Só o amor incompleto pode ser romântico.
É o que diz a espanhola Maria Elena à americana Cristina, em Vicky Cristina Barcelona, o novo filme de Woody Allen, que estréia no dia 14 de novembro por estes lados.
Sem entrar no mérito do filme (que BLOGIE já assistiu, gostou e vai discutir ainda nesta semana), é chegado o momento de celebrar o amor platônico, mas comovente, de Allen pela sua atual musa: Scarlett Johansson, a tal Cristina do filme.
A verdade é uma só: Woody Allen faz bem a Johansson, afinal a lenda que vai se criando sobre ela ser a musa do autor sempre ajuda, mas a moça faz muito um bem maior ainda ao diretor.
Ele vinha de uma série de filmes meio assim, assim, até que cismou em colocar a loira como a americana que faz todo mundo perder a cabeça em Match Point, seu primeiro filme rodado fora dos EUA. O filmaço, que entrou imediatamente para a antologia de Allen, ganhou indicação ao Oscar de melhor roteiro e se tornou seu maior sucesso comercial. A partir daí, Scarlett tem estrelado a "fase européia" do diretor, que inclui Scoop - o Grande Furo, na qual ela revela um inédito talento para a comédia e, agora, Vicky Cristina Barcelona, ambientado na cidade catalã.
A boa fase recolocou a moral de Woody em alta, fazendo-nos lembrar das suas duas grandes fases, nas quais ele sempre esteve amparado por musas bem definidas: a primeira, entre 1975 e 1982, trazia Diane Keaton como o alvo amoroso que intimida os personagens de Allen. As mulheres de Keaton são sempre inteligentes, inalcançáveis e maluquinhas da silva. Dessa safra, vieram Manhattan, A Última Noite de Boris Grushenko, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Sonhos de um Sedutor (neste, Allen não dirige, embora tenha escrito o roteiro). Durante parte desse período, Woody e Diane formaram, de fato, um casal.
Já a segunda grande fase veio logo depois: do começo dos anos 80 ao início da década de 90, Mia Farrow foi esposa e protagonista de quase todos os filmes do baixinho. E que filmes! A Rosa Púrpura do Cairo, Hannah e suas Irmãs, A Era do Rádio, Crimes e Pecados, Maridos e Esposas... E ainda os "filmes suecos" Setembro, Neblina e Sombras... Mia Farrow ganhou papéis inesquecíveis, nos quais ela é insegura, talentosa e pura em doses equilibradas.
Mas nada se compara, em temperatura, aos momentos que o diretor dá a Scarlett Johansson, com quem, ao que apontam as notícias, não rola nada além dos laços profissionais. Sem chegar às vias de fato, velhinho que está, Woody canaliza toda seu apreço pela atriz no ato de fotografá-la:
Penélope Cruz e Javier Bardem ajudam a compor o cenário que emoldura Johansson em cena de Vicky Cristina Barcelona.
Não que Allen seja um velho babão: ele não entrega o filme à tara de exibir a moça, como tanta gente tem feito - a bem da verdade, ele dá igual destaque e carinho a Penélope Cruz, que "rouba" boa parte das cenas, e a Rebecca Hall, que é, no fim das contas, a atriz principal do filme (cargo que ela ocupa com enorme demonstração de talento). Mas é notável como ele se embevece da loirinha, usando-a como um adereço muito atraente e apetitoso. É pelos olhos dela, curiosos e ingênuos, que ele prefere descobrir o mundo:
Em suma: Woody Allen, assim como outros gênios do cinema (Hitchcock, Truffaut, Wilder), ama as mulheres e emprega parte expressiva de sua arte a serviço de fotografá-las, mas, assim como os colegas citados, atinge os melhores resultados quando o amor é platônico. Talvez por isso seus personagens constatem: só o amor incompleto pode ser romântico.Marcadores: cinema, estréias, mulheres, Scarlet Johansson