terça-feira, 9 de fevereiro de 2010 - 2 Comentários

Clint Eastwood chega aos 80 anos vivendo o auge da sua carreira. Hoje, é considerado um dos grandes cineastas em atividade, alguém no nível de Scorsese, Allen, Spielberg. Durante os últimos dez anos, Eastwood enfileirou Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, Cartas de Iwo Jima, A Troca, Gran Torino. Dramas que buscam o que há lá no fundo de pessoas que passam por situações muito além do insuportável.

Comparado a essa série, seu filme atual, Invictus (em cartaz nos cinemas brasileiros), pode ser considerado leve e revigorante: seus personagens não enfrentam questões de vida ou morte; são pessoas em pleno domínio de suas competências e cujo maior desafio é como fazer o melhor uso delas. É um filme sobre esporte, sobre política, sobre amizade e liderança. Mas, no fundo, inspiração é o assunto central da história de como Nelson Mandela, o primeiro presidente sul-africano depois do fim do apartheid, enxergou na seleção sul-africana de rugby - os Springbocks, uma instituição nacional, pelo menos da parte branca que endossava o racismo oficial - uma promissora bandeira de integração nacional.



















Clint Eastwood dirige Morgan Freeman e Matt Damon em Invictus



Morgan Freeeman empresta seu carisma e sua simpatia natural a um personagem contemporâneo e ainda mais carismático e simpático. O resultado, apesar da indicação ao Oscar, não arrebata: é solene, contido, respeitoso demais. Mais interessante é notar o olhar humano e astuto de Mandela/Freeman/Eastwood, enxergando em cada atitude do presidente a possibilidade de mandar o recado certo, exato. Nada do que o personagem faz (certamente, há uma boa correspondência ao Mandela real) é espontâneo ou egoísta - tudo serve a um propósito maior.

O grande "projeto" de Mandela no filme - provavelmente, em meio a dezenas de outras grandes sacadas concomitantes - é arregimentar o capitão dos Springbocks para sua causa. Inspira o rapaz, bota responsabilidade sobre seus ombros fortes e insufla nele a ânsia de liderar e inspirar outras pessoas. O capitão, vivido com grande competência por Matt Damon (indicado ao Oscar de ator coadjuvante), se enche de motivação a partir do magnetismo pessoal do presidente e, aos poucos, vai transformando o bando de brutamontes (talvez ingenuamente) racistas em pessoas tolerantes e integradoras.

Um ano separa a sacada de Mandela da Copa do Mundo de rugby, que seria sediada na própria África do Sul. Ao saber, por um assessor, que a final da Copa seria assistida na TV por mais de 1 bilhão de pessoas, Mandela tem uma visão e se põe a tocar o projeto de transformar o medíocre time nacional em um futuro campeão. Isso dá trabalho, muito trabalho, mas mais difícil é fazer a enorme e paupérrima massa de negros adotar o esporte e sua seleção - um exercício de perdão, de inclusão, de unificação. Trabalho para um grande líder.


Veja o trailer de Invictus!

O clímax do filme, claro, vem na final da Copa do Mundo, jogo a que os Springbocks se qualificam após uma campanha irretocável e suada. Os oponentes são os All-Blacks - a seleção da Nova Zelândia, um ícone do esporte mundial, o equivalente ao que é a seleção brasileira no mundo do futebol -, uma máquina de furar muralhas de marmanjos e de botar a bola oval no chão adversário. A câmera de Eastwood faz um trabalho fantástico, no nível do que Oliver Stone fez com o futebol americano em Um Domingo Qualquer - e muito melhor do que tudo que já foi feito com o nosso futebol. Os jogos são vistos de dentro, acompanhamos cada músculo se retesando, cada arranhão acontecendo, cada ombrada explode no nosso peito. Que Avatar, que nada: isso é que é ação.

De resto, fica a forte impressão que causa a direção calma, equilibrada, elegante de Clint Eastwood. Fica a qualidade que ele arranca de todo o seu elenco. A música delicada que recheia os silêncios de um roteiro competente e de fluência contínua. Uma aula de como se faz um filme convencional, mas que, nas mãos de alguém genial, resulta sempre em algo único.

E fica a inspiração, pois bons filmes esportivos - Carruagens de Fogo, Um Homem Fora de Série, Um Domingo Qualquer, Lendas da Vida... - são sempre inspiradores. Esse é o golpe final de Eastwood, pois seu filme procura justamente o que inspira as pessoas. Nelson Mandela, durante os muitos anos em que ficou preso, buscou inspiração na poesia Invictus, do poeta inglês William Ernest Henley ("sou dono e senhor do meu destino / sou comandante da minha alma"); sua trajetória inspirou o capitão dos Springbocks; e estes, misturando suas velhas cores a um novo hino, acabaram inspirando um país a começar a vencer - sabemos que o processo será lento e dolorido - seus tabus e seus ressentimentos.

A nossa crença na capacidade humana de se reinventar se renova pelas mãos octagenárias de Clint. Mãos que já mataram índios e caubóis, que já deram cabo de delinquentes de toda espécie, mas que foram se amaciando com os anos e que, hoje, só moldam singelas obras-de-arte.

P.S.: pra quem já viu o filme, vale dar uma olhada nas imagens reais da final da Copa do Mundo de rugby de 1995. Demais!


(Como era possível viver antes do You Tube?)

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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010 - 9 Comentários

Algumas obras são grandiosas, inovadoras, fazem barulho e empurram o cinema pra frente. O Mágico de Oz, E o Vento Levou, Star Wars, Titanic e o recente Avatar são exemplos claros. São filmes que entram para a história e que arrebatam pela novidade. Não é por acaso que eles aparecem nas listas de maiores bilheterias de todos os tempos.

Mas há outro tipo de filme bem menor, mais convencional, apoiado acima de tudo em um bom roteiro, cuja maior preocupação técnica é mater a câmera próxima, íntima dos personagens. São filmes que não querem mudar o curso da história, nem ficar na história - querem apenas dissecar seus personagens e contar suas histórias.

Alguns desses filmes - poucos, na verdade - conseguem retratar melhor do que ninguém o espírito de uma época: tensões sociais, desdobramentos causados por um contexto maior na vida privada, relacionamentos... diga se há maior exemplo do que era o final da década de 60 do que A Primeira Noite de um Homem. Ou se há algo que retrate melhor o yuppismo da década de 80 do que Uma Secretária de Futuro. Ou se alguém conseguiu escancarar com igual sucesso a fragilidade dos relacionamentos adultos numa época em que naõ bastam instituições como casamento do que Closer - Perto Demais, de 2004.

Os três filmes acima citados são cria, veja só, de um único diretor, o genial Mike Nichols, um cara especialista em retratar o que há de mais relevante no seu tempo. Ele pode não ser o "rei do mundo" nem fazer discursos de agradecimento na língua dos Na'Vi, mas imagino que ele não tenha inveja do James Cameron. Ele opera em outra frequência, joga em outra liga.

O mesmo pode ser dito de Cameron Crowe, diretor de Vida de Solteiro, obra-prima da solteirice engajada dos anos 90 na Seattle sob o contexto do grunge, de Jerry Maguire e de Quase Famosos. Um diretor que valoriza seus diálogos, que cria personagens marcantes e que ajuda o espectador mais sensível a se entender melhor.

Robert Altman (Short Cuts), Billy Wilder (Se Meu Apartamento Falasse), Robert Redford (Gente como a Gente) e Fraçois Truffaut (Beijos Roubados) são outros representantes ilustres dessa estirpe de cineastas.

O mais novo integrante do clube é Jason Reitman, diretor de 32 anos com apenas três filmes lançados. Sua estreia, Obrigado Por Fumar, botou ponto final na era do politicamente correto, mostrando que imbecilidade não tem partido. No segundo filme, Juno, ganhador do Oscar de melhor roteiro, mostrou a adolescência sob ótica nova, distante dos rebeldes sem causa dos anos 50, dos sonhadores de 68, da turma "popular x excluídos" da high school dos anos 80. Uma adolescência enfadada, consciente da sua imaturidade, um tanto cínica (característica até então exclusiva dos adultos). Com seu terceiro filme, Amor Sem Escalas, Reitman atinge um novo grau de representatividade.

Amor Sem Escalas é muito mais do que o filme sobre a crise econômica nos EUA, como se fala por aí. É um filme que usa o contexto da crise para falar sobre a auto-suficiência das pessoas numa era em que nada lhes falta: smart-phones, salas VIP, malas com rodinhas, festas em qualquer lugar. Acesso irrestrito ao mundo, é só chegar e aproveitar, esta é a promessa dos nossos tempos. Nada pode nos segurar: há termos como "sabático" que nos ajudam a justificar um ano de vadiagem nas praias da Austrália; há carreiras que devem progredir, dando pretexto para adiar a formação de uma família (casamento ou filhos ou cachorro ou empregada)...
























George Clooney é um herói desta era: vive de avião em avião, conta com - literalmente - milhões de milhas acumuladas, participa de todos os programas de milhagem existentes e desfila pelos EUA com muito charme, ternos de caimento perfeito, malas irretocáveis - e nenhuma raiz. Perdeu contato com suas irmãs, não tem nenhum relacionamento fixo e tem como endereço um porcaria de apartamento vazio e triste.

O peso dessa opção de vida vai caindo aos poucos - à proporção inversa da maneira que ele, como palestrante motivacional, propõe à sua audiência que imagine o alívio que seria remover das costas o peso de mulher, filhos, prestações da casa própria, carro e tudo mais. E duas mulheres fazem a ficha cair: primeiro, a novata caxias (Anna Kendrick, de Juno) que entra na empresa e propõe uma mexida radical no modus operandi do cara: ao invés de viagens pelos EUA para demitir pessoas às pencas (é aí que está o contexto da crise), os cortes poderiam ser promovidos pela Internet. Confronto e aproximação se seguirão, abrindo a guarda de Clooney. Então entra a segunda mulher (Vera Farmiga, de Os Infiltrados), outro tubarão corporativo que se define como uma versão de Clooney portadora de vagina. Por trás do descompromisso e das agendas atribuladas, um laço vai se formando, e mudanças acontecerão. (Acontecerão?)

Entre as várias cenas geniais do filme, a melhor é uma conversa entre os três personagens principais, a novata de um lado, Clooney e sua fuck buddy do outro. Um choque de gerações explícito como há muito, muito tempo não se vê no cinema (pensei novamente em Mike Nichols e A Primeira Noite de um Homem).

Há um parentensco claro entre Amor Sem Escalas e outro filme sobre o vazio da existência moderna em um mundo de viagens, hotéis e tecnologia que disfarçam muito mal a solidão: Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, filme que revelou Scarlett Johansson. Bill Murray, o ator decadente daquele filme, poderia se sentar e conversar longamente com o George Clooney do filme de Reitman. O único problema é que a Scarlett Johansson largaria o velho comediante na hora.

Brincadeiras à parte, a verdade é que Amor Sem Escalas é um filme raro, capaz de dizer tudo e mais um pouco sobre nós - não sobre o que somos ou de onde viemos (discutir a natureza humana de maneira atemporal é coisa para Woody Allen, Stanley Kubrick e Clint Eastwood), mas sobre aquilo em que estamos nos tornando. Ser o termômetro de seu tempo é o talento de Jason Reitman, e ele tem aproveitado bem o dom, em uma carreira até aqui irrepreensível e cada vez mais promissora.


Veja o trailer de Amor Sem Escalas!

Não que ele vá sair carregado de Oscars do Kodak Theater no próximo dia 07 de março; mas pelo menos receberá uma meia dúzia de indicações, e isso será o suficiente para dar uma alavancada na audiência - e para transformá-lo no pequeno filme de estimação dos não deslumbrados com novas tecnologias.

BLOGIE, se tivesse direito a voto em alguma premiação, daria a Amor Sem Escalas a sua preferência.

P.S.: aliás, que tradução bizarra. O título original, Up in the Air, é muito feliz ao classificar a vida do personagem de Clooney como algo "em suspenso", etérea, sem base sólida. Caso parecido com o primo Encontros e Desencontros, nome preguiçoso que deram para Lost in Translation, "perdido na tradução", um filme sobre tudo aquilo que não é falado, que está entalado, uma angústia à qual não se dá vazão. Pelo menos, estão bem acompanhados.

P.S. 2: OK, talvez eu ficasse em dúvida entre Amor Sem Escalas e a obra-prima de Quentin Tarantino, o inacreditável Bastardos Inglórios... são filmes bem diferentes, mas ambos levam nota 10.

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terça-feira, 26 de janeiro de 2010 - 2 Comentários

... Com o habitual atraso, mas vem.

O filme traz Larry David, criador das séries Seinfeld e Segura a Onda (nesta, também é o protagonista), e também a bela atriz Evan Rachel Wood. Em Nova Iorque, para dar um tempo na fase europeia de Allen.

Este é o cartaz do filme, para os cinemas brasileiros (sempre me divirto em ver o esforço da distribuidora em tentar vender os filmes do Woody Allen como algo mais popular do que realmente é... Em Match Point, por exemplo, optaram por simplesmente omitir o nome do diretor, servidos que estavam com uma imagem gigante e sexy da Scarlett Johansson; em Vicky Cristina Barcelona, o time estava reforçado com Penélope Cruz, então os problemas foram menores - deu até pra citar o baixinho... Já neste Tudo Pode Dar Certo, com um protagonista careca e de cabelos brancos, a dificuldade aumentou, então botaram "depois de Vicky Cristina Barcelona" - só faltou colocar, em letras maiores do que as do próprio filme, "aquele filme com a Scarlett Johansson e a Penélope Cruz!").

























A estreia, no entanto, é só em março, fellows. Sorry.

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 - 6 Comentários

O grande evento cinematográfico do ano já foi eleito: trata-se de Avatar, o novo filme de James Cameron (sua última empreitada foi Titanic, há doze anos!). O filme, que estreia nesta sexta-feira, está sendo lançado com enorme alvoroço e amparado por uma campanha gigantesca, que inclui jogos de realidade aumentada, lançamento de celulares equipados com conteúdo exclusivo do filme e bonequinhos do Mc Lanche Feliz.

Tanto barulho se justifica: Cameron, megalomaníaco assumido e incorrigível, já foi de Alien a Exterminador do Futuro a O Segredo do Abismo a Titanic, aumentado o orçamento dos seus filmes de 100 em 100 milhões de dólares... e conseguindo sucesso em todos. Em Titanic, tornou-se oficialmente "rei do mundo" e passou a investir em seu novo brinquedinho: uma saga inteiramente filmada em 3D, com atores reais sobrepostos por imagens digitais (aquela tecnologia conhecida como "realidade digital"). O projeto se chama Avatar, e seu longo período de gestação passou pelo desenvolvimento de novas câmeras, novos monitores, novas técnicas de animação... enfim, lembra aquele papo do George Lucas quando do lançamento de Star Wars - Episódio I - "só agora há a tecnologia necessária para a realização de algo deste porte" -, só que agora é sério.



















James Cameron volta a atacar - agora com artilharia pesada.

Tive a oportunidade de assistir a Avatar em uma das duas cópias para I-Max no Brasil: tela gigante, 3D envolvente, som de show de heavy metal. E posso atestar que, de fato, o filme tem potencial de se tornar um grande marco na história da evolução do cinema - da mesma maneira que O Cantor de Jazz causou furor nos anos 20 por inaugurar a era do cinema falado, ou que O Mágico de Oz encantou no final da década de 30, ao imprimir cores ao filme, Avatar sinaliza o caminho que o cinema do futuro vai percorrer, enterrando a "velha" tecnologia do filme "chapado", tão facilmente reproduzida nas salas de TV da classe média.

