terça-feira, 9 de fevereiro de 2010 - 2 Comentários

Clint Eastwood chega aos 80 anos vivendo o auge da sua carreira. Hoje, é considerado um dos grandes cineastas em atividade, alguém no nível de Scorsese, Allen, Spielberg. Durante os últimos dez anos, Eastwood enfileirou Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, Cartas de Iwo Jima, A Troca, Gran Torino. Dramas que buscam o que há lá no fundo de pessoas que passam por situações muito além do insuportável.

Comparado a essa série, seu filme atual, Invictus (em cartaz nos cinemas brasileiros), pode ser considerado leve e revigorante: seus personagens não enfrentam questões de vida ou morte; são pessoas em pleno domínio de suas competências e cujo maior desafio é como fazer o melhor uso delas. É um filme sobre esporte, sobre política, sobre amizade e liderança. Mas, no fundo, inspiração é o assunto central da história de como Nelson Mandela, o primeiro presidente sul-africano depois do fim do apartheid, enxergou na seleção sul-africana de rugby - os Springbocks, uma instituição nacional, pelo menos da parte branca que endossava o racismo oficial - uma promissora bandeira de integração nacional.



















Clint Eastwood dirige Morgan Freeman e Matt Damon em Invictus



Morgan Freeeman empresta seu carisma e sua simpatia natural a um personagem contemporâneo e ainda mais carismático e simpático. O resultado, apesar da indicação ao Oscar, não arrebata: é solene, contido, respeitoso demais. Mais interessante é notar o olhar humano e astuto de Mandela/Freeman/Eastwood, enxergando em cada atitude do presidente a possibilidade de mandar o recado certo, exato. Nada do que o personagem faz (certamente, há uma boa correspondência ao Mandela real) é espontâneo ou egoísta - tudo serve a um propósito maior.

O grande "projeto" de Mandela no filme - provavelmente, em meio a dezenas de outras grandes sacadas concomitantes - é arregimentar o capitão dos Springbocks para sua causa. Inspira o rapaz, bota responsabilidade sobre seus ombros fortes e insufla nele a ânsia de liderar e inspirar outras pessoas. O capitão, vivido com grande competência por Matt Damon (indicado ao Oscar de ator coadjuvante), se enche de motivação a partir do magnetismo pessoal do presidente e, aos poucos, vai transformando o bando de brutamontes (talvez ingenuamente) racistas em pessoas tolerantes e integradoras.

Um ano separa a sacada de Mandela da Copa do Mundo de rugby, que seria sediada na própria África do Sul. Ao saber, por um assessor, que a final da Copa seria assistida na TV por mais de 1 bilhão de pessoas, Mandela tem uma visão e se põe a tocar o projeto de transformar o medíocre time nacional em um futuro campeão. Isso dá trabalho, muito trabalho, mas mais difícil é fazer a enorme e paupérrima massa de negros adotar o esporte e sua seleção - um exercício de perdão, de inclusão, de unificação. Trabalho para um grande líder.


Veja o trailer de Invictus!

O clímax do filme, claro, vem na final da Copa do Mundo, jogo a que os Springbocks se qualificam após uma campanha irretocável e suada. Os oponentes são os All-Blacks - a seleção da Nova Zelândia, um ícone do esporte mundial, o equivalente ao que é a seleção brasileira no mundo do futebol -, uma máquina de furar muralhas de marmanjos e de botar a bola oval no chão adversário. A câmera de Eastwood faz um trabalho fantástico, no nível do que Oliver Stone fez com o futebol americano em Um Domingo Qualquer - e muito melhor do que tudo que já foi feito com o nosso futebol. Os jogos são vistos de dentro, acompanhamos cada músculo se retesando, cada arranhão acontecendo, cada ombrada explode no nosso peito. Que Avatar, que nada: isso é que é ação.

De resto, fica a forte impressão que causa a direção calma, equilibrada, elegante de Clint Eastwood. Fica a qualidade que ele arranca de todo o seu elenco. A música delicada que recheia os silêncios de um roteiro competente e de fluência contínua. Uma aula de como se faz um filme convencional, mas que, nas mãos de alguém genial, resulta sempre em algo único.

E fica a inspiração, pois bons filmes esportivos - Carruagens de Fogo, Um Homem Fora de Série, Um Domingo Qualquer, Lendas da Vida... - são sempre inspiradores. Esse é o golpe final de Eastwood, pois seu filme procura justamente o que inspira as pessoas. Nelson Mandela, durante os muitos anos em que ficou preso, buscou inspiração na poesia Invictus, do poeta inglês William Ernest Henley ("sou dono e senhor do meu destino / sou comandante da minha alma"); sua trajetória inspirou o capitão dos Springbocks; e estes, misturando suas velhas cores a um novo hino, acabaram inspirando um país a começar a vencer - sabemos que o processo será lento e dolorido - seus tabus e seus ressentimentos.

A nossa crença na capacidade humana de se reinventar se renova pelas mãos octagenárias de Clint. Mãos que já mataram índios e caubóis, que já deram cabo de delinquentes de toda espécie, mas que foram se amaciando com os anos e que, hoje, só moldam singelas obras-de-arte.

P.S.: pra quem já viu o filme, vale dar uma olhada nas imagens reais da final da Copa do Mundo de rugby de 1995. Demais!


(Como era possível viver antes do You Tube?)

Marcadores: , , , , ,

Assinar
Postagens [Atom]

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010 - 0 Comentários

Bom, da lista do Oscar extraímos duas certezas: 1) Avatar é acolhido pela indústria cinematográfica, por seu caráter de salvador da pátria (quero ver alguém piratear um filme desses - é coisa pra comprar ingresso e ver no cinema, e ponto final); 2) Guerra ao Terror, filme que saiu direto em DVD no Brasil, vai acabar com a sina de filmes de guerra dos anos Bush, que sempre foram furo n'água.

Quem vai levar a melhor entre os dois... difícil de dizer. Avatar parecia imbatível, mas aí o filme da ex-mulher de James Cameron, Kathryn Bigelow (aliás, que outra mulher já fez um filme de guerra?), começou a ganhar todos os prêmios - e o jogo ficou embolado.

Por fora, ainda correm Bastardos Inglórios e Amor Sem Escalas, os dois favoritos deste blogueiro. Sinceramente, meio por espírito de porco e meio por amor ao cinema, torço pela vitória do filme de Tarantino.

Bastardos, aliás, muito provavelmente levará dois prêmios: o de melhor ator coadjuvante para o genial Christoff Waltz, e o de roteiro original.

Já o prêmio de roteiro adaptado deve ir para Amor Sem Escalas (dando sequência à tradição de premiar o filme independente e inusitado do ano com um Oscar de roteiro - prêmio de consolação que já foi dado a Cameron Crowe, Sofia Coppola, Diablo Cody e tantos outros).

O mais interessante, no entanto, será o embate nas categorias dos astros: aparentemente, temos um grande trabalho de Sandra Bulock (BLOGIE quebrará um dos seus tabus de estimação e verá um filme de Sandra Bulock), uma revelação com Carey Mulingan (Educação) e um papel coroador de carreira para Jeff Bridges, como um cantor de country decadente em Coração Louco. George Clooney, Morgan Freeman, Meryl Streep e Helen Mirren estão lá, fazendo figuração de luxo que só dará mais valor às conquistas dos outros. (Ou acontecerão surpresas?)

No mais, bacana esse negócio de dez indicados para melhor filme. Acaba promovendo a justiça, ao dar o devido lugar de destaque a obras-primas como UP - Altas Aventuras, e Distrito 9, numa categoria que raramente dá espaço para animações e ficções científicas.

Agora, é correr atrás dos filmes (as estreias acontecem às pencas), e aguardar ansiosamente pelo dia 7 de março. Até lá, darei minhas preferências e meus palpites.

P.S.: mas bacana, bacana mesmo, seria a vitória do escritor inglês Nick Hornby pelo seu roteiro adaptado de Educação. Hornby é um dos heróis de BLOGIE, e de sua pena só sai coisa boa.

Marcadores: ,

Assinar
Postagens [Atom]

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010 - 9 Comentários

Algumas obras são grandiosas, inovadoras, fazem barulho e empurram o cinema pra frente. O Mágico de Oz, E o Vento Levou, Star Wars, Titanic e o recente Avatar são exemplos claros. São filmes que entram para a história e que arrebatam pela novidade. Não é por acaso que eles aparecem nas listas de maiores bilheterias de todos os tempos.

Mas há outro tipo de filme bem menor, mais convencional, apoiado acima de tudo em um bom roteiro, cuja maior preocupação técnica é mater a câmera próxima, íntima dos personagens. São filmes que não querem mudar o curso da história, nem ficar na história - querem apenas dissecar seus personagens e contar suas histórias.

Alguns desses filmes - poucos, na verdade - conseguem retratar melhor do que ninguém o espírito de uma época: tensões sociais, desdobramentos causados por um contexto maior na vida privada, relacionamentos... diga se há maior exemplo do que era o final da década de 60 do que A Primeira Noite de um Homem. Ou se há algo que retrate melhor o yuppismo da década de 80 do que Uma Secretária de Futuro. Ou se alguém conseguiu escancarar com igual sucesso a fragilidade dos relacionamentos adultos numa época em que naõ bastam instituições como casamento do que Closer - Perto Demais, de 2004.

Os três filmes acima citados são cria, veja só, de um único diretor, o genial Mike Nichols, um cara especialista em retratar o que há de mais relevante no seu tempo. Ele pode não ser o "rei do mundo" nem fazer discursos de agradecimento na língua dos Na'Vi, mas imagino que ele não tenha inveja do James Cameron. Ele opera em outra frequência, joga em outra liga.

O mesmo pode ser dito de Cameron Crowe, diretor de Vida de Solteiro, obra-prima da solteirice engajada dos anos 90 na Seattle sob o contexto do grunge, de Jerry Maguire e de Quase Famosos. Um diretor que valoriza seus diálogos, que cria personagens marcantes e que ajuda o espectador mais sensível a se entender melhor.

Robert Altman (Short Cuts), Billy Wilder (Se Meu Apartamento Falasse), Robert Redford (Gente como a Gente) e Fraçois Truffaut (Beijos Roubados) são outros representantes ilustres dessa estirpe de cineastas.

O mais novo integrante do clube é Jason Reitman, diretor de 32 anos com apenas três filmes lançados. Sua estreia, Obrigado Por Fumar, botou ponto final na era do politicamente correto, mostrando que imbecilidade não tem partido. No segundo filme, Juno, ganhador do Oscar de melhor roteiro, mostrou a adolescência sob ótica nova, distante dos rebeldes sem causa dos anos 50, dos sonhadores de 68, da turma "popular x excluídos" da high school dos anos 80. Uma adolescência enfadada, consciente da sua imaturidade, um tanto cínica (característica até então exclusiva dos adultos). Com seu terceiro filme, Amor Sem Escalas, Reitman atinge um novo grau de representatividade.

Amor Sem Escalas é muito mais do que o filme sobre a crise econômica nos EUA, como se fala por aí. É um filme que usa o contexto da crise para falar sobre a auto-suficiência das pessoas numa era em que nada lhes falta: smart-phones, salas VIP, malas com rodinhas, festas em qualquer lugar. Acesso irrestrito ao mundo, é só chegar e aproveitar, esta é a promessa dos nossos tempos. Nada pode nos segurar: há termos como "sabático" que nos ajudam a justificar um ano de vadiagem nas praias da Austrália; há carreiras que devem progredir, dando pretexto para adiar a formação de uma família (casamento ou filhos ou cachorro ou empregada)...
























George Clooney é um herói desta era: vive de avião em avião, conta com - literalmente - milhões de milhas acumuladas, participa de todos os programas de milhagem existentes e desfila pelos EUA com muito charme, ternos de caimento perfeito, malas irretocáveis - e nenhuma raiz. Perdeu contato com suas irmãs, não tem nenhum relacionamento fixo e tem como endereço um porcaria de apartamento vazio e triste.

O peso dessa opção de vida vai caindo aos poucos - à proporção inversa da maneira que ele, como palestrante motivacional, propõe à sua audiência que imagine o alívio que seria remover das costas o peso de mulher, filhos, prestações da casa própria, carro e tudo mais. E duas mulheres fazem a ficha cair: primeiro, a novata caxias (Anna Kendrick, de Juno) que entra na empresa e propõe uma mexida radical no modus operandi do cara: ao invés de viagens pelos EUA para demitir pessoas às pencas (é aí que está o contexto da crise), os cortes poderiam ser promovidos pela Internet. Confronto e aproximação se seguirão, abrindo a guarda de Clooney. Então entra a segunda mulher (Vera Farmiga, de Os Infiltrados), outro tubarão corporativo que se define como uma versão de Clooney portadora de vagina. Por trás do descompromisso e das agendas atribuladas, um laço vai se formando, e mudanças acontecerão. (Acontecerão?)

Entre as várias cenas geniais do filme, a melhor é uma conversa entre os três personagens principais, a novata de um lado, Clooney e sua fuck buddy do outro. Um choque de gerações explícito como há muito, muito tempo não se vê no cinema (pensei novamente em Mike Nichols e A Primeira Noite de um Homem).

Há um parentensco claro entre Amor Sem Escalas e outro filme sobre o vazio da existência moderna em um mundo de viagens, hotéis e tecnologia que disfarçam muito mal a solidão: Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, filme que revelou Scarlett Johansson. Bill Murray, o ator decadente daquele filme, poderia se sentar e conversar longamente com o George Clooney do filme de Reitman. O único problema é que a Scarlett Johansson largaria o velho comediante na hora.

Brincadeiras à parte, a verdade é que Amor Sem Escalas é um filme raro, capaz de dizer tudo e mais um pouco sobre nós - não sobre o que somos ou de onde viemos (discutir a natureza humana de maneira atemporal é coisa para Woody Allen, Stanley Kubrick e Clint Eastwood), mas sobre aquilo em que estamos nos tornando. Ser o termômetro de seu tempo é o talento de Jason Reitman, e ele tem aproveitado bem o dom, em uma carreira até aqui irrepreensível e cada vez mais promissora.


Veja o trailer de Amor Sem Escalas!

Não que ele vá sair carregado de Oscars do Kodak Theater no próximo dia 07 de março; mas pelo menos receberá uma meia dúzia de indicações, e isso será o suficiente para dar uma alavancada na audiência - e para transformá-lo no pequeno filme de estimação dos não deslumbrados com novas tecnologias.

BLOGIE, se tivesse direito a voto em alguma premiação, daria a Amor Sem Escalas a sua preferência.

P.S.: aliás, que tradução bizarra. O título original, Up in the Air, é muito feliz ao classificar a vida do personagem de Clooney como algo "em suspenso", etérea, sem base sólida. Caso parecido com o primo Encontros e Desencontros, nome preguiçoso que deram para Lost in Translation, "perdido na tradução", um filme sobre tudo aquilo que não é falado, que está entalado, uma angústia à qual não se dá vazão. Pelo menos, estão bem acompanhados.

P.S. 2: OK, talvez eu ficasse em dúvida entre Amor Sem Escalas e a obra-prima de Quentin Tarantino, o inacreditável Bastardos Inglórios... são filmes bem diferentes, mas ambos levam nota 10.

Marcadores: , ,

Assinar
Postagens [Atom]

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010 - 7 Comentários

Meryll  Streep ganhou mais um Globo de Ouro por sua participação em Julie & Julia. Isso me motivou a dar uma checada no filme, que já entrou e saiu do cinema. Eu vinha evitando a empreitada, com medo do que encontraria - a diretora, Nora Ephron, vem descendo a ladeira na carreira... vejamos: ela escreveu Harry & Sally, a melhor comédia romântica desde o surgimento do Woody Allen; depois dirigiu o ótimo Sintonia de Amor; daí veio o mediano Mensagem Para Você; e chegamos a esta década, com o tenebroso A Feiticeira.

Julie & Julia, no entanto, foi bem recebido. Com Meryl Streep à frente do elenco, como Julia Child, uma grande estrela da culinária na TV, não dava mesmo pra passar despercebido. As críticas foram unânimes, dizendo que o filme é bom, dá vontade de comer, Meryll é o máximo, etc, etc etc - aquela história toda. Ressaltaram que o problema do filme é que a metade da Julia - com Meryll - é muito mais interessante do que a metade da Julie - a moça que, já nesta década, mantém um blog onde relata suas experiências pilotando o fogão sob as ordens das receitas de Julia Child. Aí é que eu entro na conversa.

Eu achei a personagem Julie, contemporânea, com algum talento, inquieta, atormentada pelo medo de ser um fracasso, muito mais interessante do que a Julia de Meryll Streep (que é uma caricatura da original; uma caricatura muito bem feita, mas uma caricatura). Julie é interpretada por Amy Adams, uma das preferências declaradas de BLOGIE. Uma atriz talentosa, carismática, contida (não apela para histrionismos ou caras e bocas) e bonita.



A Julie de Amy Adams é uma angústia só, uma mulher desesperada buscando algum reconhecimento de que tem talento, de que tem futuro, de que serve para algo. Tudo em sua vida indica o contrário: o apartamento suburbano trash, o marido conformista, o emprego deprimente. Quando encontra uma via para expressar alguma individualidade - a sacada de escrever o tal blog -, se agarra nisso com obsessão: nenhum senso de medida e entrega absoluta. Um personagem muito interessante, com boa profundidade e com quem qualquer um - repito, qualquer um, mesmo os homens - pode se identificar. Trata-se de alguém que tem parentesco com a Scarlett Johansson em Encontros e Desencontros, com o Tom de 500 Dias com Ela, com a Anne Hathaway de O Diabo Veste Prada (outra que serviu de escada para Meryll...).

























Amy Adams como Julie: um personagem que capta o espírito dos nossos tempos.

Este blogueiro, por exemplo, identificou em si mesmo atitudes constrangedoramente similares às de Julie, em parte pela típica inquietação dos tempos atuais - muitos wannabes, dificuldade em separar o joio do trigo -, em parte pelo contexto de vida - jovem de classe média remediada chegando à meia-idade e precisando encontrar logo o que vai fazer "pro resto da vida" (e que seja algo que o transforme em "alguém"!) -, e em parte porque gente é gente mesmo.

Resumindo, achei muito mais interessante a parte do filme que todo mundo julgou boba. Vai entender.

(Desconte o efeito Amy Adams sobre o blogueiro e talvez cheguemos a uma opinião mais equilibrada. Talvez.)

Marcadores: , ,

Assinar
Postagens [Atom]

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 - 2 Comentários

No final desta semana, estreia um dos grandes favoritos ao Oscar deste ano: Amor Sem Escalas.

O filme já levou o Globo de Ouro de melhor roteiro, desbancando, veja só, Bastardos Inglórios. O autor do roteiro e diretor do filme é o cineasta mais promissor de Hollywood: Jason Reitman, 32 anos e apenas três filmes lançados. Sua grande habilidade é retratar homens que enfrentam dilemas morais. Amor Sem Escalas traz George Clooney como o consultor especializado em demitir gente às pencas. Seu filme anterior, Juno, tratava da adolescente grávida do título, mas também do músico trintão que trocou o rock por jingles publicitários - mas que tem suas recaídas pelo passado juvenil. Nada, no entanto, bate Obrigado por Fumar (2005), a radical estreia de Reitman na direção.

























Obrigado por Fumar é um filme que não está aqui para fazer amigos. Adota como herói um lobista da indústria do tabaco, cuja principal característica, segundo suas próprias palavras, é ter uma "certa flexibilidade moral". Mostra o cara explicando para crianças que cigarros, assim como chocolates, não fazem necessariamente mal - a escolha é delas. Há um humor negro incômodo no ar. E, ainda assim, é um filme inteligente e divertidíssimo.


A graça toda está nas falas do protagonista, o porta-voz dos fabricantes de cigarro, Nick Naylor (numa atuação genial de Aaron Eckhart). Naylor é, por assim dizer, uma força da natureza. Seu negócio é argumentar até convencer as pessoas. É um cínico, mas um cínico assumido. Não vê diferença entre o seu trabalho e o de seus oponentes - ONGs, jornalistas, políticos... Ele vive uma gincana constante, cujo objetivo é levar vantagem a qualquer custo.


















 O diabo é que Nick Naylor é um cara bacana. É competente no que faz, ama o filho, não resiste a uma jornalista bonitinha que lhe dá mole enquanto prepara uma matéria nada honrosa a seu respeito... E é implacável com os otários. Professores primários que empurram verdades absolutas para seus pupilos, políticos oportunistas que querem tirar onda de defensores da saúde, até bem intencionados que irritam pela ingenuidade, todos são alvo da argumentação e do charme infalíveis do herói (aguarde post resumindo seu método de argumentação infalível).


Veja o trailer - com legendas! - de Obrigado Por Fumar!

Em suma, o cara é um gênio. Sabe o que o Romário fazia dentro da grande área? É o que Nick Naylor faz com um microfone, na frente de uma plateia. Espere, isso fica melhor na boca do próprio (ninguém escolhe melhor as palavras do que Nick Naylor): "Michael Jordan joga basquete. Charles Manson mata gente. Eu falo. Cada mundo tem seu dom..."

Marcadores: , ,

Assinar
Postagens [Atom]

sábado, 28 de fevereiro de 2009 - 2 Comentários

Pra começo de conversa: BLOGIE mandou bem na Bolsa VIP de Apostas - acertei 14 Oscars de um total de 17 palpites, 82% de acerto. Os erros foram nas categorias: filme estrangeiro (maior surpresa da noite), melhor ator (Sean Penn realmente mandou muito bem, mas é uma pena não ter sido premiado o Mickey Rourke) e efeitos especiais (eu chutei Batman, mas o vencedor foi O Curioso Caso de Benjamin Button). Motivo de orgulho: há anos não erro os vencedores dos prêmios de melhor roteiro (neste ano, Milk e Quem quer ser um milionário?).

Enfim, um bom resultado. O que, por outro lado, pode significar que a coisa foi um tanto previsível...

