Blogie - Cinema na VIP

Filme VIP da semana: "Três Dias do Côndor", de Sydney Pollack

quarta-feira, 17 de março de 2010 - 0 Comentários

Outro dia, ao falar de ... E Justiça Para Todos, um filme de tribunal dos anos 70, falei sobre uma certa visão do cinema daquela década segundo a qual todas as instituições são perversas. Política, polícia, exército, tribunais, não sobra ninguém.

A CIA não poderia ficar de fora dessa festa. E é ela o tema de Três Dias do Côndor, thriller sensacional de Sydney Pollack, um exemplo de roteiro recorrente em qualquer manual do ramo e, acima de tudo, ícone de estilo de uma década meio largadona.

Robert Redford, ator preferido de Pollack (ele estrela vários outros filmes do diretor, como Mais Forte que a Vingança, O Cavaleiro Elétrico, Entre Dois Amores, Nosso Amor de Ontem e Havana), era o maior astro do cinema em 1975, e foi escalado para viver Joseph Turner, o ingênuo burocrata da CIA que se vê no centro de uma conspiração.



















Ele chega de bicicleta, indiferente e romântico numa Nova Iorque suja e movimentada. Chega ao seu ambiente de trabalho - um escritório da CIA disfarçado de biblioteca -, dá um beijo na sua namorada sino-americana, faz umas piadas, conta com a tolerância do chefe. Um cara bacana. Descobrimos que suas atribuições se resumem a ler livros, revistas e jornais em várias línguas, tentando encontrar mensagens cifradas que podem interessar aos detetives da agência.

O chefe não dá muita bola para seu último relatório - está mais interessado nos sanduíches que servirão de almoço. Manda Turner buscar o rango. O rapaz sai pela porta dos fundos, para fugir da chuva. Ao voltar, Turner encontra todos seus seis colegas de trabalho mortos. Desnorteado, sem saber para onde ir, liga para a central da CIA e tenta se virar. Tem dificuldade para se lembrar do seu codinome, Côndor, e simplesmente não tem nenhum jeito pra coisa da vida clandestina e aventureira de agente secreto. Recebe orientações confusas e, aos poucos, vai entendendo que está sozinho - o mando dos assassinatos parece ter partido de dentro da CIA e, pra piorar, ele, o Côndor, é o alvo principal.

O que se segue é uma sequência de situações de vida e morte, nos becos de Nova Iorque e dentro das Torres Gêmeas (que eram novinhas!), situações que Turner procura, meio sem querer, porque simplesmente quer encontrar a verdade. Ele não quer se safar, nem ajudar a CIA nem nada: quer apenas descobrir o porquê de tudo.

É uma situação clássica dos anos 70: o homem enfrentando sozinho o sistema. E o homem, no caso, é um aspirante a escritor, puro de coração, boa praça - provavelmente, um democrata enrustido no meio da organização. Ele sequestra, numa boa, a Faye Dunaway - que acaba o ajudando de bom grado, e vai se aproximando do xis da questão. No caminho, terá que usar seus conhecimentos técnicos e sua capacidade de análise para driblar seus superiores na CIA e um assassino de aluguel sinistro (que não sai do seu encalço).



O resultado é magistral, não se percebe o tempo passando - e não se desgruda da cadeira-, até chegarmos à exemplar cena final, que aproveita para colocar em xeque um dos pilares da democracia americana, em plena Times Square.

O mais interessante de tudo é que, diferente dos thrillers atuais, Três Dias do Côndor conta com um personagem central bem completo, de carne e osso. O Turner de Robert Redford é um homem talentoso, vaidoso, insatisfeito com o anonimato de sua profissão (logo no início, ele se queixa para o chefe de não poder revelar seu trabalho para os amigos - "me atrapalha"). Veste-se bem, com paletós bacanas, malhas de gola redonda e gravata com o nó cuidadosamente desleixado. E calça jeans desbotada, claro. Uma aula de estilo 70s. Mais à frente, na casa de Kathy (a personagem sequestrada de Dunaway),  ele dará uma olhada nas camisas do namorado da moça, mas, percebendo que os colarinhos são largos demais, as rejeitará, sob o comentário "qual a profissão desse cara? Palhaço?"

























Redford: símbolo de estilo nos anos 70. Eu tenho  a manha de ir trabalhar assim. Hoje.


Agora, se há uma cena que todo homem DEVE assistir, é a cena em que Turner, o Côndor, está cansado após dois dias de perseguição e precisa de um pouco de paz para descansar e botar as ideias em ordem. E aí ele negocia com sua refém uma rápida sessão de sexo. Para isso, ele usa apenas argumentos racionais (nada de romantismo, "te curti pra caramba", nada disso), sua pinta de Robert Redford e a sinceridade revelada ao escancarar o esquema de que é vítima.

O resultado da argumentação do rapaz você vê abaixo, sob o som de Goodbye for Kathy, da trilha original do filme.



Nos anos 70, não bastava enfrentar as instituições: era necessário botar fé nas pessoas, como escreveu Woody Allen em seu Manhattan.

Um filme absolutamente imperdível, com trilha sonora cheia de classe, fotografia cuidadosa, protagonistas carismáticos e um roteiro assombrosamente ágil e fluido.

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Gráfico doido: frases clássicas do cinema

Dica do brother Adriano Silva, do Gizmodo: o Flowing Data , um blog sobre design e estatística (e sobre a perfeita conjugação das duas coisas), preparou uma série de gráficos que retratam frases clássicas do cinema. Coisa de nerd? Sem dúvida, com muito orgulho.

Dá só uma olhada:


Se a resolução não estiver muito boa, cheque o original, no Flowing Data!


Agora, as frases correspondentes a cada gráfico (da esquerda para a direita):

1- "Frankly my dear, I don't give a damn." - Rhett Butler (Clark Gable), em ...E o Vento Levou



2- "I'm going to make him an offer he can't refuse." - Don Vito Corleone (Marlon Brando), em O Poderoso Chefão


3- "You don't understand! I could've had class. I could've been a contender. I could've been somebody, instead of a bum, which is what I am." - Terry Malloy (Brando novamente), em Sindicato de Ladrões


4- "Toto, I've got a feeling we're not in Kansas anymore." - Dorothy (Judy Garland), em O Mágico de Oz


5- "Here's looking at you, kid." - Rick Blaine (Humphrey Bogart), em Casablanca

Você sabia que este blog roubou seu nome do apelido do Humphrey Bogart? Veja aqui o post de estreia de BLOGIE...

6-  "Go ahead, make my day!" - Dirty Harry (Clint Eastwood), em Impacto Fulminante


7- "All right, Mr. DeMille, I'm ready for my close-up." - Norma Desmond (Gloria Swanson), em Crepúsculo dos Deuses


8- "May the Force be with you." - Han Solo (Harrison Ford), em Guerra nas Estrelas


Matematicamente, a mais interessante é a de Crepúsculo dos Deuses, pois traz uma lógica funcional clara. Mas a mais divertida e inteligente é a de Sindicato de Ladrões - ela explica ó grau de amargura e frustração do personagem do Marlon Brando. Trabalho de gênio, esses gráficos...

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Lista: rock no cinema

segunda-feira, 15 de março de 2010 - 4 Comentários

O rock'n'roll está associado ao cinema desde antes do seu nascimento. O padrão de comportamento e o vestuário básico dos primeiros roqueiros foi definido por Marlon Brando e James Dean em filmes como Sindicato dos Ladrões e Juventude Transviada, ambos lançados meses antes do do primeiro compacto de Chuck Berry. Já em 1956, acompanhando o frisson em torno do novo ritmo, o cinema faturou com The Girl Can?t Help It, filme que celebrizou (ou surfou na onda de) Little Richard, Eddie Cochran, Fats Domino e mais um monte de gente.


Veja o trailer do eufórico e orgulhoso veículo de divulgação do rock'n'roll: The Girl Can't Help It, com Jayne Mansfield!


No entanto, são poucos, muito poucos os bons filmes sobre rock ou dentro de um contexto de rock. Esta lista se propõe justamente a garimpar esses raros exemplos.

Abaixo, BLOGIE lista os 10 melhores filmes de rock de todos os tempos. Coisas como The Song Remains the Same e Rattle and Hum não valem, pois são shows que foram lançados em cinema para promover ou demonstrar a grandeza de suas estrelas (Led Zeppelin e U2, respectivamente). Documentários, como Woodstock - 3 dias de Paz, Amor e Música e Imagine: John Lennon também não são elegíveis. A lista abaixo traz só filmes, sendo "filme" algo fictício, com roteiro, direção, falas - e, neste caso, alto e bom som.