No entanto, devo ponderar que, assim como O Cantor de Jazz - e ao contrário de O Mágico de Oz -, os méritos de Avatar param por aí. Não se trata de um filme que vá além dos méritos técnicos. Em diversos momentos, fica claro que seu realizador está mais preocupado em tirar vantagem das possibilidades do 3D do que em tocar a história pra frente. É um tanto incômodo, passando uma impressão daqueles filminhos promocionais que passam nas TVs de última geração expostas nas Fast Shops da vida. 

O roteiro do filme é uma cópia não muito inspirada de O Retorno de Jedi - um jovem soldado mais curioso do que inteligente é o "escolhido" pela misteriosa força da natureza que rege um mundo exótico, habitado por criaturas perigosas e esquisitas; ele se envolve com a turma do bem e com a turma do mal, opta pelo lado do bem e, com a ajuda das criaturas da floresta, acabará evitando que o exército do mal cause um enorme estrago no mundinho em questão. Desculpem por resumir a coisa dessa maneira, mas não é nada que não se perceba logo nos primeiros dez minutos de filme.

As pequenas diferenças: o jovem soldado, Jake Sully, é paraplégico. Por uma coincidência - seu irmão gêmeo, morto há pouco tempo, era um cientista renomado, e o fato de terem DNAs idênticos o habilita a ser escalado para a missão do irmão -, vai parar no planeta Pandora, um ambiente pra lá de inóspito, dada suas condições não adequadas para a respiração de humanos e sua fauna um tanto dada à violência.

O projeto do qual Jake fará parte é muito louco: ele se deita em uma câmara parecida com aquelas de bronzeamento artificial, e seu ser é totalmente transferido para o corpo gestado em laboratório de um "avatar" de aparência compatível com os nativos Na'vi - uns caras azuis de três metros de altura, com rabo e nariz achatado de boxeador. A aparência dos Na'vi motivou os mais maldosos a compararem Avatar com "a reunião de família do Jar Jar Binks", do já citado Episódio 1 da série Star Wars.
















Não compare os Na'vi com Jar Jar Binks, que eles ficam bravos.

As motivações do protagonista - entender a "Força", lutar pelo bem de um povo mais fraco, amar sua nativa azul - são um tanto previsíveis. Os episódios que ele vive não são mais inusitados. E assim, com poucas surpresas - e com a tradicional mão pesada de Cameron nos diálogos -, seguindo o esquema convencional de aventura das matinês do George Lucas, Avatar avança suas mais de duas horas de duração e chega ao final.


Veja o trailer de Avatar!

Cabe aqui uma observação sobre meu estado físico ao longo da sessão: um enjoo, daqueles que se sentem em barcos balançando no mar, bateu forte no meio do filme e tive que passar alguns minutos sem os óculos gigantes, respirando fundo e de olhos fechados. Essa sensação, após mitigada, deixou como herança uma dor de cabeça que ainda lateja na cabeça deste blogueiro. Posto que não se trata de falta de hábito na sala de cinema (só faltava essa), divido a culpa entre James Cameron, com seu competente 3D, e a sala I-Max, com seu gigantismo sufocante. Depois de uma hora enfiado nos desfiladeiros de Pandora, ou pulando de árvore em árvore, parecia que era eu quem tinha sido transferido para o enorme corpo azul do avatar de Jake Sully. Acho que James Cameron ficaria feliz com essa observação.

Mas eu, cá no meu canto, já recomposto por dois Neosaldinas e um Dramin, respiro aliviado e aguardo ansioso pelo próximo filme "convencional", quem sabe o novo Woody Allen.

Resumo da ópera: Avatar é um evento incontornável, é a História acontecendo na nossa cara. Deve ser visto, deve ser admirado, renderá uma baita grana para seu criador talentoso e excêntrico, ganhará até uns Oscars nas categorias técnicas. Mas dificilmente será seu filme preferido.

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009 - 2 Comentários

Dica rápida para a sexta-feira: a estreia da semana é Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee. O cara já dirigiu Brokeback Mountain e Desejo e Perigo, e não para de fazer coisas diferentes.

Desta vez, resolveu mostrar a história real - e surreal - dos jovens que "organizaram", há 40 anos, o festival mais famoso de todos os tempos: Woodstock.

Veja o trailer:



O elenco é ótimo e traz sacadas como a escolha de Demetri Martin (um premiado comediante stand-up nova-iorquino, estreante na tela grande) como o protagonista. Martin demonstra carisma suficiente para segurar o filme, com um personagem que tem seu grande dilema: sair ou não sair do armário.
















Assumir ou não assumir?, eis a grande dúvida de um dos viabilizadores de Woodstock.


De quebra, para garantir a juventude necessária ao projeto, Ang Lee escala Emile Hirsch e Paul Dano, dupla de brothers nerds da comédia adolescente Show de Vizinha, e Eugene Levy, a esta altura uma lenda para a geração que adolesceu nos anos 90, graças ao seu eterno papel de pai do Jim, de American Pie.

Mas a grande sacada de Ang Lee é ter entendido que Woodstock, o festival, foi feito não por Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Who e Creedence, mas pelos mais de 300 mil jovens gente-fina (também chamados, à época, de hippies, vagabundos, mendigos, drogados...) que tomaram a fazenda literalmente de assalto, entrando sem pagar, tirando a roupa, copulando livremente, rolando na lama e pouco se importando com a falta de condições básicas para a sobrevivência (saneamento, comida, água).

Por isso mesmo, Aconteceu em Woodstock não mostra um só segundo dos shows que se tornaram lendários do festival (para isso,  nada superará o documentário Woodstock - 3 Dias de Paz, Amor e Música, já devidamente comentado por aqui), mas mostra tudo o que antecedeu o evento e tudo que aconteceu em volta dos shows.

Há vários outros aspectos que merecem ser discutidos - por exemplo, a suposta "pureza" de propósitos do festival em oposição à real atuação de homens de negócios por trás de tudo; ou ainda a atuação soberba do personagem principal como intermediador entre a moçada hippie e os habitantes conservadores da cidadezinha. Vou tentar aprofundar em outro post.

Por ora, vamos ao cinema!

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009 - 4 Comentários

Enfim, uma sexta-feira com algumas estreias interessantes.

De um lado, temos É Proibido Fumar, filme da sempre interessante diretora Anna Muylaert, que tem especial habilidade em retratar a classe média descendo a ladeira do poder aquisitivo rumo à pobreza (Durval Discos é o melhor exemplo). Aqui, ela mostra Glória Pires como a professora de violão às voltas com aluguel, nada pra fazer, TV e cigarros. E Paulo Miklos, o novo vizinho com quem ela acabará engatando um relacionamento. Veja o trailer e decida se a coisa é pra você:



Já na linha "cinemão", daqueles de lavar a alma, cheio de cores e mulheres bonitas, Pedro Almodóvar nunca nos deixa na mão e entrega Abraços Partidos, com Penélope Cruz linda como nunca e brilhando como sempre. A recepção foi fraca por parte da crítica, mas os filmes do espanhol são sempre melhores do que todo o resto que ocupa as salas vizinhas.

























Meus comentários, publico no início da semana que vem. Mas o amigo do BLOGIE não precisa de dica de crítico pra saber que tem que ver o novo Almodóvar... façamos o seguinte: veja o filme no final de semana, e conversamos sobre ele na segunda-feira.

Bom fim-de-semana a todos!

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sexta-feira, 6 de novembro de 2009 - 6 Comentários

Já falei tanto sobre a expectativa da estreia de 500 Dias com Ela, que é até bobagem falar mais.

De qualquer forma, pra quem não sabe do que se trata: 500 Dias com Ela é uma comédia romântica com ar de cinema independente e pop (Juno, Encontros e Desencontros, etc), que arrebatou o verão nos EUA. Fez de Zooey Deschanel a estrela do momento (ver post desta semana) e revelou Joseph Gordon-Levitt, até então um ator secundário, aqui se mostrando um cara versátil, talentoso e carismático.

O filme foge do esquema comum das comédias românticas "de mulherzinha". O foco é no homem, ele está perdidamente apaixonado por Summer (Zooey), uma mulher que o faz de gato e sapato - e que deixa isso claro logo na saída. Quer dizer, bem diferente do que vemos no cinema e bem mais próximo do que realmente acontece na vida.



No recheio, muitas cenas sensacionais (Gordon-Levitt cantando Here Comes Your Man, dos Pixies, no karaoke), alguns diálogos antológicos ("meu gato foi batizado em homenagem ao Springsteen...") e um show de carisma de Zooey Deschanel, com olhos que, não importa a distância e a posição no enquadramento, são sempre o centro das atenções. Trata-se de um filme muito criativo, com recursos variados de fotografia, edição, animação, o diabo... sob esse aspecto, lembrou-me Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, do Woody Allen - e não consigo pensar num elogio melhor do que este.

Só um teaser para o leitor de BLOGIE: em determinada cena, o cara consegue finalmente levar Summer pra cama. Este é ele deixando o apartamento na manhã seguinte:



O som é soul-pop descartável dos anos 80, da dupla Hall & Oates. A cena que antecede (a da transa) cita A Primeira Noite de um Homem (referência recorrente no filme) e Beijos Roubados. De resto, é música pop de primeira qualidade, referências à mitologia do cinema e do rock... tudo de primeira.

Boa ida ao cinema!

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segunda-feira, 19 de outubro de 2009 - 2 Comentários

Steven Soderbergh é um desses caras que apresentam um primeiro filme muito promissor e que, na sequência da carreira, são sempre tratados como "autor", mesmo que seus filmes não tragam nada de autoral ou interessante.

De fato, ele teve um começo de carreira bem interessante com Sexo, Mentiras e Video-Tape, e causou grande impacto em 2000, ao enfiar dois filmes na lista dos principais indicados ao Oscar (Erin Brokovitch e Traffic). Mas a partir daí sua carreira ficou oscilando entre competentes e carismáticos filmes-pipoca (Onze Homens e um Segredo) e bombas pretensiosas que ele pensa vender como "pequenos filmes independentes" (Full Frontal, Confissões de uma Garota de Programa). É no primeiro banquinho dessa gangorra que se senta seu mais novo filme, O Desinformante!, que estreou nos cinemas na última sexta-feira.

















Matt Damon dá tilt no detector de mentiras...

A história, baseada em fatos reais, trata de Mark Whitacre, vice-presidente de uma grande empresa agrícola que mentiu. Mentiu uma vez, para seus patrões, e a mentira foi crescendo, a ponto de ele ter que inventar outra mentira para encobrir a primeira. E depois outra. E depois mais outra. Daqui a pouco, o executivo será um informante do FBI infiltrado dentro da tal empresa, prestando valiosas informações sobre a formação de cartel na qual ele teria se envolvido a mando dos chefes.

Matt Damon engordou bastante e ostentou um bigode horrível para encarar o papel, e o defendeu de uma maneira um tanto confusa, que até agora não entendi se é habilidade do ator e parte do personagem, ou se é apenas uma atuação limitada. De qualquer modo, o jeito esquisito de Damon e sua fala mansa acabam confundindo o espectador. Há quem goste disso, e há quem se irrite. O crítico Inácio Araújo, da Folha de São Paulo, considera uma trapaça a maneira como Soderbergh nos enrola, deixando uma sensação de que assim não dá pra jogar...

Já eu gostei; acho que iludir o público através de uma falsa trama é um artifício lícito nas mãos de cineastas espertos. Hitchcock tinha até nome pra isso: MacGuffin. Mas Hitchcock usava MacGuffins com parcimônia, enquanto Soderbergh se lambuza nas mentiras do executivo - e esconde demais a "verdade", ao não dar nenhum indício desse tipo de motivador no mitômano Whitacre.


Veja o trailer de O Desinformante!

De qualquer modo, vale dizer que O Desinformante! é um filme inteligente, com boa trama, integralmente conduzido por diálogos e classudo. Desde seus créditos iniciais, vemos que se trata de um filme que remete às décadas de 50 e 60, época em que Hitchcock e seus thrillers assombravam as sessões de cinema. É um filme que proporciona duas horas bem agradáveis e que adiciona mais um tijolinho na obra que, aos trancos e barrancos, Soderbergh vai construindo. Tramas emboladas, mentiras e conspirações corporativas são seus temas preferidos.

Quando isso é colocado a serviço da diversão, todos saem ganhando. Boa sessão!

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sexta-feira, 9 de outubro de 2009 - 3 Comentários

Estreia hoje, repleto de expectativas, o sétimo filme de Quentin Tarantino: Bastardos Inglórios. O filme fez enorme sucesso nos EUA, já se pagou (feito merecedor de destaque hoje em dia) e vai levar bastante gente aos cinemas brasileiros.

Se você é daqueles que, como este blogueiro, aguardou por esta data como se espera por uma final de Copa do Mundo, não é necessário dizer mais nada.


















Tarantino e elenco: eles matam nazistas no cinema. Uma tradição americana.

Mas se você é da turma que ainda está à procura de boas razões para escolher este filme entre os outros doze do multiplex mais próximo, este post foi feito pra você. Aqui estão as 5 principais razões para ver Bastardos Inglórios:


1- Cães de Aluguel, Pulp Fiction, Jackie Brown, Kill Bill, Kill Bill Vol. 2

A obra de Tarantino vai se construindo com calma (ele não é dos diretores mais profícuos), muitas idiossincrasias e nenhuma acomodação. Cada filme do homem é recheado com suas manias, ideias malucas e diálogos de efeito. Na série Kill Bill, ele mostrou grande evolução nos aspectos artísticos - fotografia, direção de arte, etc. Ele ainda não chegou no auge, e Bastardos está dando mais um passo nessa direção.

2- Prova de Morte

O último filme de Tarantino nem chegou a ser lançado no Brasil! Também pudera: o diretor chutou o balde ao fazer esse "meio-filme" para ser lançado em conjunto com o Planeta Terror de Robert Rodriguez. Cortes que emulam um filme mal montado, sujeira proposital e uma história bizarra... Prova de Morte, mesmo com seu caráter de brincadeira, deixou um cheiro de derrapada no currículo de Tarantino, e ele quis limpar a barra em grande estilo com Bastardos.

3- Os Bastardos

















Brad Pitt ensina a grande arte de escalpelar nazistas...

Quantos filmes de Segunda Grande Guerra ainda merecem ser feitos? Tarantino responde: o dele, pois ele faz diferente de tudo que veio antes. Em seu novo filme, ele inverte a História e dá vida aos Bastardos, uma milícia de judeus americanos que mata nazistas com requintes de crueldade (escalpo é a marca registrada). A trama se passa na França ocupada pelos alemães, e Brad Pitt lidera a trupe, com um plano ambicioso de virar a guerra na marra.

No mais, como todo Tarantino, toneladas de citações pop: música de primeira, apropriação de códigos do western, dos filmes de guerra e de diretores clássicos, brincadeiras com a mitologia americana...

4- Mélanie Laurent e Diane Kruger












Enfeitam a milícia dos Bastardos duas moças inacreditavelmente bonitas: a alemã Diane Kruger - que já foi a Helena de Troia e que estava à procura de uma chance para virar atriz de verdade - e a francesa Mélanie Laurent - que pôde ser vista recentemente em Paris, no qual atormenta um professor universitário de meia-idade. Mélanie, que é a verdadeira protagonista do longa, é uma atriz de recursos mais vistosos e de beleza menos convencional - e mais marcante.

5. O Trailer:




Dizer mais o quê? Escolha uma sala com tela bem grande e som ensurdecedor e boa sessão!

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sexta-feira, 2 de outubro de 2009 - 2 Comentários

Entre as estrieas dessa sexta-feira, temos o brasileiro Salve Geral (que faz aquela embolada sócio-ideológica pró-ladrão em cima do dia em que o PCC parou São Paulo) e mais umas coisinhas... e tem Terror na Antártida, filme de suspense policial que só tem levado pau da crítica, e que não deve arrebatar lá muito público.

Sinceramente, não sei muito sobre o filme, mas garanto que vou assisti-lo. A razão é uma só, e suficiente: Kate Beckinsale.

























Kate Beckinsale, uma inglesinha linda, já fez a esposinha pra lá de interessante de Adam Sandler na comédia familiar Click. Já foi a enfermeira sexy que causou briga entre os amigos Josh Hartnet e Ben Afleck na bomba Pearl Harbor. Já foi heroína de filme de ação. E já fez o papel de Ava Gardner, a mulher que Billy Wilder definiu como "o animal mais belo que já existiu", em O Aviador, do Martin Scorsese.

Resumindo: é uma gata. E tem talento, pois enfeita qualquer tipo de filme.

Ela traz aquela qualidade que é sempre bem-vinda em atrizes tão privilegiadas pela natureza: não tem medo de tirar a roupa.

Diz que, logo na primeira cena de Terror na Antártida, a moça já aparece pelada. Bom, muito bom. Ela também tira a roupa em Laurel Canyon (2003) e em dois filmes inéditos ou "secretos" por aqui:  Uncovered e Haunted.



Mas o meu momento preferido de Kate Beckinsale é mais comportado: a comédia romântica Escrito nas Estrelas, em que ela faz par com John Cusack, é uma das coisas mais agradáveis de se assistir dos últimos anos.


















Eles se conhecem em Nova Iorque, em uma cena muito interessante. Eles patinam no Rockefeller Center, enquanto conversam rapidamente sobre preferências. O filme preferido dele: Rebeldia Indomável, com Paul Newman. Palavra preferida dela: "serendipity" (que é o nome original do filme). E por aí vai. Daí entra num lance de ela fugir do cara, acreditando que o destino vai fazer seu trabalho, enquanto ele corre contra o relógio (tem casamento marcado com uma zinha sem graça) para reencontrar Kate.

Enfim, aquele filme de mulherzinha regular. Mas, juro, não faz mal nenhum passar duas horas assistindo Kate Beckinsale sorrindo, falando, chorando, se atrapalhando. É até reconfortante.

Veja se estou mentindo:


Algumas cenas de Escrito nas Estrelas, com Kate Beckinsale e John Cusack.

Agradável, não?

Por essas e outras, lá vamos nós encarar mais uma estreia no cinema.

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terça-feira, 15 de setembro de 2009 - 14 Comentários

A temporada de filmes "sérios" de Hollywood está só começando (é depois do verão nos EUA que os postulantes ao Oscar programam os lançamentos), mas já dou por encerrada a briga pelo posto de filme do ano.

O filme do ano é uma animação: Up! - Altas Aventuras, da Pixar. Faz tempo que as animações vêm se mostrando tão boas quanto os melhores "filmes de verdade" - e, a despeito de terem como público a criançada, demonstram personagens mais desenvolvidos e mais sensibilidade que quase toda a produção americana. Depois da série Shrek, de Procurando Nemo, de Monstros S.A., de Os Incríveis, do ousado Wall-E, de tanta coisa, chegou a hora de dizer: um desenho animado é o melhor filme do ano.

Isso não acontece pelos seus óbvios méritos técnicos: pra falar a verdade, não ligo para a definição da imagem (que é ótima), para as cores (que são incríveis), para o realismo (que é desnecessário) ou para o 3-D (prefiro até 2D, pra não desviar atenção). Ligo mesmo para a história, para os personagens, para o cinema.
















E Up! começa com a melhor sequência de cinema dos últimos tempos: evocando outra época, através do cinejornal (da mesma maneira que começa Cidadão Kane), o filme mostra um menino no cinema, sonhando com as grandes aventuras de um explorador famoso. Depois ele brinca na rua e conhece uma menina doidinha, esperta e com o mesmo fascínio pelas aventuras do tal explorador. São só quatro minutos de filme.

E então, sem que uma palavra seja dita, um vídeo-clipe de cinco minutos conta a vida de Carl e Ellie, agora crescidos, que se casam, que trabalham no mesmo zoológico (ela, como zoóloga; ele, como vendedor de balões), que sempre adiam o grande plano - explorar um paraíso tropical na Venezuela - devido a gastos mais urgentes, que acumulam frustração sobre frustração... mas que se tornam um adorável casal de velhinhos, até que Ellie morre e Carl fica sozinho, na casa que construíram juntos, rodeado das lembranças da sua mulher esperta.

Repito: é a melhor sequência do cinema em muito tempo. Não importa se você é macho, muito macho, novo, velho, mulher, indeciso... você vai chorar.
















Apresentados os personagens, sabemos que Carl tem uma dívida com sua finada esposinha: concretizar sua GRANDE AVENTURA. As circunstâncias - a iminência da mudança para um asilo - o fazem bolar o plano. E aí entra a fantasia genial da Pixar: o vendedor de balões enche centenas de bexigas, ergue sua casa do chão e se põe a buscar o paraíso perdido da América do Sul.

Por acaso, um escoteiro gordinho - Russel -, que está focado em completar a tarefa de ajudar um velhinho, está na varanda no momento em que a casa alçava voo. Será ele o companheiro de Carl na sua aventura, e será ele o responsável por dar bons motivos para Carl continuar vivendo sua própria vida.


Veja o trailer de UP - Altas Aventuras!

Como em qualquer desenho animado, personagens secundários engraçados - bichos falantes, desengonçados e exóticos - vão popular a tela e dar aquele tom cômico. A criançada se amarra, mas todos vão rir. A sensibilidade com que hábitos de dia-a-dia são expostos - especialmente a relação entre homens e cães - é tocante. A sacada do cão falar com um dispositivo digital, que verbaliza o pensamento do bicho, é genial: por exemplo, após levar um esporro do velhinho e de dar uma sumida, o cachorro está na porta. O velhinho abre e fica supreso - e o cachorro explica, abanando o rabo: "é que eu te amo, então fiquei escondido embaixo do balcão da varanda..."

Ao longo do filme, Carl terá que lidar, entre outras coisas, com a limitação da sua "nave": os balões cheios de hélio não durarão muito, e é uma metáfora muito bonita a maneira como eles vão murchando e anunciando o tempo de vida que Carl vai perdendo na sua expiação da perda de Ellie. E é de dar um nó na garganta (de novo) a maneira como ele consegue buscar um gás novo para sua vida: tirando o peso de dentro da casa (o que significa se livrar da tralha que lhe traz tantas lembranças). Ele finalmente se desapega e pode abrir seu novo livro de aventuras.

Inspirador, sensível, observador, genial... e infantil. Lidemos com a verdade: ninguém neste século consegue fazer cinema com a qualidade da Pixar. Up! para o Oscar de melhor filme!

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sexta-feira, 28 de agosto de 2009 - 6 Comentários

Entre as estreias do final-de-semana, nada de (500) Dias Com Ela ou Bastardos Inglórios, que bombam nos EUA e que só estrearão aqui em outubro. O que temos são exemplares da safra mais despretensiosa (e bem-vinda) do cinema brasileiro, ao lado de mostras do que há de pior e mais arrogante no cinema europeu. Na dúvida entre um e outro, sugiro ir no bom e velho filme americano médio, boy meets girl, de classe média, em Nova Iorque. Explico.

O filme brasileiro despretensioso é Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas. A coisa é simples, você conhece: Rui e Vani eram noivos há seis anos quando a série começou. A série era ótima, fez muito sucesso, ficou anos e anos em cartaz e rendeu um filme. E agora outro. Passado tanto tempo, é estranho reconhecer no casal com idade um tanto avançada algum indício "normal" de que se trata de um jovem casal de classe média sem filhos. Fim de temporada de sucesso é assim mesmo: também era estranho reconhecer nos seis milionários quarentões de Friends algo que lembrasse amigos solteiros dividindo apês em NYC. E foi bizarro presenciar as pra lá de balzaquianas amigas da Carrie agindo feito menininhas atrás do príncipe encantado em Sex and the City - O Filme (que cuspiu na cara do espírito da série). Enfim, Os Normais teve seu tempo, e, se você já tiver visto tudo no cinema e não houver mais opção, OK, vale para uma noite de domingo.

















Rui e Vani abraçam a nova geração...

O filme europeu metido a besta é O Anticristo, do Lars Von Trier, o diretor dinamarquês petulante que faz filmes com o único propósito de chocar e desconcertar a audiência. Esse não me pega. Não estou nem aí para a polêmica em torno do filme, que, "pessoal", trata de um casal se reconstruindo após a perda de um filho. No caminho, a coisa se torna um filme de terror, com cenas de sexo explícito, muito sofrimento, mutilação genital (depois que descobri que rolava isso no filme, não consigo ler uma linha sobre ele sem pensar "mutilação genital", com cara de nojo)... pra piorar a atriz, Charlotte Gainsbourg, ganhou prêmio em Cannes pela exposição. Minha opinião: um pouco de desconforto vai bem, mas não precisamos fazer parte do mundo bizarro de Von Trier, acredite.















Charlotte, a mocinha ingênua que deposita sua carreira nas mãos de um diretor maluco, e Von Trier, o diretor maluco. Pelo menos eles se divertiram com O Anticristo...

Como opção entre o mais normal e o mais bizarro, vamos de coluna do meio: Amantes, de James Gray, traz Joaquin Phoenix se dividindo entre Gwynethe Paltrow e Vanessa Shaw, numa crônica elegante em Nova York. Apartamentos bacanas, questões filosóficas comezinhas (bem mais amenas do que as do chato Von Trier) tratadas como centrais na vida (como acontece nas melhores casas), invernão pesado lá fora e um homem parado na encruzilhada da vida... é pra isso que o cinema existe. Isso é o que interessa. Esta é minha dica para o final-de-semana. Veja o trailer:




O que me chama a atenção - além da beleza de Gwyneth - é o talento de Joaquin Phoenix. Ele é um dos grandes atores surgidos nos últimos vinte anos, tem um carisma do tipo Marlon Brando. É um perturbado, claro. Em Amantes, é a nossa chance de conhecer o último trabalho de Phoenix antes de ele ter pirado, anunciado que encerrou sua carreira e ter se tornado uma sósia zumbi do Jim Morrison barbudo e gordo antes da morte. É impressionante, o cara está mal. Ele foi promover o filme no David Letterman e deu nisso:

(Eu juro, você TEM que dar uma olhada nisso!)



Depois dessa performance - merecedora de Oscar, Palma de Ouro, Kikito e muito mais -, você não vai assistir a Amantes?

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sexta-feira, 21 de agosto de 2009 - 6 Comentários

Sexta-feira de tempinho modorrento (pelo menos aqui em São Paulo) e poucas estreias no cinema. A maioria, bomba garantida.

Pra se ter uma ideia, um dos filmes que entram em cartaz hoje é A Teta Assustada, um filme peruano sobre uma menina que tem uma batata na vagina. Enough said.

Outra estreia é Veronika Decide Morrer, com a Sarah Michelle Gellar (a nossa querida Buffy). Trata-se de adaptação do livro de Paulo Coelho... o resultado é uma mistura de Garota, Interrompida com aqueles finais dos episódios do He-Man, nos quais os personagens apareciam para soletrar com calma a moral da história. Enfim, como dizia Didi, é fria!

Mas há salvação para sua noite de sexta: entra em cartaz Se Beber, Não Case!, mais um exemplar de uma tendência cada vez mais comum: a das comédias sobre idas a Las Vegas. Aqui, uns amigos vão fazer despedida de solteiro na cidade dos cassinos, tomam umas drogas, saem do ar e, ao acordarem, não encontram justamente O NOIVO. O desafio é achá-lo a tempo do casamento. O mote desse filme, assim como o de tantos outros (Jogo de Amor em Las Vegas, Quebrando a Banca, etc), é aquela frase que vira e mexe alguém repete: "what happens in Vegas, stays in Vegas" - algo parecido com a nossa expressão brasileira "amor de praia não sobe a serra".



Veja o trailer de Se Beber, Não Case!

Apesar do elenco não muito conhecido, o filme fez bastante sucesso nos EUA e parece ser uma boa opção. O clima é de comédia amalucada - bizarrices como casamento com prostituta, o aparecimento de galinhas, um tigre e um bebê cruzam o caminho dos amigos. O mais absurdo de tudo é a aparição de Mike Tyson, como se viu no trailer. Comédia rasgada para ver com os amigos, e que deve fazer boa carreira em DVD.

Se nada disso lhe agradar, vale sempre buscar uma velha amiga na TV. No caso, Scarlett Johansson.





















Scarlett em O Diário de Uma Babá: como garota normal, ela é ainda mais atraente...
Hoje, às 20:05, no Telecine Premium, será exibido O Diário de uma Babá, um dos filmes menos badalados da beldade e um dos poucos em que ela foge do estereótipo de loira fatal (que, sejamos sinceros, está começando a cansar pela repetição). Aqui, Scarlett é uma moça de New Jersey que estuda em uma faculdade de primeira em NYC, mas, para pagar as mensalidades, trabalha como babá para uma família ricaça.
A graça está na protagonista (flagrada em um momento logo depois de sua aparição em Encontros e Desencontros e antes do hype de ter se tornado musa do Woody Allen e do Brian DePalma), num papel de girl next door bem interessante e bem interpretado. E também na sua antagonista e patroa, a mãe pouco cuidadosa, fútil e cruel vivida pela sempre ótima Laura Linney (na minha opinião, melhor atriz americana do momento). De quebra, Paul Giamatti faz o marido ausente de Laura, como um executivo escroto e sinistro. O filme começa como uma comédia, e aí vai engrossando, engrossando, e no final se sai algo bem amargo e interessante. O final é redentor, de acordo com a cartilha de Hollywood, mas nada que atrapalhe o clima criado antes. Um bom filme.


É isso. Se estiver mesmo a fim de ir no cinema, minha sugestão continua sendo o brasileiro À Deriva, por sorte ainda em cartaz em várias salas em São Paulo, Rio e outras capitais. (Leia a crítica de À Deriva, publicada na quarta-feira!)

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sexta-feira, 14 de agosto de 2009 - 8 Comentários

Hoje a agenda está recheada de estreias. Nada que vá mudar o curso da história, mas há coisas para todos os interesses. Escolha o seu programa!

1- Arraste-me para o Inferno: esse é pra quem conhece o terror trash e engraçado de Sam Raimi. Este respeitável cineasta que dirigiu a série Homem-Aranha e que inventou o slash movie com Halloween alterna esses projetos com seu brinquedo preferido: fazer filmes de terror tão excessivos que fazem rir. O auge desse exercício é Uma Noite Alucinante, de 1987, no qual Bruce Campbell enfrenta as "criaturas do limbo" em uma cabana no meio da floresta. Árvores, pessoas e até a mão do cara ficam possuídas pelo demônio. O terror vem em forma grosseira e que se alterna entre o sangue de mentira de Sexta-Feira 13 e o pastelão de Os Três Patetas. Se você se diverte com isso, programão.


Veja uma cena de Arraste-me para o Inferno e você entenderá tudo...

2- Confissões de uma Garota de Programa: essa é a pegadinha do final-de-semana. Soderbergh escalou a porn star Sasha Grey para viver uma prostituta -e a fotografa como se fosse uma Holly Golightly (a personagem de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo) do século 21. O filme, no entanto, não traz nada de picante - a despeito do nome sensacionalista em português - é uma falação sem fim da menina tratando da sua vida pessoal e profissional. Idas ao analista, telefonemas, etc. Eu nunca - repito, NUNCA - acheu qualquer graça emqualquer dos filmes de Soderbergh, exceto naquelas escancaradamente comerciais (Onze Homens e um Segredo, etc). Ele deveria ficar na dele.

3-Brüno: pra falar a verdade, não me agrada nada a ideia de ver Borat novamente. Uma vez só já está bom. Porque Borat não é cinema. É provocação, é ultraje, é sociológico, é até televisão - mas não é cinema. Cinema tem que ter roteiro, direção, fotografia, esses cuidados que fazem a gente ficar embasbacado ao ver um filme numa tela enorme. Pra ver o humor de Sacha Baron Cohen, posso ver na TV, depois do Casseta & Planeta. Pois bem, Brüno é a nova investida do humorista sem noção, desta vez encarnando um gay enfronhado no mundo fashion. As pegadinhas do Mallandro caras a Cohen se sucedem e tal e coisa, mas não vale a pena sair de casa pra ver isso.

4- Tempos de Paz: Daniel Filho é um grande diretor, como o sucesso de seus filmes (Se Eu Fosse Você, por exemplo) mostram. Aqui ele deixa a veia mais pop e investe em algo mais sério. Dan Stulbach é o imigrante polonês que vem para o Brasil durante a 2ª Guerra Mundial. Sem muita explicação, ele é jogado numa sala escura, onde se submete a um interrogatório liderado por Tony Ramos. Daí a coisa vira teatro: duelo entre dois grandes atores. A conferir.


Veja o trailer de Tempos de Paz.

Há outras estreias também, mas de menor destaque.

Pra falar a verdade, só o filme brasileiro me tiraria de casa hoje. O terrir de Sam Raimi também me agrada, mas jamais convenceria a patroa a me acompanhar. É uma balada nerd demais, só vale a pena encarar se for com um bando de amigos devidamente alforriados.

É que a concorrência é desleal. O Canal Futura vai exibir Jules e Jim, do favorito deste blog, François Truffaut, às 23:30. Mesmo tendo o DVD e tendo visto o filme umas três ou quatro vezes, há aquele sentimento de obrigação de prestigiar o programador que optou por exibir o filme. Que é uma homenagem à vida, à amizade e à mulher (no caso, Jeanne Moreau) irresistível.


Quem gosta de cinema tem que conhecer... é só questão de QUANDO. Veja o trailer e cheque se você topa encarar a empreitada HOJE. Tem que estar no clima (falado em francês, P&B, trama passada na década de 1910...). Não obstante, vale dizer que não há muito papo-cabeça: Truffaut é o cineasta mais sincero e menos cínico de todos os grandes diretores!

A recuperação de uma gripe está me facilitando a escolha. Daniel Filho fica para amanhã.

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sexta-feira, 24 de julho de 2009 - 2 Comentários

Já fazia um tempo que não tínhamos uma estreia forte na sexta-feira. Mas hoje temos notícia: Inimigos Públicos, de Michael Mann, com Johnny Depp, Cristian Bale e Marion Cotillard.

É o mais novo filme de gângster com potencial de entrar para o panteão do gênero. Depp já tinha aparecido no último grande filme de gângster, Donnie Brasco (com Al Pacino), mas, lá, ele era o policial bacana que se infiltrava na Máfia. Neste Inimigos Públicos, ele é John Dillinger, um bandido real que se tornou lenda durante a Grande Depressão (anos 30): em uma época de miséria total, os bancos viravam vilões e, quem os roubava, heróis.
























Johnny Depp: ele continua pegando os melhores papéis...


Conhecemos outros exemplos dessa época esquisita: Bonnie Parker e Clyde Barrow, por exemplo, se tornaram um ícone pop, reforçado pelo filme Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas, com Warren Beatty e Faye Dunaway, um marco dos anos 60. Outros bandidos famosos da Grande Depressão dão as caras em Inimigos Públicos: Pretty Boy Floyd e Baby Face Nelson (qual o lance com esses nomes engraçadinhos?).

A principal credencial do filme é seu diretor: Michael Mann, um sujeito que se especializou em filmar criminosos e que carrega uma reputação de ser o melhor nesse ofício. De fato, ele tem bons filmes nessa linha, como Colateral (aquele com o Tom Cruise loiro e mau) e Fogo Contra Fogo (famoso por ter juntado na tela, pela primeira vez, Al Pacino e Robert DeNiro) . Também conseguiu criar bons climas de suspense em O Informante. Mas não entendo essa lenda em torno do cara: esses triunfos não impressionam tanto e, para mim, o seu Miami Vice com Colin Farrel foi uma piada, e sua cinebiografia de Muhamed Ali, com Will Smith, pode ser considerada um escorregão. E ainda tem a aventura-pipoca O Último dos Moicanos, que todo mundo malhou (embora eu tenha gostado na época, se não me engano devido às mulheres bonitas). Quer dizer: é um diretor habilidoso e competente, mas longe de ser um gênio.


De qualquer modo, vamos lá, é um bom diretor, tem como protagonista Depp, o ator que melhor combina talento com celebridade, conta com um ótimo elenco de apoio (além de Bale, o sempre competente Billy Crudup faz o papel de J. Edgar Hoover, o pai do FBI) e traz a francesa Marion Cotillard como ela é e deve sempre ser: linda. Não há razão para não assistir. O trailer promete:



A crítica virá no final-de-semana.

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domingo, 12 de julho de 2009 - 0 Comentários

Aviso geral aos eventuais habitantes de Hogwarts que frequentem estas sujas páginas: estreia, agora no dia 15 de julho (quarta-feira), o sexto filme da série Harry Potter, agora com o complemento E o Enigma do Príncipe.

(A propósito: ver post anterior, sobre a atual frescura de lançar blockbusters às quartas-feiras...)

Bom, pra falar a verdade, encerrei minha carreira de aprendiz de feiticeiro após o segundo filme (A Câmara Secreta?). Achei o primeiro filme legal e tudo mais (principalmente a cena do quadribol), e aturei o segundo filme, embora tenha achado que ele era basicamente uma repetição do roteiro do primeiro. Mas decidi que já estava de bom tamanho. Era muita fofura e muita aventura sem tensão nenhuma...

Além disso, havia a irritante noção de que a Hermione demoraria muito para crescer e se tornar algo interessante (em outro post, discorrerei sobre a ausência de impulso sexual na molecada de Hogwarts).














Hermione, Ronnie e Harry: a turma continua tramando contra Voldemort, ao invés de se preocupar com o que interessa...

Por incrível que pareça, os anos se passaram, outros quatro filmes foram feitos e, hoje, Emma Watson, a moça que faz a Hermione de fato virou uma gata. Mas agora é tarde demais, já perdi o fio da meada.


Pra quem se manteve fiel à saga de Potter, a boa notícia é que o Unibanco IMAX (aqui em SP, no Shopping Bourbon) vai exibir a estreia na quarta feira a partir da meia-noite, com seções a cada três horas. Naquela tela gigante, e com cenas em 3D.

Deu até vontade de ver.

Os ingressos já estão à venda.

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sábado, 11 de julho de 2009 - 0 Comentários

Parêntese: a nova moda é lançar os grandes blockbusters às quartas-feiras, ao contrário da regra, que renova a programação dos cinemas toda sexta-feira. Isso tem feito com que:

1- Os mais doentes (como eu) tenham que fazer duas rodadas semanais de estudo cuidadoso sobre a programação das salas (pra se ter uma ideia, esse processo costuma me tomar cerca de 1 hora);

2- Nossos Guias da Folha e Vejinhas percam sua validade dois dias antes.

Mas deixa pra lá. A Internet está aí pra isso.

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quarta-feira, 8 de julho de 2009 - 6 Comentários

Estreou, na última sexta-feira, Paris, o mais recente exemplar daquele que está se tornando um gênero à parte no mundo do cinema: os filmes com um monte de personagens desconexos que levam as suas vidinhas e enfrentam seus dramas e amores, até que todo mundo se cruza de alguma maneira no final.


É o jeito que inventaram para transformar a crônica (ou meia dúzia delas) em longa-metragem.
















Juliette Binoche vai à feira: um dia normal em Paris.

Isso não é problema; o formato já gerou obras-primas (Short Cuts - Cenas da Vida, Amores Brutos), comédias românticas simpáticas (Simplesmente Amor, Ele Não Está Tão a Fim de Você), dramas poderosos (21 Gramas, Crash - No Limite) e algumas bombas pretensiosas (Babel, Magnólia).

Paris aproveita a vertente menos cansativa desse tipo de filme: a do clima agridoce, humanista, que aposta em personagens de bairro vivendo situações comuns - e extraindo uma certa beleza disso. Pra melhorar, usa a cidade onde a ação se ambienta como um dos personagens. E Paris é um personagem que dá um bom caldo...

As histórias

As histórias giram em torno de Pierre (Romain Duris), um cara que descobre que precisa se submeter a um transplante de coração. Vários personagens - que compõem Paris de maneira um tanto esquemática - cruzam seu caminho ou circulam pelas redondezas: uma bairrista esnobe e xenófoba, imigrantes, feirantes grosseirões e gente-fina, socialites hedonistas e metidas a besta, uma assistente social de mal com a vida... salpicando as vidas de toda essa gente, o medo da morte e da solidão. Este, talvez, seja não o tema central, mas o tema em comum das várias histórias.

Juliette Binoche é a irmã de Pierre, e, embora não tenha muito o que fazer no filme, é ela quem dá o foco para o espectador - é sob seu ponto de vista que vemos essa turma toda patinando na vida. É através dela que sentimos dó de quem sofre injustamente, e é através dela que sorrimos para as coisas bacanas que acontecem. Meio maniqueísta, mas tudo bem...

Os personagens mais interessantes e mais completos do filme são dois irmãos de meia idade: um é professor de história; o outro, engenheiro civil. Um vive na "velha Paris" - prédios com séculos de vida, um apartamento caindo aos pedaços cheio de livros, museus; o outro, na "nova Paris" - está tocando a obra de um arranha-céu modernoso, mora num apartamento novinho e bem decorado. O historiador está marcando passo na vida: é sozinho, falta grana, e passou a nutrir uma paixão à distância por uma jovem aluna que anda de bicicleta. O engenheiro, bombando: sua bela esposa está grávida e seus projetos profissionais o empolgam e o remuneram em igual e alta intensidade.

Parêntese necessário: é nessa parte que aparece Melanie Laurent, como a estudante que deixa o velho professor, por assim dizer, de quatro. Dá até pra entender:
















Melanie Laurent: ela alimenta a velha fantasia da universitária que dorme com o professor.

O que acontece com cada um a partir da morte do seu pai é o xis da questão, e discussões, dúvidas, presentes e consultas ao analista se sucedem para entendermos o grande dilema dos irmãos e de cada parisiense: deixar o barco correr e abraçar a modernidade ou se prender àquilo que fez da cidade (ou da sua vida) algo tão especial?

O mais interessante é que o filme não decifra o enigma; ele é a pergunta, não a resposta. Interessante.

Bittersweet simphony

Então, pra saber como é este Paris, imagine Short Cuts no cenário e com o clima levemente melancólico, agradavelmente otimista de O Fabuloso Destino de Amelie Poulain.

Pra quem gosta de cinema francês: lembra bastante alguns episódios (os melhores) do recente Paris, Eu Te Amo (coletânea de curtas metragens sobre a Cidade Luz). Também dialoga com Medos Privados em Lugares Públicos, outro filme ambientado em Paris, e que também usa personagens aparentemente desconexos. Mas é mais otimista do que este último.

Mas, se for pra ir direto na fonte, o fato é que Cédric Klapisch (o diretor do filme) bebeu bastante da água de François Truffaut, que retratava como ninguém a beleza das pessoas comuns através das suas imperfeições. (Sugestão de filme do Truffaut que melhor exemplifica isso: Beijos Roubados).

Resumindo: o filme é bom. Tem lá seus defeitos (esse tipo de roteiro sempre acaba ficando meio esquemático), mas é honesto. É agradável, e foge daquele tipo de filme "feito pra pensar". Ele é mais "feito pra sentir". Isso o qualifica como bom programa para um sábado à noite, especialmente se sua paquera/namorada/esposa não topar os blockbusters do momento.

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segunda-feira, 29 de junho de 2009 - 2 Comentários

A princípio, não gostei nada da ideia: um filme sobre Jean Charles, o eletricista brasileiro que vivia em Londres e de cuja existência só tomamos conhecimento após ele ter sido vítima de uma trapalhada absurda da polícia inglesa, que o confundiu com um terrorista e o assassinou no metrô londrino. Nada indicava que sua vida daria "caldo" suficiente para um bom filme.

Mas o fato é que Jean Charles, o filme, vale uma ida ao cinema. Em primeiro lugar, porque o roteiro optou por não contar a história do rapaz, mas sim por contar UMA história sobre brasileiros que vivem em Londres. As dificuldades, o deslumbramento, as frustrações e os perigos são conhecidos: todos conhecemos pelo menos uma pessoa que foi viver em Londres por um tempo. Pra melhorar, optou-se por desenvolver alguns episódios e personagens fictícios, transformando o filme em algo profissional. Os personagens são bem desenvolvidos, as situações são tristes, engraçadas, não se fica indiferente a elas.


Veja o trailer de Jean Charles:



Não dá pra notar muito no trailer, mas o Jean Charles de Selton Mello (o onipresente protagonista do cinema nacional, aqui em registro dramático competente) é um personagem muito interessante. É um picareta de bom coração. Vive armando "esquemas", botando gente ilegal pra dentro da Inglaterra, mexendo com vistos permanentes, trapaceando seu empregador, sonhando. Ao mesmo tempo, vive ajudando os amigos, chora de saudades da mãe, é bom anfitrião, paquera todas as moças que pintam na sua frente. Conclama a priminha que acabara de chegar a Londres a "viver o hoje". Em suma, é o estereótipo do brasileiro - é quase um Zé Carioca.

Isso faz pensar, e, para mim, é mais estimulante do que o evento da morte do rapaz. Que, inevitavelmente, chega e deixa todo mundo cabisbaixo, revoltado, com um nó na garganta.

Enfim, o gancho do Jean Charles foi conveniente, porque gera interesse para o filme e facilitou os realizadores a levantarem uma grana inglesa para fazer o filme. Mas este vale mesmo é pela crônica da vida dos brasileiros em Londres.

No mais, um ótimo trabalho de Selton Mello (que prova, ao se distanciar dos seus trejeitos de humorista, ser um ator completo) e de Vanessa Giácomo, que faz a prima caipirinha de Jean com graça e carisma.

Vale conferir. E, para quem já passou um tempo vivendo em terra estrangeira, deve emocionar.

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sexta-feira, 26 de junho de 2009 - 0 Comentários
























... Se é que você me entende.

Falando mais ou menos sério: há uma parcela considerável (e respeitável) da humanidade que realmente não quer saber da série Transformers, e que gostaria muito que o seu realizador, Michael Bay, tivesse encontrado emprego mais rentável do que diretor de mega-sucessos de ação, preservando assim o mundo de bombas como Armageddon, The Rock e Pearl Harbor.

Mas, sabe de uma coisa?, outro dia eu estava no Cine Belas Artes, aqui em São Paulo, vendo o sensacional Apenas o Fim e, lá pelas tantas, o protagonista - um estudante de cinema que, claramente, não é um idiota - afirma preferir Transformers a toda a filmografia do Goddard. E justifica: "o que pode ser mais legal do que carros normais que se transformam em monstros gigantes?"

Como não sei responder a esta pergunta, e como não dá pra ignorar essas fotos da Megan Fox que ficam atordoando a gente, vou me misturar à molecada na fila de um cinema de tela bem grande e som bem barulhento para curtir Transformers - A Vingança dos Derrotados. Pipoca grande e Coca de um litro para acompanhar.

Porque cinema também é isso.

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segunda-feira, 22 de junho de 2009 - 5 Comentários

Como dizem aqueles senadores, aos brados, no meio de uma CPI: QUESTÃO DE ORDEM!!!

Pronto. Agora, que tenho sua atenção, devo dizer com todas as letras: não deixe de assistir ao melhor filme brasileiro do ano, o pop, despretensioso e genial Apenas o Fim, de Matheus Souza.















O tal Matheus, se liga só, é um moleque de 19 anos. Digo "moleque" com todo o respeito que o epíteto merece - digamos, como quem fala de um time de futebol abusado que impressiona todo mundo. Lembra o Santos de Diego e Robinho? É o equivalente futebolístico do filme do jovem cineasta carioca: ao final do show (jogo ou filme), dá alegria de estar vivo e presenciar o nascimento de um talento tão natural e precoce.

Apenas o Fim é um registro praticamente integral da última conversa de um jovem casal de namorados, com uma hora e vinte minutos de duração, começando do anúncio da garota (Erika Mader, uma graça e espontânea) de que ela está deixando o rapaz (já falo dele), indo até a sua partida. No meio, uma conversa esperta, despretensiosa, revestida de um cinismo que tenta disfarçar o romantismo, em planos bem enquadrados e câmera na mão perseguindo o casal. Pontuando a conversa, flash-backs de momentos felizes do casal entre quatro paredes. Milhões de citações pop. Um misto de Kevin Smith (Procura-se Amy) com Até o Amanhecer, do Richard Linkater. Ecos de Truffaut (Beijos Roubados) são percebidos. E tudo isso é legal, você se diverte, ri alto e se emociona.

Volto ao contexto do filme: o autor é estudante de cinema na PUC carioca. Fez o filme dentro do campus, ao custo de R$ 8 mil, como um trabalho escolar. E o filme foi parar nos cinemas Brasil afora, simplesmente porque é bom demais.


Veja o trailer de Apenas o Fim!!!


No mais, duas grandes novidades vêm de bônus com o filme de Souza:

1- a revelação de Gregório Duvivier, o namorado rejeitado, um ator engraçadíssimo, com timing perfeito e alta capacidade de improvisação. De início, eu achava que ele lembra muito o Woody Allen novinho. Mas depois acho que ele foi mais longe: ele se parece com o Peter Sellers. Não sei se você entende o quanto isso, partindo de mim, é um elogio (para este blogueiro, Peter Sellers é o maior ator cômico de todos os tempos).

2- A inauguração da era de nostalgia dos anos 90. O casalzinho se diverte discutindo video-game, desenhos animados, filmes, música pop. Mas saem de cena Atari, Caverna do Dragão, Goonies e Menudo ou Kiss. Entram Super Mario, Cavaleiros do Zodíaco, Transformers e Backstreet Boys ou Strokes. O mundo girou, a molecada que nasceu quando os Smiths já tinham acabado cresceu e está fazendo filmes. Os anos 90 são os novos anos 80, viva!

Deixando claro: não se trata do melhor filme de todos os tempos. Nem é essa a intenção do seu realizador. Há defeitos, mas isso não interessa. Vamos colocar a coisa assim: Cidade de Deus é um filme perfeito, profissional. Apenas o Fim é um filme amador, feito do jeito que seu jovem diretor conseguiu fazer. E não há nada nisso que impeça o filme de conquistar a audiência de boa fé.

Claro, em plena temporada de blockbusters, poucas salas abrigam o modesto filme juvenil. Mas abençoado seja o programador que acreditou em Apenas o Fim. Se você gosta de algo feito com prazer e paixão, com todas as virtudes e defeitos que saem das mãos de um adolescente talentoso, não deixe de ver Apenas o Fim.

É disso que o cinema é feito.

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Não sei por quê, mas, de uns tempos pra cá, os cinemas foram inundados por documentários sobre músicos famosos. Não falo de cinebiografias, como Ray ou Johnny e June, mas sim de documentários, com os filhos envelhecidos de tal compositor prestando depoimentos, gente nova cantando músicas antigas de um jeito ofensivamente constrangedor, artistas globais declamando letras de maneira teatral... a bossa do momento é produzir esse tipo de filme. No meio de tanta oferta, os resultados são bem desiguais. BLOGIE ajuda o leitor a separar o joio do trigo.

As novidades:

Em cartaz, no circuito comercial, temos quatro documentários musicais.

O melhor e mais interessante é Loki - Arnaldo Baptista, sobre o genial e despirocado líder dos Mutantes. É uma produção do Canal Brasil, e conta com depoimentos de muita gente interessante (companheiros dos Mutantes e do Tropicalismo, principalmente), mas ninguém é tão interessante quanto o próprio Arnaldo. Severamente alterado por mil experiências com drogas e uma tentativa de suicídio na qual perdeu massa encefálica, o cara continua fazendo arte, falando em disco voador e exibindo uma incrível inocência juvenil sobre qualquer assunto. É comovente para qualquer um, e mais ainda para quem (como eu) é fã da música de Arnaldo, seu irmão, Sérgio Dias, e sua ex-namorada e parceira, Rita Lee.

Olha só um teaser do filme, são trinta segundinhos que trazem pedacinhos de Panis et Circensis, Cê tá pensando que sou loki? e a antológica Balada do Louco:



Os outros documentários em cartaz são:

- Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, sobre Wilson Simonal, cuja vida e obra não dão caldo suficiente para garantir o interesse;

- Kurt Cobain - Retrato de Uma Ausência, que traz entrevistas raras com o finado líder do Nirvana - e que só vai interessar para os fãs da banda, pois, no fundo... vamos combinar que Cobain só falava bobagem;

- Cantoras do Rádio, um belo trabalho histórico que recupera cantoras que foram muito famosas nos tempos pré-televisão - mas que é indisfarçavelmente datado;

- E o muito interessante Um Homem de Moral, sobre Paulo Vanzolini, o autor de Ronda e Volta por Cima. Este último é sensacional. Vanzolini é um cara interessante, um biólogo renomado que, entre um trago e outro na noite paulistana, tornou-se compositor central do chamado "samba de paulista", aquela coisa meio melancólica, meio irreverente que os cariocas fingem não entenderem - mas todo mundo gosta (Chico Buarque e Paulinho da Viola estão no filme, prestando seus respeitos ao mestre; já o outro ponta-de-lança do samba de paulista, Adoniran Barbosa, aparece em preciosas imagens de arquivo). O trailer já traz uma bela amostra da sabedoria do homem: frases como "do povo, pessoalmente, de cada um, eu não gosto não; mas, do povo em geral, eu gosto muito!"


Veja o trailer (aliás, que trailer!) de Um Homem de Moral:




Não fica por aí: a produção recente de documentários é extensa e bem servida em DVD. Um dos melhores é Vinícius, sobre o poeta mais famoso e mais amado do Brasil. O filme traz alguns pecados, como Camila Morgado declamando com toda a falsidade do mundo o Soneto de Fidelidade e outras obras-de-arte, além de novos artistas assassinando músicas de Vinícius e seus parceiros. Mas traz imagens de arquivo que, sem exagero, são capazes de levar qualquer um às lágrimas. Os pontos altos são:

1- Vinícius e Tom Jobim, sentados num sofá na casa de Tom, bêbados, cantando juntos Quando a Luz dos Olhos Teus. Coisa linda, e engraçada. Eles cantam praticamente caindo um em cima do outro, enquanto pontuam as falas com declarações de amor ao uísque ("o melhor amigo do homem: o cachorro engarrafado" - Vinícius).

2- Vinícius e Baden Powell, sentados no chão de um apartamento, em uma das famosas "viniçadas", rodeados de gente cantando com eles o Canto de Ossanha. De arrepiar.

3- O poeta, sempre bêbado, conversando com seus filhos mais velhos a falta que ele sente da mãe deles (a primeira de uma legião de esposas, que ele amava profundamente por uns tempos, antes de ir pra próxima). Comove. E diverte.

4- Maria Bethânia contando o causo de como ela apresentou sua amiga a Vinícius, num episódio um tanto breve (digamos, dez minutos) que culminou no pedido de casamento do poeta à moça, que foi sua última esposa.

Outros bons documentários musicais que você acha na locadora: O Mistério do Samba, de Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor, premiado e merecedor de uma olhada com atenção; Titãs - A Vida até Parece uma Festa, dirigido pelo próprio Branco Mello (um dos Titãs), que é valioso pelas imagens de arquivo filmadas pela própria banda ao longo da sua história; e a caixa com 12 DVDs (!) chamada simplesmente Chico Buarque é um daqueles itens que devem ser encerrados num foguete e enviados para Marte, para que outras civilizações conheçam o que de melhor foi produzido pelos primatas deste pedaço do universo.

Mas o melhor de todos é No Direction Home, a obra-prima de Martin Scorsese sobre Bob Dylan, lançada em 2005 e facilmente encontrada nas lojas que ainda ousam vender CDs e DVDs... São quase quatro horas de filme, entre registros antigos e entrevistas atuais, nas quais o próprio Dylan se analisa de uma maneira incrivelmente aberta (o cara não gosta de se explicar) e honesta. É uma aula de cinema e de música, o melhor dos dois mundos, o encontro de dois gênios. Coisa que merece um post dedicado. Fico devendo este.

E vem mais pela frente: está em fase final de produção Mamonas, o Documentário. Aparentemente, este é o que tem mais potencial de influenciar o espírito do momento. BLOGIE prevê, na esteira do lançamento do documentário, um revival forte dos Mamonas Assassinas: a molecada de hoje vai se amarrar tanto quanto a molecada de quinze anos atrás.

Se faltou algo que mereça citação, comente! Tem muita coisa interessante no cinema para quem gosta de música boa!

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sábado, 20 de junho de 2009 - 5 Comentários

(Publiquei este post faz tempo, e aí a distribuidora atrasou o lançamento do filme, e o filme só estreou nesta sexta-feira. Então republico: aí vai a crítica (uma rara crítica negativa, adianto) de Trama Internacional, com Clive Owen e Naomi Watts.)

A embalagem promete ser exatamente aquilo de que você está precisando numa noite de sábado: um thriller bacana, com trama embolada e cheio de conspirações, rodando por vários países (o que inclui locações pitorescas), muita ação e um casal de protagonistas carismáticos - o sempre cool Clive Owen e a sempre bem-vinda Naomi Watts.

Mas é triste constatar que Trama Internacional é um desperdício de dinheiro, de talento dos atores e de tempo do espectador. Resumindo: é uma porcaria de filme.


















Naomi e Owen no set: pelo menos alguém se divertiu em Trama Internacional.


A tal trama, pra começar, parece ter sido escrita por uma criança de doze anos: um banco de Luxemburgo está sendo investigado pela Interpol (Clive Owen é o agente encarregado do caso) por estar vendendo mísseis para a China. À medida que Owen evolui na sua investigação, ele descobre que a razão para o banco fazer isso é simplesmente... tornar-se credor. Quer dizer, a "trama internacional" é um banco financiar governos corruptos do "eixo do mal" e torná-los dependentes do seu poderoso e misterioso executivo-mor. É bem idiota.

Mais idiota - e mais decepcionante - é o mau uso de Naomi Watts no filme. A loira é talentosa, linda e puxadora de audiência. Então, forçaram a mão para incluir um personagem para ela. E aí aparece a promotora de Nova Iorque que se torna parceira de Owen na investigação. Sabemos que ela é casada e tem um filho (aparece de relance em uma cena), mas nada mais do que isso. Qual é a dela? Ela sente falta da família? O marido reclama do seu trabalho misterioso? Ela quer pegar o parceiro bonitão?

Nenhuma das perguntas tem resposta. Nenhum personagem é minimamente desenvolvido. Isso não é frescura de crítico; é simplesmente a vontade de ver um filme com o qual dá pra se envolver por duas horas. Botar o Clive Owen e a Naomi Watts viajando por vários países, torrando uma grana na produção, e não pintar um climinha qualquer... é uma bobagem.

Enfim, para um filme de roteiro preguiçoso, uma crítica preguiçosa e impaciente. Vamos pra próxima.

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quarta-feira, 10 de junho de 2009 - 3 Comentários

Boa opção para o dia dos namorados no cinema: Duplicidade, com Julia Roberts e Clive Owen - um casal que já provou dar liga em Closer - Perto Demais.

O filme foi escrito e dirigido por Tony Gilroy, o homem por trás do ótimo Conduta de Risco (aquele filme com o George Clooney, que foi indicado para um monte de Oscars no ano passado). Em comum, a trama rocambolesca envolvendo industriais poderosos, os diálogos espertos e o gosto por um estilo pós-007. De diferente, o senso de humor e a tensão sexual entre os protagonistas. O resultado é bem positivo: não é algo que vá mudar a história do cinema, mas é um produto muito bem acabado e agradável. Em suma, seu dinheiro será bem gasto.
















Pelo menos uma sequência é sensacional: a abertura, com os ótimos coadjuvantes Tom Wilkinson e Paul Giamati brigando num aeroporto. Eles são os donos de duas mega-corporações da indústria de bens de consumo, e brigam por segredos industriais e pela vaidade em humilhar o outro. A cena não tem som; apenas mostra os dois discutindo, depois se agarrando e rolando pelo chão, tudo em câmera lenta, sob os olhares atônitos de seus aspones. É simplesmente genial, funcionando como ótima abertura e, ao mesmo tempo, apresentando o conflito que é o pano de fundo da trama.

O rolo é o seguinte: Clive Owen é um ex-agente da MI6 (serviço secreto britânico); Julia Roberts, ex-agente da CIA. Eles tiveram um affair no passado e, hoje, por uma coincidência que dá pulgas atrás da orelha, se veem frente a frente, um trabalhando para a empresa de Wilkinson, o outro para a de Giamatti. O trabalho de Owen é roubar uma fórmula de um produto revolucionário que Julia tem a missão de defender. Veja o trailer:





Mais importante - e mais divertido - do que essa bagunça são os deliciosos flashbacks que mostram a evolução do relacionamento do casal entre quatro paredes, sempre passando por cenários luxuosos em Dubai, Roma, Paris e Miami.

Julia Roberts, aos 41 anos, está menos exuberante, com uma atuação bem mais contida, mas ninguém impediria que ela soltasse aquela risada enorme, toda dentes e espontaneidade, que é sua marca registrada. Ela veio com uns quinze minutos de filme, de modo que não precisamos esperar muito por isso. É bom, porque é legal ver Julia num papel mais maduro e low profile.

Já Clive Owen continua fazendo o papel de Mr. Fudêncio que lhe cabe tão bem. Os filmes de Gilroy vão se mostrando boa plataforma para atores com alto potencial de garotos-propaganda de produtos de luxo (como máquinas de Nespresso, relógios Bulgari, carrões e perfumes em geral) - tanto Clooney como Owen mandam bem nesse quesito.

Minha expectativa, agora, é que deem a Gilroy a chance de dirigir um novo 007 com liberdade para mexer no roteiro e evitar a babaquice de helicópteros explodindo.

PS: Duplicidade é bem melhor do que Sr. e Sra. Smith. E ambos são piores do que True Lies. Completa-se, assim, a trilogia dos filmes de casais de agentes secretos. E o original de James Cameron, com Schwarzenegger e Jamie Lee Curtis, ainda é o melhor.

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domingo, 7 de junho de 2009 - 11 Comentários

Filme brasileiro sem papo-cabeça, sem favela, sem retirante, sem choro nem crítica social. Antigamente, isso era coisa rara, e como essas coisas são muito chatas, o próprio filme brasileiro tornou-se coisa rara. Daí veio o tal "renascimento", e filmes com bom potencial de público passaram a dar as cartas. Hoje, estamos tranquilos na situação de que temos uns cinco, seis "Se Eu Fosse Você" para cada Walter Salles wannabe.

É o caso de A Mulher Invisível, comédia despretensiosa e muito bem acabada de Cláudio Torres (o mesmo diretor de Redentor). O filme traz Selton Mello como o homem romântico que entra em crise após ser abandonado pela esposa. No ponto mais baixo de sua fossa, ele conhece, de maneira bem improvável, uma mulher perfeita, que imediatamente se apaixona por ele e lhe oferece a vida mais confortável de sexo, devoção e cumplicidade: Luana Piovani, fazendo a linha "nunca estive tão bonita". No apartamento vizinho, Maria Manoella nutre paixão platônica pelo personagem de Mello, munida de muita ingenuidade e um copo unindo a parede ao seu ouvido.

Relembre o primeiro ensaio de Luana Piovani na VIP


A partir daí, o filme é feito das situações bizarras que Mello protagoniza em público, imaginando que está abafando com uma Luana Piovani arfante, bem como dos contrapontos cômicos de Vladimir Britcha e Fernanda Torres, como a irmã desbocada de Maria Manoella.

É com essa fórmula consagrada de Hollywood - a da comédia romântica baseada em uma premissa absurda e que equilibra humor rasgado com ingenuidade assumida, rumando ao final feliz - que Cláudio Torres adiciona um belo feito à sua produção. O filme é muito bem feito, desde seus créditos iniciais, passando pelo roteiro repleto de boas frases e bons personagens, culminando em um ótimo trabalho de direção de atores (todos estão ótimos, e Selton Mello brilha) e de edição. A trilha sonora - com sons nada óbvios dos Ramones e da Janis Joplin - é ótima, e faz você ter vontade de ficar no cinema até o final dos créditos, para anotar os nomes das músicas.



Luana Piovani, como se viu no trailer acima, é um capítulo à parte. O amigo leitor que não tiver lá muito interesse sobre essa conversa de cinéfilo pode ir no cinema tranquilo, que a missão se pagará. Digamos que a condição de "mulher ideal" da moça é explorada a contento, pelo menos no que diz respeito à forma física.

Veja as fotos do mais recente ensaio de Luana Piovana na VIP

Ou seja: Torres (que é filho da Fernanda Montenegro e sócio da Conspiração Filmes) consegue fazer um filme com alto potencial de bilheteria, que consegue agradar os marmanjos (apesar da premissa bem feminina) e, tudo isso, embalado com o apuro estético que só se vê em filmes americanos.

De quebra, o diretor vai construindo um certo padrão autoral em sua obra: A Mulher Invisível, assim como Redentor, trata de um homem que desce a ladeira da dignidade e da sanidade ao se apaixonar por uma mulher que está bem acima da sua liga. No caminho, a perda das seguranças e confortos da classe média (emprego, amigos) e muitas trapalhadas, enquanto se busca uma certa purificação da alma. Pedro Cardoso, no primeiro filme, e Selton Mello, neste divertido conto d'A Mulher Invisível, vão montando o personagem-padrão do cinema de Torres.

Um filme que entra muito bem numa noite de sexta, sábado ou domingo. Sem risco de errar. Pode comprar o ingresso. É bacana.

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quarta-feira, 20 de maio de 2009 - 0 Comentários

Em meio a tanto barulho (Star Trek, Wolverine, Anjos e Demônios), fui procurar um pouco de paz em uma das salinhas acanhadas e acarentas do Anexo do Espaço Unibanco. Lá, está em cartaz o argentino A Janela, de Carlos Sorín. Que é um achado.

Sem seguir regras ou convenções, e abusando do silêncio e do vazio, Sorín conta a história de um dia na vida de Antonio, um velho escritor cujo coração dá mostras de não querer mais funcionar. Prostrado na cama, ele se recupera de uma parada cardíaca, e depende da ajuda full time de duas empregadas. Mas há um grande evento para aquele dia: seu filho, um pianista famoso com quem não fala há anos, vai chegar à velha fazenda, e ele ensaia uma reconciliação.

O filme acompanha a preparação da casa e do velho para a chegada do filho. Uma champanhe guardada há décadas sai da adega. Um afinador de piano aparece para dar um trato no velho Quant alemão maltratado. A enfermeira apara os cabelos brancos de Don Antonio.














Mas a preparação mais importante é a do próprio Antonio. Ele se cansa de namorar o mundo da sua janela, e resolve dar uma última volta pela sua propriedade. Esse é o ponto de inflexão do filme, quando as expectativas fofinhas e o clima afetuoso dão lugar àquela angústia de as coisas nunca acontecerem como deveriam.

Trata-se de um filme para pensar no relacionamento entre pai e filho, e no próprio envelhecimento. E que faz a gente sair do cinema pensando em fazer tudo aquilo que deixamos de fazer, e de uma vez.

Porque, no fim das contas, é nas reminiscências da juventude, e não em um inatingível acerto de contas final, que vamos encontrar o conforto. Como Don Antonio e seu fetiche por babás. Ou seu filho e o soldadinho de chumbo descoberto no meio das cordas do piano. Cada um tem a sua ponta solta.

Não deixe de resolvê-la.

P.S.: é sempre bom conferir uns filmes diferentes para arejar. A Janela exige um tanto de paciência e investimento de fé por parte do espectador, porque ele não facilita as coisas (em outras palavras: é lento, arrastado, dá sono mesmo). Não sei se vai valer a pena pra você, mas pra mim valeu. Que tal arriscar?

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domingo, 26 de abril de 2009 - 3 Comentários

Uma das estreias da semana traz o sempre engraçado Paul Rudd em mais uma comédia de macho: Eu Te Amo, Cara - a história de um rapaz que, às vésperas do casamento, percebe que não tem nenhum amigo para ser seu padrinho (o best man dos americanos). E aí ele entra numa cruzada em busca do brother.

É um filme que toma como tema central uma preocupação clássica do cinema: a amizade masculina. Veja o trailer:




A crítica de cinema Isabela Boscov escreveu na VEJA desta semana que o filme trata do "amor intenso, estritamente não gay, entre homens heterossexuais". E listou alguns filmes que vão fundo no assunto, como Gênio Indomável, Superbad e Onze Homens e um Segredo.

BLOGIE aproveita para entrar de sola no assunto: o "bromance" (romance de bróder, em tradução porca) é um tema tradicional do cinema, mas alguns filmes têm maior receio de discutir o componente gay da amizade, outros não.

Por exemplo: Butch Cassidy & Sundance Kid - há como negar que há atração entre os heróis vividos por Paul Newman e Robert Redford? O filme traz um monte de insinuações, tão escancaradas quanto naqueles episódios de Batman & Robin dos anos 60.

Perdidos na Noite, com Dustin Hoffman e Jon Voight: muito além da amizade, tá na cara.

A maioria dos filmes, no entanto, evita entrar nessa seara - como Gênio Indomável.

Eu Te Amo, Cara até brinca com o assunto, mas o filme mais indigesto e corajoso com esse tema foi trazido por Kevin Smith em meados dos anos 90: Procura-se Amy, com Ben Affleck e Jason Lee.


















Lembrando: os caras são cartunistas, parceiros e melhores amigos. Ben Affleck se apaixona por uma lésbica (a Amy do título), situação que bota a amizade em xeque. A própria Amy é quem percebe que tem coisa estranha por ali, e constata que Jason Lee está se comendo de ciúmes do amigo, mas de uma maneira muito mais doída do que seria razoável. Ela joga no ar: o cara ama o melhor amigo. E é uma verdade tão verdadeira que não é possível conviver com ela. A amizade acaba, os amigos se separam, e a gente fica com a pulga atrás da orelha.

Ainda assim, pinta aquela bela cena final - os caras se encontram em uma convenção de HQ, e se cumprimentam meio de longe, e sorriem, e a velha amizade está toda ali, ainda que eles entendam que o convívio não será restaurado... e aí eu me pego lamentando pelas amizades perdidas com os amigos de infância, do colégio e tal.

O que me faz pensar no filme que melhor trata da amizade masculina, não entre dois caras, mas entre uma turma toda: Brincando de Seduzir (em inglês: Beautiful Girls). O filme nunca foi lançado em DVD no Brasil, mas é um filmaço. Tem o Timothy Hutton, o Matt Dillon e a Uma Thurman (e a Natalie Portman com 14 aninhos). Hutton é o cara que mora em Nova Iorque, e que volta para a sua cidadezinha no interior do Massachussets para o Natal. Encontra todos os velhos amigos: um casado e cheio de filhos; o outro chafurdando no casa-não-casa com sua noiva; outro, que era o pegador da cidade e astro do colégio, tentando viver no passado, enquanto enrola sua eterna namorada que merece coisa melhor (papel da Mira Sorvino); e assim por diante.

A vida está dura para todo mundo, e todos estão enfrentando em silêncio os desafios de ser adulto e lidar com a frustração dos sonhos juvenis. Mas aí, quando todos se juntam no mesmo boteco de sempre, e Hutton senta no piano e toca Sweet Caroline (o hino informal do Red Sox, o lendário time de baseball do estado), os problemas se dissolvem: os amigos cantam juntos, e se apoiam em suas misérias, e se redimem em conjunto enquanto berram que "os bons tempos nunca pareceram tão bons". Veja a cena:



E aí podemos pensar, é isso aí, a amizade está bem retratada, em terreno seguro e confortável.

Que é como devemos nos sentir perto dos amigos de verdade.

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sexta-feira, 27 de março de 2009 - 2 Comentários

Uma comédia romântica que se chama Ele Não Está Tão a Fim de Você. Com a Drew Barrymore. Que é uma adaptação de um livro de auto-ajuda. Tudo diz ao amigo leitor da VIP: roubada. Mas não desista ainda...

Há três ótimos motivos para assistir ao filme: Jennifer Connely, Jennifer Aniston e Scarlett Johansson. Todas essas beldades dividem as atenções durante as duas horas de Ele Não Está Tão a Fim de Você. Elas se revezam em situações que mostram as diferentes modalidades de insucessos amorosos, sempre por culpa do desinteresse dos homens. É o chamado chick flick, ou filme de mulherzinha, mesmo. Mas um exemplar bem escrito dessa linhagem - as personagens acabam se cruzando aqui e ali, na linha Pulp Fiction.


Veja o trailer de Ele Não Está Tão a Fim de Você...

Menos florido, mas ainda mais interessante, é Simplesmente Feliz, filme inglês que ganhou grande atenção no começo do ano, com um monte de indicações ao Globo de Ouro, mas que foi esquecido no Oscar. Ao mesmo tempo agradável, engraçado e melancólico, Simplesmente Feliz mostra a professorinha inglesa Poppy, uma otimista incorrigível que, aconteça o que acontecer, sempre vê o lado bom das coisas.














Poppy exorcisando na noite londrina: a vida é boa.


O roteiro, excelente, é um apanhado de situações - e principalmente frases - engraçadas, mas que também deixam uma tristeza latente rondando o ambiente. A falta de perspectivas, a solidão, a diversão vazia, tudo é sublimado pela garota, e no final estamos torcendo para ela ter motivos mais fortes para ser feliz. Um ótimo filme, e uma grande atuação de Sally Hawkins, que ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz em comédia pelo seu desempenho como Poppy. Pra quem gosta de cinema, é a melhor pedida do final-de-semana.

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quinta-feira, 26 de março de 2009 - 5 Comentários

Estreia nesta sexta-feira: Che, de Steven Soderbergh. Com Benicio Del Toro (no papel de Che Guevara, trabalho que lhe valeu o prêmio de melhor ator em Cannes) e Rodrigo Santoro (como Raul Castro, irmão do Fidel). Pra quem gosta, um prato cheio.

Sobre o filme, não sei se é bom ou não mas, de cara, acho mais graça na entrevista em que uma jornalista de Miami (terra cheia de refugiados cubanos) dá um esporro no Benicio Del Toro, que não sabia muito bem como se posicionar com o lado "menos heroico" do seu personagem (assassinatos, gosto por regimes não exatamente democráticos etc).


Marlen Gonzales deixa Del Toro sem fôlego... mas não exatamente do jeito que ele está acostumado.


Pensando bem, a maioria das pessoas que ainda hoje veneram Che - estudantes colegiais ou universitários que passam seu tempo em salinhas imundas dos seus grêmios, onde fumam baseados e combinam ações contra o vestibular ou o Provão do MEC - está mirando no mito errado. Explico: o romantismo juvenil dessa moçada não aponta para uma milícia na selva, mas sim para Woodstock. A fantasia que a molecada alimenta não é ser um combatente comunista na selva amazônica, mas sim ser um hippie americano, queimando fumo no show do Jimi Hendrix, pegando uma loirinha liberada e usando sua camisa do Che.

Sobre revolução e outras coisas pesadas, ninguém quer mais saber. O que sobrou disso tudo é aquela bela imagem do barbudo olhando pro infinito.



















Já no filme, Del Toro fala grosso...


Voltando ao filme, vou assistir logo na estreia. Soderbergh é um diretor talentoso, e Del Toro, um grande ator. Embora ache graça na jornalista humilhando o cara na entrevista, não gosto da patrulha ideológica que trata o filme como lixo por retratar Che como herói. Da mesma maneira que Tropa de Elite se dá bem como filme de direita, Che deve ter sua chance de ser um bom filme de esquerda. A conferir.

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sexta-feira, 20 de março de 2009 - 2 Comentários

Finalmente, uma semana com estreias interessantes no cinema!

Três filmes disputam a atenção do camarada que resolver pegar um cineminha. Leia os comentários e escolha o seu:

A melhor opção é Gran Torino, do Clint Eastwood, um dos melhores filmes do ano e que foi esnobado pelo Oscar. Estrelado pelo próprio Clint, é um testamento da velha "América". Vários ícones americanos são apresentados como coisas deslocadas em seu próprio lar: a bandeira, o carrão Gran Torino que dá nome ao filme, o subúrbio de Detroit (centro da moribunda indústria automobilística americana) , o conceito de fazer justiça com as próprias mãos, o personagem Walt Kowalski (um misto do americaníssimo Walt com um sobrenome que nos lembra que os EUA foram construídos, em grande parte, por imigrantes) e, enfim, o próprio Clint Eastwood, que interpreta Kowalski... todos estão ultrapassados e estranhos em um bairro que se vê ocupado por imigrantes coreanos. Como em todos os filmes de Eastwood, crenças e valores serão postos à prova, a morte terá seus efeitos verificados e você sairá do cinema um tanto perturbado. De quebra, Clint bota pra quebrar como nos velhos tempos. Chance rara de ver um dos grandes mestres do cinema ainda no auge (ele só lança filmes bons há uns 20 anos) e, provavelmente, uma das últimas chances de ver o homem na tela (ele já anunciou que não deve protagonizar mais nenhum filme).


Veja o trailer de Gran Torino, e não perca a chance de ver Clint Eastwood chutando uns rabos novamente!



Outra opção bacana é Pagando Bem, Que Mal Tem?, comédia de Kevin Smith que já teve sua estreia adiada várias vezes no Brasil.

Parêntese: é INEXPLICÁVEL por que as comédias mais bacanas não têm lançamentos decentes no Brasil. Pinneapple Express, um enorme sucesso nos EUA, nem foi lançada no cinema por aqui, indo direto para DVD. Agora, Pagando Bem... demora três meses para ter seu lançamento (depois das férias, etc). Muito estranho. Fecha parêntese.