O melhor do Oscar são as premiações das estrelas - melhor ator, atriz, principais e coadjuvantes. Neste ano, os discursos mais bacanas foram mesmo os de Sean Penn, Kate Winslet e, principalmente, Penélope Cruz, que encarnou a Audrey Hepburn ao receber seu Oscar.














Sean Penn por cima da carne sêca...


Bacana também foi Hugh Jackman, justiça seja feita. O cara fez um belo trabalho, cantou, dançou, fez piadas e protagonizou a melhor cerimônia dos últimos anos. Trouxe o Oscar de volta aos domínios dos astros de cinema, ao invés de apresentadores de talk-shows.

Quem quer ser um milionário? foi o grande vencedor, oito Oscars, incluindo melhor filme. É mesmo o filme mais cativante do ano, uma celebração de duas horas de duração. Mas tem sido objeto de muito papo-cabeça, muita teoria... um saco.

Erros mais frequentes:

1) "foi premiado um filme de Bollywood". O filme não é indiano, é dirigido por um inglês, Danny Boyle, fiel ao seu próprio estilo - pop, com edição nervosa, colorido. Faz lembrar seu breakthrough movie, Trainspotting;

2) "a premiação desse filme significa uma abertura dos EUA ao mundo etc". Bullshit. O Oscar é só o que é: uma premiação anual de filmes. Já passamos por esse tipo de situação antes - Ghandi, O Último Imperador, A Vida é Bela. Nada disso muda o fato de que Batman - O Cavaleiro das Trevas foi o grande e enorme sucesso de 2008.

Daqui até fevereiro do ano que vem, teremos mais um monte de blockbusters, mais um lote de filmes "sérios" às vésperas do Oscar e, com sorte, um ou outro filme de fora dos EUA chegando a causar alguma repercussão.

O que, cá entre nós, é uma boa fórmula. Eu posso viver assim.

Marcadores: ,

Assinar
Postagens [Atom]

sábado, 21 de fevereiro de 2009 - 3 Comentários

Passamos o ano todo revirando nossa Vejinhas e Cadernos 2, à procura de um filme decente para assistir. Daí chegam as semanas que antecedem o Oscar, e não damos conta de ver tantos filmes bons.

Se o leitor estiver na dúvida cruel sobre o que assistir antes da cerimônia, que acontece neste domingo à noite, aqui vão as dicas sobre os filmes essenciais, aqueles que realmente estão concorrendo a alguma coisa - e que valem mesmo a ida ao cinema:

















As estatuetas mais cobiçadas do cinema, polidas para serem entregues a mãos milionárias.


Quem Quer Ser um Milionário?

Imagine Cidade de Deus misturado com Uma Linda Mulher. Parece absurdo, mas é disso que se trata: de uma fábula de terceiro mundo, ao mesmo tempo forte e acessível, revelador e inebriante.

A história: um jovem favelado indiano, após ter passado por todas as provações possíveis de um menino pobre de Mumbai, chegar à idade adulta como um improvável participante de um Show do Milhão local, a um passo de ficar milionário. Tudo isso, motivado por um único objetivo na vida: reencontrar o seu amor de infância e viver feliz para sempre.

Quem Quer Ser um Milionário? consegue oferecer, no meio da lama que é a vida real, uma opção de fantasia, um escape bacana, uma redenção barata. É disso que o cinema é feito, e o filme deve ganhar o Oscar principal.


O Lutador:

Filme de macho que comove, O Lutador é o melhor filme do ano, arte em estado bruto, brutal. Não foi indicado para melhor filme, mas é o favorito para melhor ator, devido à atuação da vida de Mickey Rourke. Ele é Randy The Ram Robinson, um lutador de telecatch que viveu seu auge nos anos 80. De lá para cá, perde os movimentos, o dinheiro, a saúde e a clareza de pensamento. Está com problemas cardíacos e sobrevive às custas de um subemprego e de lutas em ginásios vagabundos pelas quebradas dos EUA.


Enquanto tenta repensar sua vida, enxerga duas tênues oportunidades de futuro: reatar com sua filha, negligenciada nos tempos de loucura e que não quer vê-lo nem pintado de ouro; ou se aproximar da stripper vivida por Marisa Tomei, que gosta dele, mas não a ponto de deixar de receber seus trocados por uma lap dance.

O Lutador é sobre aqueles sonhos meio vergonhosos que temos na juventude, e aquela sensação incômoda de "estraguei tudo" que fica pingando ao longo da idade adulta. Todos temos isso. Até o Mickey Rourke tem, e é sorte nossa que ele tenha dividido seu sofrimento conosco.



O Leitor:

O ser humano in natura é despido de qualquer senso de moral ou justiça. É pura matéria, um pedaço de carne atendendo aos seus próprios instintos. Esse é o ponto central do ótimo O Leitor.

A cobaia escolhida pelo autor para comprovar sua tese é a personagem Hanna Schmitz, uma cobradora de bonde alemã que tem um caso com um rapaz de 15 anos durante a década de 50 -e que, anos antes, trabalhara para a SS como guarda de campo de concentração. Kate Winslet, favorita ao Oscar de melhor atriz, faz de Hanna uma pessoa dura, aparentemente estanque a qualquer sentimento, mas, ainda assim, uma mulher - ou melhor, uma fêmea. Seus instintos elegem um rapaz cheio de hormônios e boas intenções, e os dois se entregam a sessões de sexo sem papo mole ou quebra-gelo. Nesses encontros, Hanna também se deleita ao ouvir o menino lendo clássicos da literatura em voz alta.

O Leitor é um dos filmes mais corajosos, ao brincar com o senso de moral e justiça de quem o assiste, fazendo-nos adotar o ponto de vista de uma criminosa de guerra.



Plano B:

Se você já viu os três filmes acima, então vamos para o segundo escalão, mas ainda de alta qualidade!

Entre os outros principais indicados, o mais interessante é Dúvida, com a Meryl Streep, Phillip Seymour Hoffman, Amy Adams e Viola Davis - todos indicados a Oscars!

Milk - A Voz da Igualdade é um ótimo filme de Gus Van Sant, com Sean Penn arrebentando no papel do político militante da causa gay. Vale pelo desempenho do ator.

E O Curioso Caso de Benjamin Button é um bom filme, mas decepciona, pois a promessa era de algo histórico: David Fincher na direção, roteiro baseado em um conto de Fitzgerald, Brad Pitt como protagonista e inovadores efeitos especiais. Mas a coisa ficou como um sub-Forrest Gump. Mas, em se tratando da Academia, tudo pode acontecer. Até a premiação deste filme.


Agora, é dar uma última corrida ao cinema, voltar pra casa, agradecer aos céus pela TNT (pois a Globo, que tem os direitos exclusivos de transmissão do Oscar na TV aberta, preferiu exibir os desfiles das escolas de samba) e assistir à maior festa do cinema.

Marcadores: ,

Assinar
Postagens [Atom]

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009 - 2 Comentários

Sem medo de queimar o filme, aqui vão as previsões de BLOGIE para o Oscar. Não me acuse de previsível, o Oscar geralmente é previsível e a brincadeira, aqui, é tentar acertar os vencedores. BLOGIE afirma, com uns 70% de segurança, que os vencedores serão:

Filme: Quem Quer Ser um Milionário? (acertamos!)

Diretor: Danny Boyle, Quem Quer Ser um Milionário? (acertamos!)

Ator: Mickey Rourke, O Lutador (erramos. Deu: Sean Penn, por Milk - A Voz da Igualdade)

Atriz: Kate Winslet, O Leitor (acertamos!)

Ator Coadjuvante: Heath Ledger, O Cavaleiro das Trevas (acertamos!)

Atriz Coadjuvante: Penélope Cruz, Vicky Cristina Barcelona (esta é a categoria mais equilibrada; Viola Davis, por Dúvida, é favorita - mas, na hora H, acho que a turma vai de Penélope Cruz) (acertamos!)

Roteiro Original: Milk - a Voz da Igualdade (mas meu preferido é Simplesmente Feliz) (acertamos!)

Roteiro Adaptado: Quem Quer Ser um Milionário? (acertamos!)

Filme Estrangeiro: Waltz With Bashir (Israel) (erramos. Deu: Departures, do Japão)

Filme de Animação: Wall-E (acertamos!)


















Cena de Quem Quer Ser um Milionário?, favorito na Bolsa VIP de Apostas para o Oscar.


É isso. Nas categorias técnicas, deposito minhas fichas na fotografia, na edição e na trilha sonora de Quem Quer Ser um Milionário?, na direção de arte e na maquiagem de O Curioso Caso de Benjamin Button, nos efeitos especiais de Batman - O Cavaleiro das Trevas e no figurino de A Duquesa.

Mas mais interessante do que essas coisas técnicas são as apostas que não valem Oscar. Afinal, o assunto menos importante na noite do Oscar é cinema. O que o povo quer saber é de tapete vermelho, quem está mais brega, quem está mais bonita etc. Agora entra a verdadeira Bolsa VIP de Apostas para o Oscar:


A mais gostosa no tapete vermelho: Angelina Jolie.

Ela, que não se sai muito bem nesse negócio de escolher um roteiro e declamá-lo na frente de uma câmera, é a rainha do tapete vermelho. Não tenha dúvida: ela será a aparição mais deslumbrante daquele desfile de estrelas antes da cerimônia.


O discurso mais patético: Kate Winslet.

Kate não é boa de improviso. Em 98, quando de sua primeira indicação ao Oscar, por Titanic, ela não conseguiu disfarçar seu despeito pela vencedor Helen Hunt (Melhor é Impossível). Anos depois, ela continua falando bobagem em discursos e premiações, pois o fato é que ela fica nervosa demais. Foi assim no Globo de Ouro, vai ser assim no Oscar. Pode esperar.


O momento choradeira: a vitória póstuma de Heath Ledger como ator coadjuvante.

O papo que rola é que o Oscar ficará com a filhinha de Heath e tudo mais. A dúvida é se a moçada vai apelar feio e botar a criança no meio do circo ou se se manterá a compostura, optando por uma coisa mais respeitosa e singela.


O Grande Momento: Mickey Rourke subindo ao palco pra receber seu Oscar de luto... por seu cachorro!

Mickey Rourke anda dizendo por aí que seus cachorros são os únicos amigos que ele teve enquanto brincava na lama do fundo do poço e tal. Seu preferido era uma chiuaua de dezoito anos, que morreu ontem, às vésperas da cerimônia. Não tenha dúvida: deve ser um espetáculo ver um homem de 56 anos, de rosto desfigurado e vestido como o Capitão Jack Sparrow, derramando lágrimas por um bichinho de olhos esbugalhados, enquanto recebe um Oscar.


A melhor razão para você sentir vergonha alheia: Hugh Jackman como mestre de cerimônias.

Parece mentira, mas o ator australiano será o mestre de cerimônias do Oscar. Se isso já não fosse estranho o bastante, as notícias que vão vazando aumentam o medo: diz que ele vai dançar com Beyoncé Knowles e o casalzinho de High School Musical. Algo me diz que vou me divertir muito com a cerimônia de domingo.

E você? Quais são seus palpites para o Oscar? Mande seus comentários!