A lista:


1- Os Reis do Iê-Iê-Iê (A Hard Day's Night, 1964)


2- Quase Famosos (Almost Famous, 2000)
Leia aqui o comentário de BLOGIE sobre a melhor cena de "Quase Famosos" (trilha by Sir Elton John)!


3- Alta Fidelidade (High Fidelity, 2000)
Leia aqui tudo o que você precisa saber sobre Nick Hornby, autor de "Alta Fidelidade"...


4- The Wonders (That Thing You Do!, 1996)
Reveja a cena em que os Wonders ouvem sua música tocando no rádio pela primeira vez!


5- Febre de Juventude (I Wanna Hold Your Hand, 1978)
Leia aqui o comentário de BLOGIE sobre "Febre de Juventude"!


6- The Doors (1991)
Leia o comentário sobre a edição em DVD do filmaço de Oliver Stone!

7- Vida de Solteiro (Singles, 1992)

8- The Ruttles - All You Need Is Cash (1978)

9- Rock Star (2001)

10- Rock'n'Roll High School (1979)


A partir da semana que vem, BLOGIE comentará alguns dos filmes acima (aqueles que ainda não ganharam comentários por aqui). Pra começar, na próxima semana, o pai de todos os filmes de rock: Os Reis do Iê-Iê-Iê, tradução idiota para o sensacional A Hard Day's Night, primeiro filme dos Beatles.

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Nada mais classudo: Fred Astaire e Ginger Rogers

quinta-feira, 11 de março de 2010 - 2 Comentários

Todos sabem que o Fred Astaire foi aquele cara orelhudo e feioso que dançava como ninguém, especialmente nos números de sapateado, e que se tornou um dos maiores astros do cinema de todos os tempos. Fez par com três gerações de atrizes que foram, cada uma a seu tempo, candidatas a mulher mai linda (e famosa) do mundo: Ginger Rogers, Rita Hayworth, Audrey Hepburn.

Não é uma biografia ruim, concorda?

Mas há uma injustiça nisso tudo: poucos lembram do valor de Astaire como cantor. Para sua voz, mestres como Irving Berlin e Cole Porter compunham suas canções, que se tornariam os standarts definitivos da música americana.

Só um gostinho com o básico:

Night and Day, por exemplo, foi composta para Astaire para um musical da Broadway. Fez enorme sucesso e chegou ao cinema no filme A Alegre Divorciada, de 1934 (o segundo filme do dançarino em Hollywood). A canção pode ter sido gravada por Frank Sinatra, por Ella Fitzgerald, pelo U2 - Fred Astaire continua sendo o melhor intérprete, até porque ele foi o primeiro, e principalmente porque a usou para pegar a Ginger Rogers!


Veja a cena original de Night and Day, em A Alegre Divorciada!

Cheek to Cheek, de Irving Berling, foi a canção original de O Picolino, de 1935. Foi indicada e, inacreditavelmente, perdeu o Oscar daquele ano. A cena em que Astaire começa a sussurrar a letra no ouvido de Ginger Rogers é simplesmente mágica (trecho já mostrado no BLOGIE, clique aqui para vê-lo novamente).

The Way You Look Tonight... sim, é aquela música que o Rod Stewart gravou há alguns anos e que fez o maior sucesso, em parte devido à inclusão na trilha sonora de uma novela das oito. A música de Jerome Kern foi escrita para o filme Ritmo Louco, de 1936. Fred Astaire a canta lindamente no piano. Ginger Rogers (sempre ela) fica toda enamorada e se esquece que está com a cabeça toda ensaboada. Deixa o banheiro e vai até o piano de Astaire, que termina a música enaltecendo a aparência da moça naquela noite, até que... Veja a cena, que valeu Oscar de melhor canção naquele ano:



Sensacional, não?

Agora, se quer ver Fred Astaire fazendo seu show como sapateador, esta é a cena que você precisa ver. É do mesmo Ritmo Louco, de 1936. O filme também tem a vantagem de contar com Ginger Rogers no auge da beleza e do treino (aqui, finalmente, ele entregava aquilo que ela prometeu na famosa frase: "faço a mesma coisa que ele, só que de salto alto"). Vale ver o vídeo duas vezes, uma para checar a performance de Astaire, outra para se embevecer com a imagem estonteante de Ginger (confesso que, na época em que descobri os musicais da dupla, passei algum tempo apaixonado por Ginger Rogers):


Olha só as pernas dessa mulher. Em 1936. God bless America.

Mais classe que isso, amigo, não encontraremos no cinema tão cedo. Sinto muito.

Quem quiser se iniciar no assunto, a trilogia básica é mesmo essa exposta acima: A Alegre Divorciada, O Picolino e Ritmo Louco. O que me parece muito interessante nesses filmes é que, a despeito de um certo tratamento simplista no roteiro, há um erotismo bem apimentado - e totalmente disfarçado, só há sugestões - para o cinema da década de 30. Muito interessante.

P.S.: aliás, esta é uma boa maneira de criar um clima durante um encontro. Se se lançar mão de Nove Semanas e Meia de Amor, o filme já sai queimado de cara. Outra coisa é chegar com um musical dos anos 30, classudo, divertido, leve - e cheio de tesão enrustido. Sucesso.

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Bolsa de apostas do Oscar

terça-feira, 9 de março de 2010 - 4 Comentários

Que fique registrado que este blogueiro acertou 79% dos vencedores dos Oscars.

O que BLOGIE acertou na mosca: melhor filme, direção e roteiro original para Guerra ao Terror, todos os prêmios de atores (Jeff Bridges, Sandra Bullock, Christoph Waltz e Mo'Nique), uns prêmios técnicos para Avatar (fotografia, direção de arte, maquiagem e efeitos visuais), o reconhecimento óbvio a UP! (melhor animação e aquela trilha sonora maravilhosa) e, acima de tudo, a supresa que foi a premiação argentina no filme de melhor língua estrangeira. Reproduzo abaixo o texto do palpite postado na manhã de domingo:

Melhor Filme em Língua Estrangeira:

- Quem ganha: OK, vou fazer uma aposta arriscada... O Segredo dos Seus Olhos.
- Quem deveria ganhar: o próprio. O filme de Campanella é maravilhoso, mas comete o pecado capital de ser comezinho - trata de pessoas comuns. Geralmente, a Academia privilegia filmes estrangeiros que tratam de "grandes questões" (holocausto, criancinhas sofrendo com a pobreza, etc). Mas seria muito bom que se ativessem a premiar o melhor filme do ano, que é o argentino.


Agora, os erros de previsão:
 
1- Resolveram transformar Guerra ao Terror no grande premiado da noite... - e aí roubaram alguns Oscars técnicos que deveriam ser de Avatar (edição de som e mixagem de som). Também deram o Oscar de melhor edição para Guerra ao Terror, mas este foi merecidíssimo (eu achei que dariam-no para Avatar, mas, neste caso, ainda bem que errei).
 
2- Cometeram a palhaçada de darem o Oscar de melhor roteiro adaptado para Preciosa - desbancando os trabalhos excepcionais de Jason Reitman em Amor Sem Escalas (que era minha aposta) e Nick Hornby em Educação (que era meu desejo).
 
OK, quatro erros em dezenove palpites. Não é mal desempenho. Mas todo ano fico nessa casa entre 75% e 80%. Oscar é igual loteria esportiva. Sempre tem um Juventus da Moóca pra ganhar do Corinthians.
 
Agora, voltemos aos cinemas, pois ainda vem muito filme bom pros próximos dois meses. Daqui a pouco estreia Alice, do Tim Burton (candidato a sucesso do ano), e o novo Woody Allen (Whatever Works, que merecia pelo menos uma indicação para roteiro original).

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Oscar 2010: passando a régua

segunda-feira, 8 de março de 2010 - 8 Comentários

Bem, há coisa de um mês atrás havia uma certeza: Avatar salvara o cinema e seria devidamente reconhecido no Oscar, levando mais prêmios do que E o Vento Levou, Ben Hur e Titanic.

Daí, Guerra ao Terror foi chegando, o barulho foi aumentando, os prêmios foram vindo... e chegamos ao Oscar com um filme independente mais barato do que uns capítulos da novela das oito disputando o Oscar pau a pau com a maior super-produção da história. De tão polarizado, falava-se até em uma possível vitória de um azarão, que seria Bastardos Inglórios, do Tarantino.

O resultado final foi, em primeiro lugar, a confirmação de que a indústria do cinema americano privilegia, acima de tudo, a boa ideia, o filme autoral, em detrimento do blockbuster. Ao mesmo tempo, finalmente a questão da atuação americana no Oriente Médio ganhou a simpatia da classe (antes de ganhar a simpatia do público; este deve ir atrás só agora, depois da premiação). Guerra ao Terror é o grande vencedor do Oscar 2010.


















O filme de Kathryn Bigelow (a mesma de Caçadores de Emoção e outros filmes de ação) levou os prêmios de melhor filme, direção, roteiro original, edição, edição de som e mixagem de som. Seis prêmios, contra quatro de Avatar, todos técnicos.

Eu não considero Guerra ao Terror o melhor filme do ano, nem de longe, mas entendo o frisson em torno dele. Se Avatar remete a Star Wars e sua escola de filmes-evento, e se Amor Sem Escalas remete a Billy Wilder e o cinema mais classudo, Guerra ao Terror afilia-se ao cinema dos anos 70, nervoso, inconformado, criativo e de câmera viva, vivíssima.

Penso em O Franco Atirador, em Apocalipse Now. Penso em A Conversação e Operação: França. Filmes que, em algum grau, têm parentesco com a obra de Bigelow. Penso nas tentativas recentes de Ridley Scott, Brian DePalma, Robert Redford e Mike Nichols em abordar a questão da atuação americana no Oriente Médio. Todos foram mal sucedidos, mais por bad timing do que por deficiências artísticas. Eles também são premiados hoje, por terem gritado num momento em que seu país não queria ouvir.

Agora, o que eu queria mesmo era ver aquela turminha formada pelo Apache, pelo Urso Judeu e por Shosanna saindo triunfante do Kodak Theatre. Os Bastardos de Tarantino não tiveram a premiação que mereciam. Mas, fazer o quê?, a vida é assim.

E não vou ficar chateando o leitor com discursos sobre o absurdo de testemunharmos a Sandra Bullock ganhando um Oscar. Pra falar a verdade, nada mais natural. A mulher enche cinemas há mais de quinze anos. Entregou uma performance acima da média, era um ano sem muitos concorrentes fortes, premiaram a estrela. Isto é Hollywood, e dá pra conviver com isso.

E vamos dormir, porque a semana promete. Fico devendo uma análise mais detalhada de Guerra ao Terror.

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Oscar: arrastando-se noite adentro

OK, temos um novo marco do constrangimento alheio: o que foi aquela coreografia de street dance acompanhando as trilhas sonoras indicadas?

Menos embaraçosa foi a homenagem póstuma para a galera que perdeu a vida durante o último ano. James Taylor tocou In My Life, dos Beatles, enquanto imagens de David Carradine, Patrick Swayze,  Britanny Murphy, Jean Simmons e um monte de gente mais importante e menos famosa (entre eles, o roteirista de Sindicato de Ladrões!) eram exibidas.Singelo.

Os prêmios mais justos e previsíveis da noite saíram: trilha sonora para UP! e efeitos visuais para Avatar.

De resto, Guerra ao Terror desponta como o favorito da Academia, ao surrupiar o Oscar de roteiro que deveria ter ido para Tarantino e os Oscars de edição e mixagem de som, que eram dados como barbada para Avatar.

De tanta mulher bonita e embrulhada para sair em todos os jornais, sites e revistas do mundo, a mais bela, a mais impressionante, a mais gostosa é...

... Demi Moore.

Isso que é tradição.

Agora, vamos continuar assistindo, embora sem muito tesão, porque já ficou claro que Bastardos Inglórios não terá chances para roubar o Oscar de melhor filme ou direção. E, mais triste, é ponto pacífico que Amor Sem Escalas veio ao Oscar só pra passear. Paciência.

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Oscar - uma volta no tempo

domingo, 7 de março de 2010 - 1 Comentários

O Oscar começou com clima de musical da Metro dos anos 30. Cenários que evocam filmes do Fred Astaire e um número musical cafona até a medula (um tanto de ironia, sem dúvida). O primeiro bloco deixou claro que a intenção é recuperar o glamour e a tradição, tentando puxar o recall no Planeta Terra de que o Oscar é o máximo.
O número de entrada dos apresentadores, Alec Baldwin e Steve Martin, foi elegante. Nada de video-clips, nada de música ou dança: eles falaram, fizeram piadas, desfilaram classe.

E aí entra Penélope Cruz, linda, e apresenta o primeiro prêmio da noite: melhor ator coadjuvante.

Abre o envelope e fala a frase que havia sido aposentada há décadas: "and the winner is..."

E o vencedor é Christoph Waltz, o genial Cel. Landa de Bastardos Inglórios.

Começou bem, este Oscar.

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Oscar 2010: palpites e apostas

Cinéfilos de todo o mundo, é hoje.

















Como mostra o pôster oficial do Oscar, teremos como mestres de cerimônia Steve Martin e Alec Baldwin, a dupla de veteranos que disputam a Meryl Streep em Simplesmente Complicado. Os apresentadores de prêmios serão variados, incluindo artistas consagrados como Pedro Almodóvar a estrelas teen, como a molecada da série Crepúsculo. As canções ao vivo estão banidas da cerimônia (tudo bem, afinal vai longe o tempo em que tínhamos Paul McCartney, Madonna, Bruce Springsteen ou Elton John concorrendo ao Oscar com canções de sucesso). E os prêmios...

Ora, os prêmios. Ficar palpitando quem deve ganhar ou deveria ganhar é o esporte mais praticado dos EUA neste final-de-semana. Jornais e revistas só tratam disso. Na segunda-feira, a polêmica reinará, qualquer que seja o resultado.

Pra dar o clima, dê só uma olhada na capa da última edição da revista New Yorker:
























BLOGIE não quer ficar de fora dessa confusão. E crava abaixo suas preferências e seus palpites sobre quem levará a melhor hoje, no Kodak Theatre. Confira e comente, proteste, faça seu ponto!

Melhor Filme:
- Quem ganha: Guerra ao Terror, que conseguiu sobreviver à falta de crédito das distribuidoras, ao limitado apetite do público por filmes de guerra e ao fenômeno pop Avatar. Chegou na reta final como favorito.
- Quem deveria ganhar: Bastardos Inglórios. Há quinze anos, Quentin Tarantino chegou para mudar o cinema de vez. Pulp Fiction é o filme mais influente dos últimos vinte anos. Dono de uma linguagem própria, estilo de sobra e uma saudável loucura, Tarantino fez sua obra-prima ao seu modo -sem ceder ao sentimentalismo, à grandiosidade, às convenções. Zoou a História e merece ter seu Oscar. Se perder, torço para a Shosanna aparecer e fazer seu show no teatro.

Melhor Diretor:
- Quem ganha: Kathryn Bigelow, de Guerra ao Terror
- Quem deveria ganhar: a própria. Será a primeira mulher a vencer o prêmio de melhor direção (Sofia Coppola poderia ter sido a pioneira, se tivessem feito justiça a Encontros e Desencontros, em 2003), e será merecido. Guerra ao Terror é um fenômeno de direção, muito mais do que roteiro ou recursos técnicos ou elenco. A câmera de Kathryn é combativa, bisbilhoteira, inteligente e abundante - está sempre no lugar certo, e sem maneirismos bobos. E que ritmo! Tarantino é um bom concorrente, mas seu Bastardos tira proveito de mil outros trunfos - o principal é o roteiro, claro.

Melhor Ator:
- Quem ganha: Jeff Bridges, por Coração Louco
- Quem deveria ganhar: Jeff Bridges. Ele é demais. Ele fez um papel coadjuvante sensacional em A Última Sessão de Cinema, de 1971, pelo qual recebeu sua primeira indicação. Ganhou outras três indicações, sem nunca levar o prêmio. Esta é a vez dele, é o papel de uma vida e não tem pra ninguém. Além do mais, lembremos que ele é The Dude (O Grande Lebowski).

Melhor Atriz:
- Quem ganha: Sandra Bullock (60% de chances) ou Meryl Streep (40% de chances)
- Quem deveria ganhar: Carey Mulligan, por Educação. Entendo que Sandra Bullock é uma pessoa legal, uma mulher simpática e uma grande estrela. Mas sua atuação em Um Sonho Possível ainda não é algo que a qualifique como uma grande atriz. Já Mery Streep faz de qualquer papel um grande trabalho, e sua Julia Child em Julie & Julia não foi diferente. No entanto, não é um papel que me empolga (qualquer um dos seus desempenhos nos últimos anos foi superior, incluindo O Diabo Veste Prada, Mamma Mia! e Simplesmente Complicado). Por isso, minha preferência vai para a novata Carey Mulligan, cativante e carismática em Educação. Uma atuação brilhante que anuncia uma nova estrela.