Bom, o filme traz Seth Rogen e Elizabeth Banks como o casal de amigos que, na maior pindaíba (a pindaíba é um tema recorrente nos filmes recentes), resolvem eles mesmos produzirem e protagonizarem um filme pornô. Lá na frente, descobrirão que são apaixonados um pelo outro. Esses são os pontos de partida e de chegada de Pagando Bem, Que Mal Tem?. O recheio é mais uma comédia romântica de macho, o gênero do momento, cujo herói é mesmo Seth Rogen (Ligeiramente Grávidos). Isso significa muita baixaria, referências a Star Wars, e um certo romantismo à moda antiga. Ou seja: você vai gostar, e sua namorada/esposa vai aturar numa boa. Ótima opção para um sábado ou domingo à noite!



















Elizabeth Banks e Seth Rogen tentam achar o "visu" mais adequado para seu pornô caseiro...


Por fim, a bomba da semana é The Spirit - o Filme, mais uma adaptação de quadrinhos, e daquelas hardcore, que será objeto de discussão de fãs sobre a fidelidade da adaptação, etc. Um saco. E um filme fraco. A direção é de Frank Miller (Sin City) e, verdade seja dita, seu estilo garante um certo interesse estético pela parada. Interesse estético que é reforçado pela presença de Scarlett Johansson, mas que não basta.






















Scarlett: seus atributos são grandes, mas não suficientes pra valer o ingresso.


Resumo da ópera: que quiser ver filme bom, vá de Clint Eastwood; quem quiser passar duas horas agradáveis no cinema, vá de Pagando Bem...; quem tiver quinze anos de idade ou nutrir uma obsessão doentia pela Scarlett Johansson, boa sorte, a vida é sua.

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sexta-feira, 6 de março de 2009 - 3 Comentários


Estreia hoje Frost/Nixon, um dos melhores filmes do ano e o último da leva do Oscar a aportar no Brasil. O assunto é dos mais relevantes: os bastidores da histórica entrevista que o ex-presidente americano Richard Nixon cedeu, três anos após sua deposição.

Todos dizem que o filme é ótimo, que a atuação de Frank Langella é antológica, que Martin Sheen está ótimo como o antagonista de Nixon, o aparentemente frívolo e limitado apresentador de TV, David Frost. Mas não é uma avaliação crítica sobre o filme que proponho agora. Isso fica pra depois.

O que realmente me faz pensar é que a tal entrevista é histórica porque fez Nixon descer (um pouco) das suas tamancas e confessar, "decepcionei o povo americano". Essa é a frase que ficou para a posteridade. É pouco.

Aqui no Brasil, temos exemplos muito mais contundentes. João Baptista Figueiredo, o último militar a ocupar a presidência, era mais sinistro que Nixon e se notabilizou por declarações do tipo "prefiro cheiro de cavalo a cheiro de povo". Isso, sim, é coisa pesada.







João Figueiredo, à vontade, com sua moçada: Ronald Reagan e os cavalos.


Figueiredo, em sua última entrevista, dada ao jornal O Globo, poucos meses antes de morrer, declarou que, certa vez, após visitar o centro de Salvador, precisou tomar uns 5, 6 banhos para "tirar o cheiro de preto". Quem é Nixon mesmo?

Mas a entrevista histórica da figura foi dada à TV Manchete, em janeiro de 1985, poucos dias depois da eleição indireta que levou Tancredo Neves à presidência. Durante a entrevista, Figueiredo, em péssimo humor, negou a preferência equina sobre humanos, e aproveitou para pedir ao povo: "me esqueçam!"

Bom humor, pra ele, só nos bastidores, quando ele brincava com o trocadilho "Tancredo, Never!", algo que ele repetia à solta durante os meses que antecederam a eleição, e que deve ter ganho ares proféticos entre sua roda de amigos.

Perto desse cara, Nixon é quase um Obama. Americano reclama de barriga cheia.

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009 - 2 Comentários

Resumindo tudo em uma frase: o cinema foi inventado para proporcionar momentos como as duas horas de Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle. Ou melhor: é por ocasiões tão agradáveis quanto esse filme que a vida vale a pena.

Dito isso, fica clara a opinião deste blogueiro: Quem Quer Ser um Milionário? é o melhor filme do ano e, se houver justiça no mundo, deve ganhar o prêmio máximo do cinema na entrega dos Oscars, no próximo domingo, em Los Angeles.

Para poder conferir antes do Oscar, há poucas chances: com estreia marcada para 6 de março, o filme terá poucas sessões, como pré-estreia, a partir desta sexta-feira.

Qual a razão de tanta babação?


1. Um roteiro matador, de lavar a alma.

Imagine Cidade de Deus misturado com Uma Linda Mulher. Parece absurdo, mas é disso que se trata: de uma fábula de terceiro mundo, ao mesmo tempo forte e acessível, revelador e inebriante, para agradar a críticos chegados num papo-cabeça e à grande massa.

Quem quer ser um milionário? é a história de um jovem favelado indiano que, tal qual um Forrest Gump da pobreza, passa por todas as provações possíveis de um menino pobre de Mumbai, escapando de cada perigo até chegar à idade adulta, quando se vê como participante de um Show do Milhão local, a um passo de ficar milionário.

Tudo isso, motivado por um único objetivo na vida: reencontrar o seu amor de infância e viver feliz para sempre.

A mágica é transformar essa proposta improvável em uma obra-prima.

É isso que faz Danny Boyle.


O trailer simplesmente não é suficiente, mas é o que se tem à mão...


2. Uma direção irretocável.

Depois de Trainspotting, Danny Boyle nunca mais confirmou a promessa de seu talento. Por uma vida menos ordinária e A Praia foram decepcionantes.

Mas aí ele aparece com um filme cheio de atores indianos, com esse roteiro maluco e pop, e comanda um balé de violência, ação e fantasia, num dos cenários mais duramente reais do cinema recente: as quebradas de Mumbai, na Índia.

Há a clara influência de Cidade de Deus, na edição, nas cores, no ponto-de-vista adotado (de um jovem trabalhador que, meio por sorte, meio por valores, escapa quase intacto dos perigos e dos inevitáveis contatos com o crime organizado). Tem gente dizendo por aí que é cópia e tal, mas quem se importa? Entendo mais como uma homenagem ao filme brasileiro.














Jamal,mesmo na merda, nunca perde a esportiva.

O que interessa é que Boyle transformou Quem Quer Ser um Milionário? em uma festa. A vontade, enquanto aparecem os créditos em meio ao elenco do filme dançando uma estranhíssima coreografia parecida com Thriller, é de se levantar e bater palmas, como se os responsáveis pelo filme estivessem ali.


3. Atores sensacionais.

O trio protagonista é formado por: o tal do rapaz do Show do Milhão, Jamal; seu irmão seduzido pelo mundo do crime, Salim; e o interesse amoroso de Jamal, Latika. Eles são vividos por três trios de atores, durante a infância, a pré-adolescência e o início da fase adulta. E todos os nove atores envolvidos são sensacionais.

Os melhores são mesmo os infantis, com seus olhos arregalados e sua graça irresistível. Mas o Jamal adulto, Dev Patel, é um cara carismático. E, acima de tudo, tem Freida Pinto, a Latika adulta.


3. Freida Pinto, a novidade do ano.



















Sendo direto: que gata. Boyle teve o cuidado de incutir a visão de Freida Pinto, como Latika, em amarelo, na nossas mente. O flash se repete algumas vezes ao longo do filme, e continuará pingando na memória de qualquer cara que tenha algum interesse em mulher. A beleza de Freida, acredite, é ingrediente importante para o sucesso do filme - afinal, Jamal tem que ter uma boa razão pra enfrentar tanta roubada por tanto tempo, movido por uma verdadeira obsessão pela menina.


4. Cinemão assumido.

A última coisa que qualquer um ainda quer ver são esses filmes pesados sobre uma miséria desgraçada e sem esperança. Um Walter Salles só no mundo já está bom.

Quem Quer Ser um Milionário? consegue oferecer, no meio da lama que é a vida real, uma opção de fantasia, um escape bacana, uma redenção barata. É disso que o cinema é feito, amém.

Por isso, no domingo, Danny Boyle subirá ao palco do Kodak Theatre para receber o seu merecido Oscar de melhor filme.

E, se o resultado for diferente... que se dane a Academia.

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009 - 0 Comentários

Se o leitor é cinéfilo mesmo, daqueles que frequentam mostras de cinema e que gostam de, sei lá, Ingmar Bergman ou aqueles dinamarqueses do Dogma 95, está liberado: O Casamento de Rachel, em cartaz nos cinemas brasileiros, é pra você.

Agora, se você for do tipo que acha que cinema é, antes de tudo, um passatempo que deve ser no mínimo agradável, esqueça: nem a presença de Anne Hathaway, indicada ao Oscar de melhor atriz, vai fazer a coisa valer a pena.

Isso porque o diretor Jonathan Demme (O Silêncio dos Inocentes, Filadelphia) quis fazer um filme incômodo e desagradável sobre a imbecilidade humana e sobre o estorvo que uns causam aos outros. E, com seu enorme talento de direção de atores, teve sucesso em sua missão. O filme, em vários momentos, beira o insuportável.











Anne Hathaway: despida do glamour e daquele sorriso que lhe fizeram a fama. Valeu uma indicação ao Oscar...


A história: em uma família marcada por uma tragédia, Rachel vai casar. Sua irmã, Kim (Hathaway), tem permissão para sair do rehab e comparecer ao casório. Tudo se passa em dois dias, enquanto um bando de gente vai chegando, e preparativos constrangedores vão sendo feitos, e Kim vai acertando as contas, do seu próprio jeito, com o pai, a mãe e a irmã.

O ponto forte do filme está mesmo na atuação de Hathaway, que empresta sofrimento real à sua Kim - uma mulher egoísta, narcisista e, digamos, incompatível com o que chamamos de sociedade. Nas mãos de um ator menos talentoso, teríamos simplesmente raiva da personagem (lembra do Jim Carrey em O Pentelho?). Mas Anne Hathaway nos coloca dentro da bagunça mental de Kim, abrindo pequenas "janelas" por onde entendemos onde ela se fragiliza.


Veja o trailer de O Casamento de Rachel. Acredite, é bem mais agradável do que o filme, em boa parte graças a essa música do Buddy Holly - que não aparece no filme...


O resto do elenco também entrega atuações fortes, com destaque para Debra Winger, como a mãe torturada e distante de Kim e Rachel.

Mas, no fim das contas, não vale fazer como eu, que estraguei minha noite de sábado com um filme pesado e intencionalmente desagradável. É uma boa obra de arte, é intelectualmente honesto, mas não é cinema como cinema deve ser. Cinema é escape.

Vamos logo a Quem quer ser um milionário?, o favorito ao Oscar de melhor filme. Esse, sim, é de lavar a alma. Não perca a crítica, aqui, no BLOGIE.

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domingo, 15 de fevereiro de 2009 - 0 Comentários

Na última sexta-feira, dia 13, estreou, entre filmes bacanas indicados ao Oscar, a nova versão de Sexta-Feira 13, uma lenda dos anos 80 que, tal qual seu vilão, Jason, não morre nunca.

Sincera e honestamente: não assistirei à nova versão, assim como já não tinha assistido à última empreitada, aquela coisa que misturava Jason e outro ícone do terror oitentista, Freddie Krugger. Assim como abandonei a coisa toda em Sexta-Feira 13 Parte VII, lançado enquanto eu ainda estava no colégio.

Jason foi um cara bacana, uma atração divertida principalmente durante a pré-adolescência. Em seus filmes, havia pencas de loirinhas transando, antes de serem perseguidas pelo assassino mascarado. Havia um prazer trash em acompanhar a série.

O melhor filme da série é a Parte II, aquela em que a moçada do Camp Crystal Lake resolve jogar Strip Monopoly - uma versão de "Banco Imobiliário" em que os imóveis e aluguéis são pagos com peças de roupas. Além da sacanagem, as mortes são as mais divertidas da série.

O vídeo abaixo traz uma edição especial com todas as mortes do filme, agrupadas em dois minutos e meio. Clique, se tiver estômago:


É tipo o Gols do Fantástico: só traz os "finalmentes". Jason é o Romário do facão.


Mas o melhor final de todos é o de Sexta-Feira 13 Parte IV - o Capítulo Final: o Corey Feldman, o Bocão de Goonies, raspa a cabeça e se faz passar pelo próprio Jason, confundindo a cabecinha limitada e amalucada do assassino. Num vacilo, Jason é assassinado a pauladas pelo menino de uns doze anos. A mocinha da história também é a mais gata da série: Kimberly Beck.











Jason morto, no fim do "Capítulo Final". Yeah, right.


Mas, a partir daí, começou aquela palhaçada do Jason morrer no fim de um filme e ressucitar no início do outro, e a coisa começou a perder a graça pra mim.

Ou simplesmente era o tempo passando.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009 - 4 Comentários

Filme de macho que comove: não é mentira, isso existe. É o que o leitor encontrará em O Lutador, que estreia hoje nos cinemas.

Ninguém chora em Soldado Universal, Triplo X ou Stalonne Cobra, é claro, mas qualquer um percebe que há algo a mais em Rocky, o Lutador (o primeiro da série). Ali, você encontra um brutamontes meio chucro que, em meio à sua tosquice e seu excesso de testosterona, não consegue entender seus próprios sentimentos - ele só sabe que ele quer mais. O Lutador entrega isso e mais um pouco: é o melhor filme do ano. Não vai ganhar o Oscar, mas merecia. Porque é arte, mas arte em estado bruto, brutal.
























De repente, Mickey Rourke vira "o cara" - e no papel de um lutador de telecatch!


Muito tem se falado sobre a volta triunfante de Mickey Rourke, um cara que era um símbolo sexual nos anos 80, mas que largou tudo pra ser boxeador, apanhou até ficar totalmente deformado e sumiu do mapa - até O Lutador. E é merecido: Rourke é a alma do filme e entrega a performance do ano. Concorre diretamente com Sean Penn pelo Oscar de melhor ator.

Entrevistamos Mickey Rourke no ano passado. Confira

O lutador do título, vivido com dor por Rourke, é Randy The Ram Robinson, um lutador de telecatch (ou luta livre, sei lá, ô troço mais anos 80!) que viveu seu auge na época em que Van Halen e Guns'n'Roses dominavam as rádios. De lá para cá, se vicia em remédios e anabolizantes, vai perdendo os movimentos, o dinheiro e a clareza de pensamento. Está com problemas cardíacos e sobrevive às custas de um subemprego e de lutas em ginásios vagabundos pelas quebradas dos EUA.

Sua diversão é reviver o auge através do velho video-game baseado em sua luta mais famosa, ocorrida há vinte anos. O futuro, para ele, aparece em duas oportunidades tênues: a) se aproximar da stripper vivida por Marisa Tomei, que gosta dele, mas é tão limitada quanto o pretendente e não consegue vencer a barreira dos chavões do seu ramo (nunca se envolver com clientes etc); e b) tentar a reconciliação com a filha (Evan Rachel Wood, sempre ótima), negligenciada nos tempos de loucura e que, agora, não quer vê-lo nem pintado de ouro.



Veja o clipe acima: cenas do filme, ao som de The Wrestler, canção do Bruce Springsteen que ganhou o Globo de Ouro deste ano.