Marcadores: ,

Assinar
Postagens [Atom]

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009 - 2 Comentários

Resumindo tudo em uma frase: o cinema foi inventado para proporcionar momentos como as duas horas de Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle. Ou melhor: é por ocasiões tão agradáveis quanto esse filme que a vida vale a pena.

Dito isso, fica clara a opinião deste blogueiro: Quem Quer Ser um Milionário? é o melhor filme do ano e, se houver justiça no mundo, deve ganhar o prêmio máximo do cinema na entrega dos Oscars, no próximo domingo, em Los Angeles.

Para poder conferir antes do Oscar, há poucas chances: com estreia marcada para 6 de março, o filme terá poucas sessões, como pré-estreia, a partir desta sexta-feira.

Qual a razão de tanta babação?


1. Um roteiro matador, de lavar a alma.

Imagine Cidade de Deus misturado com Uma Linda Mulher. Parece absurdo, mas é disso que se trata: de uma fábula de terceiro mundo, ao mesmo tempo forte e acessível, revelador e inebriante, para agradar a críticos chegados num papo-cabeça e à grande massa.

Quem quer ser um milionário? é a história de um jovem favelado indiano que, tal qual um Forrest Gump da pobreza, passa por todas as provações possíveis de um menino pobre de Mumbai, escapando de cada perigo até chegar à idade adulta, quando se vê como participante de um Show do Milhão local, a um passo de ficar milionário.

Tudo isso, motivado por um único objetivo na vida: reencontrar o seu amor de infância e viver feliz para sempre.

A mágica é transformar essa proposta improvável em uma obra-prima.

É isso que faz Danny Boyle.


O trailer simplesmente não é suficiente, mas é o que se tem à mão...


2. Uma direção irretocável.

Depois de Trainspotting, Danny Boyle nunca mais confirmou a promessa de seu talento. Por uma vida menos ordinária e A Praia foram decepcionantes.

Mas aí ele aparece com um filme cheio de atores indianos, com esse roteiro maluco e pop, e comanda um balé de violência, ação e fantasia, num dos cenários mais duramente reais do cinema recente: as quebradas de Mumbai, na Índia.

Há a clara influência de Cidade de Deus, na edição, nas cores, no ponto-de-vista adotado (de um jovem trabalhador que, meio por sorte, meio por valores, escapa quase intacto dos perigos e dos inevitáveis contatos com o crime organizado). Tem gente dizendo por aí que é cópia e tal, mas quem se importa? Entendo mais como uma homenagem ao filme brasileiro.














Jamal,mesmo na merda, nunca perde a esportiva.

O que interessa é que Boyle transformou Quem Quer Ser um Milionário? em uma festa. A vontade, enquanto aparecem os créditos em meio ao elenco do filme dançando uma estranhíssima coreografia parecida com Thriller, é de se levantar e bater palmas, como se os responsáveis pelo filme estivessem ali.


3. Atores sensacionais.

O trio protagonista é formado por: o tal do rapaz do Show do Milhão, Jamal; seu irmão seduzido pelo mundo do crime, Salim; e o interesse amoroso de Jamal, Latika. Eles são vividos por três trios de atores, durante a infância, a pré-adolescência e o início da fase adulta. E todos os nove atores envolvidos são sensacionais.

Os melhores são mesmo os infantis, com seus olhos arregalados e sua graça irresistível. Mas o Jamal adulto, Dev Patel, é um cara carismático. E, acima de tudo, tem Freida Pinto, a Latika adulta.


3. Freida Pinto, a novidade do ano.



















Sendo direto: que gata. Boyle teve o cuidado de incutir a visão de Freida Pinto, como Latika, em amarelo, na nossas mente. O flash se repete algumas vezes ao longo do filme, e continuará pingando na memória de qualquer cara que tenha algum interesse em mulher. A beleza de Freida, acredite, é ingrediente importante para o sucesso do filme - afinal, Jamal tem que ter uma boa razão pra enfrentar tanta roubada por tanto tempo, movido por uma verdadeira obsessão pela menina.


4. Cinemão assumido.

A última coisa que qualquer um ainda quer ver são esses filmes pesados sobre uma miséria desgraçada e sem esperança. Um Walter Salles só no mundo já está bom.

Quem Quer Ser um Milionário? consegue oferecer, no meio da lama que é a vida real, uma opção de fantasia, um escape bacana, uma redenção barata. É disso que o cinema é feito, amém.

Por isso, no domingo, Danny Boyle subirá ao palco do Kodak Theatre para receber o seu merecido Oscar de melhor filme.

E, se o resultado for diferente... que se dane a Academia.

Marcadores: , ,

Assinar
Postagens [Atom]

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009 - 0 Comentários

Na tentativa de deixar a festa mais ágil e menos chata, os organizadores do Oscar andam com a mania de empacotar as 5 músicas indicadas a melhor canção em um blocão de seis minutos, onde cada uma é apresentada rapidinho por seus intérpretes, na linha "se vira nos trinta".

Por esse motivo, Peter Gabriel, indicado por sua contribuição na animação Wall-E, anunciou nesta semana que não se apresentará na festa da Academia. Com isso (e com a não indicação de The Wrestler, do Bruce Springsteen, por O Lutador), o que já se anunciava meio chocho fica completamente chato. Não haverá nenhum grande nome da música na festa do cinema. Uma pena.

Na verdade, o Oscar nutre a tradição de esnobar as melhores canções, e especialmente as populares. Veja a lista das melhores canções originais que foram indicadas, mas NÃO ganharam o Oscar:



Live and Let Die, de Paul McCartney (1973):












Após o fim dos Beatles, Paul resolveu compor sua primeira trilha para um filme, e fez uma obra-prima de encomenda: Live and Let Die, música-tema de Com 007, Viva e Deixe Morrer. A canção se tornou um clássico do repertória de Macca, que sempre a executa com o devido estrondo e fogos de artifício em seus shows...

... Mas a Academia preferiu premiar a melada The Way We Were, da Barbra Streisand, trilha do romântico Nosso Amor de Ontem, com a própria e com o Robert Redford. Lamentável.


Cheek to Cheek, de Irving Berlin (1935):

Heaven, I'm in heaven... hoje, é inacreditável que essa música, que virou praticamente sinônimo de cinema, não tenha vencido o Oscar de melhor canção. Cantada por Fred Astaire em O Picolino, é uma das melhores músicas do século 20, e foi homenageada dezenas de vezes em outros filmes. A mais famosa está em A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, que começa e termina ao som da voz de Astaire seduzindo Ginger Rogers enquanto canta Cheek to Cheek.


Veja cena de O Picolino, com direito a legenda mostrando a letra de Cheek to Cheek.



Against All Odds (Take a Look at Me Now), de Phill Collins (1984):

OK, você pode odiar Phill Collins. Mas Against All Odds (trilha do filme homônimo) é uma bela música, foi um enorme sucesso e é de arrepiar. Mas a canção foi derrotada por outro enorme sucesso: a insuportável I've Just Called to Say I Love You, do Stevie Wonder.



That Thing You Do, trilha de The Wonders - O Sonho Não Acabou (1996):

O primeiro filme dirigido por Tom Hanks é sensacional: a história de uma bandinha americana que, na cola do sucesso dos Beatles, emplaca seu único sucesso e se dissolve. Teve relativo sucesso, mas mais sucesso fez a música da banda: That Thing You Do (composta pelo profissional A. Schlesinger, com toques na letra dados pelo próprio Tom Hanks) arrebentou de tocar nas rádios e nas baladas da época, e era o espírito do filme. Um erro imperdoável da Academia.


Gonna Fly Now, trilha de Rocky, o Lutador (1976):

Uma das cenas mais conhecidas de todos os tempos trazia Rocky Balboa (Silvester Stallone) correndo pelas ruas da Philadelphia, preparando-se para a grande luta contra Apollo, o Doutrinador. Qual a graça de ver um brutamontes correndo na rua?

A resposta: a música Gonna Fly Now, de Bill Comte e C. Connors. Cheia de metais e arranjada em uma verdadeira muralha sonora, a canção dá o tom épico que era necessário à jornada de Rocky. É uma das melhores trilhas sonoras de todos os tempos, talvez a melhor.
Mas ficou sem o Oscar daquele ano.


A Patacoada: Mrs. Robinson, de Simon & Garfunkel (1967):

Essa foi triste: Paul Simon emprestou os sucessos de sua dupla folk, Simon & Garfunkel, para o diretor Mike Nichols enfeitar sua pequena obra-prima, A Primeira Noite de um Homem. Melhor ainda, ele compôs uma canção especialmente para a ocasião: Mrs. Robinson, que virou um clássico absoluto do cancioneiro americano.


Veja e ouça Mrs. Robinson, em cena de A Primeira Noite de um Homem.


Mas aí, lá vai Paul Simon se esquecer de preencher o formulário da Academia. Com isso, Mrs. Robinson não pôde concorrer a um Oscar certo. A Primeira Noite de um Homem ganhou o Oscar de melhor direção, e a história fez justiça à canção. Mas Paul Simon ficou sem seu Oscar. Sobre o episódio, ele declarou: "eram os anos 60, a gente não estava prestando atenção."

Marcadores: , ,

Assinar
Postagens [Atom]

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009 - 0 Comentários

Se o leitor é cinéfilo mesmo, daqueles que frequentam mostras de cinema e que gostam de, sei lá, Ingmar Bergman ou aqueles dinamarqueses do Dogma 95, está liberado: O Casamento de Rachel, em cartaz nos cinemas brasileiros, é pra você.

Agora, se você for do tipo que acha que cinema é, antes de tudo, um passatempo que deve ser no mínimo agradável, esqueça: nem a presença de Anne Hathaway, indicada ao Oscar de melhor atriz, vai fazer a coisa valer a pena.

Isso porque o diretor Jonathan Demme (O Silêncio dos Inocentes, Filadelphia) quis fazer um filme incômodo e desagradável sobre a imbecilidade humana e sobre o estorvo que uns causam aos outros. E, com seu enorme talento de direção de atores, teve sucesso em sua missão. O filme, em vários momentos, beira o insuportável.











Anne Hathaway: despida do glamour e daquele sorriso que lhe fizeram a fama. Valeu uma indicação ao Oscar...


A história: em uma família marcada por uma tragédia, Rachel vai casar. Sua irmã, Kim (Hathaway), tem permissão para sair do rehab e comparecer ao casório. Tudo se passa em dois dias, enquanto um bando de gente vai chegando, e preparativos constrangedores vão sendo feitos, e Kim vai acertando as contas, do seu próprio jeito, com o pai, a mãe e a irmã.

O ponto forte do filme está mesmo na atuação de Hathaway, que empresta sofrimento real à sua Kim - uma mulher egoísta, narcisista e, digamos, incompatível com o que chamamos de sociedade. Nas mãos de um ator menos talentoso, teríamos simplesmente raiva da personagem (lembra do Jim Carrey em O Pentelho?). Mas Anne Hathaway nos coloca dentro da bagunça mental de Kim, abrindo pequenas "janelas" por onde entendemos onde ela se fragiliza.


Veja o trailer de O Casamento de Rachel. Acredite, é bem mais agradável do que o filme, em boa parte graças a essa música do Buddy Holly - que não aparece no filme...


