá seguimos para rodar numa planície de pó de mármore, na cidade de Kishangarh. Até hoje sai um pouco de poeira da minha bota.

No último dia voamos para Chennai, do outro lado do país. Fomos conhecer a fábrica onde veríamos, entre outras atrações, como os paralamas e tanques de alguns modelos ainda têm seus frisos pintados à mão. Por ter faltado luz na fábrica, a visita foi suspensa e voltamos a rodar, desta vez na Continental GT, o modelo mais potente e leve da Royal. Nessas idas e vindas notamos como a marca faz parte da cultura e do orgulho nacional. Para qualquer canto que se olhe tem de tudo e sempre muita gente. Mas com certeza vai ter também uma Royal Enfield.

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Facundo faz uma pausa na viagem no caminho para Pushkar (Divulgação/Reprodução)

Nesse mundo onde o vintage é sinal de modernidade e estamos obcecados por releituras de um passado idealizado, a Royal Enfield é o que há de mais autêntico para ser comprado numa concessionária. É antiga de verdade, só que novinha. Se você souber o que esperar dela, é diversão mais que garantida.

Assista ao vídeo da viagem abaixo: