Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009 - 2 Comentários
Antes de tudo, uma breve palavra com quem ainda não viu Dúvida, de John Patrick Shanley: baseado em uma peça de teatro do mesmo autor, o filme trata de intrigas em um colégio católico no Bronx, cuja diretora é uma freira linha dura, a Irmã Aloysius (Meryl Streep). Ela não vai com a cara do Padre Flynn (Philip Seymour Hoffman), liberal demais pro gosto dela. E levanta, sem muita base pra isso, a suspeita de que ele anda seduzindo um menino da oitava série. Sendo manipulada pela Irmã Aloysius para sustentar sua tese (e pelo Padre Flynn para rejeitá-la), a jovem Irmã James (Amy Adams) é quem mais sofre a tormenta da dúvida.
Meryl e Amy: freiras no tapete vermelho do Kodak Theater.
O filme é muito bom, as atuações são maravilhosas (praticamente todo o elenco adulto foi indicado ao Oscar) e você já deveria ter visto o filme. Mais, não posso falar. Digamos apenas que ele é o que seu título anuncia: uma dúvida em três atos, um exercício machadiano para deixar o espectador em dúvida. Assista junto com alguém e você terá uma discussão garantida para o jantar depois do cinema.
Dica dada, proponho agora um bate-papo um pouco mais cuidadoso com quem já viu Dúvida.
Primeiro: deveriam mostrá-lo nas faculdades de Direito e de Administração de Empresas, ao invés das enfadonhas aulas de técnicas de negociação e da leitura de Como Chegar ao Sim. O filme é um verdadeiro seminário de negociação, com três estilos bem definidos e personificados pelo trio de talentosos protagonistas. Isso fica claro em uma longa cena que inclui os três protagonistas, na sala da diretora. Veja trechos da cena e perceba a abordagem de cada um:
Aula de negociação aplicada, com Meryl Streep, Seymour Hoffman e Amy Adams.
Temos a professorinha idealista, Irmã James. Ela é toda ética e bondade, se incomoda com desonestidade e tenta abafar qualquer conflito, cuja intensidade ela simplesmente não suporta. Até no momento em que ela confronta sua superiora, a Irmã Aloysius, fica claro o quanto ela acredita que afirmar sua correção de propósitos bastará para garantir uma posição vencedora. Não é surpresa que ela seja engolida pelas outras partes.
O Padre Flynn, por sua vez, sabe seus pontos fortes e confia no seu carisma e na sua lógica. Liga as pontas, constrói linhas de argumentação e bota seu interlocutor em constante inferioridade. Como confrontar um homem tão brilhante?, é a pergunta que ele faz crescer no outro. Para isso, ele se move pelo cenário, ocupa o lugar da diretora, pede chá, pede açúcar, fecha a veneziana. No seu habitat natural - a missa de domingo - , ninguém pode com ele: seu sermão sobre a fofoca é antológico.
Mas na escura sala da Irmã Aloysius, o caldo engrossa. A magistral Meryl Streep empresta toda a dureza da editora de moda de O Diabo Veste Prada para a sua personagem do momento. Mas a Irmã Aloysius é pior: ela é 100% foco e dissimulação. Confia no seu faro e jamais se questiona. Em sua longa negociação, consegue suplantar o talento do Padre Flynn, praticando o velho jogo de truco: jogou o verde, e o cara se entregou...
Ou será que não? Pode ser que, em um rápido balanço de prós e contras, o Padre tenha preferido "assumir" seu caso com o menino em particular para a Irmã Aloysius, antes que ela saísse por aí difamando-o. Ele teria formulado a pergunta básica do negociador: qual a melhor alternativa sem acordo? E tomara sua decisão.
Com todo o respeito ao leitor: não interessa o seu ou o meu julgamento. Não dá pra afirmar, com o que aparece na tela por duas horas, que o padre é culpado. Se você está pensando que sou um idiota e que vejo o mundo em cor-de-rosa, o mérito é todo do autor: ele conseguiu botar você no meio da teia de evidências que, se não dão prova cabal da pedofilia, semeiam a dúvida e, de acordo com a personalidade de cada um, conduz a uma conclusão sempre frágil. É disso que trata o filme, à mesma maneira que Machado de Assis construiu a suposta traição de Capitu em Dom Casmurro.
Aí vem o final do filme, aquela coisa da Irmã Aloysius confessar à Irmã James que está se comendo de dúvida... um final que não está à altura do resto do filme, certamente. Na VEJA, a crítica Isabela Boscov disse que se tratava de muita misericórdia de John Patrick Shanon para com a Irmã Aloysius - um gesto tipicamente católico, na linha "eles não sabem o que fazem". O que eu acho: não foi excesso de bondade cristã de Shannon, mas sim falta de segurança artística. Ele sentiu a necessidade de explicar para todo mundo: "olha, não condene o cara; até a Irmã Aloysius tem dúvida... na verdade, o filme é feito pra te deixar na dúvida..."
É como se, no último capítulo de Dom Casmurro, Bentinho refletisse: "jamais vou ter certeza se Capitu me traiu ou não, mas a vida é assim, bola pra frente..."
Só que, mais corajoso e seguro, Machado preferiu manter firme a crença doentia de Bentinho na traição. É isso que Shannon deveria ter feito com a Irmã Aloysius, deixando a dúvida cair aos pingos na consciência das pessoas.
E bem, e o resto?
Bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, e é o seguinte:
1- É sempre um prazer ver Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman em cena. Foi um duelo de gigantes, coisa fina.
2- Amy Adams é o máximo. Linda, jovem e talentosa, será uma das grandes atrizes americanas do seu tempo. Não erra um papel e bem que poderia ganhar já neste ano seu primeiro Oscar.
3- Assistindo a Dúvida, cheguei à infeliz conclusão de que, no meu ambiente profissional, onde sou pago para ser 60% Irmã Aloysius e 40% Padre Flynn, acabo sendo 70% Irmã James, 30% Padre Flynn e 0% Irmã Aloysius. Quero as coisas resolvidas, para ter minha simplicidade de volta.
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Ricardo Garrido mostra que filme bom não precisa ter função social nem agradar crítico besta. O blogueiro preenche as horas vagas com muitos filmes, exceto quando não está nas arquibancadas da Fiel. O Coringão voltou!





2 Comentários:
pois é, nem a minha opinião nem a sua contam... e a gente nunca vai ter certeza de nada!
Gostei da Meryl Streep, mas não a achei se superando... Não me despertou empatia. E por isto continuo na torcida pela Kate, pelos dois papéis (se isto fosse possível), ambos totalmente ambíguos, belas escolhas.
16 de Fevereiro de 2009 21:51
Concordo. Kate Winslet pra Melhor Atriz, sem dúvida!
Ainda nesta semana, vou comentar "O Casamento de Rachel" (belo trabalho da Anne Hathaway) e "Slumdog Milionaire" (acho que é mesmo o melhor filme)...
Obrigado pelo comentário e um abraço,
Ricardo
16 de Fevereiro de 2009 23:34
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