O resto do elenco também entrega atuações fortes, com destaque para Debra Winger, como a mãe torturada e distante de Kim e Rachel.

Mas, no fim das contas, não vale fazer como eu, que estraguei minha noite de sábado com um filme pesado e intencionalmente desagradável. É uma boa obra de arte, é intelectualmente honesto, mas não é cinema como cinema deve ser. Cinema é escape.

Vamos logo a Quem quer ser um milionário?, o favorito ao Oscar de melhor filme. Esse, sim, é de lavar a alma. Não perca a crítica, aqui, no BLOGIE.

Marcadores: , ,

Assinar
Postagens [Atom]

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009 - 4 Comentários

Filme de macho que comove: não é mentira, isso existe. É o que o leitor encontrará em O Lutador, que estreia hoje nos cinemas.

Ninguém chora em Soldado Universal, Triplo X ou Stalonne Cobra, é claro, mas qualquer um percebe que há algo a mais em Rocky, o Lutador (o primeiro da série). Ali, você encontra um brutamontes meio chucro que, em meio à sua tosquice e seu excesso de testosterona, não consegue entender seus próprios sentimentos - ele só sabe que ele quer mais. O Lutador entrega isso e mais um pouco: é o melhor filme do ano. Não vai ganhar o Oscar, mas merecia. Porque é arte, mas arte em estado bruto, brutal.
























De repente, Mickey Rourke vira "o cara" - e no papel de um lutador de telecatch!


Muito tem se falado sobre a volta triunfante de Mickey Rourke, um cara que era um símbolo sexual nos anos 80, mas que largou tudo pra ser boxeador, apanhou até ficar totalmente deformado e sumiu do mapa - até O Lutador. E é merecido: Rourke é a alma do filme e entrega a performance do ano. Concorre diretamente com Sean Penn pelo Oscar de melhor ator.

Entrevistamos Mickey Rourke no ano passado. Confira

O lutador do título, vivido com dor por Rourke, é Randy The Ram Robinson, um lutador de telecatch (ou luta livre, sei lá, ô troço mais anos 80!) que viveu seu auge na época em que Van Halen e Guns'n'Roses dominavam as rádios. De lá para cá, se vicia em remédios e anabolizantes, vai perdendo os movimentos, o dinheiro e a clareza de pensamento. Está com problemas cardíacos e sobrevive às custas de um subemprego e de lutas em ginásios vagabundos pelas quebradas dos EUA.

Sua diversão é reviver o auge através do velho video-game baseado em sua luta mais famosa, ocorrida há vinte anos. O futuro, para ele, aparece em duas oportunidades tênues: a) se aproximar da stripper vivida por Marisa Tomei, que gosta dele, mas é tão limitada quanto o pretendente e não consegue vencer a barreira dos chavões do seu ramo (nunca se envolver com clientes etc); e b) tentar a reconciliação com a filha (Evan Rachel Wood, sempre ótima), negligenciada nos tempos de loucura e que, agora, não quer vê-lo nem pintado de ouro.



Veja o clipe acima: cenas do filme, ao som de The Wrestler, canção do Bruce Springsteen que ganhou o Globo de Ouro deste ano.


Marisa Tomei também tira leite de pedra: mesmo passando 80% do tempo em tela dançando pelada (o que é um belo atrativo, diga-se), ela consegue entregar uma performance cheia de nuances e também tocante. Recebeu sua terceira indicação ao Oscar, e vive um belo momento na carreira (ela também foi muito bem em Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, de Sidney Lumet).

Há muitas cenas memoráveis, como aquele em que Randy é obrigado e enfrentar o declínio de frente, como balconista de um supermercado, onde é reconhecido por um fã; ou a que Randy finalmente se aproxima da filha, em um raro momento de equilíbrio e clareza de propósitos.

Mas a que vai ficar pra sempre na memória é mesmo o momento romântico do filme: o lutador de telecatch e a stripper, numa tarde de sábado, se encontram à paisana num boteco derrubadão, tomam uma cerveja, escutam Motley Crüe e revivem uma frestinha de juventude. Exorcisam tudo o que aconteceu depois dos anos 80 e, redimidos, acabam se beijando. Um suspiro de paz no mundo white trash.














O casal do ano: o lutador caidaço e a stripper quarentona.


Isso tudo é O Lutador, mas é mais que isso. Sua namorada não vai gostar, sua mãe vai odiar. Seu amigo descoladinho não vai entender a graça - mas você, amigo leitor da VIP, vai se amarrar. Porque O Lutador é sobre aqueles sonhos meio vergonhosos que temos na juventude, e aquela sensação incômoda de "estraguei tudo" que fica pingando ao longo da idade adulta. Todos temos isso. Até o Mickey Rourke tem, e é sorte nossa que ele tenha dividido seu sofrimento conosco.

Marcadores: , ,

Assinar
Postagens [Atom]

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009 - 3 Comentários

Há pouco mais de um mês, Bruce Springsteen ganhou um Globo de Ouro pela canção The Wrestler, composta especialmente para o filme O Lutador , estrelado pelo Mickey Rourke. Infelizmente, a premiação não vai se repetir no Oscar: Bruce foi esquecido pela Academia e, neste ano, não teremos grandes nomes da música no Kodak Theater.

Mas vale lembrar dos gênios da música pop que já ganharam um Oscar. Veja a lista:


5- Stevie Wonder

Wonder é gênio, mas sua trilha para A Dama de Vermelho é um chiclete insuportável. De qualquer modo, I've Just Called to Say I Love You papou o Oscar de 1984 e se tornou campeã dos bailinhos de vassoura dos anos 80. Apesar disso e de muito sucesso na década de 80 (We are the World, Ebony and Ivory), Wonder ficou na História como um dos grandes mestres da soul music, especialmente nos anos 70.

4- Burt Barcharach

Dois Oscars para o gênio da música de elevador, do easy listening, da melodia perfeita: por Arthur, o Milionário e pela mágica Raindrops Keep Fallin' on my Head, imortalizada na cena em que Paul Newman dá um rolê de bicicleta com Katherine Ross em Butch Cassidy & Sundance Kid. Mas o grande prêmio de Barcharach é a sua foto estrategicamente colocada na capa do primeiro disco do Oasis.




















Burt Barcharach é o cara no quadro encostado no sofá. É também o único sóbrio na capa de Definitely Maybe.


3- Elton John

Suas músicas são cinematográficas e cheias de citações do cinema (Candle in the Wind é sobre Marylin Monroe; Goodbye Yellow Brickroad brinca com o mundo de Oz). E sempre servem como ingrediente para grandes cenas - como em Quase Famosos, quando uma banda em crise faz as pazes cantando Tiny Dancer, clássico de 1971. Mas Sir Elton foi beliscar seu Oscar ao compor a trilha de O Rei Leão, o enorme sucesso de animação da Disney.


2- Bob Dylan

Ele é uma das maiores instituições americanas, ídolo dos ídolos - sua influência só se equipara à dos Beatles (de quem é influência e influenciado). Já foi tema de filmes e teve seus clássicos usados de mil maneiras diferentes - em Forrest Gump, por exemplo, a namorada de infância do protagonista é um misto de cantora folk e stripper que entoa Blowin' in the Wind com sinceridade. Mas Dylan fez poucas canções originais para filmes. Em uma delas, a ótima Times Have Changed, arrebatou o merecido Oscar pelo também ótimo Garotos Incríveis, com Michael Douglas e Tobbie Maguire.


1- Bruce Springsteen

Bruce é o Chefe, ponto. Considerado o maior nome do rock americano depois de Elvis Presley, Springsteen atingiu o sucesso ao imprimir uma qualidade "cinemática" em suas músicas, como mostram seus clássicos absolutos, Born to Run e Thunder Road (esta com título roubado do filme de Robert Mitchum). Começou a pagar sua dívida com o cinema tarde, em 1993: Streets of Philadelphia foi a trilha perfeita para o filme que traz a agonia de um advogado aidético. Na música, o narrador conversa com a própria morte. Ganhou o Oscar de melhor canção e se empolgou com o novo ofício, emendando, nos anos seguintes, trilhas inesquecíveis para Os Últimos Passos de Um Homem (também indicada ao Oscar) e para Jerry Maguire (de Cameron Crowe, que soube valorizar a bela Secret Garden como só ele poderia).


Bruce canta Streets of Philadelphia no Oscar 94 e, em seguida, recebe sua estatueta.


Bruce poderia emprestar seu talento para o cinema com mais frequência, como prova a bela The Wrestler. Quando você for ao cinema no próximo final-de-semana, assista à história de redenção de Mickey Rourke e de seu personagem (que são um só), mas só saia da sala após a música do Bruce, enquanto sobem os créditos.

Na semana que vem: os gênios da música que NÃO ganharam o Oscar...


Marcadores: , , ,

Assinar
Postagens [Atom]

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009 - 2 Comentários

Antes de tudo, uma breve palavra com quem ainda não viu Dúvida, de John Patrick Shanley: baseado em uma peça de teatro do mesmo autor, o filme trata de intrigas em um colégio católico no Bronx, cuja diretora é uma freira linha dura, a Irmã Aloysius (Meryl Streep). Ela não vai com a cara do Padre Flynn (Philip Seymour Hoffman), liberal demais pro gosto dela. E levanta, sem muita base pra isso, a suspeita de que ele anda seduzindo um menino da oitava série. Sendo manipulada pela Irmã Aloysius para sustentar sua tese (e pelo Padre Flynn para rejeitá-la), a jovem Irmã James (Amy Adams) é quem mais sofre a tormenta da dúvida.











Meryl e Amy: freiras no tapete vermelho do Kodak Theater.


O filme é muito bom, as atuações são maravilhosas (praticamente todo o elenco adulto foi indicado ao Oscar) e você já deveria ter visto o filme. Mais, não posso falar. Digamos apenas que ele é o que seu título anuncia: uma dúvida em três atos, um exercício machadiano para deixar o espectador em dúvida. Assista junto com alguém e você terá uma discussão garantida para o jantar depois do cinema.


Dica dada, proponho agora um bate-papo um pouco mais cuidadoso com quem já viu Dúvida.

Primeiro: deveriam mostrá-lo nas faculdades de Direito e de Administração de Empresas, ao invés das enfadonhas aulas de técnicas de negociação e da leitura de Como Chegar ao Sim. O filme é um verdadeiro seminário de negociação, com três estilos bem definidos e personificados pelo trio de talentosos protagonistas. Isso fica claro em uma longa cena que inclui os três protagonistas, na sala da diretora. Veja trechos da cena e perceba a abordagem de cada um:


Aula de negociação aplicada, com Meryl Streep, Seymour Hoffman e Amy Adams.


Temos a professorinha idealista, Irmã James. Ela é toda ética e bondade, se incomoda com desonestidade e tenta abafar qualquer conflito, cuja intensidade ela simplesmente não suporta. Até no momento em que ela confronta sua superiora, a Irmã Aloysius, fica claro o quanto ela acredita que afirmar sua correção de propósitos bastará para garantir uma posição vencedora. Não é surpresa que ela seja engolida pelas outras partes.

