Segunda-feira, 9 de Março de 2009 - 1 Comentários

Na última sexta-feira, estreou Frost/Nixon, filme que ganhou um monte de indicações para o Oscar. Pra quem quiser checar a ressaca de um dos episódios políticos mais vergonhosos da história americana, um belo e raro filme.

Raro, porque os americanos criaram uma verdadeira mitologia em torno de seus presidentes e, por consequência, é difícil encontrarmos bons filmes com esse tema - assim como não temos bons filmes sobre futebol no Brasil. Já vi péssimos filmes biográficos sobre Garrincha e Zico, e imagino que um americano não suporte ver um atorzinho encarnando Kennedy ou Roosevelt.

Assim, se dão melhor as comédias rasgadas e os filmes que optam por mostrar o lado negro do poder ianque. Este Frost/Nixon segue a segunda opção, e se dá bem.

Mas vamos dar uma olhada nos filmes de presidente que pintaram ao longo da história do cinema:


Presidentes Engraçadinhos:




















Há várias comédias simpáticas envolvendo o presidente dos EUA e sua mitologia (a Casa Branca, o avião Air Force One, os quadros dos antigos ocupantes da cadeira etc). Quase nunca chegam a ser grandes comédias, por serem respeitosas demais. Assim, Kevin Kline foi bem no manjado plot do cara muito parecido com o presidente que é alçado ao cargo por um dia em Dave - Presidente por Um Dia. Michael Douglas é digno na comédia romântica de Rob Reiner, Meu Querido Presidente (embora Anette Benning faça uma primeira-dama muito melhor do que o que se pode esperar na vida real).

Já em Mera Coincidência, de Barry Levinson, a coisa é mais ácida: o presidente molestou uma garotinha, então os marqueteiros do Governo (Robert DeNiro e Dustin Hoffman) resolvem declarar guerra contra a Albânia (!) para desviar a atenção.

Mas nada é mais desrespeitoso do que o grande Doutor Fantástico ou Como Parei de me Preocupar e Passei a Amar a Bomba, de Stanley Kubrick. Peter Sellers (foto) é o presidente americano imbecilóide que negocia o fim do mundo com o ditador soviético. Ao mesmo tempo, Sellers é o Doutor Fantástico, o cientista que fabrica a bomba atômica que resolve a parada e dá fim ao filme.


Presidentes Patéticos:
















Quando Hollywood tenta transformar o chefe da Casa Branca em herói de ação, a coisa termina mal. Harrison Ford (foto), que chutou rabos a esmo como Han Solo e Indiana Jones, está ridículo como presidente no péssimo Air Force One - um tipo de Velocidade Máxima que se passa no famoso avião presidencial, ao invés de um ônibus.

Outro fracassado é o presidente vivido por Bill Pullman em Independence Day. O cara, além de ser hesitante e parecer um borra-botas do início ao fim do filme, acaba entrando em um teco-teco para dar uns tiros em um enorme disco voador. Menos risível é a paródia de ID4 feita por Tim Burton no mesmo ano, Marte Ataca!, que traz Jack Nicholson como um presidente bizarro - mas, ainda assim, é Nicholson - portanto, mais respeitável do que Pullman...

Mas é óbvio que, em se tratando de presidentes patéticos, ninguém jamais vencerá o engraçado, estúpido e real George W. Bush no documentário Farenheit 911, do fanfarrão Michael Moore, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes. A triste cena de Bush demorando uma eternidade para processar a informação de que os Estados Unidos estavam sofrendo um ataque naquele momento - e decidindo por continuar sua leitura com alunos préescolares - ficará marcada na História, e não só do cinema.


O Presidente-Vilão:














Nixon: ele foi escolhido como o Cara Mau da História americana.


Nos anos 70, logo após o escândalo de Watergate, Hollywood decidiu que tinha achado seu presidente-vilão: Richard Nixon. Ele foi objeto (sem aparecer) no vencedor do Oscar Todos os Homens do Presidente, em 1975. Ele foi retratado por Anthony Hopkins como um ser tão desalmado quanto Hanibal Lecter, em Nixon, nos anos 90. E está agora, indefeso e acuado após os escândalos, no novo Frost/Nixon, notável pelo roteiro e pelas atuações de Frank Langella, como Nixon, e de Martin Sheen, como o apresentador de TV David Frost.


Só os Clássicos salvam:

São poucos os acertos dramáticos envolvendo presidentes americanos. Um deles é bem recente: a série John Adams, produzido e exibido pela HBO, que trata da vida do terceiro presidente americano, foi bem sucedida e ganhou um monte de Globos de Ouro. Paul Giamatti fez Adams sem muita pompa ou pose, e deu humanidade ao mito. Laura Linney, uma das melores atrizes do momento, fez a primeira-dama Abigail Adams, em atuação memorável.

Mas, mito por mito, nenhum é maior do que Abraham Lincoln. E este foi objeto de dezenas de filmes pavorosos, mas Young Mr. Lincoln, de 1939, até que não foi mal. Apostou no óbvio da grandiosidade e da pompa, mas pelo menos botou Henry Fonda no lugar de Lincoln. Ficou crível e até honesto. Se não tivesse sido lançado em um ano tão concorrido (1939 abrigou os lançamentos de ... E o Vento Levou e O Mágico de Oz, entre outros), teria garantido um lugar de maior destaque na história do cinema.

O acerto mais recente é um clássico moderno: a família Clinton. Mike Nichols, o grande diretor de A Primeira Noite de um Homem e Closer, adaptou para o cinema o livro "proibido" sobre a ascensão de Bill Clinton ao poder, desde seu passado como governador de Arkansas até os bastidores da campanha presidencial. O livro, Cores Primárias, trazia nomes fictícios para tentar driblar os processos, estratégia mantida pelo filme: Segredos do Poder, com John Travolta e Emma Thompson (foto) nos papéis de Bill e Hillary - mas com outros nomes, não conte pra ninguém...














De qualquer modo, o filme era até respeitoso com o casal, mas foi solenemente ignorado pelo público e sublimado pela crítica. Uma pena, pois Nichols nunca erra.


O Futuro
















Em meio à quebradeira de bancos e seguradores e às notícias nada promissoras sobre a economia, BLOGIE deseja a Barack Obama melhor sorte do que a dos filmes de presidente que Hollywood tem feito.

E continua torcendo para Robert Redford, candidato ao Senado no ótimo O Candidato (foto), de 1972, um dia chegar a presidente.

Pelo menos na tela grande.

Marcadores: , ,

Assinar
Postagens [Atom]

1 Comentários:
Anonymous José Alberto Ferreira disse...

Muito interessante o seu artigo:
além de trazer referências deliciosas sobre o evento,
já faz a gente imaginar o Spielberg
filmando a vida do Obama.

20 de Janeiro de 2009 12:42

 

Postar um comentário

<< Início