quinta-feira, 13 de novembro de 2008 - 3 Comentários
Só o amor incompleto pode ser romântico.
Esta é a máxima de Maria Elena, a personagem de Penélope Cruz no novo filme de Woody Allen, que estréia nesta sexta (14 de novembro) nos cinemas brasileiros.
A frase resume bem o espírito do filme, mas não explica a coisa toda. Para entender o pensamento desesperado de Maria Elena, é necessário mergulhar na gangorra de felicidades e angústias que balança durante as duas mais que agradáveis horas de Vicky Cristina Barcelona. 
Woody Allen dirige seu elenco dos sonhos: Scarlett Johansson, Penélope Cruz e Javier Bardem.
Em ritmo de diário de viagem, Allen escolheu Barcelona como o cenário quase surreal para esta trip emocional de duas amigas americanas que passam o verão na bela capital catalã. Muita gente acusou Allen de mostrar uma Barcelona de cartão postal, não revelando "o verdadeiro espírito catalão", etc... mas esse é exatamente o ponto de vista escolhido: o que vemos é a Barcelona de turista, da catedral do Gaudí e outros pontos manjados, e ela é exótica e romântica o suficiente para estabelecer um pano de fundo atraente para a busca de cada personagem.
Cristina só sabe o que não quer (logo, tenta um pouco de tudo)
No que diz respeito ao conteúdo, o filme mantém parentesco com outra obra madura de outro grande diretor americano: Closer - Perto Demais, de Mike Nichols. Ambos tratam da incapacidade de seres humanos adultos cultivarem e manterem relacionamentos sadios, estáveis e felizes. A diferença está no olhar: enquanto Nichols deu sabor amargo à sua peça, creditando a tal incapacidade à necessidade patológica de mentir e buscar o que não se tem, Allen prefere ser mais condescendente, sendo até simpático aos defeitos e inconstâncias de seus personagens. Para ele, as pessoas nunca sabem o que querem - só sabem o que não querem.
E este é o lema da Cristina do título - Scarlett Johansson, evoluindo mais um pouco na personificação do alter-ego do diretor (insegura quanto ao próprio talento, verborrágica, gesticulante). É com ela que Allen se identifica, e é nela que ele projeta a culpa por pertencer a uma cultura materialista (leia-se "americana"), o sentimento de impotência perante à exuberância da arte européia e a falta de respostas para as grandes questões da vida.
Aos sábios europeus - no caso, Javier Bardem, divertindo-se num papel canastrão, e sua ex-esposa Maria Helena -, cabem as respostas definitivas e o olhar pretensamente leve sobre a vida e os relacionamentos. Com resultados igualmente inócuos: Bardem, como um artista plástico sedutor, não consegue se livrar do impacto da ex-esposa, mimetizando até seu estilo de pintura. Já a personagem de Cruz, embora talentosa, inteligente e linda, não consegue se assentar com o homem que ama - e que a idolatra. Para ela, sempre falta um ingrediente - e, pelo menos por um tempo, o ingrediente é encontrado na insegura Cristina.
E aí entra aquela tal cena, da qual todos ouvimos falar, em que Scarlett Johansson e Penélope Cruz se beijam. É uma cena bonita, bem feita, "quente" em sua cor vermelha e tudo mais... mas não é tudo aquilo que promete ou que poderia render. Não é isso que deixará Vicky Cristina Barcelona na história.
Vicky sabe o que quer, mas prefere não mexer com essas coisas
Quem realmente rouba o filme é a Vicky do título, Rebecca Hall (de O grande truque). Trata-se de uma atriz carismática e de nuances, em uma performance menos histérica do que a de Penélope Cruz, mas mais talentosa. Vicky, da dupla de turistas americanas, é quem mantém a cabeça no lugar, reprimindo seus impulsos e apostando na estabilidade das convenções sociais e no racional - angariando a mesma infelicidade e sensação de amor incompleto dos outros.
Ela se envolve, como parece inevitável para qualquer mulher que tenha passado a alguns quilômetros de distância do set do filme, com o tal pintor sedutor vivido por Bardem. Opta por manter seu noivado com um jovem executivo americano, retratado como um babaca previsível - mas no fundo, uma boa pessoa.
Todos falam de Scarlett e Penélope, mas Rebecca Hall entrega a melhor atuação do filme.
No final, todos os personagens - desde os principais até os secundários, como o pai octagenário de Bardem ou os tios abastados de Vicky - podem atestar as duas frases que resumem a impotência e a angústia das enamoradas Cruz e Johansson: ninguém sabe o que quer; só o que não quer. E só o amor incompleto pode ser romântico. Por conseqüência, nunca se atinge a felicidade plena: o que se tem é uma busca constante, esperançosa e angustiante pelo relacionamento perfeito.
E é nessa sensação de entrega e dúvida que se vive a vida. Durante o verão de Vicky e Cristina em Barcelona, é isso que fazemos: vivemos a vida, esperançosos e angustiados, mas plenos e esplendidamente humanos.
Marcadores: cinema, estréias, mulheres, Penelope Cruz, Scarlet Johansson
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Ricardo Garrido mostra que filme bom não precisa ter função social nem agradar crítico besta. O blogueiro preenche as horas vagas com muitos filmes, exceto quando não está nas arquibancadas da Fiel. O Coringão voltou!