Melhor Ator Coadjuvante:
- Quem ganha: Christoph Waltz, por Bastardos Inglórios
- Quem deveria ganhar: não há nem o que discutir. Waltz é o dono do prêmio. Seu Cel. Landa é um dos personagens mais marcantes da década. É histórico, vai entrar para a mitologia do cinema.

Melhor Atriz Coadjuvante:
- Quem ganha: Mo'nique, por Preciosa
- Quem deveria ganhar: Maggie Gylenhaal, por Coração Louco. Nunca fui muito fã de Maggie, pois a acho meio sem sal, pouco atraente e nada impactante. Mas seu personagem em Coração Louco vai cozinhando em banho-maria, você não entende qual é a dela, ela parece ser esperta, interesseira - e acaba se revelando uma coisinha doce. Fez uma interpretação forte, sutil e muito interessante. É a minha preferida. E, sim, finalmente reconheço: a moça é atraente.

Melhor Filme em Língua Estrangeira:
- Quem ganha: OK, vou fazer uma aposta arriscada... O Segredo dos Seus Olhos.
- Quem deveria ganhar: o próprio. O filme de Campanella é maravilhoso, mas comete o pecado capital de ser comezinho - trata de pessoas comuns. Geralmente, a Academia privilegia filmes estrangeiros que tratam de "grandes questões" (holocausto, criancinhas sofrendo com a pobreza, etc). Mas seria muito bom que se ativessem a premiar o melhor filme do ano, que é o argentino.

Melhor Fotografia:
- Quem ganha: Avatar
- Quem deveria ganhar: Bastardos Inglórios. Pra mim, Avatar é video-game, é desenho animado. Cinema é outra parada, e essa parada é dominada por dois minutos de Bastardos - só aquela primeira tomada do campo, à Sergio Leone, ganha o Oscar sozinha. A cena do cinema... que coisa, que filme.

Melhor Roteiro Original:
- Quem ganha: Guerra ao Terror
- Quem deveria ganhar: Bastardos Inglórios. Não há nem o que discutir: o melhor roteiro é o de Tarantino. Acredito que Guerra ao Terror leve o prêmio por uma questão de galvanização das intenções, mas seu roteiro é, pra usar os melhores elogios à mão, preciso e tenso. O de Bastardos choca, deslumbra, arrebenta.

Melhor Roteiro Adaptado:
- Quem ganha: Amor Sem Escalas
- Quem deveria ganhar: Amor Sem Escalas. Jason Reitman é da escola do Billy Wilder, a estirpe mais nobre de Hollywood: a dos diretores que escrevem seus filmes, e que escrevem os melhores roteiros, com os melhores diálogos, que criam as frases que entram para a história. É novo, tem apenas 32 anos, só fez três filmes e este Oscar de melhor roteiro é só o começo de uma linda amizade.

Prêmios Técnicos:
Edição, Edição de Som, Mixagem de Som, Direção de Arte, Maquiagem, Efeitos Visuais: a de Avatar o que é de Avatar.

Melhor Canção: não tem pra ninguém. The Weary Kind, de T-Bone Burnett, tema central de Coração Louco, é a melhor canção do ano.

Melhor trilha sonora: se você não chorou com a trilha de UP! Altas Aventuras, és um insensível. Aposta segura.

Melhor Animação: é claro que UP! Altas Aventuras, um dos melhores filmes do ano (seria uma boa opção até para roteiro original!), ganhará o prêmio de melhor animação.

É isso. Agora é acompanhar o Oscar, se divertir e aproveitar um almoço de segunda-feira na firma com um assunto mais interessante do que o Big Brother.

Acompanhe os comentários ao longo da cerimônia pelo Twitter (@rgarrido75)!

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Oscar 2010: ainda dá tempo de ver os principais filmes!

sábado, 6 de março de 2010 - 3 Comentários

Caro amigo de BLOGIE,

Você já viu todos os principais indicados ao Oscar?

Isso é o que interessa, no momento. Portanto, dedico este post a montar uma lista do que é realmente essencial ver entre hoje e amanhã. Certamente, todos já viram Avatar (leia a crítica de "Avatar" aqui), então é menos um. Vou listar o que realmente é necessário.

Guerra ao Terror: principal concorrente de Avatar para melhor filme, é o primeiro filme de guerra dos anos 2000 a ganhar a simpatia da classe. É a obra que fecha o caixão da Era Bush. Mostra a guerra do Iraque, urbana, complicada, tediosa, nada heroica, à maneira de Nascido para Matar, Platoon e Apocalipse Now - como um negócio que vicia e enlouquece o cidadão. Grande direção de Kathryn Biggelow (de Caçadores de Emoção, lembra?), que deve ser premiada como melhor diretora.

Coração Louco: traz Jeff Bridges como um cantor country fracassado. Ele ganhará o prêmio de melhor ator, posso afirmar com 95% de segurança. Um belo filme. (leia a crítica de "Coração Louco" aqui)

Amor Sem Escalas: aposto minhas ficha no filme de Jason Reitman para melhor roteiro adaptado. Capta o espírito do seu tempo, arrancou o melhor desempenho de George Clooney e apresentou duas novas estrelas, Vera Farmiga e Anna Kendrick - todos indicados ao Oscar. (leia a crítica de "Amor Sem Escalas" aqui)

Educação: com roteiro de Nick Hornby (autor de Alta Fidelidade e Um Grande Garoto - aliás, um bom concorrente ao Oscar de roteiro adaptado), este filme classudo revela Carey Mulligan, indicada ao Oscar de melhor atriz e dona de um futuro bem promissor. Na semana que vem, quando um colega do trabalho te perguntar se você viu o filme com a Sandra Bullock, que terá vencido o prêmio de melhor atriz, responda orgulhoso: "não, mas vi Educação, que é dez vezes melhor e que traz uma menina que DEVERIA ter ganhado o Oscar no lugar da Sandra Bullock". (leia a crítica de "Educação" aqui)

Bastardos Inglórios: num mundo mais louco e menos ponderado, seria o vencedor absoluto da noite. O épico de guerra desvairado e delirante de Tarantino mudou o fim da Segunda Guerra, fez sucesso e pode levar o prêmio de melhor roteiro original (deveria, pelo menos). Além do mais, é a maior homenagem ao cinema em muito, muito tempo. Eu diria que é a maior homenagem ao cinema desde A Noite Americana, do Truffaut, que é de 1973! (leia a piração do blogueiro ao comentar "Bastardos Inglórios", logo após a sessão!)

O Segredo dos Seus Olhos: filmaço argentino de Juan José Campanella, mesmo diretor de O Filho da Noiva. Ele traz seu eterno parceiro Ricardo Darín como o burocrata que tem dificuldades em superar o insucesso da investigação de um caso de estupro, vinte e poucos anos antes. Tocante, engraçado, de tirar o fôlego, um filme completo e que merece o Oscar de filme em língua estrangeira (embora eu ache que A Fita Branca tem mais chances). (leia a crítica de "O Segredo dos Seus Olhos" aqui)

Acho que é isso. Que me perdoem Um Homem Sério, Preciosa, Um Sonho Possível, Distrito 9, Nine, A Fita Branca. Me dói não recomendar Invictus, do grande e velho Clint, e UP!, a animação do ano (e que você já deve ter visto). Mas o que interessa mesmo neste ano são os seis filmes acima recomendados. Se eu tivesse que escolher um, vejamos... escolha você: se for pra não se sentir por fora da festa, eu iria de Guerra ao Terror; se for pra adotar a linha do "sou mais eu", eu iria de Bastardos Inglórios; e, se o seu vibe for "vou falar do filme que ninguém viu e fazer sucesso", aposte no argentino.

Amanhã, antes do Oscar, confira aqui no BLOGIE os palpites e preferências da casa. E confira a cobertura em real-time pelo Twitter (@rgarrido75)!

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Oscar 2010: uma declaração de amor ao cinema

A partir das 22:00 de domingo, 07 de março, vai ao ar o Oscar, aquele evento cafona com tapete vermelho que dispara uma semana de discussão sobre vestidos e cabelos, tamanho dos discursos e audiência em franca queda. É sempre a mesma coisa. Então, qual o interesse em avançar a madrugada de segunda-feira vendo uma sequência interminável de discursos e piadas de gosto questionável (que perdem metade do significado com as traduções simultâneas que a TV brasileira nos impõe)?

