Terça-feira, 31 de Março de 2009 - 2 Comentários

Um leitor assíduo deste blog decretou: Gran Torino é o filme VIP do ano. É difícil discordar do cara: é mais uma obra-prima de Clint Eastwood, e parece ter sido concebido para coroar uma carreira única no cinema (Clint já anunciou que este será seu último filme como ator).

Clint Eastwood, vamos esclarecer, é um cara que ficou famoso como astro canastrão de faroestes. Estrelou filmes lendários do Sergio Leone (Por um Dólar a Mais, Por um Punhado de Dólares, O Bom, o Mau e o Feio) durante os anos 60. Já na década seguinte, virou herói de ação e ícone com seu personagem Dirty Harry, o policial que resolve a parada com suas próprias mãos. Artisticamente, pode-se dizer que atingiu um feito ao estrelar A Fuga de Alcatraz, em 1979. Isso tudo seria suficiente para incluí-lo no rol das grandes lendas do cinema.

O diabo é que o cara também quis ser diretor. Fez alguns filmes nos anos 70 mas, a partir da década de 80, foi acertando a mão. Em 1992, aos 62 anos de idade, dirigiu e estrelou Os Imperdoáveis, vencedor do Oscar de melhor filme. Era a coroação da carreira de Clint, um ciclo se fechando, a volta ao faroeste em grande estilo, um belo ponto final.

E aí, inesperadamente, o homem começou a enfileirar obra-prima atrás de obra-prima, filmes de todo tipo e gênero, tornando-se um dos grandes diretores vivos americanos - hoje, ele só encontra concorrência em Woody Allen e em Martin Scorsese.

Clint Eastwood completará 80 anos no próximo mês, e BLOGIE aproveita para nomeá-lo o cineasta VIP (de todos os tempos). Para homenageá-lo, listamos os melhores filmes de Clint. Confira!

Honkytonk Man (1982)



Um filme pouco conhecido e muito bom! Veja o trailer!

Começa a aparecer um dos temas centrais da obra de Eastwood: a decadência, o acerto de contas com o passado. Ele faz o protagonista Red Stovall, um homem corroído pelo fracasso e pelo alcoolismo. Está doente, em estágio terminal e resolve ir para Nashville, para tentar gravar um disco como cantor country. Arrasta, para ajudá-lo na missão, seu sobrinho de 14 anos. A visão que temos do filme é a do moleque, que vê em Red um herói injustiçado, e é pelas vias tortas do tio que ele é iniciado na vida - carros, crimes, mulheres, redenção, morte. Um belo e subestimado filme, que não fez muito sucesso, mas que pelo menos serviu como matriz para uma cópia famosa - A Encruzilhada, aquele filme do Ralph Macchio buscando o blues perdido no Mississipi.

Bird (1988)

Novamente, a música. Novamente, um homem talentoso que destruiu sua própria vida com vícios e mulheres. Só que a história, aqui, é verdadeira: Bird é o apelido de Charlie Parker, lenda do jazz retratado pela melhor bio-pic de todas (bota os recentes tributos a Ray charles e Johnny Cash no chinelo). De quebra, Eastwood encontrou em Forrest Whitaker um grande ator (até então, ele se destacava em alguns papéis segundários).


Os Imperdoáveis (1992)


















O Western vira arte nas mãos do seu mais famoso pistoleiro.


Tido como a obra-prima de Eastwood, Os Imperdoáveis chega arrebentando na tela. É grande, bonito, épico, como os grandes faroestes do Sergio Leone (ele aprendeu bem a lição), mas traz uma amargura própria na mistura. Aqui, o herói consumido pela culpa tem uma dimensão humana que não aparecia nos clássicos. Clint é William Monny, um pistoleiro aposentado que, ao constatar que não se adapta à vida civil de fazendeiro, resolve encarar mais um trabalho - comprando a briga de umas prostitutas com o xerife local, vivido por Gene Hackman. Grandes atuações de Eastwood, Hackman e Morgan Freeman (que faz o velho parceiro de Monny), música épica composta pelo próprio Clint e a primeira mostra do que ele poderia oferecer como diretor. O melhor western de todos os tempos.


As Pontes de Madison (1995)

A princípio açucarado demais para o gosto masculino, As Pontes de Madison engana: é um filme devastador sobre a maturidade. E é um belo romance. Clint é o fotógrafo da National Geographic que está fazendo uma matéria sobre as curiosas pontes cobertas de Madison County. Acaba encontrando Francesca (Meryl Streep), uma mãe de família sozinha e frustrada, que lhe ajuda a encontrar as pontes e, de quebra, engata um rápido e marcante affair com o forasteiro.

A ingratidão dos filhos - outro tema que Eastwood retomaria anos depois, em Gran Torino -, o dilema entre seguir as regras (e arrefecer os instintos) ou quebrá-las (e ir pras cabeças), a cumplicidade entre um casal adulto... são muitas coisas importantes que acontecem em As Pontes de Madison, e Clint Eastwood esculpiu uma pequena e despretensiosa joia. Grande atuação de Meryl.


