Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009 - 0 Comentários

Resumindo tudo em uma frase: o cinema foi inventado para proporcionar momentos como as duas horas de Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle. Ou melhor: é por ocasiões tão agradáveis quanto esse filme que a vida vale a pena.

Dito isso, fica clara a opinião deste blogueiro: Quem Quer Ser um Milionário? é o melhor filme do ano e, se houver justiça no mundo, deve ganhar o prêmio máximo do cinema na entrega dos Oscars, no próximo domingo, em Los Angeles.

Para poder conferir antes do Oscar, há poucas chances: com estreia marcada para 6 de março, o filme terá poucas sessões, como pré-estreia, a partir desta sexta-feira.

Qual a razão de tanta babação?


1. Um roteiro matador, de lavar a alma.

Imagine Cidade de Deus misturado com Uma Linda Mulher. Parece absurdo, mas é disso que se trata: de uma fábula de terceiro mundo, ao mesmo tempo forte e acessível, revelador e inebriante, para agradar a críticos chegados num papo-cabeça e à grande massa.

Quem quer ser um milionário? é a história de um jovem favelado indiano que, tal qual um Forrest Gump da pobreza, passa por todas as provações possíveis de um menino pobre de Mumbai, escapando de cada perigo até chegar à idade adulta, quando se vê como participante de um Show do Milhão local, a um passo de ficar milionário.

Tudo isso, motivado por um único objetivo na vida: reencontrar o seu amor de infância e viver feliz para sempre.

A mágica é transformar essa proposta improvável em uma obra-prima.

É isso que faz Danny Boyle.


O trailer simplesmente não é suficiente, mas é o que se tem à mão...


2. Uma direção irretocável.

Depois de Trainspotting, Danny Boyle nunca mais confirmou a promessa de seu talento. Por uma vida menos ordinária e A Praia foram decepcionantes.

Mas aí ele aparece com um filme cheio de atores indianos, com esse roteiro maluco e pop, e comanda um balé de violência, ação e fantasia, num dos cenários mais duramente reais do cinema recente: as quebradas de Mumbai, na Índia.

Há a clara influência de Cidade de Deus, na edição, nas cores, no ponto-de-vista adotado (de um jovem trabalhador que, meio por sorte, meio por valores, escapa quase intacto dos perigos e dos inevitáveis contatos com o crime organizado). Tem gente dizendo por aí que é cópia e tal, mas quem se importa? Entendo mais como uma homenagem ao filme brasileiro.














Jamal,mesmo na merda, nunca perde a esportiva.

O que interessa é que Boyle transformou Quem Quer Ser um Milionário? em uma festa. A vontade, enquanto aparecem os créditos em meio ao elenco do filme dançando uma estranhíssima coreografia parecida com Thriller, é de se levantar e bater palmas, como se os responsáveis pelo filme estivessem ali.


3. Atores sensacionais.

O trio protagnista é formado por: o tal do rapaz do Show do Milhão, Jamal; seu irmão seduzido pelo mundo do crime, Salim; e o interesse amoroso de Jamal, Latika. Eles são vividos por três trios de atores, durante a infância, a pré-adolescência e o início da fase adulta. E todos os nove atores envolvidos são sensacionais.

Os melhores são mesmo os infantis, com seus olhos arregalados e sua graça irresistível. Mas o Jamal adulto, Dev Patel, é um cara carismático. E, acima de tudo, tem Freida Pinto, a Latika adulta.


3. Freida Pinto, a novidade do ano.



















Sendo direto: que gata. Boyle teve o cuidado de incutir a visão de Freida Pinto, como Latika, em amarelo, na nossas mente. O flash se repete algumas vezes ao longo do filme, e continuará pingando na memória de qualquer cara que tenha algum interesse em mulher. A beleza de Freida, acredite, é ingrediente importante para o sucesso do filme - afinal, Jamal tem que ter uma boa razão pra enfrentar tanta roubada por tanto tempo, movido por uma verdadeira obsessão pela menina.


4. Cinemão assumido.

A última coisa que qualquer um ainda quer ver são esses filmes pesados sobre uma miséria desgraçada e sem esperança. Um Walter Salles só no mundo já está bom.

Quem Quer Ser um Milionário? consegue oferecer, no meio da lama que é a vida real, uma opção de fantasia, um escape bacana, uma redenção barata. É disso que o cinema é feito, amém.

Por isso, no domingo, Danny Boyle subirá ao palco do Kodak Theatre para receber o seu merecido Oscar de melhor filme.

E, se o resultado for diferente... que se dane a Academia.

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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009 - 0 Comentários

Na tentativa de deixar a festa mais ágil e menos chata, os organizadores do Oscar andam com a mania de empacotar as 5 músicas indicadas a melhor canção em um blocão de seis minutos, onde cada uma é apresentada rapidinho por seus intérpretes, na linha "se vira nos trinta".

Por esse motivo, Peter Gabriel, indicado por sua contribuição na animação Wall-E, anunciou nesta semana que não se apresentará na festa da Academia. Com isso (e com a não indicação de The Wrestler, do Bruce Springsteen, por O Lutador), o que já se anunciava meio chocho fica completamente chato. Não haverá nenhum grande nome da música na festa do cinema. Uma pena.

Na verdade, o Oscar nutre a tradição de esnobar as melhores canções, e especialmente as populares. Veja a lista das melhores canções originais que foram indicadas, mas NÃO ganharam o Oscar:



Live and Let Die, de Paul McCartney (1973):












Após o fim dos Beatles, Paul resolveu compor sua primeira trilha para um filme, e fez uma obra-prima de encomenda: Live and Let Die, música-tema de Com 007, Viva e Deixe Morrer. A canção se tornou um clássico do repertória de Macca, que sempre a executa com o devido estrondo e fogos de artifício em seus shows...

... Mas a Academia preferiu premiar a melada The Way We Were, da Barbra Streisand, trilha do romântico Nosso Amor de Ontem, com a própria e com o Robert Redford. Lamentável.


Cheek to Cheek, de Irving Berlin (1935):

Heaven, I'm in heaven... hoje, é inacreditável que essa música, que virou praticamente sinônimo de cinema, não tenha vencido o Oscar de melhor canção. Cantada por Fred Astaire em O Picolino, é uma das melhores músicas do século 20, e foi homenageada dezenas de vezes em outros filmes. A mais famosa está em A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, que começa e termina ao som da voz de Astaire seduzindo Ginger Rogers enquanto canta Cheek to Cheek.


Veja cena de O Picolino, com direito a legenda mostrando a letra de Cheek to Cheek.



Against All Odds (Take a Look at Me Now), de Phill Collins (1984):

OK, você pode odiar Phill Collins. Mas Against All Odds (trilha do filme homônimo) é uma bela música, foi um enorme sucesso e é de arrepiar. Mas a canção foi derrotada por outro enorme sucesso: a insuportável I've Just Called to Say I Love You, do Stevie Wonder.



That Thing You Do, trilha de The Wonders - O Sonho Não Acabou (1996):

O primeiro filme dirigido por Tom Hanks é sensacional: a história de uma bandinha americana que, na cola do sucesso dos Beatles, emplaca seu único sucesso e se dissolve. Teve relativo sucesso, mas mais sucesso fez a música da banda: That Thing You Do (composta pelo profissional A. Schlesinger, com toques na letra dados pelo próprio Tom Hanks) arrebentou de tocar nas rádios e nas baladas da época, e era o espírito do filme. Um erro imperdoável da Academia.


Gonna Fly Now, trilha de Rocky, o Lutador (1976):

Uma das cenas mais conhecidas de todos os tempos trazia Rocky Balboa (Silvester Stallone) correndo pelas ruas da Philadelphia, preparando-se para a grande luta contra Apollo, o Doutrinador. Qual a graça de ver um brutamontes correndo na rua?

A resposta: a música Gonna Fly Now, de Bill Comte e C. Connors. Cheia de metais e arranjada em uma verdadeira muralha sonora, a canção dá o tom épico que era necessário à jornada de Rocky. É uma das melhores trilhas sonoras de todos os tempos, talvez a melhor.
Mas ficou sem o Oscar daquele ano.


A Patacoada: Mrs. Robinson, de Simon & Garfunkel (1967):

Essa foi triste: Paul Simon emprestou os sucessos de sua dupla folk, Simon & Garfunkel, para o diretor Mike Nichols enfeitar sua pequena obra-prima, A Primeira Noite de um Homem. Melhor ainda, ele compôs uma canção especialmente para a ocasião: Mrs. Robinson, que virou um clássico absoluto do cancioneiro americano.


Veja e ouça Mrs. Robinson, em cena de A Primeira Noite de um Homem.


Mas aí, lá vai Paul Simon se esquecer de preencher o formulário da Academia. Com isso, Mrs. Robinson não pôde concorrer a um Oscar certo. A Primeira Noite de um Homem ganhou o Oscar de melhor direção, e a história fez justiça à canção. Mas Paul Simon ficou sem seu Oscar. Sobre o episódio, ele declarou: "eram os anos 60, a gente não estava prestando atenção."

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Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009 - 0 Comentários

Se o leitor é cinéfilo mesmo, daqueles que frequentam mostras de cinema e que gostam de, sei lá, Ingmar Bergman ou aqueles dinamarqueses do Dogma 95, está liberado: O Casamento de Rachel, em cartaz nos cinemas brasileiros, é pra você.

Agora, se você for do tipo que acha que cinema é, antes de tudo, um passatempo que deve ser no mínimo agradável, esqueça: nem a presença de Anne Hathaway, indicada ao Oscar de melhor atriz, vai fazer a coisa valer a pena.

Isso porque o diretor Jonathan Demme (O Silêncio dos Inocentes, Filadelphia) quis fazer um filme incômodo e desagradável sobre a imbecilidade humana e sobre o estorvo que uns causam aos outros. E, com seu enorme talento de direção de atores, teve sucesso em sua missão. O filme, em vários momentos, beira o insuportável.











Anne Hathaway: despida do glamour e daquele sorriso que lhe fizeram a fama. Valeu uma indicação ao Oscar...


A história: em uma família marcada por uma tragédia, Rachel vai casar. Sua irmã, Kim (Hathaway), tem permissão para sair do rehab e comparecer ao casório. Tudo se passa em dois dias, enquanto um bando de gente vai chegando, e preparativos constrangedores vão sendo feitos, e Kim vai acertando as contas, do seu próprio jeito, com o pai, a mãe e a irmã.

O ponto forte do filme está mesmo na atuação de Hathaway, que empresta sofrimento real à sua Kim - uma mulher egoísta, narcisista e, digamos, incompatível com o que chamamos de sociedade. Nas mãos de um ator menos talentoso, teríamos simplesmente raiva da personagem (lembra do Jim Carrey em O Pentelho?). Mas Anne Hathaway nos coloca dentro da bagunça mental de Kim, abrindo pequenas "janelas" por onde entendemos onde ela se fragiliza.


Veja o trailer de O Casamento de Rachel. Acredite, é bem mais agradável do que o filme, em boa parte graças a essa música do Buddy Holly - que não aparece no filme...


O resto do elenco também entrega atuações fortes, com destaque para Debra Winger, como a mãe torturada e distante de Kim e Rachel.