Minha resposta: porque ainda é melhor celebração de cinema para o espectador comum (que é aquele, como eu e você, que não vai a Cannes todo ano passar uma semana dos sonhos). É uma festa feita para TV, na qual é reunido o maior número possível de astros de Hollywood, todos comprometidos em fazer a coisa à moda antiga: grandiosa, emocionada, respeitosa com a História da própria "indústria" (como eles gostam de se chamar, e têm razão - são uma indústria, um setor relevante da economia americana). É uma premiação que não privilegia filmes de arte, e sim filmes comerciais - lógico, não é o MTV Movie Awards, francamente teen e trash; o Oscar vai no meio-termo, no filme comercial que apresenta méritos especiais. Essa é a proposta, e ela pode acolher um enorme sucesso comercial (E o Vento Levou, Titanic... e Avatar?) ou um pequeno grande filme que crescerá em reputação com um Oscar na prateleira (Casablanca, Se Meu Apartamento Falasse... e Amor Sem Escalas?). Vez por outra - ou quase sempre - uma injustiça que alimenta a polêmica (Hithcock e Kubrick nunca agraciados? Rocky ter vencido Taxi Driver?). E é nisso que reside a graça do Oscar.

O Oscar cria seus próprios mitos, heróis e vilões. Jack Nicholson é a personificação do evento: ele está lá todo ano, na primeira fila, de óculos escuros, sorrindo de orelha a orelha, rindo das piadas do apresentador, aplaudindo cada discurso. Woody Allen foi devidamente reconhecido pelo seu primeiro filme "sério" (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), não apareceu em L.A. para buscar seus Oscars e deu início a décadas de descaso da Academia e eventuais indicações por roteiro ignoradas por Allen. Sua única aparição na festa foi em 2002, numa homenagem a Nova Iorque pós 11/setembro.

Outras figuras clássicas: Billy Cristal, que é um ator de segundo escalão, consagrou-se no papel de mestre de cerimônias do Oscar; já David Letterman, comandando com segurança e acidez seu talk-show há décadas, foi um furo n'água em sua única tentativa. Mas saber rir de si mesmo é uma das melhores qualidades de Hollywood: no ano seguinte, lá estava Billy Cristal de novo, fazendo a abertura do evento em um número musical, fechado com um ataque aéreo (!) perpetrado por Letterman sobre a cabeça do substituto. Com isso, eram citados O Paciente Inglês, que seria o principal vencedor daquela noite, e também Intriga Internacional, do Hitchcock.

Este é o resumo de Hollywood: relembrar seu passado, requentá-lo, chamar a atenção para seus novos ídolos, rir de si mesmo e se auto-promover em escala industrial.

E no meio disso tudo, ainda há espaço para qualidade. Dizem que o Oscar premia mal. Se olharmos os maiores vencedores do Oscar, veremos Walt Disney, John Williams, Jack Nicholson, Katherine Hepburn, Meryl Streep, Billy Wilder... não é má companhia, concorda?

Pronto, já estou preparado para fazer minhas previsões sobre o Oscar. Aguarde o próximo post.

Em tempo: o Oscar vai ao ar às 22:00 na globo e na TNT. A transmissão da TNT é melhor (tapete vermelho a partir das 21:00), mas a Globo tem alta definição...

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A que ponto chegamos: um filme de macho com a Sandra Bullock

quinta-feira, 4 de março de 2010 - 3 Comentários

Às vésperas do Oscar, cá está o blogueiro correndo atrás de todos os filmes indicados às principais categorias. Cioso da minha missão, quebrei uma das minhas premissas centrais da cinefilia: vi um filme da Sandra Bullock.

Sabemos que a Srta. Bullock nunca foi das melhores em escolher roteiros e papéis. Também nunca se firmou como uma atriz de qualidades muito exuberantes. Seu maior mérito foi ter feito a girl next door no início de carreira, unindo graça e um certo carisma a um conjunto bem agradável do ponto de vista estético (lembro-me de uma premiação da MTV em que ela ganhou o prêmio de "Gostosa do Ano", lá pros idos de 1995, época de A Rede).


















Sandra Bullock: durona e em forma. Vale um Oscar.


E então aparece esse filme Um Sonho Possível, a história real de uma dondoca que adota um gigantesco rapaz negro de 17 anos, com clara aptidão para o futebol americano. Sandra Bullock faz a senhora enxuta e rica, toda durinha, uma evolução em relação aos ensaios já realizados em Crash e A Partida. E, de fato, faz um trabalho muito bom.

A novidade é que o objeto do filme acaba sendo  formação de um homem. Um cara cru, de coração de ouro, que precisa refinar suas qualidades naturais através da orientação de um mentor. Parece Gênio Indomável, parece Um Domingo Qualquer, parece um monte de filmes machos - só que o mentor é Sandra Bullock.


Veja o trailer de Um Sonho Possível.

Quer dizer, um troço tão inusitado só podia mesmo ter rendido o que rendeu: uma indicação ao Oscar para a estrela. Que é favorita ao prêmio.

Se é uma atuação merecedora de um Oscar, é difícil dizer. Não há nada de especialmente dramático ou engraçado ou estupefante na atuação de Bullock. Pra falar a verdade, ela fica meio impassível, com aquela cara de botocada que deve estar sentindo algo lá dentro - e há uma qualidade nisso, pois é bem adequado ao papel. Mas não dá pra competir com um desempenho mediano de outras concorrentes, como Meryl Streep ou Helen Mirren.

Se o voto deste BLOGIE contasse para algo, Carey Mullingan, a mocinha revelada em Educação, levaria a estatueta dourada. Como não conta, provavelmente veremos mais uma mega-estrela ganhando seu reconhecimento pela carreira dourada. Fair enough. Aquela mocinha meio desajeitada que, um dia, dirigiu um ônibus desgovernado ao lado do Keanu Reeves, carregando Velocidade Máxima nas costas e transformando-o num enorme sucesso, bem que merece.

E a parte esportiva de Um Sonho Possível também é bacana. Assim como citações apropriadas, como o "me ajude a te ajudar", surrupiado de Jerry Maguire, e outras pequenas sacadas dos filmes esportivos.

Vale uma ida ao cinema. A estreia, infelizmente, só no dia 19 de março.

P.S. Outro lado de ver a questão, no entanto, é o seguinte: continua sendo um filme da Sandra Bullock, algo que não vai agradar à rapaziada, e é um filme de futebol americano, algo que afugenta a mulherada. Razão pela qual prevejo grande dificuldade nas negociações intra-casais para checar Um Sonho Possível no cinema.

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Estreia: "Coração Louco", com Jeff Bridges

quarta-feira, 3 de março de 2010 - 2 Comentários

Todos já vimos filmes sobre velhos cantores country enfrentando seus demônios deixados como herança de uma vida de excessos, ao mesmo tempo em que buscam sua dolorida e agridoce redenção. São histórias de gente ficítica, como o Honkytonk Man de Clint Eastwood (1982), ou gente real, como o Johnny Cash de Joaquin Phoenix em Johnny & June (2005). O filme é mais ou menos o mesmo, variando a classe do diretor e o carisma do ator principal.

Talvez por esse desgaste do tema, Coração Louco, filme de estreia do diretor Scott Cooper (que também é ator), tenha sido ignorado nas indicações às principais categorias do Oscar. A saga de Bad Blake, cantor country que teve melhores dias, e que hoje se arrasta tocando em espeluncas, enquanto assiste à ascensão de um ex-pupilo ao estrelato, é aquela coisa de sempre - a degustação do fracasso, uma garota que o motiva a se limpar, a luta contra o vício... tudo aquilo que já transformou o enredo em um sub-gênero de Hollywood.

Mas uma coisa ninguém, nem a Academia, pode ignorar: o desempenho de Jeff Bridges como Bad Blake. Bridges, virando os sessenta anos, encarna o fracasso de uma maneira realmente dolorida. Seu corpo, seu cabelo, sua voz, seus maneirismos, tudo é mais crível do que todas as tentativas anteriores, incluindo o Cash de Phoenix e até o Ray Charles de Jamie Foxx. De quebra, Bridges toca e canta de verdade no filme, mostrando que tem talento como músico também. Indicação garantida para todos os prêmios e favoritismo total para o Oscar de melhor ator. Ninguém vai dizer que não foi merecido.





















Jeff Bridges canta, toca, bebe e arrebenta como Bad Blake.


Outro ótimo trabalho é o de Maggie Gillenhaal, como a jovem jornalista que é fã de Blake e que, a partir de uma entrevista, cai nos "encantos" do veterano (barrigudo, com uma garrafa de uísque a tira-colo, derramado numa poltrona caindo aos pedaços). Ela consegue excluir tudo o que vem de brinde no pacote, restringindo-se ao essencial: o talento de Blake como compositor. Em uma cena particularmente tocante, ela se emociona ao assistir ao velho compondo dois versos da canção que, mais tarde, já fora da tela, se tornará uma indicada ao Oscar: The Weary Kind, que traz em seus versos a expressão que dá nome ao filme.

