Filme VIP da semana: "Três Dias do Côndor", de Sydney Pollack
quarta-feira, 17 de março de 2010 - 0 Comentários
Outro dia, ao falar de ... E Justiça Para Todos, um filme de tribunal dos anos 70, falei sobre uma certa visão do cinema daquela década segundo a qual todas as instituições são perversas. Política, polícia, exército, tribunais, não sobra ninguém.
A CIA não poderia ficar de fora dessa festa. E é ela o tema de Três Dias do Côndor, thriller sensacional de Sydney Pollack, um exemplo de roteiro recorrente em qualquer manual do ramo e, acima de tudo, ícone de estilo de uma década meio largadona.
Robert Redford, ator preferido de Pollack (ele estrela vários outros filmes do diretor, como Mais Forte que a Vingança, O Cavaleiro Elétrico, Entre Dois Amores, Nosso Amor de Ontem e Havana), era o maior astro do cinema em 1975, e foi escalado para viver Joseph Turner, o ingênuo burocrata da CIA que se vê no centro de uma conspiração.
Ele chega de bicicleta, indiferente e romântico numa Nova Iorque suja e movimentada. Chega ao seu ambiente de trabalho - um escritório da CIA disfarçado de biblioteca -, dá um beijo na sua namorada sino-americana, faz umas piadas, conta com a tolerância do chefe. Um cara bacana. Descobrimos que suas atribuições se resumem a ler livros, revistas e jornais em várias línguas, tentando encontrar mensagens cifradas que podem interessar aos detetives da agência.
O chefe não dá muita bola para seu último relatório - está mais interessado nos sanduíches que servirão de almoço. Manda Turner buscar o rango. O rapaz sai pela porta dos fundos, para fugir da chuva. Ao voltar, Turner encontra todos seus seis colegas de trabalho mortos. Desnorteado, sem saber para onde ir, liga para a central da CIA e tenta se virar. Tem dificuldade para se lembrar do seu codinome, Côndor, e simplesmente não tem nenhum jeito pra coisa da vida clandestina e aventureira de agente secreto. Recebe orientações confusas e, aos poucos, vai entendendo que está sozinho - o mando dos assassinatos parece ter partido de dentro da CIA e, pra piorar, ele, o Côndor, é o alvo principal.
O que se segue é uma sequência de situações de vida e morte, nos becos de Nova Iorque e dentro das Torres Gêmeas (que eram novinhas!), situações que Turner procura, meio sem querer, porque simplesmente quer encontrar a verdade. Ele não quer se safar, nem ajudar a CIA nem nada: quer apenas descobrir o porquê de tudo.
É uma situação clássica dos anos 70: o homem enfrentando sozinho o sistema. E o homem, no caso, é um aspirante a escritor, puro de coração, boa praça - provavelmente, um democrata enrustido no meio da organização. Ele sequestra, numa boa, a Faye Dunaway - que acaba o ajudando de bom grado, e vai se aproximando do xis da questão. No caminho, terá que usar seus conhecimentos técnicos e sua capacidade de análise para driblar seus superiores na CIA e um assassino de aluguel sinistro (que não sai do seu encalço).
O resultado é magistral, não se percebe o tempo passando - e não se desgruda da cadeira-, até chegarmos à exemplar cena final, que aproveita para colocar em xeque um dos pilares da democracia americana, em plena Times Square.
O mais interessante de tudo é que, diferente dos thrillers atuais, Três Dias do Côndor conta com um personagem central bem completo, de carne e osso. O Turner de Robert Redford é um homem talentoso, vaidoso, insatisfeito com o anonimato de sua profissão (logo no início, ele se queixa para o chefe de não poder revelar seu trabalho para os amigos - "me atrapalha"). Veste-se bem, com paletós bacanas, malhas de gola redonda e gravata com o nó cuidadosamente desleixado. E calça jeans desbotada, claro. Uma aula de estilo 70s. Mais à frente, na casa de Kathy (a personagem sequestrada de Dunaway), ele dará uma olhada nas camisas do namorado da moça, mas, percebendo que os colarinhos são largos demais, as rejeitará, sob o comentário "qual a profissão desse cara? Palhaço?"
Redford: símbolo de estilo nos anos 70. Eu tenho a manha de ir trabalhar assim. Hoje.
Agora, se há uma cena que todo homem DEVE assistir, é a cena em que Turner, o Côndor, está cansado após dois dias de perseguição e precisa de um pouco de paz para descansar e botar as ideias em ordem. E aí ele negocia com sua refém uma rápida sessão de sexo. Para isso, ele usa apenas argumentos racionais (nada de romantismo, "te curti pra caramba", nada disso), sua pinta de Robert Redford e a sinceridade revelada ao escancarar o esquema de que é vítima.
O resultado da argumentação do rapaz você vê abaixo, sob o som de Goodbye for Kathy, da trilha original do filme.
Nos anos 70, não bastava enfrentar as instituições: era necessário botar fé nas pessoas, como escreveu Woody Allen em seu Manhattan.
Um filme absolutamente imperdível, com trilha sonora cheia de classe, fotografia cuidadosa, protagonistas carismáticos e um roteiro assombrosamente ágil e fluido.
Marcadores: anos 70, cinema, Robert Redford, thriller
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Ricardo Garrido mostra que filme bom não precisa ter função social nem agradar crítico besta. O blogueiro preenche as horas vagas com muitos filmes, exceto quando não está nas arquibancadas da Fiel. O Coringão voltou!