O Padre Flynn, por sua vez, sabe seus pontos fortes e confia no seu carisma e na sua lógica. Liga as pontas, constrói linhas de argumentação e bota seu interlocutor em constante inferioridade. Como confrontar um homem tão brilhante?, é a pergunta que ele faz crescer no outro. Para isso, ele se move pelo cenário, ocupa o lugar da diretora, pede chá, pede açúcar, fecha a veneziana. No seu habitat natural - a missa de domingo - , ninguém pode com ele: seu sermão sobre a fofoca é antológico.

Mas na escura sala da Irmã Aloysius, o caldo engrossa. A magistral Meryl Streep empresta toda a dureza da editora de moda de O Diabo Veste Prada para a sua personagem do momento. Mas a Irmã Aloysius é pior: ela é 100% foco e dissimulação. Confia no seu faro e jamais se questiona. Em sua longa negociação, consegue suplantar o talento do Padre Flynn, praticando o velho jogo de truco: jogou o verde, e o cara se entregou...

Ou será que não? Pode ser que, em um rápido balanço de prós e contras, o Padre tenha preferido "assumir" seu caso com o menino em particular para a Irmã Aloysius, antes que ela saísse por aí difamando-o. Ele teria formulado a pergunta básica do negociador: qual a melhor alternativa sem acordo? E tomara sua decisão.

Com todo o respeito ao leitor: não interessa o seu ou o meu julgamento. Não dá pra afirmar, com o que aparece na tela por duas horas, que o padre é culpado. Se você está pensando que sou um idiota e que vejo o mundo em cor-de-rosa, o mérito é todo do autor: ele conseguiu botar você no meio da teia de evidências que, se não dão prova cabal da pedofilia, semeiam a dúvida e, de acordo com a personalidade de cada um, conduz a uma conclusão sempre frágil. É disso que trata o filme, à mesma maneira que Machado de Assis construiu a suposta traição de Capitu em Dom Casmurro.

Aí vem o final do filme, aquela coisa da Irmã Aloysius confessar à Irmã James que está se comendo de dúvida... um final que não está à altura do resto do filme, certamente. Na VEJA, a crítica Isabela Boscov disse que se tratava de muita misericórdia de John Patrick Shanon para com a Irmã Aloysius - um gesto tipicamente católico, na linha "eles não sabem o que fazem". O que eu acho: não foi excesso de bondade cristã de Shannon, mas sim falta de segurança artística. Ele sentiu a necessidade de explicar para todo mundo: "olha, não condene o cara; até a Irmã Aloysius tem dúvida... na verdade, o filme é feito pra te deixar na dúvida..."

É como se, no último capítulo de Dom Casmurro, Bentinho refletisse: "jamais vou ter certeza se Capitu me traiu ou não, mas a vida é assim, bola pra frente..."

Só que, mais corajoso e seguro, Machado preferiu manter firme a crença doentia de Bentinho na traição. É isso que Shannon deveria ter feito com a Irmã Aloysius, deixando a dúvida cair aos pingos na consciência das pessoas.


E bem, e o resto?

Bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, e é o seguinte:

1- É sempre um prazer ver Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman em cena. Foi um duelo de gigantes, coisa fina.

2- Amy Adams é o máximo. Linda, jovem e talentosa, será uma das grandes atrizes americanas do seu tempo. Não erra um papel e bem que poderia ganhar já neste ano seu primeiro Oscar.

3- Assistindo a Dúvida, cheguei à infeliz conclusão de que, no meu ambiente profissional, onde sou pago para ser 60% Irmã Aloysius e 40% Padre Flynn, acabo sendo 70% Irmã James, 30% Padre Flynn e 0% Irmã Aloysius. Quero as coisas resolvidas, para ter minha simplicidade de volta.

Marcadores: , ,

Assinar
Postagens [Atom]

domingo, 8 de fevereiro de 2009 - 2 Comentários

O ser humano in natura é despido de qualquer senso de moral ou justiça. É pura matéria, um pedaço de carne atendendo aos seus próprios instintos. Esse é o ponto central do ótimo O Leitor, de Stephen Daldry, indicado a um monte de Oscars, que estreou nesta última sexta-feira no Brasil.

A cobaia escolhida pelo autor para comprovar sua tese é a personagem Hanna Schmitz, uma cobradora de bonde alemã que tem um caso com um rapaz de 15 anos durante a década de 50 -e que, anos antes, trabalhara para a SS como guarda de campo de concentração. Para interpretá-la, nada menos do que Kate Winslet, em um trabalho que a coloca como favorita ao Oscar de melhor atriz.

Winslet faz de Hanna uma pessoa dura, aparentemente estanque a qualquer sentimento, alguém sem planos ou objetivos. Mas, ainda assim, uma mulher - ou melhor, uma fêmea. Seus instintos elegem Michael Berg (o ator alemão David Kross, excelente), um rapaz cheio de hormônios e boas intenções, e os dois se entregam a sessões de sexo sem papo mole ou quebra-gelo.

Nesses encontros, Hanna também se deleita ao ouvir o menino lendo seus livros (clássicos da literatura, de Homero a Mark Twain) em voz alta.
















Kate Winslet nua e crua: exposição física, olhar duro e dúvidas interiores que valem um Oscar.


O tempo passa, o caso acaba, Michael entra para a faculdade de direito e, na qualidade de estudante, tem a oportunidade de acompanhar os Julgamentos de Nuremberg (onde nazistas foram julgados por seus crimes de guerra). Lá, dá de cara com Hanna, esta como ré e a um passo de ir para a cadeia.

A partir daí, passamos a entender os porquês: de tanta angústia no Michael Berg adulto (Ralph Fiennes), do prazer de Hanna em ouvir livros (ao invés de lê-los) e, até mesmo, de tanta nudez ao longo do filme. E o final ainda guarda um nó na garganta do espectador.


Veja o trailer de O Leitor, a melhor opção nos cinemas...


O Leitor é um dos melhores filmes do ano, e é um dos mais corajosos, ao brincar com o senso de moral e justiça de quem o assiste, fazendo-nos adotar o ponto de vista de uma criminosa de guerra. Mostra como ficamos confusos com as mudanças de maré das leis e da História, e nos faz pensar no quão dependentes somos da cultura e dos livros para nos diferenciarmos de outros primatas.

Poderia se consagrar como o melhor roteiro adaptado (o favorito, no entanto, é O Curioso Caso de Benjamin Button), mas é mais provável que dê a Kate Winslet seu primeiro Oscar, após seis indicações. Um filme obrigatório.

Marcadores: , ,

Assinar
Postagens [Atom]

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009 - 1 Comentários

Para quem aprecia o trabalho de atrizes talentosas, o final-de-semana promete. Estreiam dois filmes que trazem quatro atrizes indicadas ao Oscar: O Leitor, com Kate Winslet, e Dúvida, com todo o elenco indicado ao prêmio.

O Leitor, pra começo de conversa, tem sido um pouco subestimado: é um "filme de Holocausto", e o excesso de filmes recentes com temas relativos ao nazismo (O Homem Bom, O Menino do Pijama Listrado, Operação Valquíria) pode prejudicar sua campanha ao prêmio de melhor filme - afinal, seus concorrentes tratam de caras que nascem velhos e rejuvenescem, de favelados indianos que se tornam celebridades da TV e de temas políticos que servem aos dias de hoje (Frost Nixon e Milk).

Nada disso, no entanto, impediu que sua protagonista, Kate Winslet, tenha sido indicada ao Oscar. No papel de uma mulher comum que trabalhou em serviços menores para o nazismo durante a guerra, ela é encontrada tempos depois, lidando com o passado e com a vida como qualquer um de nós faz ou fará um dia. Ralph Fiennes aparece no filme, como o homem que, anos antes, ainda garoto, tivera um caso com a personagem de Kate.














Kate Winslet: talento à prova d'água.


O ponto de vista escolhido pelo diretor Stephen Daldry é assumidamente feminino, como é tradição em seus filmes (As Horas, Billy Eliot). E isso é reforçado pela atuação de Kate Winslet, tão forte e sensual e humana que acabou barrando outra grande atuação dela mesma - a de Foi Apenas Um Sonho - para a disputa do Oscar de melhor atriz. É a sexta indicação de Kate ao Oscar e, provavelmente, a mais próxima de se transformar em vitória...


... Isso se Meryl Streep não interromper o jejum de Oscars que vem "sofrendo" há 26 anos (ela ganhou seu segundo e último por A Escolha de Sofia; de lá para cá, foi indicada mais uma dúzia de vezes, mas nada de prêmio). Meryl está em Dúvida, uma peça de teatro adaptada para o cinema pelo seu próprio autor, John Patrick Shanley.

Algum dos grandes atores brasileiros (Paulo Autran? Raul Cortez?), certa vez, apontou as diferenças entre TV, cinema e teatro: a TV seria o veículo do escritor (a velocidade das filmagens e a falta de tempo para gestar o "produto" fariam com que o sucesso da coisa dependa essencialmente da trama - por isso, a novela é da Janete Clair, da Gloria Perez, etc); o cinema seria o veículo do diretor (com efeito, o caráter artesanal da confecção de um filme é coisa para obsessivos, como Fernando Meirelles e Walter Salles); e o teatro seria o ambiente dos atores: ali eles repetem, a cada dia, o mesmo texto... o diretor já encerrou seu trabalho... e os atores vão burilando seus papéis à perfeição - por isso, tal peça era "a última do Paulo Autran".

Fecha parêntesis.

Dúvida comprova a teoria acima: é um campo aberto para o grande trabalho do seu elenco: Meryl Streep, como a freira manda-chuva de um colégio linha-dura, domina o ambiente e as atenções para o Oscar, mas Philip Seymour Hoffman também arrebata como o padre progressista que é acusado pela "chefe" de pedofilia.


Veja o trailer de Dúvida, e confira o show do elenco!


E ainda tem Amy Adams, a melhor atriz da nova geração (e linda), como a freirinha bem intencionada que é manipulada pela personagem de Streep. Amy, que nunca escolheu um papel ou filme ruim na vida, vai construindo sua carreira com cuidado e sem alarde. Não se assuste se ela "de repente" aparecer como "a grande atriz do momento" nos próximos dois ou três anos. Por ora, indicação de melhor atriz coadjuvante para ela.

Por fim, Viola Davis, no papel da mãe do menino negro que teria sido objeto de assédio por parte do padre. Sua atuação é a clássica indicação ao troféu de melhor atriz coadjuvante: ela aparece por pouco tempo, rouba a cena e perpetra um personagem marcante. É a favorita ao prêmio.













O elenco de Dúvida ri sozinho no lançamento. No detalhe, Amy Adams: você procura, procura, e não acha defeito na moça...


Enfim, bons filmes pro sabadão, aproveite!


(Agora, se nada disso lhe interessou, guarde energia para o próximo final-de-semana, quando estreia O Lutador, com o Mickey Rourke: filme de macho com sensibilidade de Oscar, coisa fina!)

Marcadores: , ,

Assinar
Postagens [Atom]

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009 - 4 Comentários

No próximo dia 20, estreia Milk, de Gus Van Sant, indicado ao Oscar de melhor filme e favorito ao prêmio de melhor ator, com Sean Penn. O filme, que foi inicialmente encarado com um pouco de má vontade por este blogueiro, acabou virando o jogo e provou-se muito, mas muito bom.