As músicas - especialmente The Weary Kind - são uma atração à parte. Obra de T-Bone Burnett, devidamente reconhecida com indicações e prêmios.

E ainda há um certo fascínio pelo universo do lado B da música pop: a música country americana movimenta um mercado muito maior do que aquele que muitas vezes, nas metrópoles, elegemos como mainstream. Isso é exibido com orgulho caipira pela câmera de Cooper, que elege o rosto adequado de Colin Farrel como uma estrela country capaz de fazer turnês gigantes pelos EUA. É ele o pupilo de Blake que ultrapassou em muito a fama do mentor - e com quem haverá algumas contas a acertar.

De resto, bela fotografia, seja de ambientes externos de deixar qualquer um boquiaberto - como a do concerto ao ar livre na cena final -, seja em ambientes internos escuros e tristes, como o da casa de Bad Blake ou o velho bar do seu camarada, vivido por Robert Duvall (um gênio numa atuação pequena e marcante).

OK, fui mudando de opinião ao longo deste post. Descubro junto com o leitor que gostei demais de Coração Louco. Veja o trailer e cheque se é sem motivo:


Infelizmente, o cara que está cantando no trailer não é o Jeff Bridges. Já no filme é ele que canta, numa interpretação muito mais pungente.

Somado tudo, temos um ótimo filme, com elenco excepcional e uma atmosfera terna, confortável como uma calça velha e uma bota amaciada. E um desempenho antológico de Jeff Bridges, que provavelmente ganhará seu primeiro Oscar depois de cinco indicações (a primeira, mal saído da adolescência, foi em 1971, por A Última Sessão de Cinema).

Coração Louco entra em cartaz na sexta-feira, dia 05, e merece ser visto ainda antes do Oscar. Corra!

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Estreia: "O Segredo dos Seus Olhos", de Juan José Campanella

terça-feira, 2 de março de 2010 - 2 Comentários

Por mais que haja o Walter Salles e o Fernando Meirelles (e todos os outros), simplesmente não há comparação entre o cinema brasileiro e o cinema argentino. O último é muito mais vivo, tem personalidade, é consistente. Já o nosso é aquela coisa que já conhecemos: é só favela, retirante, estética da miséria, etc. Há alguns produtos (o nome é apropriado) voltados para a classe média - Se Eu Fosse Você é o exemplo mais claro -, mas o resultado é invariavelmente tosco.

É triste que esse seja o primeiro pensamento que me venha à cabeça enquanto sobem os créditos de O Segredo dos Seus Olhos, filme argentino indicado ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira. Triste, porque este thriller/drama tem assunto de sobra para ocupar a cabeça por muito tempo.

Juan José Campanella, diretor de O Filho da Noiva, faz uso novamente de seu alter-ego, Ricardo Darín (que uma amiga de BLOGIE costuma chamar de "o único ator do cinema argentino", tal a onipresença do cara). Aqui, Darín é Benjamin Esposito, um burocrata do Judiciário argentino aposentado, que começa a revirar suas memórias. Por algum motivo, ele não consegue se esquecer de um caso que ficou mal resolvido lá nos anos 70.

















Ricardo Darín: o "único ator do cinema argentino" - e ainda assim os vizinhos estão bem servidos.


O caso, que tratava de uma jovem que foi estuprada e morta em condições misteriosas, coincide com a admissão de Irene (Soledad Villamil),  a nova chefe de Esposito. Irene é muita areia pro caminhãozinho do camarada - de família rica, formação em Harvard (ou outra top ten americana, whatever), linda e tudo mais. Obviamente, Esposito cai de amores pela mulher - e, em certa medida, é retribuído. A maneira como o caso de amor velado entre os dois não evolui, em paralelo à investigação do tal caso, é de um clima que remete aos romances e contos do Rubem Fonseca. Remetem também ao cinema do Truffaut (A Sereia do Mississipi) e do Martin Scorsese em seus momentos mais ternos (a falação - mas não a pancadaria - de Os Bons Companheiros). E, claro, há muito de Hitchcock no desenvolvimento enigmático e cheio de hesitações dos personagens.

Entre os muitos pontos altos desse filme excelente, está a tensão das cenas de investigação, culminando em uma perseguição inacreditável num estádio de futebol, durante um jogo do Racing ("nenhum homem consegue trocar sua paixão"). Mas também não dá pra deixar de destacar a acidez e o humor dos diálogos: é uma frase cortante atrás da outra, não sobre pedra sobre pedra. O linguajar é de filme policial, e a turma do Fórum se trata numa verve capaz de fazer o Capitão Nascimento corar - é um tal de boludo pra cá, pelotudo de mierda pra lá, é muito engraçado ver os portenhos se xingando com tal fluência.

E aí é que entra o ladrão de cenas do filme: Guillermo Francella, o contraponto cômico preferido de Campanella (ele também dá as caras em O Filho da Noiva). Francella faz Pablo Sandoval, o fiel escudeiro de Esposito na investigação - e no cortejo à jovem chefe. Sandoval é, a rigor, um bêbado, vive sendo rebocado dos botecos pelo seu amigo. Em troca, Esposito cobra de Sandoval ajuda na análise das evidências do caso do estupro.

















Guillermo Francella: entre umas e outras, um trabalho antológico como ora atrapalhado, ora genial Sandoval.


Essa investigação rapidamente se transforma em obsessão para Esposito - e os desdobramentos da busca (em vão) pelo assassino sobre os personagens é algo entre o melancólico e o devastador. Passar a limpo esse episódio que deixou feridas eternamente abertas é um caminho para Esposito talvez retomar sua vida.


Aqui, deixo o tradicional trailer de lado e vamos direto para a cena do estádio de futebol, com legendas em português! É daqui direto para o cinema mais próximo...

O Segredo dos Seus Olhos é um filme afetuoso, humano, engraçado, tenso e, em certa medida, romântico. Não há ressalvas neste grande trabalho de Campanella, apoiado no seu elenco perfeito. É um filme sobre tudo aquilo que não é falado (e que vaza pelos olhos, como fica claro em diversas cenas), por pessoas que falam muito sobre tudo o que não importa - e que internalizam o mais importante.

Voltando à comparação inicial entre cinema argentino e brasileiro: talvez o grande problema brasileiro seja a noção de que classe média e urbana não é assunto sério para um filme. Daí temos nossos bons diretores tratando daquilo que consideram "sério" (e tome miséria), enquanto outros se ocupam de "entretenimento puro". Como se vê em O Segredo dos Seus Olhos (e em toda a obra de Campanella), essa bobagem não se sustenta. Dá pra divertir com texto inteligente, ótimas atuações e conteúdo sensível.

Dá até pra ganhar um Oscar por isso.

Resumindo: não deixe de ver O Segredo dos Seus Olhos. Mesmo.

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"Simplesmente Complicado": vida sexual ativa depois dos 60

segunda-feira, 1 de março de 2010 - 2 Comentários

Um bom programa inofensivo para levar a namorada no sábado à noite: Simplesmente Complicado, a nova comédia de Nancy Meyers, que já vinha do sucesso Alguém Tem que Ceder.

A fórmula se repete: se, no primeiro filme, foram escalados Jack Nicholson e Diane Keaton como os sexagenários que arrumam namorada/namorado trinta anos mais novos (até se descobrirem apaixonados), para Simplesmente Complicado Meyers recrutou ninguém menos que Meryl Streep, Alec Baldwin e Steve Martin. Streep é a mãe de família cujo ex-marido (Baldwin, em estado de graça) a trocou por uma mocinha. Dez anos se passam e eles começam a se tratar com alguma cordialidade.


















A vida aos 60: festas, maconha, vinho a rodo e sexo livre - sem mencionar os óculos de leitura e muitas idas ao médico.


Até que, na formatura do filho mais novo, eles acabam engatando uma conversa, e abre um vinho, abre outro vinho... e pronto: vemos Meryl Streep na estranha condição de amante do ex-marido. A atriz tira todo o humor óbvio que existe na situação - servindo-se, para isso, da sua reputação de grande dama do cinema americano em situações ridículas (artifício já usado em Mamma Mia!)-, mas também injeta sua habilidade dramática para evitar que a coisa se transforme numa farsa bizarra.

Pra complicar o que já era complicado, um arquiteto que também passou por uma separação conturbada, vivido por um Steve Martin todo quadradinho e contido (uma projeção do seu personagem de Antes Só do que Mal Acompanhado, vinte anos depois?), entra na jogada e vira o novo namorado de Meryl - despertando ciúmes do hoje bonachão Alec Baldwin, responsável por uma cena cômica digna de Os Três Patetas ou congêneres.