Mas, no fim das contas, não vale fazer como eu, que estraguei minha noite de sábado com um filme pesado e intencionalmente desagradável. É uma boa obra de arte, é intelectualmente honesto, mas não é cinema como cinema deve ser. Cinema é escape.

Vamos logo a Quem quer ser um milionário?, o favorito ao Oscar de melhor filme. Esse, sim, é de lavar a alma. Não perca a crítica, aqui, no BLOGIE.

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Domingo, 15 de Fevereiro de 2009 - 0 Comentários

Na última sexta-feira, dia 13, estreou, entre filmes bacanas indicados ao Oscar, a nova versão de Sexta-Feira 13, uma lenda dos anos 80 que, tal qual seu vilão, Jason, não morre nunca.

Sincera e honestamente: não assistirei à nova versão, assim como já não tinha assistido à última empreitada, aquela coisa que misturava Jason e outro ícone do terror oitentista, Freddie Krugger. Assim como abandonei a coisa toda em Sexta-Feira 13 Parte VII, lançado enquanto eu ainda estava no colégio.

Jason foi um cara bacana, uma atração divertida principalmente durante a pré-adolescência. Em seus filmes, havia pencas de loirinhas transando, antes de serem perseguidas pelo assassino mascarado. Havia um prazer trash em acompanhar a série.

O melhor filme da série é a Parte II, aquela em que a moçada do Camp Crystal Lake resolve jogar Strip Monopoly - uma versão de "Banco Imobiliário" em que os imóveis e aluguéis são pagos com peças de roupas. Além da sacanagem, as mortes são as mais divertidas da série.

O vídeo abaixo traz uma edição especial com todas as mortes do filme, agrupadas em dois minutos e meio. Clique, se tiver estômago:


É tipo o Gols do Fantástico: só traz os "finalmentes". Jason é o Romário do facão.


Mas o melhor final de todos é o de Sexta-Feira 13 Parte IV - o Capítulo Final: o Corey Feldman, o Bocão de Goonies, raspa a cabeça e se faz passar pelo próprio Jason, confundindo a cabecinha limitada e amalucada do assassino. Num vacilo, Jason é assassinado a pauladas pelo menino de uns doze anos. A mocinha da história também é a mais gata da série: Kimberly Beck.











Jason morto, no fim do "Capítulo Final". Yeah, right.


Mas, a partir daí, começou aquela palhaçada do Jason morrer no fim de um filme e ressucitar no início do outro, e a coisa começou a perder a graça pra mim.

Ou simplesmente era o tempo passando.

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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009 - 4 Comentários

Filme de macho que comove: não é mentira, isso existe. É o que o leitor encontrará em O Lutador, que estreia hoje nos cinemas.

Ninguém chora em Soldado Universal, Triplo X ou Stalonne Cobra, é claro, mas qualquer um percebe que há algo a mais em Rocky, o Lutador (o primeiro da série). Ali, você encontra um brutamontes meio chucro que, em meio à sua tosquice e seu excesso de testosterona, não consegue entender seus próprios sentimentos - ele só sabe que ele quer mais. O Lutador entrega isso e mais um pouco: é o melhor filme do ano. Não vai ganhar o Oscar, mas merecia. Porque é arte, mas arte em estado bruto, brutal.
























De repente, Mickey Rourke vira "o cara" - e no papel de um lutador de telecatch!


Muito tem se falado sobre a volta triunfante de Mickey Rourke, um cara que era um símbolo sexual nos anos 80, mas que largou tudo pra ser boxeador, apanhou até ficar totalmente deformado e sumiu do mapa - até O Lutador. E é merecido: Rourke é a alma do filme e entrega a performance do ano. Concorre diretamente com Sean Penn pelo Oscar de melhor ator.

Entrevistamos Mickey Rourke no ano passado. Confira

O lutador do título, vivido com dor por Rourke, é Randy The Ram Robinson, um lutador de telecatch (ou luta livre, sei lá, ô troço mais anos 80!) que viveu seu auge na época em que Van Halen e Guns'n'Roses dominavam as rádios. De lá para cá, se vicia em remédios e anabolizantes, vai perdendo os movimentos, o dinheiro e a clareza de pensamento. Está com problemas cardíacos e sobrevive às custas de um subemprego e de lutas em ginásios vagabundos pelas quebradas dos EUA.

Sua diversão é reviver o auge através do velho video-game baseado em sua luta mais famosa, ocorrida há vinte anos. O futuro, para ele, aparece em duas oportunidades tênues: a) se aproximar da stripper vivida por Marisa Tomei, que gosta dele, mas é tão limitada quanto o pretendente e não consegue vencer a barreira dos chavões do seu ramo (nunca se envolver com clientes etc); e b) tentar a reconciliação com a filha (Evan Rachel Wood, sempre ótima), negligenciada nos tempos de loucura e que, agora, não quer vê-lo nem pintado de ouro.



Veja o clipe acima: cenas do filme, ao som de The Wrestler, canção do Bruce Springsteen que ganhou o Globo de Ouro deste ano.


Marisa Tomei também tira leite de pedra: mesmo passando 80% do tempo em tela dançando pelada (o que é um belo atrativo, diga-se), ela consegue entregar uma performance cheia de nuances e também tocante. Recebeu sua terceira indicação ao Oscar, e vive um belo momento na carreira (ela também foi muito bem em Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, de Sidney Lumet).

Há muitas cenas memoráveis, como aquele em que Randy é obrigado e enfrentar o declínio de frente, como balconista de um supermercado, onde é reconhecido por um fã; ou a que Randy finalmente se aproxima da filha, em um raro momento de equilíbrio e clareza de propósitos.

