Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009 - 4 Comentários
Filme de macho que comove: não é mentira, isso existe. É o que o leitor encontrará em O Lutador, que estreia hoje nos cinemas.
Ninguém chora em Soldado Universal, Triplo X ou Stalonne Cobra, é claro, mas qualquer um percebe que há algo a mais em Rocky, o Lutador (o primeiro da série). Ali, você encontra um brutamontes meio chucro que, em meio à sua tosquice e seu excesso de testosterona, não consegue entender seus próprios sentimentos - ele só sabe que ele quer mais. O Lutador entrega isso e mais um pouco: é o melhor filme do ano. Não vai ganhar o Oscar, mas merecia. Porque é arte, mas arte em estado bruto, brutal.
De repente, Mickey Rourke vira "o cara" - e no papel de um lutador de telecatch!
Muito tem se falado sobre a volta triunfante de Mickey Rourke, um cara que era um símbolo sexual nos anos 80, mas que largou tudo pra ser boxeador, apanhou até ficar totalmente deformado e sumiu do mapa - até O Lutador. E é merecido: Rourke é a alma do filme e entrega a performance do ano. Concorre diretamente com Sean Penn pelo Oscar de melhor ator.
Entrevistamos Mickey Rourke no ano passado. Confira
O lutador do título, vivido com dor por Rourke, é Randy The Ram Robinson, um lutador de telecatch (ou luta livre, sei lá, ô troço mais anos 80!) que viveu seu auge na época em que Van Halen e Guns'n'Roses dominavam as rádios. De lá para cá, se vicia em remédios e anabolizantes, vai perdendo os movimentos, o dinheiro e a clareza de pensamento. Está com problemas cardíacos e sobrevive às custas de um subemprego e de lutas em ginásios vagabundos pelas quebradas dos EUA.
Sua diversão é reviver o auge através do velho video-game baseado em sua luta mais famosa, ocorrida há vinte anos. O futuro, para ele, aparece em duas oportunidades tênues: a) se aproximar da stripper vivida por Marisa Tomei, que gosta dele, mas é tão limitada quanto o pretendente e não consegue vencer a barreira dos chavões do seu ramo (nunca se envolver com clientes etc); e b) tentar a reconciliação com a filha (Evan Rachel Wood, sempre ótima), negligenciada nos tempos de loucura e que, agora, não quer vê-lo nem pintado de ouro.
Veja o clipe acima: cenas do filme, ao som de The Wrestler, canção do Bruce Springsteen que ganhou o Globo de Ouro deste ano.
Marisa Tomei também tira leite de pedra: mesmo passando 80% do tempo em tela dançando pelada (o que é um belo atrativo, diga-se), ela consegue entregar uma performance cheia de nuances e também tocante. Recebeu sua terceira indicação ao Oscar, e vive um belo momento na carreira (ela também foi muito bem em Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, de Sidney Lumet).
Há muitas cenas memoráveis, como aquele em que Randy é obrigado e enfrentar o declínio de frente, como balconista de um supermercado, onde é reconhecido por um fã; ou a que Randy finalmente se aproxima da filha, em um raro momento de equilíbrio e clareza de propósitos.
Mas a que vai ficar pra sempre na memória é mesmo o momento romântico do filme: o lutador de telecatch e a stripper, numa tarde de sábado, se encontram à paisana num boteco derrubadão, tomam uma cerveja, escutam Motley Crüe e revivem uma frestinha de juventude. Exorcisam tudo o que aconteceu depois dos anos 80 e, redimidos, acabam se beijando. Um suspiro de paz no mundo white trash. 
O casal do ano: o lutador caidaço e a stripper quarentona.
Isso tudo é O Lutador, mas é mais que isso. Sua namorada não vai gostar, sua mãe vai odiar. Seu amigo descoladinho não vai entender a graça - mas você, amigo leitor da VIP, vai se amarrar. Porque O Lutador é sobre aqueles sonhos meio vergonhosos que temos na juventude, e aquela sensação incômoda de "estraguei tudo" que fica pingando ao longo da idade adulta. Todos temos isso. Até o Mickey Rourke tem, e é sorte nossa que ele tenha dividido seu sofrimento conosco.
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Ricardo Garrido mostra que filme bom não precisa ter função social nem agradar crítico besta. O blogueiro preenche as horas vagas com muitos filmes, exceto quando não está nas arquibancadas da Fiel. O Coringão voltou!





4 Comentários:
FODA! vou ver
13 de Fevereiro de 2009 09:43
Se você for adepto ou apenas curioso sobre os anos 80, a trilha sonora é uma atração a mais: tem Guns'n'Roses, Motley Crüe, Cinderella, Slaughter e outras bandas cheias de laquê no cabelo e guitarras distorcidas - um festival do glam metal!
16 de Fevereiro de 2009 14:51
Muito bom mesmo, estreiou muito bem!
Atuações fantásticas e realmente a trilha é muito boa. E o dialogo de Randy e Pam sobre música é foda.
ps: E essa foto do Hulk ae...
18 de Fevereiro de 2009 14:41
Louca, a foto, não?
O melhor naquele diálogo é o jeito que ele se refere ao Kurt Kobain ("that little pussy Cobain")...
Ricardo, obrigado pelo comentário!
Um abraço,
Garrido
18 de Fevereiro de 2009 19:01
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