O resultado é um filme infinitamente agradável, com situações engraçadíssimas, capazes de fazer a sala de cinema eclodir em gargalhadas por uma boa dúzia de vezes. E a maior delas acontece durante uma festa, em que Meryl e Martin dividem um baseado e dão um show (de interpretação, de dança, de papo-cabeça, de larica...) - só vendo pra crer.


Veja o trailer de Simplesmente Complicado (a música é de Crosby, Stills & Nash, já devidamente recomendada anteriormente em BLOGIE)

No mais, é dado bom destaque a uma trilha sonora de responsa, formada por clássicos da música americana dos anos 60 e 70, que fizeram a juventude dos personagens , da diretora e do elenco de Simplesmente Complicado: Tom Petty (Don't Do Me Like That), Beach Boys (Wouldn't It Be Nice), Crosby, Stills & Nash (Suite: Jude Blue Eyes)... e uma pitada de anos 80 na tal cena da festa (Fine Young Canibals, com Good Thing).

Como hoje é segunda-feira, não poderia deixar passar a oportunidade de relembrar alguma música antiga. Aí vai a canção de maior destaque no filme (afinal, são as lembranças que ela traz que deflagram o tal caso extraconjugal):


Tom Petty & The Heartbreakers ao vivo, tocando Dont't Do Me Like That (trilha sonora oficial do adultério de Alce Baldwin com sua ex-mulher).

Voltando a Simplesmente Complicado: vale o preço do ingresso, da pipoca e da Coca gigante. Valeria também uma indicação ao Oscar para Meryl Streep (trata-se de um trabalho muito melhor do que o que ela fez em Julie & Julia ou mesmo em Mamma Mia!) e, quem sabe, uma indicação para coadjuvante para Alec Baldwin, que, hoje, vive a melhor fase da sua carreira, servindo-se da sua decadência física e de um talento cômico que sempre esteve lá, mas que não dava ibope na época em que ele era o galã do momento...

Boa diversão!

P.S.: aviso aos interessados que, a partir de amanhã, só Oscar neste blog. Falarei de O Segredo dos Seus Olhos (meu preferido para filme estrangeiro), Guerra ao Terror, Coração Louco (Jeff Bridges arrebentando) e, claro, meus palpites sobre quem leva as estatuetas douradas na cerimônia do próximo domingo, dia 07 de março.

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Tudo sobre John Hugues, o "bardo da juventude"

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010 - 0 Comentários

Se você gostar muito mesmo de cinema - e se encarar um texto em inglês -, não hesite em procurar a atual edição da revista americana Vanity Fair. A edição de fevereiro, como sempre, é a "Hollywood edition", aproveitando o gancho do Oscar. Neste ano, uma capa tripla traz toda a nova geração de estrelas do cinema (Kristen Stewart, Carry Mulligan, Anna Kendrick...). No recheio, um making of com fotos sensacionais da produção de Touro Indomável. Outra matéria trata das ilustradoras e pintoras (todas mulheres, coisa de tarado) que empregavam toda sua delicadeza na preparação das animações clássicas da Disney, nos anos 30 e 40. Um ensaio com os principais indicados ao Oscar, clicados pela lendária fotógrafa Annie Leibovitz.

Mas a maior atração de todas é uma matéria sensacional tratando de um enigma contemporâneo: o que fez John Hugues, cineasta falecido em agosto de 2009, se afastar do cinema no início dos anos 90?

























John Hugues e o elenco da obra-prima O Clube dos Cinco, de 1985.


John Hugues, como bem sabem os leitores assíduos deste blog - e um grupo muito mais numeroso, formado por todo mundo que cresceu durante os anos 80 -, é o escritor que chegou em Hollywood em 1983 com um cartão de visitas poderoso - Férias Frustradas - e que se tornou o Woody Allen dos filmes adolescentes - Gatinhas e Gatões, Curtindo a Vida Adoidado e Clube dos Cinco (como diretor) e A Garota de Rosa Shocking, Alguém Muito Especial e Mulher Nota Mil (como roteirista). Depois, inventou a comédia familiar padrão, com Antes Só do que Mal Acompanhado, Quem Vê Cara não Vê Coração e, finalmente, Esqueceram de Mim, já em 1990.

Depois dessa fulminante carreira construída em 7 anos, ele se enfiou numa fazenda com sua família e nunca mais deu as caras. 

Clique aqui para ler o post sobre os grandes filmes de John Hugues!

Pois a Vanity Fair empreendeu uma baita reportagem, intitulada "O Doce Bardo da Juventude". Um texto sensacional, para o qual foram entrevistados os dois filhos de Hugues e os atores que se tornaram ícones de uma década pelas suas mãos - Molly Ringwald (a primeira musa indie), Anthony Hall (o nerd original) e Mathew Broderick (Bueller, Ferris Bueller). Esse grupo consegue pintar um perfil intrigante do cara meio infantilizado, centralizador, genial e genioso que era Hugues.

Deliciosas histórias de como Molly Ringwald foi hostilizada pelo seu mentor quando resolveu fazer filmes com outros diretores. Ou como os próprios pupilos sofriam com a possessividade do chefe.

Descrições minuciosas do estilo Peter Pan oitentista do diretor já quarentão, sempre com o tênis Nike de cano alto da moda, cabelos com mullets horrorosos e sua obsessão por gravar fitas cassete para seus atores preferidos.

E uma evolução meio assustadora de uma certa loucura (ainda que tratada com distância e eufemismos): o cara tinha centenas e centenas de cadernos, enchendo-os com descrições sobre tudo e todos. Escrevia incessantemente, contos, roteiros, livros, piadas, descrições soltas. Desenhos se misturavam. Dia e noite, noite e dia. Quando recebia visitas, conversava por horas e horas, testando a resistência do amigo.

A melhor notícia de todas é que a matéria está inteirinha aberta no site da Vanity Fair. E com conteúdo adicional, como uma entrevista conjunta com Broderick, Ringwald e Hall.

http://www.vanityfair.com/hollywood/features/2010/03/john-hughes-201003

Boa diversão!

Aliás, uma boa pergunta: por que ainda não tiveram a ideia de reunir os filmes do cara em um box bacana?

Enquanto isso, aproveitem, pois Antes Só do que Mal Acompanhado acaba de ser lançado em DVD.

P.S.: aguardo homenagem póstuma séria a John Hugues no Oscar.

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Mudam as moscas...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 - 1 Comentários

Pauline Kael, provavelmente a mais famosa crítica de cinema do mundo, escreveu um artigo na revista New Yorker chamado Por que os filmes são tão ruins?. Reproduzo abaixo um trecho:

"As plateias foram tão corrompidas pela televisão, e ficaram tão exaustas, que só querem emoções ruidosas, piadas estúpidas e imagens que se mexam de uma maneira não exigente, pra que possam ficar sentadas e reagindo ao nível mínimo do motor. E há muitos indícios, como o sucesso de (e aqui, entra o nome da última produção de James Cameron). Era um filme de casa mal-assombrada, com gorila, passado no espaço cósmico. Estendia as mãos, agarrava-nos, apertava-nos a barriga; era mais ataque que divertimento, mas muita gente não se importou. Acharam-no sensacional, porque finalmente sentiam alguma coisa; tinham sido brutalizados."

Bem, o texto acima foi escrito por Kael em 1980, sobre o filme Alien, o Oitavo Passageiro. 

Mas não parece que está falando de outro filme de Cameron, muito mais recente, que chacoalha o expectador até ele se sentir finalmente entretido?

Como se vê, a discussão sobre o talento do diretor de Avatar, Titanic, O Exterminador do Futuro e da série Alien não é de hoje. Mas permanece atual, como fica claro na bela matéria de João Gabriel de Lima, na Bravo! deste mês. Ele mostra como Hollywood sempre se apoiou em duas tradições - de um lado, os filmes de imagens espetaculares, e de outro, os baseados em diálogos e roteiros bem pensados; de um lado, Star Wars e Avatar; de outro, Casablanca e Amor Sem Escalas.

Pode ser. Mas gosto mesmo é de quando as duas coisas são misturadas e apresentadas num pacote perfeito, como em O Poderoso Chefão, Touro Indomável e ... E o Vento Levou.

Para quem quiser saber mais: é possível encontrar o livro Criando Kane, de Pauline Kael, numa boa livraria (a edição mais recente, da Editora Record, é de 2000). Há ótimos e complexos ensaios sobre Cidadão Kane, Bonnie and Clyde, jovens que conhecem os clássicos do cinema pela TV e sobre o impacto dos jovens diretores barbudos dos anos 70 (Scorsese, Spielberg, DePalma, Altman, Lucas...) em Hollywood. Um baita livro, que uso meio como "minutos de sabedoria" - de vez em quando, abro num ponto qualquer e dou uma lida nas ideias da mulher.