Mas a que vai ficar pra sempre na memória é mesmo o momento romântico do filme: o lutador de telecatch e a stripper, numa tarde de sábado, se encontram à paisana num boteco derrubadão, tomam uma cerveja, escutam Motley Crüe e revivem uma frestinha de juventude. Exorcisam tudo o que aconteceu depois dos anos 80 e, redimidos, acabam se beijando. Um suspiro de paz no mundo white trash.














O casal do ano: o lutador caidaço e a stripper quarentona.


Isso tudo é O Lutador, mas é mais que isso. Sua namorada não vai gostar, sua mãe vai odiar. Seu amigo descoladinho não vai entender a graça - mas você, amigo leitor da VIP, vai se amarrar. Porque O Lutador é sobre aqueles sonhos meio vergonhosos que temos na juventude, e aquela sensação incômoda de "estraguei tudo" que fica pingando ao longo da idade adulta. Todos temos isso. Até o Mickey Rourke tem, e é sorte nossa que ele tenha dividido seu sofrimento conosco.

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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009 - 3 Comentários

Há pouco mais de um mês, Bruce Springsteen ganhou um Globo de Ouro pela canção The Wrestler, composta especialmente para o filme O Lutador , estrelado pelo Mickey Rourke. Infelizmente, a premiação não vai se repetir no Oscar: Bruce foi esquecido pela Academia e, neste ano, não teremos grandes nomes da música no Kodak Theater.

Mas vale lembrar dos gênios da música pop que já ganharam um Oscar. Veja a lista:


5- Stevie Wonder

Wonder é gênio, mas sua trilha para A Dama de Vermelho é um chiclete insuportável. De qualquer modo, I've Just Called to Say I Love You papou o Oscar de 1984 e se tornou campeã dos bailinhos de vassoura dos anos 80. Apesar disso e de muito sucesso na década de 80 (We are the World, Ebony and Ivory), Wonder ficou na História como um dos grandes mestres da soul music, especialmente nos anos 70.

4- Burt Barcharach

Dois Oscars para o gênio da música de elevador, do easy listening, da melodia perfeita: por Arthur, o Milionário e pela mágica Raindrops Keep Fallin' on my Head, imortalizada na cena em que Paul Newman dá um rolê de bicicleta com Katherine Ross em Butch Cassidy & Sundance Kid. Mas o grande prêmio de Barcharach é a sua foto estrategicamente colocada na capa do primeiro disco do Oasis.




















Burt Barcharach é o cara no quadro encostado no sofá. É também o único sóbrio na capa de Definitely Maybe.


3- Elton John

Suas músicas são cinematográficas e cheias de citações do cinema (Candle in the Wind é sobre Marylin Monroe; Goodbye Yellow Brickroad brinca com o mundo de Oz). E sempre servem como ingrediente para grandes cenas - como em Quase Famosos, quando uma banda em crise faz as pazes cantando Tiny Dancer, clássico de 1971. Mas Sir Elton foi beliscar seu Oscar ao compor a trilha de O Rei Leão, o enorme sucesso de animação da Disney.


2- Bob Dylan

Ele é uma das maiores instituições americanas, ídolo dos ídolos - sua influência só se equipara à dos Beatles (de quem é influência e influenciado). Já foi tema de filmes e teve seus clássicos usados de mil maneiras diferentes - em Forrest Gump, por exemplo, a namorada de infância do protagonista é um misto de cantora folk e stripper que entoa Blowin' in the Wind com sinceridade. Mas Dylan fez poucas canções originais para filmes. Em uma delas, a ótima Times Have Changed, arrebatou o merecido Oscar pelo também ótimo Garotos Incríveis, com Michael Douglas e Tobbie Maguire.


1- Bruce Springsteen

Bruce é o Chefe, ponto. Considerado o maior nome do rock americano depois de Elvis Presley, Springsteen atingiu o sucesso ao imprimir uma qualidade "cinemática" em suas músicas, como mostram seus clássicos absolutos, Born to Run e Thunder Road (esta com título roubado do filme de Robert Mitchum). Começou a pagar sua dívida com o cinema tarde, em 1993: Streets of Philadelphia foi a trilha perfeita para o filme que traz a agonia de um advogado aidético. Na música, o narrador conversa com a própria morte. Ganhou o Oscar de melhor canção e se empolgou com o novo ofício, emendando, nos anos seguintes, trilhas inesquecíveis para Os Últimos Passos de Um Homem (também indicada ao Oscar) e para Jerry Maguire (de Cameron Crowe, que soube valorizar a bela Secret Garden como só ele poderia).


Bruce canta Streets of Philadelphia no Oscar 94 e, em seguida, recebe sua estatueta.


Bruce poderia emprestar seu talento para o cinema com mais frequência, como prova a bela The Wrestler. Quando você for ao cinema no próximo final-de-semana, assista à história de redenção de Mickey Rourke e de seu personagem (que são um só), mas só saia da sala após a música do Bruce, enquanto sobem os créditos.

Na semana que vem: os gênios da música que NÃO ganharam o Oscar...


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Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009 - 2 Comentários

Antes de tudo, uma breve palavra com quem ainda não viu Dúvida, de John Patrick Shanley: baseado em uma peça de teatro do mesmo autor, o filme trata de intrigas em um colégio católico no Bronx, cuja diretora é uma freira linha dura, a Irmã Aloysius (Meryl Streep). Ela não vai com a cara do Padre Flynn (Philip Seymour Hoffman), liberal demais pro gosto dela. E levanta, sem muita base pra isso, a suspeita de que ele anda seduzindo um menino da oitava série. Sendo manipulada pela Irmã Aloysius para sustentar sua tese (e pelo Padre Flynn para rejeitá-la), a jovem Irmã James (Amy Adams) é quem mais sofre a tormenta da dúvida.











