quinta-feira, 3 de setembro de 2009 - 7 Comentários

Outro dia, num almoço, uma jovem colega, nos seus vinte e poucos anos, chocou os comensais ao afirmar que ela não conhecia Os Goonies. Eu fiquei estupefato. Como alguém pode ter atravessado a pré-adolescência sem ter conhecido Mike, Bocão, Bolão, Dado? Sem ter se divertido com Sloth, o monstro bonzinho? Sem ter ficado na dúvida se Mamma Fratelli é mulher ou homem? Sem ter se apaixonado por Andy (Keri Green), estrategicamente um pouco mais crescida do que a molecada do filme (e da plateia)?

Enfim, ser um Goonie é algo a que todos os moleques de doze anos aspiraram, pelo menos na minha geração.

De quebra, lembrei-me de que o filme, dirigido por Richard Dooner a partir de história de Steven Spielberg, conta com uma das melhores cenas de abertura de todos os tempos.

O que me obriga a pensar na lista de melhores cenas de abertura de todos os tempos. Este é um dos meus temas preferidos, então não vou fechar em uma lista nem colocar em um ranking. Vou simplesmente listar as cenas de abertura inesquecíveis. À medida que eu for me lembrando, vou listando... espero que se divirtam!

Pra começar: três filmes bem diferentes e excelentes, todos com cenas de abertura não menos do que inesquecíveis.

Pulp Fiction: assaltos, um bom assunto para o café-da-manhã



O segundo filme de Quentin Tarantino tornou-se simplesmente o filme mais importante da década de 90. E todo o seu espírito e suas virtudes são apresentadas em um preâmbulo interessantíssimo, sem personagens principais e sem relação (aparente) com a trama. Um casal discute, num restaurante - enquanto toma seu café-da-manhã -, sobre suas perspectivas como assaltantes. O risco de levar um tiro, problemas logísticos durante o assalto, o dilema entre tomar a carteira dos clientes ou ficar só com a grana da loja... Tudo é discutido numa tranquilidade, dando o tom da violência banalizada que caracterizaria o filme e um monte de imitações que vieram depois. Os diálogos inspirados de Tarantino estão ali, como a observação da garçonete ("Garçon means boy!"). De repente, eles explodem, numa tempestade de palavrões e armas e baba pulando pra fora das bocas - e entra a abertura, com letras garrafais e o som de Dick Dale anunciando que Tarantino é um cara talentoso e esperto, e que ele estava fazendo história. Sensacional.


Carruagens de Fogo: heroísmo esportivo em escala gigante



É assim que se começa um filme: sem letreiro, nem nada. Uma rápida cena em um funeral. Um velhinho discursa em memória ao amigo que morreu. Ele termina a fala dizendo que se lembra como se fosse ontem de um grupo de jovens, do qual só sobravam ele e mais um vivos - "um formidável grupo de jovens, com sonhos no coração e asas nos calcanhares"... e corta para o tal grupo, correndo na praia - era a delegação de atletismo inglesa, se preparando para as Olimpíadas de 1920. A música de Vangelis irrompe em sua melodia perfeita, enquanto todos os personagens principais são apresentados. Duas consequências históricas: 1) Carruagens de Fogo, a música, tornou-se hino dos jogos olímpicos para sempre; 2) Carruagens de Fogo, o filme, ganhou Oscar de melhor filme em 1981.


Os Goonies: simplesmente a melhor abertura!























Essa, eu fico devendo. Não apareceu uma boa alma para postar a sequência de abertura de Goonies no You Tube. Uma pena, porque é uma aula de cinema: uma única ação - a fuga de uns bandidos da cadeia - serve para apresentar, um a um, todos os personagens principais e secundários da trama, bem como o ambiente onde se passará o filme (uma periferia decadente na California). Créditos, música e contexto - lanchonetes, fliperamas, malhação caseira, aparelhos de som - ajudam a formar um verdadeiro inventário pop dos anos 80.

Para quem nunca assistiu: não desperdice mais um dia de sua vida sem conhecer Os Goonies.

Para quem já viu dezenas de vezes, no cinema, no vídeo-cassete e na Sessão da Tarde: veja novamente e perceba como o filme, além de despertar aquela nostalgia, se revelará cinema de gente grande, com roteiro perfeito, ótimos personagens, edição inacreditável e produção impecável.