E a principal razão está na sua relevância nos tempos atuais. O que faz pensar em outro filme em cartaz, que também recebeu indicações ao Oscar. O filme é A Troca, de Clint Eastwood, com Angelina Jolie despontando como favorita ao prêmio de melhor atriz.

São dois filmes diferentes em tudo e iguais em propósito. Veja só:













Penn e Jolie: favoritos ao Oscr, e com mais algo em comum.


A Troca é obra madura de um diretor regular, que nunca erra: Clint Eastwood, conhecido pelo sobriedade e pelo estilo econômico. À primeira vista, é um dramalhão sobre uma mãe que, após meses de desaparecimento do filho, "ganha" da polícia um menino postiço, que tem que aceitar como verdadeiro. Muito choro e sofrimento depois - e bem no momento em que você pensa "não aguento mais tanta angústia" -, a verdade aparece.

Milk é fruto da obsessão do irregular Gus Van Sant, capaz de gerar ótimos filmes (Elefante, Gênio Indomável, Garotos de Programa, Um Sonho sem Limites) e coisas mais fraquinhas (a refilmagem de Psicose, Encontrando Forrester). Van Sant é um cara obcecado por recriações quase documentais. E por tensão sexual (consumada ou não) entre seus personagens masculinos. As duas coisas se encontram em Milk, a história real do político americano Harvey Milk, notório por ter liderado a causa gay em San Francisco, nos anos 70. O filme é colorido, cheio de vida e abertamente gay.

Portanto, coisas completamente diferentes, não?

No entanto, eles têm algo em comum: ambos são filmes de época (o primeiro, nos anos 30; o segundo, nos anos 70) que mostram a luta incansável de seus protagonistas para combater o modus operandi do Governo vigente e estabelecer um mínimo de justiça. São dois filmes honestos e libertários. E ambos se prestam a botar um botar um bem-vindo ponto final na era Bush, ao mesmo tempo em que celebram os novos ares soprados por Barack Obama.


Harvey Milk sai do armário e muda o jeito de se fazer política

Nesta luta, Milk se sai bem melhor: está apoiado em um elenco sensacional, começando por Sean Penn, que, no papel-título, mostra-se imbatível como ator. Hoje, não tem pra ninguém: o melhor cara do ramo é mesmo Penn. Em Milk, ele mostra que está no topo e dificilmente alguém tira dele o terceiro Oscar.

Além dele, James Franco (o amigo do Peter Parker nos atuais filmes do Homem-Aranha), Josh Brolin (o irmão mais velho dos Goonies, que tem se provado grande ator a partir de Onde os Fracos Não Tem Vez) e Emile Hirsh (Show de Vizinha, Na Natureza Selvagem), todos estão ótimos e dão show.


Se houvesse Oscar para trailer, o de Milk já tinha o seu garantido!


Milk é, claramente, um labour of love de Gus Van Sant, coisa que pode ser verificada até em seu trailer, cuidadosamente tratado como uma obra de arte, ao invés de um anúncio publicitário. De tão convencional, pode ser considerado zebra no Oscar. Mas o que importa é que é um ótimo filme. Não perca.


Angelina Jolie sofre e faz sofrer - mas John Malkovitch redime a todos

A Troca, se não chega a decepcionar, fica bem abaixo da recente safra do grande Clint Eastwood. A "culpa" cai nos ombros cada vez mais estreitos de Angelina Jolie, que agarrou essa oportunidade como o "papel definidor de carreira". Infelizmente, Jolie não arrebata. Ela se esforça bastante, mas seu sofrimento remete mais a Camila Morgado em Olga do que a uma Meryl Streep. Assim, a primeira metade do filme (que deveria ganhar o título de "It's not my son!", coisa que ela berra várias vezes) chega a irritar um pouco.

Mas a coisa melhora na segunda metade, quando John Malkovitch passa a dar as cartas e a coisa se transforma em um filme de tribunal. Aí, temos Clint Eastwood em seu melhor, e a discreta catarse do final serve para evitar que saiamos por aí destruindo a coisa pública ou virando o próprio Dirty Harry. Uma medida piedosa do velho Clint.



Veja o trailer de A Troca. Infelizmente, ele dá mais foco na estrela e menos na parte mais bacana do filme...


Resumo da ópera: ó filme imperdível é Milk. Mas, se você já tiver visto tudo que está em cartaz, vale dar uma olhada em A Troca também. (E são os dois favoritos aos Oscars de melhor ator e atriz - você não vai querer ficar sem opinião na segundona depois da cerimônia...)

Marcadores: , , ,

Assinar
Postagens [Atom]

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009 - 4 Comentários

O Oscar está fechando cada vez mais seu target: se, nos últimos trinta anos, a cultura dos blockbusters passou a espremer os filmes com temas adultos nos três meses que antecedem o prêmio da Academia, agora a novidade é que mesmo neste período não há vida fácil para aqueles de gosto amargo.

Isso fica claro ao vermos que Foi Apenas um Sonho, adaptação do romance de Richard Yates (o nome original, tanto do livro quanto do filme, é Revolutionary Road, bem mais irônico e instigante), recebeu apenas três indicações ao Oscar, todas por categorias secundárias (melhor ator coadjuvante, direção de arte e figurino). O que é uma pena, pois o filme é ótimo.

Frank e April são o casal que se conhece jovem e sonhador, apropriadamente encarnados pela dupla romântica mais vencedora da história do cinema - Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, de Titanic. Em dois minutos de filme, essa fase juvenil do relacionamento é apresentada e cortada direto para a vida que se segue: dois filhos pequenos, trabalho desinteressante para Frank, excesso de tempo livre para April, vidinha vazia para ambos. Estamos no território dos filmes que tratam da falência do sonho americano, do projeto débil que é viver na classe média assentada em ruas tranquilas e casas espaçosas.

















Um trago e colinho não são suficientes para trazer paz à cabeça desse cara...


Para tentar apimentar a vida, e sem saber direito o que estão fazendo, os "jovens Wheeler" (como a corretora de imóveis vivida por Kathy Bates costuma chamá-los) se metem em situações que só pioram a coisa: casos extraconjugais, planos para largar o trabalho e mudança para Paris, pequenas mentiras e grandes discussões.

O filme é dirigido por Sam Mendes, marido de Winslet e vencedor do Oscar por Beleza Americana, outra crônica amarga sobre a vida no subúrbio. A diferença entre Beleza Americana e Foi Apenas um Sonho é que este não abre espaço nem para uma pontinha de redenção (o primeiro oferecia isso, ainda que depois da morte, e com uma boa pontuação de humor ao longo do filme). A visão de Sam Mendes vai na linha "essa vida é tudo de ruim".

Ainda assim, há algo de muito interessante em Foi Apenas um Sonho, e isso é mérito do casal de protagonistas - quando eles sonham com suas mudanças, você acredita; quando dizem se odiar (mesmo se amando), você lamenta. Quando rumam para o fim, você fica olhando para o nada, pensando na vida em termos mais sérios do que gostaria. É impensável por que razão alguém acharia a atuação de Brad Pitt em Benjamin Button superior à de DiCaprio neste filme; é simplesmente uma escolha errada a indicação de Kate Winslet por O Leitor, ao invés desta atuação arrebatadora.


Veja o trailer de Foi Apenas um Sonho. E vá ao cinema!



Foi Apenas um Sonho faz parte da tradição de grandes filmes que estudam a incapacidade humana em manter um relacionamento adulto com um mínimo de estabilidade. Closer, de Mike Nichols, Domicílio Conjugal, de François Truffaut, e metade dos filmes do Woody Allen tratam desse tema com estilos diferentes e igual sucesso.

Mas o filme que mais conversa com Revolutionary Road é Two for the Road (aqui, Um Caminho para Dois), de 1967, dirigido por Stanley Donen. O filme traz Albert Finney e Audrey Hepburn como o casal que enfrenta a crise após dez anos de relacionamento. O cenário, ao invés do lar, é uma viagem pelo sul da França. Os problemas enfrentados, os mesmos (filhos que vieram antes do que se esperava, traições etc). A grande diferença, no entanto, está na maturidade para encarar os problemas e o desafio da vida a dois: enquanto o jovem Sam Mendes e seus personagens com sonhos ainda juvenis rumam para um fim trágico, os mais rodados Donen, Finney e Hepburn permitem-se rir um pouco da situação e buscam o melhor caminho para tocar a vida em frente.

Resumindo: acho que Sam Mendes, quando tiver cinquenta anos, pensará em fazer outro filme com o mesmo tema, mas com um pouco mais de sabedoria, coisa que ele hoje toma por "comodismo". Se fizer isso, ganharemos todos. Ele terá feito outro ótimo filme, valorizando ainda mais a sinceridade de Foi Apenas um Sonho.

E aí, talvez, o Oscar se lembre dele novamente.

Marcadores: , , ,

Assinar
Postagens [Atom]

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009 - 3 Comentários

Estamos a pouco menos de um mês do Oscar, a premiação mais famosa do cinema. A cerimônia deste ano cairá bem no domingo de Carnaval. Há tempo mais que suficiente para ver todos os filmes que interessam, estourar a pipoca e se sentar na frente da TV, para acompanhar a transmissão da TNT (a Globo, deliberadamente, resolveu não exibir o Oscar deste ano).

Por enquanto, o que tem causado mais polêmica são os "esquecidos" do Oscar, aqueles bons filmes e atores que não receberam indicações.


Dentre eles, o que faz mais barulho é o italiano Gomorra, sobe a máfia napolitana. Grande destaque não-americano do ano, o filme foi ignorado pela Academia. Na sequência, grandes nomes, como Martin Scorsese e Meryl Streep fizeram declarações na linha "isso é ridículo".

Mas mais importante - e mais desagradável - é o esquecimento de Batman - Cavaleiro das Trevas. O filme, que foi o grande blockbuster de 2008, destacou-se por ir muito além de mera distração de verão - trazia bom roteiro, ótima direção e grandes atuações, especialmente do finado Heath Ledger, como Coringa (este, devidamente indicado a melhor ator coadjuvante). Mas o longa foi ignorado nas principais categorias.
















No tapete vermelho do Oscar, o Batman está barrado - só o Coringa tem lugar...


No que diz respeito aos atores, há duas injustiças flagrantes:

1) Sally Hawkings, que ganhou o Globo de Ouro por seu adorável papel de professora primária londrina que leva a vida como criança em Simplesmente Feliz, não foi indicada ao Oscar de melhor atriz. Em seu lugar, a enésima indicação de Meryl Streep (ou dão logo mais uns prêmios pra ela, ou param de indicá-la por QUALQUER trabalho!), a inclusão de Melissa Leo e a condescendência com Anne Hathaway, que teve seu primeiro papel sério em O Casamento de Rachel. A coisa fica muito chata quando não há pelo menos uma indicação de um papel leve e engraçado (e, de quebra, comovente), como o de Sally.




Veja o trailer de Simplesmente Feliz, um dos bons filmes ignorados pelo Oscar.