Meryl e Amy: freiras no tapete vermelho do Kodak Theater.


O filme é muito bom, as atuações são maravilhosas (praticamente todo o elenco adulto foi indicado ao Oscar) e você já deveria ter visto o filme. Mais, não posso falar. Digamos apenas que ele é o que seu título anuncia: uma dúvida em três atos, um exercício machadiano para deixar o espectador em dúvida. Assista junto com alguém e você terá uma discussão garantida para o jantar depois do cinema.


Dica dada, proponho agora um bate-papo um pouco mais cuidadoso com quem já viu Dúvida.

Primeiro: deveriam mostrá-lo nas faculdades de Direito e de Administração de Empresas, ao invés das enfadonhas aulas de técnicas de negociação e da leitura de Como Chegar ao Sim. O filme é um verdadeiro seminário de negociação, com três estilos bem definidos e personificados pelo trio de talentosos protagonistas. Isso fica claro em uma longa cena que inclui os três protagonistas, na sala da diretora. Veja trechos da cena e perceba a abordagem de cada um:


Aula de negociação aplicada, com Meryl Streep, Seymour Hoffman e Amy Adams.


Temos a professorinha idealista, Irmã James. Ela é toda ética e bondade, se incomoda com desonestidade e tenta abafar qualquer conflito, cuja intensidade ela simplesmente não suporta. Até no momento em que ela confronta sua superiora, a Irmã Aloysius, fica claro o quanto ela acredita que afirmar sua correção de propósitos bastará para garantir uma posição vencedora. Não é surpresa que ela seja engolida pelas outras partes.

O Padre Flynn, por sua vez, sabe seus pontos fortes e confia no seu carisma e na sua lógica. Liga as pontas, constrói linhas de argumentação e bota seu interlocutor em constante inferioridade. Como confrontar um homem tão brilhante?, é a pergunta que ele faz crescer no outro. Para isso, ele se move pelo cenário, ocupa o lugar da diretora, pede chá, pede açúcar, fecha a veneziana. No seu habitat natural - a missa de domingo - , ninguém pode com ele: seu sermão sobre a fofoca é antológico.

Mas na escura sala da Irmã Aloysius, o caldo engrossa. A magistral Meryl Streep empresta toda a dureza da editora de moda de O Diabo Veste Prada para a sua personagem do momento. Mas a Irmã Aloysius é pior: ela é 100% foco e dissimulação. Confia no seu faro e jamais se questiona. Em sua longa negociação, consegue suplantar o talento do Padre Flynn, praticando o velho jogo de truco: jogou o verde, e o cara se entregou...

Ou será que não? Pode ser que, em um rápido balanço de prós e contras, o Padre tenha preferido "assumir" seu caso com o menino em particular para a Irmã Aloysius, antes que ela saísse por aí difamando-o. Ele teria formulado a pergunta básica do negociador: qual a melhor alternativa sem acordo? E tomara sua decisão.

Com todo o respeito ao leitor: não interessa o seu ou o meu julgamento. Não dá pra afirmar, com o que aparece na tela por duas horas, que o padre é culpado. Se você está pensando que sou um idiota e que vejo o mundo em cor-de-rosa, o mérito é todo do autor: ele conseguiu botar você no meio da teia de evidências que, se não dão prova cabal da pedofilia, semeiam a dúvida e, de acordo com a personalidade de cada um, conduz a uma conclusão sempre frágil. É disso que trata o filme, à mesma maneira que Machado de Assis construiu a suposta traição de Capitu em Dom Casmurro.

Aí vem o final do filme, aquela coisa da Irmã Aloysius confessar à Irmã James que está se comendo de dúvida... um final que não está à altura do resto do filme, certamente. Na VEJA, a crítica Isabela Boscov disse que se tratava de muita misericórdia de John Patrick Shanon para com a Irmã Aloysius - um gesto tipicamente católico, na linha "eles não sabem o que fazem". O que eu acho: não foi excesso de bondade cristã de Shannon, mas sim falta de segurança artística. Ele sentiu a necessidade de explicar para todo mundo: "olha, não condene o cara; até a Irmã Aloysius tem dúvida... na verdade, o filme é feito pra te deixar na dúvida..."

É como se, no último capítulo de Dom Casmurro, Bentinho refletisse: "jamais vou ter certeza se Capitu me traiu ou não, mas a vida é assim, bola pra frente..."

Só que, mais corajoso e seguro, Machado preferiu manter firme a crença doentia de Bentinho na traição. É isso que Shannon deveria ter feito com a Irmã Aloysius, deixando a dúvida cair aos pingos na consciência das pessoas.


E bem, e o resto?

Bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, e é o seguinte:

1- É sempre um prazer ver Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman em cena. Foi um duelo de gigantes, coisa fina.

2- Amy Adams é o máximo. Linda, jovem e talentosa, será uma das grandes atrizes americanas do seu tempo. Não erra um papel e bem que poderia ganhar já neste ano seu primeiro Oscar.

3- Assistindo a Dúvida, cheguei à infeliz conclusão de que, no meu ambiente profissional, onde sou pago para ser 60% Irmã Aloysius e 40% Padre Flynn, acabo sendo 70% Irmã James, 30% Padre Flynn e 0% Irmã Aloysius. Quero as coisas resolvidas, para ter minha simplicidade de volta.

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Domingo, 8 de Fevereiro de 2009 - 2 Comentários

O ser humano in natura é despido de qualquer senso de moral ou justiça. É pura matéria, um pedaço de carne atendendo aos seus próprios instintos. Esse é o ponto central do ótimo O Leitor, de Stephen Daldry, indicado a um monte de Oscars, que estreou nesta última sexta-feira no Brasil.

