O destino é a viagem: a Estrada Real

Entre sol e chuva, aceleradas e derrapagens, cidades históricas e estradas enlameadas, percorremos os 1.600 quilômetros da Estrada Real

São Paulo, dia 17 de janeiro, 6 horas da manhã. Eu e meu irmão demos início a mais uma aventura sobre duas rodas. Christian, fotógrafo experiente com anos de profissão, e eu, executivo de marketing, fomos praticamente criados sobre motos graças ao nosso tio que nos ensinou a arte do equilíbrio motorizado logo após o desfralde. Desde então não largamos mais esse vício e volta e meia partimos em aventuras que sempre acabam em boas histórias. Desta vez, meio que de improviso, decidimos nos aventurar pela Estrada Real, que vai de Ouro Preto, em Minas Gerais, até Paraty, no Rio de Janeiro. Trata-se da maior rota turística do Brasil, com mais de 1.600 quilômetros de extensão e uma história única sobre o escoamento de ouro e diamantes de Minas Gerais para os portos do Rio de Janeiro, no século 17.

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(Christian Gaul/Reprodução)

Nosso primeiro objetivo era chegar a Ouro Preto, seguindo ao norte pela árdua Fernão Dias. Saímos da capital paulista com as malas e bagageiros carregados de poucas roupas e muitos equipamentos fotográficos – nossa ideia era também registrar em imagens os personagens encontrados ao longo da aventura. Demos início à viagem debaixo de uma tempestade impetuosa já para testarmos a performance das novíssimas motos BMW F 700 GS, que devem chegar neste mês às concessionárias. Depois de mais de 500 quilômetros de asfalto e chuva torrencial e de um intenso trânsito de caminhões e ônibus, chegamos a Ouro Preto, por volta das 20h. Ao longo do percurso pudemos testar bem as motos e seus equipamentos. Durante uma dessas quedas d’água, acionei o aquecedor de manoplas. Quase que instantaneamente meu corpo voltou a navegar em paz, estancando o frio e a umidade que então pareciam bater nos ossos.

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Personagens da estrada: Karen, vendedora e estudante de física (Christian Gaul/Reprodução)

Instigados pelo o espírito de aventura e inspirados pelo velho lema “o destino é a viagem”, saímos sem roteiro definido. As únicas certezas: sairíamos de Ouro Preto e chegaríamos a Paraty – pousadas, caminhos, atalhos, trilhas, tudo isso seriam surpresas que nos aguardavam. Assim, quando chegamos ao centro histórico de Ouro Preto, com aquela vista majestosa da arquitetura e das igrejas coloniais, nos deixamos levar pelo velho bate-papo mineiro e fomos parar na Pousada Casa Grande, muito simpática e com um dos melhores cafés da manhã que já provei. No dia seguinte, bem cedo, partimos do centro histórico para explorar as redondezas da região e acabamos acampando na Cachoeira das Andorinhas, local perfeito para repormos as energias despendidas na pernada anterior. Em meio ao visual e banhos de cachoeira conferimos no mapa o que poderia vir a ser nossa próxima parada. Em teoria, queríamos começar a descer, mas um lugar nos chamou a atenção – a próxima parada seria Catas Altas, cidade autêntica pela simplicidade e pela arquitetura, com igrejas coloniais e obras de Aleijadinho. Sem contar o Bicame de Pedra, que reúne ruínas de um aqueduto construído por escravos em 1792. A vista da Serra do Caraça é algo que também impressiona.

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(Christian Gaul/Reprodução)

Na pousada de Catas Altas recebemos a dica de não deixar de visitar a Serra da Piedade, conhecida não só pela linda estrada, mas também pela igreja cravada no cume da pequena cordilheira. Piedade ficava ainda mais ao norte da rota que havíamos imaginado antes. Deixamos Catas Altas na poeira, passando por Santa Bárbara, depois Barão de Cocais, cidades pequenas e pitorescas do interior de Minas, para finalmente pernoitar em Caeté, o pouso mais próximo da majestosa Piedade, que subiríamos na manhã seguinte. Nesse percurso percorremos estradas de terra, podendo experimentar o motor de 75 cavalos das motos com passagens por trechos de cascalho e areia fofa. Nesse momento demos início aos nossos costumeiros pegas. As máquinas responderam à altura.

Saindo de Piedade completamos a alça da Estrada Real ao norte de Ouro Preto, rumo a Lavras Novas, onde ainda passaríamos por cidades como Sabará, Nova Lima e Rio Acima, onde graças ao fato de termos nos perdido esbarramos numa das cachoeiras mais bonitas do percurso, a Queda de Chica-Donna. Depois de boas aceleradas no asfalto, caímos novamente nas estradas de terra. É no barro onde eu e meu irmão gostamos de testar o torque do motor e, no caso das GS 700, o limite dos seus 75 cavalos. Foram inúmeros os rachas nessas estradas. Havia momentos em que olhávamos um para outro com aquele olhar de susto misturado com pânico. “Nossa, você viu aquilo? Quase….”