Porque fazer filme de matinê já foi atividade muito séria, a cargo de gente muito competente. Ave, Spielberg.

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segunda-feira, 13 de julho de 2009 - 0 Comentários

Como não tive sucesso preparando a lista dos DVDs essenciais para este Dia Mundial do Rock, aproveito para celebrar meu fracasso falando sobre o melhor filme roqueiro que nunca foi lançado em DVD: Febre de Juventude, um clássico da Sessão da Tarde que, se você tiver mais de trinta anos, deve conhecê-lo bem e ter saudades...
















Você não se lembra dessa turma? Calma, já explico...

Relembrando ou explicando a quem nunca conheceu: Febre de Juventude é uma produção de 1978, ideia da cabeça do já milionário Steven Spielberg (ele estava entre Tubarão e Contatos Imediatos do Terceiro Grau). Foi roteirizado e dirigido por Robert Zemeckis, que depois ganharia fama, fortuna e prêmios por De Volta Para o Futuro e Forrest Gump.

Interessante, não?

Mas fica melhor: o filme tem por nome original I Wanna Hold Your Hand. Começa com a tela negra, onde se lê: "New York City - Sábado, 8 de fevereiro de 1964". E tome locação externa. No coração da Big Apple, policiais preparam a rua para receber uma multidão, colocando cavaletes. Um homem, na fachada de um auditório da emissora CBS, conserta o letreiro, trocando uma letra "E" no meio de uma palavra por uma letra "A" e, então, se lê na tal fachada: "The Beatles". Do lado de dentro, um famoso apresentador de TV (Ed Sullivan) ensaia o texto que será usado para apresentar a maior atração da história do seu programa, que seria exibido ao vivo no dia seguinte.

E aí entra I Wanna Hold Your Hand, a música, tendo como fundo aquelas deliciosas e famosas cenas dos Beatles desembarcando nos EUA pela primeira vez, embasbacados com a multidão e a demência generalizada, depois dando show de carisma e bom humor na primeira entrevista coletiva, na qual responderam a perguntas como "vocês sabem cantar?" e "vocês vão cortar o cabelo?" com uma ironia e uma euforia simplesmente nova para os americanos - e para o mundo.















George diz ter cortado seu cabelo ontem. John levanta a lebre de que todos são carecas. Ringo rebola, dizendo que ele dança, como forma de compensar a suposta falta de talento de John Lennon, Paul McCartney e George Harrison como cantores (!). Foi assim que os EUA conheceram os Beatles.


O filme, no entanto, não é sobre os Beatles. Essas cenas são as únicas que trazem os rapazes de Liverpool. A partir do final dos créditos iniciais, passamos a acompanhar a saga de uma turma de jovens de New Jersey que faz de tudo - repito: de tudo - para conseguir ver os Beatles ao vivo.

Febre de Juventude é isso: 24 horas na vida de cinco jovens americanos - e ao mesmo tempo de todos os jovens do mundo -, a partir da chegada de quatro rapazes no aeroporto, até o final do programa de TV em que eles apareceram. O programa que se notabilizou por ser a maior audiência da história da TV americana, ao longo do qual se registrou o menor índice de crimes, e mais um monte de outras lendas.

24 horas que, sem exagero, mudaram o mundo.

Um ótimo registro histórico, um filme vibrante e juvenil, uma trilha sonora na linha "melhor é impossível", formada pelos dois primeiros discos dos Beatles.

E tem a cena inesquecível de Nancy Allen (que seria esposa e musa do Brian DePalma em Vestida para Matar e Um Tiro na Noite) escondida na suíte dos Beatles, embaixo da cama, ouvindo a conversa dos caras, que jamais aparecem. Um momento marcante da infância de qualquer um que tenha visto o filme (e que, no mínimo, acabou fazendo deste blogueiro mais um beatlemaníaco no mundo).














A fantasia de uns era estar no lugar da Nancy Allen; de outros, no lugar do pé do Paul McCartney.

Por que não lançam em DVD, não sei. Mas eu fui atrás e consegui um exemplar, que tratei de ver ontem mesmo. Hoje, sou uma pessoa mais feliz.

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