A cobaia escolhida pelo autor para comprovar sua tese é a personagem Hanna Schmitz, uma cobradora de bonde alemã que tem um caso com um rapaz de 15 anos durante a década de 50 -e que, anos antes, trabalhara para a SS como guarda de campo de concentração. Para interpretá-la, nada menos do que Kate Winslet, em um trabalho que a coloca como favorita ao Oscar de melhor atriz.

Winslet faz de Hanna uma pessoa dura, aparentemente estanque a qualquer sentimento, alguém sem planos ou objetivos. Mas, ainda assim, uma mulher - ou melhor, uma fêmea. Seus instintos elegem Michael Berg (o ator alemão David Kross, excelente), um rapaz cheio de hormônios e boas intenções, e os dois se entregam a sessões de sexo sem papo mole ou quebra-gelo.

Nesses encontros, Hanna também se deleita ao ouvir o menino lendo seus livros (clássicos da literatura, de Homero a Mark Twain) em voz alta.
















Kate Winslet nua e crua: exposição física, olhar duro e dúvidas interiores que valem um Oscar.


O tempo passa, o caso acaba, Michael entra para a faculdade de direito e, na qualidade de estudante, tem a oportunidade de acompanhar os Julgamentos de Nuremberg (onde nazistas foram julgados por seus crimes de guerra). Lá, dá de cara com Hanna, esta como ré e a um passo de ir para a cadeia.

A partir daí, passamos a entender os porquês: de tanta angústia no Michael Berg adulto (Ralph Fiennes), do prazer de Hanna em ouvir livros (ao invés de lê-los) e, até mesmo, de tanta nudez ao longo do filme. E o final ainda guarda um nó na garganta do espectador.


Veja o trailer de O Leitor, a melhor opção nos cinemas...


O Leitor é um dos melhores filmes do ano, e é um dos mais corajosos, ao brincar com o senso de moral e justiça de quem o assiste, fazendo-nos adotar o ponto de vista de uma criminosa de guerra. Mostra como ficamos confusos com as mudanças de maré das leis e da História, e nos faz pensar no quão dependentes somos da cultura e dos livros para nos diferenciarmos de outros primatas.

Poderia se consagrar como o melhor roteiro adaptado (o favorito, no entanto, é O Curioso Caso de Benjamin Button), mas é mais provável que dê a Kate Winslet seu primeiro Oscar, após seis indicações. Um filme obrigatório.

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Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009 - 1 Comentários

Para quem aprecia o trabalho de atrizes talentosas, o final-de-semana promete. Estreiam dois filmes que trazem quatro atrizes indicadas ao Oscar: O Leitor, com Kate Winslet, e Dúvida, com todo o elenco indicado ao prêmio.

O Leitor, pra começo de conversa, tem sido um pouco subestimado: é um "filme de Holocausto", e o excesso de filmes recentes com temas relativos ao nazismo (O Homem Bom, O Menino do Pijama Listrado, Operação Valquíria) pode prejudicar sua campanha ao prêmio de melhor filme - afinal, seus concorrentes tratam de caras que nascem velhos e rejuvenescem, de favelados indianos que se tornam celebridades da TV e de temas políticos que servem aos dias de hoje (Frost Nixon e Milk).

Nada disso, no entanto, impediu que sua protagonista, Kate Winslet, tenha sido indicada ao Oscar. No papel de uma mulher comum que trabalhou em serviços menores para o nazismo durante a guerra, ela é encontrada tempos depois, lidando com o passado e com a vida como qualquer um de nós faz ou fará um dia. Ralph Fiennes aparece no filme, como o homem que, anos antes, ainda garoto, tivera um caso com a personagem de Kate.














Kate Winslet: talento à prova d'água.


O ponto de vista escolhido pelo diretor Stephen Daldry é assumidamente feminino, como é tradição em seus filmes (As Horas, Billy Eliot). E isso é reforçado pela atuação de Kate Winslet, tão forte e sensual e humana que acabou barrando outra grande atuação dela mesma - a de Foi Apenas Um Sonho - para a disputa do Oscar de melhor atriz. É a sexta indicação de Kate ao Oscar e, provavelmente, a mais próxima de se transformar em vitória...


... Isso se Meryl Streep não interromper o jejum de Oscars que vem "sofrendo" há 26 anos (ela ganhou seu segundo e último por A Escolha de Sofia; de lá para cá, foi indicada mais uma dúzia de vezes, mas nada de prêmio). Meryl está em Dúvida, uma peça de teatro adaptada para o cinema pelo seu próprio autor, John Patrick Shanley.

Algum dos grandes atores brasileiros (Paulo Autran? Raul Cortez?), certa vez, apontou as diferenças entre TV, cinema e teatro: a TV seria o veículo do escritor (a velocidade das filmagens e a falta de tempo para gestar o "produto" fariam com que o sucesso da coisa dependa essencialmente da trama - por isso, a novela é da Janete Clair, da Gloria Perez, etc); o cinema seria o veículo do diretor (com efeito, o caráter artesanal da confecção de um filme é coisa para obsessivos, como Fernando Meirelles e Walter Salles); e o teatro seria o ambiente dos atores: ali eles repetem, a cada dia, o mesmo texto... o diretor já encerrou seu trabalho... e os atores vão burilando seus papéis à perfeição - por isso, tal peça era "a última do Paulo Autran".

Fecha parêntesis.

Dúvida comprova a teoria acima: é um campo aberto para o grande trabalho do seu elenco: Meryl Streep, como a freira manda-chuva de um colégio linha-dura, domina o ambiente e as atenções para o Oscar, mas Philip Seymour Hoffman também arrebata como o padre progressista que é acusado pela "chefe" de pedofilia.


Veja o trailer de Dúvida, e confira o show do elenco!