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Personagens da estrada: Seu Lilico, aposentado, campeão de truco (Christian Gaul/Reprodução)

Lavras Novas foi um dos muitos destinos-surpresa da viagem. É um povoado pequeno, mas muito charmoso e com resquícios de uma belíssima arquitetura setecentista. Além disso a cidade parece ter se preparado para os aventureiros. La é possível alugar quadriciclos, motos de trilha e, com o auxílio de guias, ser levado às cachoeiras e quedas d’água mais impressionantes de Minas Gerais. Estávamos no lugar certo.

Saímos de Lavras com o tanque na reserva e preferimos procurar combustível por vias alternativas na próxima cidade, Chapada, a ter de voltar nosso percurso para o próximo posto – afinal, nosso tempo ia se esgotando. Foi assim que conhecemos a folha de ora-pro-nóbis, palavra que mais parece um neologismo do saudoso Mussum, mas que na verdade é um delicioso legume, ideal para um cozido com carne de panela. O que era para ser um posto de abastecimento acabou virando um almoço regado a risadas e ótimas histórias sobre o povoado.

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(Christian Gaul/Reprodução)

De Chapada seguimos pela Estrada Real Nova até Tiradentes – esse trecho fizemos sem paradas, chegando ao pôr do sol e sendo recepcionados por uma bandinha local. Lá relaxamos com algumas cervejas e colocamos a carcaça de molho na Pousada da Neneza. Tiradentes é aquela cidade: arquitetura histórica, boa culinária e natureza à altura, sem falar da vida cultural intensa. Saímos de lá a caminho de Carrancas, sinônimo de mais belas cachoeiras. O percurso para lá foi marcado por fortes chuvas, com trechos ultraescorregadios e muita, muita lama. Houve momentos, especialmente nas ribanceiras, nos quais achávamos que precisaríamos de um guindaste para sair de lá. As descidas nos davam calafrios. Para os que conhecem, descer uma ribanceira com uma moto de 230 quilos sem o pneu apropriado pode ser uma aventura e tanto. Só não aconteceu um desastre devido ao eficiente sistema de ABS e ao controle de tração.

Antes de chegar a Carrancas pegamos uma balsa que ligava Caquende a Capela do Saco. Atravessamos a represa local com uma balsa improvisada que funcionava com um motor de trator. Uma vez em Carrancas, resolvemos tirar o dia para descansar um pouco das estradas e dos longos trechos. Por um estrada traiçoeira fomos à Cachoeira da Fumaça, que lançava jatos de água para todos os lados. Ali preparamos um churrasco ao pé da cachoeira. No cardápio, fraldinha com batata assada.

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(Christian Gaul/Reprodução)

Fizemos a digestão a caminho do Vale do Matutu. Movidos pela curiosidade, não sabíamos o que encontrar, onde dormir nem onde comer. Chegamos sob chuva torrencial em algo que parecia ser uma pousada – o trauma dessa pernada foi tão grande que minha memória não registrou nem o nome do lugar… nada! Só lembro que foi o mais confortável pouso da viagem. Chuva e ribanceiras escorregadias nos levaram à exaustão e a apreciar somente o descanso. Do Matutu em diante, traçamos o final do nosso roteiro: seria Itamonte, depois Cunha e finalmente Paraty. Itamonte ficou marcado pela experiência quase lunar de pilotar às cegas no meio de uma neblina densa entre rochas pontiagudas que lembravam algum documentário sobre Marte. Queríamos atravessar a montanha, mas o mau tempo nos impediu. Preferimos voltar e saborear uma boa conversa com os locais ao pé da serra, degustando um delicioso pão com linguiça.

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Personagens da estrada: Mauro, o superpedreiro de Caeté (Christian Gaul/Reprodução)

A maior qualidade de Cunha é a estrada. O asfalto é adornado por paisagens indescritíveis e as mais deliciosas curvas, onde o grip da moto quase fazia todo o trabalho sozinho. Para mim, restava somente o vislumbre do entorno e a vibração e potência do motor. Finalmente aterrissamos em Paraty – não sabíamos mais se era êxtase ou tristeza de ver nossa aventura se acabar. Ao mesmo tempo em que pensávamos no reencontro com a família, dava angústia de ter de mergulhar novamente na rotina da cidade.

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Personagens da estrada: Jorge, cozinheiro e contador de causos (Christian Gaul/Reprodução)

Paraty vibra com cultura, bons restaurantes e arquitetura incrível. Suas paredes contam histórias de séculos. Suas cachaças deram cabo de muita gente valente. Mas para mim, seu ponto forte são as praias. Celebramos nossa chegada e também nossa saída de Paraty da forma mais adequada: com merecidas aceleradas na areia dura, antes de encararmos o derradeiro trecho de volta para casa.