Ricardo Almeida e sua paixão por motos a bordo da Ducati XDiavel

Ricardo Almeida, ícone da alfaiataria, encara a Ducati XDiavel com a mesma precisão com que desenha os moldes de seus costumes

Ricardo Almeida fecha a jaqueta, ajeita o capacete aberto, encaixa as luvas. É cedo, principalmente para um sábado: 7h30 da manhã. Na garagem de sua bela casa no Jardim Paulistano, ele aciona a injeção eletrônica da Ducati XDiavel e põe em marcha o motor bicilíndrico de 1262 cilindradas e 156 cavalos de potência.

Moto arrojadíssima, a qual não se consegue ficar indiferente, é a epítome da força, tanto nos traços quanto na entrega. Tem alma de cruiser e um desempenho que deixa muita speed comendo poeira. Além da tecnologia embarcada característica da marca, trata-se da primeira Ducati a usar transmissão por correia dentada.

A XDiavel não é apenas uma moto de performance arrebatadora.

De linhas arrojadas, foi eleita a mais bela do Salão Internacional de Milão em 2015. E Ricardo Almeida, o mais icônico dos alfaiates brasileiros, o preferido de uma constelação que vai de Tite a Ronaldo Fenômeno, do surfista Gabriel Medina a boa parte do Congresso Nacional, ficou tão seduzido pela moto que desenvolveu uma coleção cápsula inspirada no modelo.

Quem compra um de seus ataviados ternos talvez jamais desconfie que ele é um motociclista de corpo, alma e tradição, dono de cinco motos. “Ando de moto todo dia, odeio andar de carro. Prefiro tomar chuva a ficar parado no trânsito.”

Se na alfaiataria o excesso de meticulosidade lhe imprime um ritmo lento, em cima do veículo ele prefere a velocidade.

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Painel da XDiavel (Ducati/Divulgação)

Mas o estilista enxerga pontos em comum entre o trabalho e o lazer. “Na alfaiataria, assim como no motociclismo, a precisão é tudo. É preciso saber entrar nas curvas, respeitar os limites”, diz.

Ricardo começou cedo no mundo das duas rodas, primeiro na moto do irmão mais velho, aos 14 anos, e depois em 1971, aos 16, quando comprou sua primeira, uma Honda CB350.

Tudo com o dinheiro que juntou trabalhando na loja da família, onde fazia de tudo um pouco. “Meu pai, que andava de moto e corria de carro, me incentivou mas nunca me deu nada”, conta.

Em 1974 mudou para a Yamaha RD350, a “viúva negra”, e começou a se espremer nos grids de largada do Campeonato Brasileiro de Motovelocidade na categoria esporte. “O que me excitava era a largada, as ultrapassagens, a briga por posição. É uma sensação forte.”

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Ricardo Almeida disputa competição na categoria esporte em Interlagos, em 1975 (Acervo pessoal/Divulgação)

Na época chegou a ter duas RD 350, uma para o uso urbano e uma para as pistas. Sobre a fama de moto assassina do clássico modelo, ele desdenha: “Era uma moto que andava muito, boa pra cacete. Diziam que ela não freava, mas era porque quicava no chão, travava e pulava. Para quem sabia pilotar era maravilhosa, um modelo de pista levado para rua com muito sucesso”.

Se na adolescência seu coração batia na toada dos motores dois tempos da Yamaha, hoje, maduro, pulsa no ritmo de um Testastretta desmodrômico da Ducati. “A Scrambler é minha moto de todo dia, perfeita para o trânsito.”

Naquela manhã de outono, o destino era a Estrada dos Romeiros, um dos roteiros mais procurados pelos motociclistas de São Paulo, que liga a capital à cidade de Itu. Os 70 quilômetros do percurso são uma sequência sinuosa que corta o bucólico cenário interiorano dos arredores da capital, um destino perfeito para desanuviar a cabeça tangenciando as curvas e respirando ar puro.

O asfalto ainda molhado da chuva da noite anterior fazia com que os primeiros quilômetros fossem percorridos de forma tímida, bem diferente do que aquele jovem Ricardo fazia nas pistas de competição. Mas logo ele foi se soltando e explorando melhor todo o potencial da Diavel.

No fim da manhã já dava para ver pelo capacete aberto o sorriso cheio em seu rosto, de alguém que está completamente confortável no que faz. Parecia que, para ele, em cima da moto, nada mais importava a não ser estar ali, em duas rodas.

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Motociclista desde a adolescência, Ricardo tem cinco bikes na garagem. A Ducati XDiavel inspirou uma coleção (Fernando Cavalcanti/Divulgação)

Numa parada para um café na Fazenda do Chocolate, ponto tradicional dos motociclistas naquele trecho, ele continua a falar sobre sua relação fiel com esse universo. Conta Ricardo que foi pela necessidade de bancar as corridas de moto, entre 1974 e 1975, que ele começou a trabalhar como representante de vendas de uma confecção e terminou se embrenhando no mundo da moda.

Entre o início na camisaria Dida e a confecção África, foi de representante a sócio. No caminho, aprendeu a modelar e saiu para montar sua própria confecção, que alimentava as principais lojas então do país. Até que deu outra guinada e montou sua própria marca, em 1991.

Assim como nas corridas, ele precisou ultrapassar seus próprios limites. “Na época a moda masculina brasileira era muito ligada à italiana. Quando eu parei de fabricar peças para outras marcas e montei minha loja, me perguntei: ‘Será que uma marca com um nome português como o meu vai dar certo?’. Deu medo.”

Mais do que um alfaiate, Ricardo é um apaixonado pela criação, pela forma e pelos detalhes. É um vanguardista de ponta, que não economiza recursos para chegar aonde quer. “Na realidade o que eu gosto é de fazer as coisas bem feitas, independentemente de serem ligadas à alfaiataria. De qualquer coisa relacionada à criação eu gosto. Nos projetos das minhas lojas eu cuido de tudo, do móvel ao prédio, tudo, tudo.”

Diz ele que este é o seu principal mérito. “Sou perfeccionista, quero alcançar o melhor. O melhor tecido, o melhor forro, o melhor caimento, a melhor modelagem.”

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O motor da XDiavel: maior e mais potente que o de muito carro por ai (Ducati/Divulgação)

Apesar de hoje comandar um pequeno império, com 17 lojas próprias e uma fábrica nova de ponta de 7 800 metros quadrados inaugurada em 2016, Ricardo não abre mão de fazer todos os moldes. Camisa, calça, paletó – tudo passa por suas mãos.

Enquanto terminamos o café, alguns curiosos começam a rondar a XDiavel. Até que um deles pergunta: “Você não é o Ricardo Almeida?”

Subindo na moto para encarar o caminho de volta, numa breve conversa, ele termina: “A XDiavel é tão linda que eu a poria no meio da minha sala”. E, reagindo a uma provocação, emenda: “Sabe que nunca me passou pela cabeça desenhar uma moto? Quem sabe um dia?”.