E ainda tem Amy Adams, a melhor atriz da nova geração (e linda), como a freirinha bem intencionada que é manipulada pela personagem de Streep. Amy, que nunca escolheu um papel ou filme ruim na vida, vai construindo sua carreira com cuidado e sem alarde. Não se assuste se ela "de repente" aparecer como "a grande atriz do momento" nos próximos dois ou três anos. Por ora, indicação de melhor atriz coadjuvante para ela.

Por fim, Viola Davis, no papel da mãe do menino negro que teria sido objeto de assédio por parte do padre. Sua atuação é a clássica indicação ao troféu de melhor atriz coadjuvante: ela aparece por pouco tempo, rouba a cena e perpetra um personagem marcante. É a favorita ao prêmio.













O elenco de Dúvida ri sozinho no lançamento. No detalhe, Amy Adams: você procura, procura, e não acha defeito na moça...


Enfim, bons filmes pro sabadão, aproveite!


(Agora, se nada disso lhe interessou, guarde energia para o próximo final-de-semana, quando estreia O Lutador, com o Mickey Rourke: filme de macho com sensibilidade de Oscar, coisa fina!)

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Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009 - 4 Comentários

No próximo dia 20, estreia Milk, de Gus Van Sant, indicado ao Oscar de melhor filme e favorito ao prêmio de melhor ator, com Sean Penn. O filme, que foi inicialmente encarado com um pouco de má vontade por este blogueiro, acabou virando o jogo e provou-se muito, mas muito bom.

E a principal razão está na sua relevância nos tempos atuais. O que faz pensar em outro filme em cartaz, que também recebeu indicações ao Oscar. O filme é A Troca, de Clint Eastwood, com Angelina Jolie despontando como favorita ao prêmio de melhor atriz.

São dois filmes diferentes em tudo e iguais em propósito. Veja só:













Penn e Jolie: favoritos ao Oscr, e com mais algo em comum.


A Troca é obra madura de um diretor regular, que nunca erra: Clint Eastwood, conhecido pelo sobriedade e pelo estilo econômico. À primeira vista, é um dramalhão sobre uma mãe que, após meses de desaparecimento do filho, "ganha" da polícia um menino postiço, que tem que aceitar como verdadeiro. Muito choro e sofrimento depois - e bem no momento em que você pensa "não aguento mais tanta angústia" -, a verdade aparece.

Milk é fruto da obsessão do irregular Gus Van Sant, capaz de gerar ótimos filmes (Elefante, Gênio Indomável, Garotos de Programa, Um Sonho sem Limites) e coisas mais fraquinhas (a refilmagem de Psicose, Encontrando Forrester). Van Sant é um cara obcecado por recriações quase documentais. E por tensão sexual (consumada ou não) entre seus personagens masculinos. As duas coisas se encontram em Milk, a história real do político americano Harvey Milk, notório por ter liderado a causa gay em San Francisco, nos anos 70. O filme é colorido, cheio de vida e abertamente gay.

Portanto, coisas completamente diferentes, não?

No entanto, eles têm algo em comum: ambos são filmes de época (o primeiro, nos anos 30; o segundo, nos anos 70) que mostram a luta incansável de seus protagonistas para combater o modus operandi do Governo vigente e estabelecer um mínimo de justiça. São dois filmes honestos e libertários. E ambos se prestam a botar um botar um bem-vindo ponto final na era Bush, ao mesmo tempo em que celebram os novos ares soprados por Barack Obama.


Harvey Milk sai do armário e muda o jeito de se fazer política

Nesta luta, Milk se sai bem melhor: está apoiado em um elenco sensacional, começando por Sean Penn, que, no papel-título, mostra-se imbatível como ator. Hoje, não tem pra ninguém: o melhor cara do ramo é mesmo Penn. Em Milk, ele mostra que está no topo e dificilmente alguém tira dele o terceiro Oscar.

Além dele, James Franco (o amigo do Peter Parker nos atuais filmes do Homem-Aranha), Josh Brolin (o irmão mais velho dos Goonies, que tem se provado grande ator a partir de Onde os Fracos Não Tem Vez) e Emile Hirsh (Show de Vizinha, Na Natureza Selvagem), todos estão ótimos e dão show.


Se houvesse Oscar para trailer, o de Milk já tinha o seu garantido!


Milk é, claramente, um labour of love de Gus Van Sant, coisa que pode ser verificada até em seu trailer, cuidadosamente tratado como uma obra de arte, ao invés de um anúncio publicitário. De tão convencional, pode ser considerado zebra no Oscar. Mas o que importa é que é um ótimo filme. Não perca.


Angelina Jolie sofre e faz sofrer - mas John Malkovitch redime a todos

A Troca, se não chega a decepcionar, fica bem abaixo da recente safra do grande Clint Eastwood. A "culpa" cai nos ombros cada vez mais estreitos de Angelina Jolie, que agarrou essa oportunidade como o "papel definidor de carreira". Infelizmente, Jolie não arrebata. Ela se esforça bastante, mas seu sofrimento remete mais a Camila Morgado em Olga do que a uma Meryl Streep. Assim, a primeira metade do filme (que deveria ganhar o título de "It's not my son!", coisa que ela berra várias vezes) chega a irritar um pouco.

Mas a coisa melhora na segunda metade, quando John Malkovitch passa a dar as cartas e a coisa se transforma em um filme de tribunal. Aí, temos Clint Eastwood em seu melhor, e a discreta catarse do final serve para evitar que saiamos por aí destruindo a coisa pública ou virando o próprio Dirty Harry. Uma medida piedosa do velho Clint.



Veja o trailer de A Troca. Infelizmente, ele dá mais foco na estrela e menos na parte mais bacana do filme...