2) Leonardo DiCaprio, que, desde que esnobou o Oscar em 1998 (por não ter sido indicado por Titanic), passou a ser objeto de retaliação da Academia. Sua não-indicação por Os Infiltrados, há dois anos, já foi algo incômoda (embora ela tenha sido indicado por Diamantes de Sangue). Mas, agora, após a melhor atuação da sua carreira em Foi Apenas um Sonho, é realmente estúpido não vê-lo na lista de indicados a melhor ator. Nela, encontram-se Brad Pitt, por uma atuação correta e satisfatória (mas não mais do que isso) em O Curioso Caso de Benjamin Button, Mickey Rourke, que empresta sua aparência bizarra a um papel bizarro em O Lutador, e Sean Penn, que está atingindo aquele estágio-Meryl-de-carreira, em que é indicado por qualquer papel dramático que faça. Qualquer um dos três poderia ter cedido o espaço para a indicação de DiCaprio.














DiCaprio e Kate Winslet no ótimo Foi Apenas Um Sonho. Aguarde a resenha, aqui no Blogie!


Falando nele, sua parceira em Foi Apenas um Sonho, Kate Winslet, recebeu mais uma indicação a melhor atriz, mas não por esse filme (é uma pena, pois ela está ótima e ganhou o Globo de Ouro por ele) e sim por O Leitor (pelo qual ela também ganhou um Globo de Ouro, mas como coadjuvante). Parece-me uma bela maneira de evitar que Kate ganhe o Oscar, que já deve ter o nome de Angelina Jolie talhado em sua base. O circo está armado.

Enfim, durante as próximas semana, BLOGIE vai postar uma série de comentários sobre os principais indicados, palpites sobre a premiação e curiosidades históricas da premiação.

Fique de olho!




Marcadores: ,

Assinar
Postagens [Atom]

domingo, 11 de janeiro de 2009 - 2 Comentários

Acaba de acontecer a entrega anual dos Globos de Ouro - aquele prêmio que traz tantas celebridades quanto o Oscar, com a vantagem de ter roteiro mais solto, clima mais informal e senso de humor mais ácido. E, para os famosos presentes, rola uma boca livre e bebida a rodo. O que retroalimenta o sistema e faz a coisa ficar mais engraçada.

BLOGIE prestigia esse tipo de evento e se diverte com as piadas, os discursos e tudo mais. E lista os pontos altos da festa:

1- Bruce Springsteen vence Clint Eastwood

O Boss foi indicado para o prêmio de melhor canção, por O Lutador (filme que traz o retorno retumbante de Mickey Rourke - assunto para daqui a pouco). Outro indicado era Clint Eastwood, que sempre compõe as músicas para seus filmes. Bruce ganhou. E observou, para riso geral do público milionário: "é a primeira vez que sou indicado para um prêmio contra Clint Eastwood". Clint não riu. Briga de gente grande.

2- Heath Ledger ganha Globo de Ouro póstumo

Como se esperava, o prêmio de melhor ator coadjuvante ficou para o finado Heath Ledger, pelo seu desempenho assombroso como Coringa em Batman - Cavaleiro das Trevas. Cristopher Nolan, o diretor do filme, recebeu o prêmio e fez um discurso sóbrio e breve. Evitou-se, assim, aquele sentimentalismo mais brega. Que deve dar as caras no Oscar, é muito provável.


3- Kate Winslet começa a virar lenda

Faz tempo - uns oito anos - que Kate Winslet é a melhor atriz da sua geração. Conseguiu se livrar do estigma de ser "a moça de Titanic," e já acumula nove indicações ao Oscar. Mas ainda lhe faltam prêmios, que servirão no futuro como indicador do seu enorme talento. Isso começou a mudar hoje, com dois Globos de Ouro em uma única noite: melhor atriz coadjuvante, por O Leitor, e melhor atriz, por Foi Apenas um Sonho - este, batendo Meryl Streep e a favorita Angelina Jolie. Kate deu uma pirada no discurso, pois este foi um prêmio inesperado. Ficou bem nervosa e reiterou seu amor pelo colega de cena no filme (e de estrelato), Leonardo DiCaprio.
























Kate recebe o primeiro de seus dois Globos de Ouro.

No futuro, esses prêmios virarão números, assim como aquela penca de indicações e prêmios da Meryl ou do Jack Nicholson. Sim, eu acho que ela é tão boa assim.

4- Laura Linney também!

A principal concorrente de Kate como maior atriz do momento é Laura Linney, que já foi indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro algumas vezes, mas que ainda não tinha levado nada de destaque. Hoje, Laura levou um Globo de Ouro de melhor atriz em série de TV, por John Adams, da HBO. É só o começo.

5- Tina Fey chuta rabos

Ela deu nome aos bois e citou os desafetos que falam mal dela na Internet, mandando um "you can suck it" pra cada um deles. Foi ovacionada, mais por sua famosa imitação da Sarah Palin, durante a campanha presidencial do ano passado, do que pelo seu trabalho premiado (a série 30Rock).

5- Spielberg ganha o prêmio pelo conjunto da obra

... E quem merece mais do que ele um prêmio pelo conjunto da obra? Steven Spielberg é um nome tão forte, tão consagrado, que a gente às vezes se esquece de que ele é um gênio absoluto. Na introdução ao prêmio, o amigo Martin Scorsese colocou Spielberg entre os grandes inventores/reinventores do cinema. E é mesmo. Se temos telas grandes, som digital e dezenas de salas de cinema em qualquer shopping center, devemos boa parte dessa dádiva ao diretor de Tubarão, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, E.T., Indiana Jones, A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan, Prenda-me se for Capaz e tantos outros.

6- Slumdog Millionaire pinta como favorito ao Oscar

Até aqui pouco comentado (aqui no Brasil), o filme de Danny Boyle (o mesmo diretor de Trainspotting) ganhou os prêmios de melhor roteiro, melhor diretor e melhor filme dramático. Torna-se o mais provável "filme do ano". Trata de um rapaz pobre indiano que tem a chance de ganhar uma grana no programa de TV Who Wants to Be a Millionaire?, enquanto tenta recuperar a namorada. O elenco é essencialmente indiano, composto por estrelas de Bollywood (a única indústria cinematográfica que faz algum tipo de paralelo com o cinema americano).


Veja o trailer de Slumdog Millionaire!

Pelo tanto que foi ovacionada pela platéia de famosos milionários, parece ser mesmo o grande favorito ao Oscar. A conferir!


7- Momento trash: Mickey Rourke ganha um Globo de Ouro

Se essa notícia fosse publicada em meados dos anos 80, o leitor acharia que se tratava de piada de 1º de abril. Mas estamos em 2008, o cara está com um look que faz o Capitão Jack Sparrow parecer uma menininha colegial e, aparentemente, fez um grande trabalhoem The Wrestler. O filme, que mostra a volta de um lutador à ativa, traz Evan Rachel Wood e Marisa Tomei. Tem a música de Bruce Springsteen, a quem Rourke agradeceu em seu discurso. Outro citado no discurso foi Axl Rose, que levantou uma grana para a produção do filme. Enfim, momento sui generis.



É isso. O filme que todos esperavam ser o grande premiado, O Curioso Caso de Benjamin Button, não levou nada e perdeu força na briga pelo Oscar.

Leiam, aqui no BLOGIE, as resenhas sobre cada um dos principais filmes indicados e premiados no Globo de Ouro e, provavelmente, no Oscar. A partir desta semana!




Marcadores: , ,

Assinar
Postagens [Atom]

domingo, 14 de dezembro de 2008 - 0 Comentários

Com a definição dos indicados ao Globo de Ouro (nesta quinta, 11/12), foi dado início à temporada de corrida ao Oscar. Isso significa que começamos a ouvir e a criar expectativa sobre os melhores filmes do ano - filmes que estão estreando agora nos EUA, e que chegarão no Brasil entre o fim do ano e fevereiro.

Entre os indicados ao Globo de Ouro, algumas considerações são importantes:

1- Heath Ledger vai mesmo ganhar uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante pela sua assombrosa atuação como Coringa, em Batman - o Cavaleiro das Trevas. Mais um passo numa carreira póstuma que caminha para virar uma lenda, estilo James Dean.
















Heath Ledger, o cara com maior potencial para James Dean ou Jim Morrison do novo milênio.


2- Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, levou quatro indicações ao Globo de Ouro, e deve ganhar o prêmio de melhor filme comédia ou musical. Rebecca Hall foi indicada para melhor atriz; Javier Bardem, melhor ator; e Penélope Cruz, atriz coadjuvante. Provavelmente, para o Oscar só essa última vingará. Uma pena!

3- O Curioso Caso de Benjamin Button desponta como favorito ao Oscar. O filme, baseado num conto fantástico do escritor americano F. Scott Fitzgerald (o preferido deste blogueiro), traz Brad Pitt como o homem que nasce velho e vai rejuvenescendo até morrer bebê. Pitt deve entrar forte na concorrência pela estatueta de melhor ator. E a coisa toda é dirigida pelo David Fincher (Clube da Luta)... Alta expectativa!

4- Outro filme forte parece ser Foi Apenas um Sonho. Dirigido por Sam Mendes (Beleza Americana), é um filme sobre relacionamento adulto, e traz a reedição do casal mais manjado da história do cinema (feito conquistado em apenas um filme): Leonardo DiCaprio e Kate Winslet. Ambos foram indicados ao Globo de Ouro, assim como o filme. Coisa que deve se repetir no Oscar. Expectativa!

5- The Reader, do Stephen Daldry (As Horas e Billy Elliot), é o outro forte concorrente para melhor filme. Com Ralph Fiennes e Kate Winslet (novamente indicada, desta vez na categoria de coadjuvante). Não parece ser um dos filmes mais viris do ano mas, enfim, um pouco de delicadeza não faz mal a ninguém...

6- Sean Penn será indicado mais uma vez para melhor ator, mas o seu filme, Milk, que traz a história real de um político militante gay, parece ter perdido fôlego: levou só essa indicação - a de ator - para o Globo de Ouro.

7- Angelina Jolie é favorita para melhor atriz, pela sua atuação no novo filme de Clint Eastwood (a boa fase do velho não acaba!), A Troca. Não li muito sobre o filme, mas parece se tratar da história real de uma mãe dos anos 20 cujo filho fora raptado e devolvido anos mais tarde - mas aí ela percebe que a criança que recebeu não é seu filho verdadeiro. É a grande estrela de Hollywood do momento, em uma atuação forte, em um filme de grife (Eastwood). Aposto que nem a Meryl Streep bate.



















Angelina e Eastwood: combinação difícil de ser batida.


8- Mas Meryl ampliará seu recorde de indicações por sua atuação em Doubt. Do mesmo filme, outra indicação: Amy Adams (na opinião deste BLOGIE, a melhor e mais bonita atriz da nova geração de Hollywood), para atriz coadjuvante.

Resumindo: tem um monte de filme bom pra estrear nos próximos dois meses. BLOGIE assistirá a todos antes da estréia e trará os comentários para ajudar o leitor a programar a ida ao cinema!

Marcadores: , ,

Assinar
Postagens [Atom]

Publicidade