Sobre Meninos e Lobos (2003)














Sean Penn vai até o fim em Sobre Meninos e Lobos.


Aqui, a coisa começa a ficar pesadona. O pessimismo toma conta do velho caubói e outra obra-prima sai da sua cartola: o drama do pai (Sean Penn) que perde a filha e não consegue seguir em frente. A sede de vingança consome tudo que há de humano ou razoável no homem - e em todos à sua volta: seus amigos de infância, vividos por Kevin Beacon (que é o detetive encarregado do caso) e Tim Robbins (que sofrera abusos quando criança), são arrastados pra dentro desse poço sem fundo. Sean Penn arrebenta e ganha seu primeiro Oscar de melhor ator (tirando o doce da boca de Bill Murray, que concorria por Encontros e Desencontros).


Menina de Ouro (2004)

Um filme que pega o desavisado na curva. A primeira metade promete (e entrega) um agradável filme de redenção através do esporte, trazendo Hillary Swank como a pobretona que encontra no boxe uma chance de sair do buraco. Clint é o velho técnico ranzinza que conhece tudo do assunto, mas que, conservador, hesita em treinar uma moça. O relacionamento paterno que acaba se instalando entre eles é comovente. E aí, bem quando a moça está se dando bem - e enquanto o velho encontra nela uma boa razão para viver -, ela apanha feio, vai parar no hospital e o filme começa ir para o ralo, numa espiral de dor e sofrimento tão pesada quanto à de Sobre Meninos e Lobos. Mais um Oscar de melhor filme para o mestre.


A Conquista da Honra / Cartas de Iwo Jima (2006)

Subestimados, a dupla de filmes lançados simultaneamente são um feito impressionante: Clint mostrou os dois lados da moeda ao retratar a invasão americana na ilha de Iwo Jima, durante a 2ª Grande Guerra. A batalha é famosa especialmente pela icônica foto de soldados americanos espetando sua bandeira no alto do morro. A Conquista da Honra mostra o drama desses soldados, tornados heróis por acaso e garotos-propaganda do esforço de guerra. O filme fala mais da hipocrisia da fábrica midiática de mitos do que de guerra, embora as cenas de batalha sejam muito boas. Já Cartas de Iwo Jima traz o outro lado da história: os japoneses que sofrem a invasão na tal ilha. No primeiro filme, eles mal aparecem, tomando um tiro aqui ou já surgindo, misteriosamente mortos, em seus bunkers. Já no segundo, são seus dramas pessoais e a curiosa noção de honra deles que assume o primeiro plano. Vistos juntos, uma poderosa obra humanista de Clint Eastwood.



Gran Torino (2008)

Em cartaz nos cinemas, Gran Torino é um resumo de tudo aquilo em que Clint acredita ou se interessa: traz desde a noção justiceira dos seus faroestes e do célebre Dirty Harry, até a preocupação com o envelhecimento, com a morte, com a ingratidão dos filhos e do mundo (temas comuns aos seus filmes nos últimos vinte anos).














The Old Man and the Bear: isso que é arte.


É um testamento para a América que enriqueceu e que assumiu a cara de Clint Eastwood. A história se passa num subúrbio caidaço de Detroit (a sede da moribunda indústria automobilística americana), um bairro tomado por chineses e latinos. Tudo que é originalmente americano parece estranho e deslocado por lá: a bandeira hasteada na casa do personagem de Clint; o carro Gran Torino estacionado na sua garagem; o seu gramado sempre aparado; suas cervejas solitárias bebericadas na varanda; e o próprio Clint Eastwood, alto demais, velho demais, justo demais (e, ao mesmo tempo, intolerante demais) para o mundo em que se encontra. A partir de um determinado ponto, ele passa a enfrentar seus preconceitos, suas manias e acaba assumindo o papel de super-herói da vizinhança. Como todo personagem de Clint, portanto, carrega um peso muito grande, e sabe que pagará o preço por isso. Porque as contas que ele precisa acertar são com a sua própria consciência.

E, no momento, é o melhor filme em cartaz.

Este, sim, é um belo ponto final para a imagem de Clint Eastwood. Para a imagem, porque, como diretor, ele continua na ativa: seu próximo filme, já em produção, conta a história de Nelson Mandela no período que se seguiu ao fim do Apartheid. Morgan Freeman aparece no papel principal. Isso que é envelhecer com classe!

Por essas e outras, Clint Eastwood é o cara.

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2 Comentários:
Blogger Roxy Carmichael disse...

que simpático esse espaço.
realmente o clint é o meu favorito
e nesse gran torino ele tá insuperável, dando lições sobre como ser um cara durão, ao jovem asiático, uma bela homenagem que prestou ao tipão que ele imortalizou no cinema
grande abraço e um beijo tb

19 de Abril de 2009 16:37

 
Blogger Redação VIP disse...

Obrigado pelo comentário!

E belo nickname - esse filme é raro!!!

Abraço,
Ricardo

22 de Abril de 2009 11:03

 

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