Resumo da ópera: ó filme imperdível é Milk. Mas, se você já tiver visto tudo que está em cartaz, vale dar uma olhada em A Troca também. (E são os dois favoritos aos Oscars de melhor ator e atriz - você não vai querer ficar sem opinião na segundona depois da cerimônia...)

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Domingo, 1 de Fevereiro de 2009 - 0 Comentários

Sei que este blog é sobre cinema, mas hoje vou falar sobre o Super Bowl - a final do campeonato de futebol americano profissional, que acaba de acontecer nesta madrugada de domingo para segunda, enquanto escrevo estas linhas.

Até que faz sentido: o cinema é a grande força da indústria de entretenimento americana, e se orgulha por ser uma "fábrica de sonhos". Pois bem, o Super Bowl é o único fenômeno cultural que rivaliza com Hollywood em termos de grana e popularidade: transmitido ao vivo, é o programa de TV com a maior audiência do mundo (as seis maiores audiências da história da TV americana são edições do Super Bowl). Além disso, é um jogo único que decide toda a temporada do futebol americano, e se orgulha por ser uma "fábrica de super-heróis": historicamente, os jogos são decididos em lances espetaculares, grandes corridas, um chute, uma tomada de bola, sempre com toques dramáticos. No Super Bowl, tudo é grandioso e épico, como nos grandes filmes americanos.

O Super Bowl número 43, disputado entre Pittsburgh Steelers e Arizona Cardinals, já garantiu seu lugar na história: o show do intervalo, uma atração quase tão grande e importante quanto o jogo em si, foi comandado por Bruce Springsteen, o Boss, provavelmente o maior nome da música americana dos últimos 30 anos.

A expectativa era enorme: Bruce nunca aceitou fazer o show do intervalo, apesar dos convites que chegavam todo ano. Enquanto ele declinava, praticamente todo o primeiro escalão da música pop ocupou o espaço nos últimos anos: Paul McCartney, Rolling Stones, Michael Jackson, Prince, Aerosmith... dos grandes, só faltava mesmo Bruce. Até hoje à noite. Veja o que rolou há pouco, enquanto os jogadores tomam uma água no vestiário:


Bruce manda o pessoal de casa largar a asinha de frango e aumentar o som da TV. É serio.

Bruce Springsteen e sua banda, a E-Street Band, tomaram o centro do campo em Tampa, Flórida, e emendaram quatro músicas - dois clássicos de 1975, Tenth-Avenue Freeze Out e a épica Born to Run, uma nova (Working on a Dream, que vai se tornar a trilha sonora do início da era Obama) e Glory Days, que transformou o enorme estádio em um barzinho de New Jersey onde Bruce se sente em casa. Foram treze minutos de êxtase, fogos de artifício e todas as bossas que fizeram a fama do Boss como grande performer - mergulhos de joelhos, guitarras atiradas ao ar, corpo-a-corpo com a platéia, finais falsos e muito gritos com sua voz ainda mais rouca do que o normal. Enfim, como o próprio Bruce prometera na entrevista coletiva há três dias, foi como se seu longo show de três horas tivesse sido comprimido em um quarto de hora. Inesquecível.

Mas, em matéria de espetáculo, só mesmo uma coisa conseguiu suplantar o show de Springsteen: a roubada de bola do line backer James Harrison, do Pittsburgh, nos segundos finais do primeiro tempo. O adversário tinha um touchdown nas mãos, a poucos metros do end zone (traduzindo: os caras estavam na marca do pênalti, meio gol conquistado). O tal do Harrison tomou a bola das mãos do atacante adversário, saiu correndo feito um louco, driblou uma meia dúzia de gigantes desesperados, atravessou o campo todo (100 jardas) e marcou o touchdown que botou seu time com as mãos na taça do Super Bowl. Uma loucura, coisa de cinema.

Foi agora há pouco. Mas já está na web, e você vai cansar de ver. Olha só:


James Harrison: um lance sobre-humano.


Isso é que deveria valer um Oscar.


Achou que a coisa pararia por aí? Como diriam nossos comentaristas de futebol, o jogo só acaba quando termina. No último quarto, o Pittsburgh deu bobeira e o Arizona Cardinals encostou no placar, através do incrível receiver cabeludo Larry Fitzgerald. Com uma verdadeira operação "abafa", os Cardinals acuaram o adversário dentro de sua end zone a poucos minutos do final do jogo. Faltando pouco mais de dois minutos, ninguém conseguiria palpitar sobre quem ganharia.

E então aconteceu: o genial quarter back Kurt Warner, do Arizona Cardinals, achou Fitzgerald correndo pelo meio e acertou um passe histórico. O negão cabeludo correu como jamais se viu, e o replay mostrou ele assistindo a sim mesmo no telão, enquanto marcava o touchdown que virou o jogo. Olha a velocidade do cara:

Fitzgerald corre para a glória... mas isso não é tudo!


Parece mentira, mas não era o fim: a quarenta segundos do final - quarenta segundos! -, o Pittsburgh virou o jogo novamente, com um touchdown pra lá de improvável, com o baixinho Santonio Holmes recebendo a bola dentro da end zone, no meio de três defensores adversários. Incrível!


Santonio Holmes faz História. Repare no esforço para manter os dois pés dentro do campo...

Mas o título do Pittsburgh Steelers só foi assegurado a pouco mais de cinco segundos do final, com a famosa ação violenta de sua defesa: os caras pararam o ataque desesperado dos Cardinals, e estava terminado mais um Super Bowl.


É por isso que o Super Bowl é o que é. Dizem que os índices de violência doméstica aumentam durante o evento. Bobagem dos nossos amigos bebedores de Budweiser. Eles têm o maior espetáculo do Planeta Terra.



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