quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010 - 0 Comentários
Uma das coisas que mais me agradam no cinema dos anos 70 é o apetite com que se caía de pau em instituições. A geração de cineastas jovens, barbudos e rebeldes atacava geral. Subversão. Sobrava pra todo mundo nos três poderes.
No executivo, por exemplo, era alvo todo mundo desde a polícia (Serpico) até o presidente dos EUA (Todos os Homens do Presidente). Bureaus de informação não tinham nada de heroicos ao perseguir gente bacana como o personagem de Robert Redford em Três Dias do Côndor. Já o exército começou a década sendo ridicularizado por Robert Altman em MASH e terminou retratado como o horror nos olhos de Marlon Brando em Apocalipse Now.
O legislativo ganhou, num exercício de fantasia - e ao mesmo tempo numa crítica feroz -, um candidato a senador que tentava se colocar à margem da corrupção e das sacanagens de campanha, em O Candidato.
Não por acaso, três dos filmes citados acima - Todos os Homens do Presidente, Três Dias do Côndor e O Candidato - foram estrelados por Robert Reford. Além de engajado e comprometido com valores liberais, o cara era o grande galã de Hollywood, o maior astro da década.
Mas o grande ator da década foi outro cara - uma rapaz franzino, que veio do teatro, meio feioso e com um nome nada atrativo - Alfredo.
Al Pacino (nunca se perguntou de onde vinha esse "Al"?) ganhou a chance de sua vida ao pegar o papel de Michael Corleone em O Poderoso Chefão (os executivos do estúdio, adivinhem só, queriam Robert Redford para o papel), e enfileirou uma série de trabalhos antológicos, que o colocam à frente de colegas que também viveram o auge nos anos 70 (Jack Nicholson em Estranho no Ninho e Chinatown; Robert DeNiro em Taxi Driver e Touro Indomável). Pacino partiu do primeiro Chefão para o segundo, e dali para Serpico, e então para Um Dia de Cão...
... e finalmente chegou a 1979, como o advogado íntegro até a medula, Arthur Kirkland, em ...E Justiça Para Todos, um dos melhores filmes de tribunal de todos os tempos (só lhe fazem frente Doze Homens e Uma Sentença e O Sol é para Todos). Aqui, o alvo é o poder judiciário, e a artilharia é elegante e de alta precisão.
Al Pacino como Arthur Kirkland: um advogado honesto sozinho num mundo corrupto.
Kirkland é um advogado de ética inabalável, mergulhado no seu trabalho, dotado de uma energia inesgotável e uma devoção absoluta. Sua atuação em tribunal e sua dedicação aos seus clientes é vibrante. No entanto, dentro do pequeno universo que se encerra nos tribunais de sua cidade, ele é obrigado e enfrentar "o sistema". "O sistema", você sabe, é tudo aquilo que impedia que pessoas do bem - presumivelmente, aquelas identificadas com os democratas, ou com simpatia por valores socialistas, ou simplesmente jovens... o mundo era fácil de entender antes da queda do muro de Berlim - se dessem bem. No caso de Kirkland, "o sistema" era um juiz durão que lhe pegava no pé com seu legalismo intransigente.
Este é um ponto central do cinema dos anos 70: nenhuma instituição é boa. Nem a bandeira americana, cujo juramento promete "uma nação vigiada por Deus, indivisível, com liberdade e justiça para todos". No caso, a aplicação a ferro e fogo de uma minúcia da lei acabou mandando um inocente para a cadeia. O juiz era o cara durão. O advogado de defesa, Al Pacino. E aí, você já imagina, o bicho vai pegar.
E pega mesmo. Pacino, fazendo o cara sedutor e boa praça mais improvável da história do cinema, traça a advogada mais interessante da casa, descola dela informações quentes, troca favores com seus advogados brothers e se vê no meio de uma confusão (o tal juiz durão foi acusado de estupro e ele, Pacino, é obrigado a defendê-lo).
Veja o trailer de ...E Justiça Para Todos!
A luta do advogado para tirar seu cliente inocente da cadeira - e para se livrar do cliente culpado, que é o juiz safado - se mostrará complexa, pesada, inglória. Ele acabará enxergando a possibilidade de usar o sistema contra o próprio sistema. Defenderá o juiz, com a condição de que este tire o tal rapaz do xilindró.
Após muitas negociações e demonstrações de que o judiciário americano é capaz de deixar qualquer um louco, o filme culmina numa sensacional cena de julgamento. Ao gosto subversivo do seu tempo, vemos o juiz caxias e arrogante no banco dos réus. Vemos um juiz de tendências suicidas comandando o espetáculo. E vemos Al Pacino, descabelado e desalinhado, com a pinta de maluco que lhe é peculiar, tomando o centro do palco e dando seu show.
O resultado é de lavar a alma.
O filme foi indicado a dois Oscars, melhor roteiro e melhor ator. Foi a quinta indicação de Al Pacino à estatueta durante aquela década, e a quinta esnobada da Academia. Quatro anos depois, ele ainda entregaria seu melhor trabalho, o antológico Tonny Montana de Scarface, para então rarear suas aparições no cinema por alguns anos - e voltar para finalmente buscar seu Oscar por Perfume de Mulher, já na década de 90.
É um tanto difícil encontrar ... E Justiça para Todos em DVD, mas é possível. Pelo menos o filme foi lançado. Serpico não teve a mesma sorte. Para vê-lo, só pescando nas madrugadas da TV a cabo.
... E Justiça Para Todos é daqueles filmes que nos restituem um pouco da pureza de intenções original, que nos lembram de como pensávamos em enfrentar o mundo e transformá-lo. E convida a mudar um pouquinho, ao dar um gostinho da satisfação de enfrentar e derrubar "o sistema".
Ou pelo menos arranhá-lo.
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Ricardo Garrido mostra que filme bom não precisa ter função social nem agradar crítico besta. O blogueiro preenche as horas vagas com muitos filmes, exceto quando não está nas arquibancadas da Fiel. O Coringão voltou!