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Estreia: "Um Homem Sério", dos irmãos Coen

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010 - 2 Comentários

O mais ousado dos concorrentes ao Oscar de melhor filme entra em cartaz nesta sexta-feira: Um Homem Sério, de Joel e Ethan Coen - os irmãos por trás de uma penca de filmes estranhos e inteligentes, como Fargo, Arizona Nunca Mais, O Grande Lebowski, E aí, Meu Irmão, Cadê Você?, Onde os Fracos Não Têm Vez e Queime Depois de Ler (só pra ficar em meia dúzia).

Indo direto ao ponto: o filme foi indicado ao Oscar porque, apesar da estranheza e do desconforto (fique claro que se trata de um daqueles filmes pouco acessíveis e que deixam o espectador com cara de ponto de interrogação no final), consegue ser absurdamente humano e engraçado, ao mesmo tempo em que enfilera desgraças, colocando em xeque a religião judaica, a fé em qualquer outro tipo de justiça, a estrutura familiar, o racionalismo, o fatalismo...















Um homem sério: provando por A mais B que não se pode entender nada da vida.



Senão, vejamos: estamos em 1967, num subúrbio qualquer do Meio-Oeste americano. O protagonista, Larry Gopnik (vivido pelo desconhecido Michael Stuhlbarg), é um pai de família, judeu, professor universitário - um cara de retidão inquestionável e de vida pacata. À medida que se aproxima o bar mitzvah do seu filho - um maconheiro que passa as aulas na escola judaica ouvindo Jefferson Airplane e Jimi Hendrix -, problemas começam a cair como chuva de canivetes na sua cabeça. Um aluno coreano tenta suborná-lo para obter aprovação, passando depois para a chantagem; sua mulher o troca por um "amigo de família" muito chato; o amante da mulher morre, e as contas do seu funeral sobram para o corno de plantão; o irmão, um cara cheio de vícios e dado a práticas ilícitas, mora em sua sala; e, pra terminar, seus filhos só tomam conhecimento do pai como assistência técnica da antena de TV e como uma carteira para roubar uns trocados. Suas horas vagas são passadas entre o advogado que tratará da separação, especulações sobre a comissão que decidirá sua aprovação como catedrático e visitas a rabinos a quem recorre para entender o que diabos se passa com ele.

Infernal, a vida desse tal de Gopnik, não?

O roteiro dessa farsa divide-se em três atos, cada um deles mostrando o que acontece com a vida de Gopnik após seguir os conselhos de um rabino (ele vai do "rabino júnior" ao mestre dos magos da comunidade local). Fazendo das tripas coração para se provar um "homem sério", o cara não escapa da espiral descendente em que se meteu.

E é só no final que volta à nossa cabeça o estranho preâmbulo do filme, uma cena descolada de toda a história, que mostra um casal judeu em algum canto da Europa, em algum momento do século 19, contraindo uma terrível maldição que assolará sua família para sempre.


Veja o trailer de Um Homem Sério - repare na trilha, com Jefferson Airplane!

A leitura que os irmãos Coen, judeus que cresceram durante a década de 60 no Meio-Oeste, fazem das vidas daqueles que o cercavam é mais ou menos a seguinte: cada um cria sua própria maldição, ao duvidar dos fatos corriqueiros da vida e imaginá-los manifestações de um destino terrível. É o que fizeram os antepassados de Gopnik sob um clima de Crime e Castigo; é o que faz o próprio Gopnik, ao se empolgar com suas aulas sobre a teoria da incerteza e ao capitular nas possibilidades de vencer cada problema (clima de Woody Allen em Hannah e Suas Irmãs e Crimes e Pecados); e é o que faz o seu filho, entupido de maconha no próprio bar mitzvah, devedor de uma graninha para o traficante da escola - um rapaz que prefere esperar o furacão passar para enfrentar suas questões de homenzinho.

No mais, um clima irresistível de anos 60 - séries televisivas, acid rock, choque de gerações e uma certa homenagem à Mrs. Robinson de A Primeira Noite de um Homem. Diversão no contexto para aliviar o cerne pesado.

Um Homem Sério certamente não ganhará um Oscar no próximo dia 7 de março - weirdo demais pra isso -, mas podemos afirmar com segurança que nenhum filme deste ano foi tão longe. Não é necessário ir a Pandora ou projetar-se em três dimensões para deixar o espectador desnorteado.

É a melhor opção para um sessão de Cinema (com C maiúsculo) no final-de-semana. Se quiser optar por puro entretenimento, vá de Educação (já resenhado aqui no BLOGIE), que é cinema honesto, inteligente e divertido.

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Crítica: "Um Olhar do Paraíso", de Peter Jackson

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010 - 0 Comentários

(Indicado ao Oscar de ator coadjuvante)

Tinha tudo pra dar certo: um diretor de mega-produções (série O Senhor dos Anéis, King Kong), um livro de muito sucesso e um elenco de primeira linha (Mark Whalbergh, Rachel Weiz, Stanley Tucci e Saoirse Ronan, a menininha de Desejo e Reparação). A história, estrelada pela talentosa Saoirse, trata de Susie Salmon, uma menina de 14 anos que é assassinada por um maníaco e que, do limbo particular em que ela aguarda pelo ingresso para o Paraíso, tenta intervir nas vidas de seus pais, daquele que seria seu primeiro namorado e do seu assassino. Eventuais toques de Ghost aqui e ali. Mas não deu certo.

A verdade é que Um Olhar do Paraíso, empreitada muito pessoal de Peter Jackson (que ficou muito impressionado ao ler o livro logo após a perda dos seus pais), é uma pequena bomba embrulhada em uma linda caixa de presentes, com lacinho e tudo. De tão fofinho e sutil, o filme cansa.















Saoirse Ronan como Susan: pra quem teve um fim de vida tão infernal, um limbo fofinho e surrealista.


Pra começar, tratemos da parte mais difícil: as cenas mundanas são intercaladas com cenas fantasiosas da garotinha no purgatório. São cenários tão surreais quanto artificiais - embora muita gente vá dizer que são imagens lindas e etc e tal -, similares aos campos onde correm os Teletubbies ou, vá lá, aqueles papéis de parede com paisagens do Windows. A trilha sonora de Susie correndo pelos campos e praias do além é um troço que lembra aquele rock progressivo à Guilherme Arantes em início de carreira. Dureza.

Já no Planeta Terra, os pais de Susie sofrem pra caramba e têm enorme dificuldade em superar a perda. Peter Jackson, no entanto, tem enorme dificuldade em conferir profundidade a esses personagens, colando-os numa cartolina. Com isso, é desperdiçado o talento de Whalbergh e de Weiz.

Há um lado positivo: o sempre ótimo Stanley Tucci - indicado ao Oscar de ator coadjuvante - é o vizinho aparentemente inofensivo (mas com toda a pinta de psicopata) que molesta e mata Susie. Seu trabalho é perturbador, pra dizer o mínimo. Ele protagoniza as melhores cenas do filme, num jogo de gato e rato com Lindsey Salmon (Rose McIver, estreante no cinema), a irmã mais nova de Susie. Lindsey vai crescendo, se tornando mais atrativa aos olhos do doido e, unindo uma inteligência acima da média com uma intuição que talvez esteja sendo soprada pela irmã mais velha, passa a ter calafrios ao passar em frente à casa do cara.

A grande cena do filme - dentro da casa impecável do assassino - é de uma tensão digna de um David Fincher ou de um Hitchcock. Não é o suficiente, no entanto, para compensar a xaropada que vem antes e depois.


Veja o trailer e cheque se Um Olhar do Paraíso é pra você...

Os bem intencionados dirão que o filme traz uma linda mensagem - é necessário se desapegar, perdoar, tocar a vida pra frente e deixar o acaso ou o destino dar conta dos pilantras que estragam nossos planos -, mas, sinceramente, escrever este parágrafo cansou este blogueiro.

O filme estreia sexta-feira nos cinemas brasileiros, e deve encontrar seu público. Mas, se o amigo leitor aceitar uma sugestão de BLOGIE, dará preferência ao tratamento mais cético e ácido que os irmãos Coen dão às tragédias da vida. Até sexta publicarei meu comentário sobre Um Homem Sério, que estreia no mesmo dia.

P.S.: a crítica Isabela Boscov, da VEJA, atribuiu o fracasso do filme à opção de Jackson de não mostrar a violência sofrida por Susie. Assim, não conseguimos entender a pureza de sua alma ao se manter inocente após tal atrocidade. É uma boa análise. Mas, no fundo, acho que seria só mais uma cena desagradável em um filme totalmente equivocado.

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