Marisa Tomei também tira leite de pedra: mesmo passando 80% do tempo em tela dançando pelada (o que é um belo atrativo, diga-se), ela consegue entregar uma performance cheia de nuances e também tocante. Recebeu sua terceira indicação ao Oscar, e vive um belo momento na carreira (ela também foi muito bem em Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, de Sidney Lumet).

Há muitas cenas memoráveis, como aquele em que Randy é obrigado e enfrentar o declínio de frente, como balconista de um supermercado, onde é reconhecido por um fã; ou a que Randy finalmente se aproxima da filha, em um raro momento de equilíbrio e clareza de propósitos.

Mas a que vai ficar pra sempre na memória é mesmo o momento romântico do filme: o lutador de telecatch e a stripper, numa tarde de sábado, se encontram à paisana num boteco derrubadão, tomam uma cerveja, escutam Motley Crüe e revivem uma frestinha de juventude. Exorcisam tudo o que aconteceu depois dos anos 80 e, redimidos, acabam se beijando. Um suspiro de paz no mundo white trash.














O casal do ano: o lutador caidaço e a stripper quarentona.


Isso tudo é O Lutador, mas é mais que isso. Sua namorada não vai gostar, sua mãe vai odiar. Seu amigo descoladinho não vai entender a graça - mas você, amigo leitor da VIP, vai se amarrar. Porque O Lutador é sobre aqueles sonhos meio vergonhosos que temos na juventude, e aquela sensação incômoda de "estraguei tudo" que fica pingando ao longo da idade adulta. Todos temos isso. Até o Mickey Rourke tem, e é sorte nossa que ele tenha dividido seu sofrimento conosco.

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009 - 2 Comentários

Antes de tudo, uma breve palavra com quem ainda não viu Dúvida, de John Patrick Shanley: baseado em uma peça de teatro do mesmo autor, o filme trata de intrigas em um colégio católico no Bronx, cuja diretora é uma freira linha dura, a Irmã Aloysius (Meryl Streep). Ela não vai com a cara do Padre Flynn (Philip Seymour Hoffman), liberal demais pro gosto dela. E levanta, sem muita base pra isso, a suspeita de que ele anda seduzindo um menino da oitava série. Sendo manipulada pela Irmã Aloysius para sustentar sua tese (e pelo Padre Flynn para rejeitá-la), a jovem Irmã James (Amy Adams) é quem mais sofre a tormenta da dúvida.











Meryl e Amy: freiras no tapete vermelho do Kodak Theater.


O filme é muito bom, as atuações são maravilhosas (praticamente todo o elenco adulto foi indicado ao Oscar) e você já deveria ter visto o filme. Mais, não posso falar. Digamos apenas que ele é o que seu título anuncia: uma dúvida em três atos, um exercício machadiano para deixar o espectador em dúvida. Assista junto com alguém e você terá uma discussão garantida para o jantar depois do cinema.


Dica dada, proponho agora um bate-papo um pouco mais cuidadoso com quem já viu Dúvida.

Primeiro: deveriam mostrá-lo nas faculdades de Direito e de Administração de Empresas, ao invés das enfadonhas aulas de técnicas de negociação e da leitura de Como Chegar ao Sim. O filme é um verdadeiro seminário de negociação, com três estilos bem definidos e personificados pelo trio de talentosos protagonistas. Isso fica claro em uma longa cena que inclui os três protagonistas, na sala da diretora. Veja trechos da cena e perceba a abordagem de cada um:


Aula de negociação aplicada, com Meryl Streep, Seymour Hoffman e Amy Adams.


Temos a professorinha idealista, Irmã James. Ela é toda ética e bondade, se incomoda com desonestidade e tenta abafar qualquer conflito, cuja intensidade ela simplesmente não suporta. Até no momento em que ela confronta sua superiora, a Irmã Aloysius, fica claro o quanto ela acredita que afirmar sua correção de propósitos bastará para garantir uma posição vencedora. Não é surpresa que ela seja engolida pelas outras partes.

O Padre Flynn, por sua vez, sabe seus pontos fortes e confia no seu carisma e na sua lógica. Liga as pontas, constrói linhas de argumentação e bota seu interlocutor em constante inferioridade. Como confrontar um homem tão brilhante?, é a pergunta que ele faz crescer no outro. Para isso, ele se move pelo cenário, ocupa o lugar da diretora, pede chá, pede açúcar, fecha a veneziana. No seu habitat natural - a missa de domingo - , ninguém pode com ele: seu sermão sobre a fofoca é antológico.

Mas na escura sala da Irmã Aloysius, o caldo engrossa. A magistral Meryl Streep empresta toda a dureza da editora de moda de O Diabo Veste Prada para a sua personagem do momento. Mas a Irmã Aloysius é pior: ela é 100% foco e dissimulação. Confia no seu faro e jamais se questiona. Em sua longa negociação, consegue suplantar o talento do Padre Flynn, praticando o velho jogo de truco: jogou o verde, e o cara se entregou...

Ou será que não? Pode ser que, em um rápido balanço de prós e contras, o Padre tenha preferido "assumir" seu caso com o menino em particular para a Irmã Aloysius, antes que ela saísse por aí difamando-o. Ele teria formulado a pergunta básica do negociador: qual a melhor alternativa sem acordo? E tomara sua decisão.

Com todo o respeito ao leitor: não interessa o seu ou o meu julgamento. Não dá pra afirmar, com o que aparece na tela por duas horas, que o padre é culpado. Se você está pensando que sou um idiota e que vejo o mundo em cor-de-rosa, o mérito é todo do autor: ele conseguiu botar você no meio da teia de evidências que, se não dão prova cabal da pedofilia, semeiam a dúvida e, de acordo com a personalidade de cada um, conduz a uma conclusão sempre frágil. É disso que trata o filme, à mesma maneira que Machado de Assis construiu a suposta traição de Capitu em Dom Casmurro.

Aí vem o final do filme, aquela coisa da Irmã Aloysius confessar à Irmã James que está se comendo de dúvida... um final que não está à altura do resto do filme, certamente. Na VEJA, a crítica Isabela Boscov disse que se tratava de muita misericórdia de John Patrick Shanon para com a Irmã Aloysius - um gesto tipicamente católico, na linha "eles não sabem o que fazem". O que eu acho: não foi excesso de bondade cristã de Shannon, mas sim falta de segurança artística. Ele sentiu a necessidade de explicar para todo mundo: "olha, não condene o cara; até a Irmã Aloysius tem dúvida... na verdade, o filme é feito pra te deixar na dúvida..."

É como se, no último capítulo de Dom Casmurro, Bentinho refletisse: "jamais vou ter certeza se Capitu me traiu ou não, mas a vida é assim, bola pra frente..."

Só que, mais corajoso e seguro, Machado preferiu manter firme a crença doentia de Bentinho na traição. É isso que Shannon deveria ter feito com a Irmã Aloysius, deixando a dúvida cair aos pingos na consciência das pessoas.


E bem, e o resto?

Bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, e é o seguinte:

1- É sempre um prazer ver Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman em cena. Foi um duelo de gigantes, coisa fina.

2- Amy Adams é o máximo. Linda, jovem e talentosa, será uma das grandes atrizes americanas do seu tempo. Não erra um papel e bem que poderia ganhar já neste ano seu primeiro Oscar.

3- Assistindo a Dúvida, cheguei à infeliz conclusão de que, no meu ambiente profissional, onde sou pago para ser 60% Irmã Aloysius e 40% Padre Flynn, acabo sendo 70% Irmã James, 30% Padre Flynn e 0% Irmã Aloysius. Quero as coisas resolvidas, para ter minha simplicidade de volta.

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domingo, 8 de fevereiro de 2009 - 2 Comentários

O ser humano in natura é despido de qualquer senso de moral ou justiça. É pura matéria, um pedaço de carne atendendo aos seus próprios instintos. Esse é o ponto central do ótimo O Leitor, de Stephen Daldry, indicado a um monte de Oscars, que estreou nesta última sexta-feira no Brasil.

A cobaia escolhida pelo autor para comprovar sua tese é a personagem Hanna Schmitz, uma cobradora de bonde alemã que tem um caso com um rapaz de 15 anos durante a década de 50 -e que, anos antes, trabalhara para a SS como guarda de campo de concentração. Para interpretá-la, nada menos do que Kate Winslet, em um trabalho que a coloca como favorita ao Oscar de melhor atriz.

Winslet faz de Hanna uma pessoa dura, aparentemente estanque a qualquer sentimento, alguém sem planos ou objetivos. Mas, ainda assim, uma mulher - ou melhor, uma fêmea. Seus instintos elegem Michael Berg (o ator alemão David Kross, excelente), um rapaz cheio de hormônios e boas intenções, e os dois se entregam a sessões de sexo sem papo mole ou quebra-gelo.

Nesses encontros, Hanna também se deleita ao ouvir o menino lendo seus livros (clássicos da literatura, de Homero a Mark Twain) em voz alta.
















Kate Winslet nua e crua: exposição física, olhar duro e dúvidas interiores que valem um Oscar.


O tempo passa, o caso acaba, Michael entra para a faculdade de direito e, na qualidade de estudante, tem a oportunidade de acompanhar os Julgamentos de Nuremberg (onde nazistas foram julgados por seus crimes de guerra). Lá, dá de cara com Hanna, esta como ré e a um passo de ir para a cadeia.

A partir daí, passamos a entender os porquês: de tanta angústia no Michael Berg adulto (Ralph Fiennes), do prazer de Hanna em ouvir livros (ao invés de lê-los) e, até mesmo, de tanta nudez ao longo do filme. E o final ainda guarda um nó na garganta do espectador.


Veja o trailer de O Leitor, a melhor opção nos cinemas...


O Leitor é um dos melhores filmes do ano, e é um dos mais corajosos, ao brincar com o senso de moral e justiça de quem o assiste, fazendo-nos adotar o ponto de vista de uma criminosa de guerra. Mostra como ficamos confusos com as mudanças de maré das leis e da História, e nos faz pensar no quão dependentes somos da cultura e dos livros para nos diferenciarmos de outros primatas.

Poderia se consagrar como o melhor roteiro adaptado (o favorito, no entanto, é O Curioso Caso de Benjamin Button), mas é mais provável que dê a Kate Winslet seu primeiro Oscar, após seis indicações. Um filme obrigatório.

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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009 - 1 Comentários

Para quem aprecia o trabalho de atrizes talentosas, o final-de-semana promete. Estreiam dois filmes que trazem quatro atrizes indicadas ao Oscar: O Leitor, com Kate Winslet, e Dúvida, com todo o elenco indicado ao prêmio.

O Leitor, pra começo de conversa, tem sido um pouco subestimado: é um "filme de Holocausto", e o excesso de filmes recentes com temas relativos ao nazismo (O Homem Bom, O Menino do Pijama Listrado, Operação Valquíria) pode prejudicar sua campanha ao prêmio de melhor filme - afinal, seus concorrentes tratam de caras que nascem velhos e rejuvenescem, de favelados indianos que se tornam celebridades da TV e de temas políticos que servem aos dias de hoje (Frost Nixon e Milk).

Nada disso, no entanto, impediu que sua protagonista, Kate Winslet, tenha sido indicada ao Oscar. No papel de uma mulher comum que trabalhou em serviços menores para o nazismo durante a guerra, ela é encontrada tempos depois, lidando com o passado e com a vida como qualquer um de nós faz ou fará um dia. Ralph Fiennes aparece no filme, como o homem que, anos antes, ainda garoto, tivera um caso com a personagem de Kate.














Kate Winslet: talento à prova d'água.


O ponto de vista escolhido pelo diretor Stephen Daldry é assumidamente feminino, como é tradição em seus filmes (As Horas, Billy Eliot). E isso é reforçado pela atuação de Kate Winslet, tão forte e sensual e humana que acabou barrando outra grande atuação dela mesma - a de Foi Apenas Um Sonho - para a disputa do Oscar de melhor atriz. É a sexta indicação de Kate ao Oscar e, provavelmente, a mais próxima de se transformar em vitória...


... Isso se Meryl Streep não interromper o jejum de Oscars que vem "sofrendo" há 26 anos (ela ganhou seu segundo e último por A Escolha de Sofia; de lá para cá, foi indicada mais uma dúzia de vezes, mas nada de prêmio). Meryl está em Dúvida, uma peça de teatro adaptada para o cinema pelo seu próprio autor, John Patrick Shanley.

Algum dos grandes atores brasileiros (Paulo Autran? Raul Cortez?), certa vez, apontou as diferenças entre TV, cinema e teatro: a TV seria o veículo do escritor (a velocidade das filmagens e a falta de tempo para gestar o "produto" fariam com que o sucesso da coisa dependa essencialmente da trama - por isso, a novela é da Janete Clair, da Gloria Perez, etc); o cinema seria o veículo do diretor (com efeito, o caráter artesanal da confecção de um filme é coisa para obsessivos, como Fernando Meirelles e Walter Salles); e o teatro seria o ambiente dos atores: ali eles repetem, a cada dia, o mesmo texto... o diretor já encerrou seu trabalho... e os atores vão burilando seus papéis à perfeição - por isso, tal peça era "a última do Paulo Autran".

Fecha parêntesis.

Dúvida comprova a teoria acima: é um campo aberto para o grande trabalho do seu elenco: Meryl Streep, como a freira manda-chuva de um colégio linha-dura, domina o ambiente e as atenções para o Oscar, mas Philip Seymour Hoffman também arrebata como o padre progressista que é acusado pela "chefe" de pedofilia.


Veja o trailer de Dúvida, e confira o show do elenco!


E ainda tem Amy Adams, a melhor atriz da nova geração (e linda), como a freirinha bem intencionada que é manipulada pela personagem de Streep. Amy, que nunca escolheu um papel ou filme ruim na vida, vai construindo sua carreira com cuidado e sem alarde. Não se assuste se ela "de repente" aparecer como "a grande atriz do momento" nos próximos dois ou três anos. Por ora, indicação de melhor atriz coadjuvante para ela.

Por fim, Viola Davis, no papel da mãe do menino negro que teria sido objeto de assédio por parte do padre. Sua atuação é a clássica indicação ao troféu de melhor atriz coadjuvante: ela aparece por pouco tempo, rouba a cena e perpetra um personagem marcante. É a favorita ao prêmio.













O elenco de Dúvida ri sozinho no lançamento. No detalhe, Amy Adams: você procura, procura, e não acha defeito na moça...


Enfim, bons filmes pro sabadão, aproveite!


(Agora, se nada disso lhe interessou, guarde energia para o próximo final-de-semana, quando estreia O Lutador, com o Mickey Rourke: filme de macho com sensibilidade de Oscar, coisa fina!)

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009 - 4 Comentários

No próximo dia 20, estreia Milk, de Gus Van Sant, indicado ao Oscar de melhor filme e favorito ao prêmio de melhor ator, com Sean Penn. O filme, que foi inicialmente encarado com um pouco de má vontade por este blogueiro, acabou virando o jogo e provou-se muito, mas muito bom.

E a principal razão está na sua relevância nos tempos atuais. O que faz pensar em outro filme em cartaz, que também recebeu indicações ao Oscar. O filme é A Troca, de Clint Eastwood, com Angelina Jolie despontando como favorita ao prêmio de melhor atriz.

São dois filmes diferentes em tudo e iguais em propósito. Veja só:













Penn e Jolie: favoritos ao Oscr, e com mais algo em comum.


A Troca é obra madura de um diretor regular, que nunca erra: Clint Eastwood, conhecido pelo sobriedade e pelo estilo econômico. À primeira vista, é um dramalhão sobre uma mãe que, após meses de desaparecimento do filho, "ganha" da polícia um menino postiço, que tem que aceitar como verdadeiro. Muito choro e sofrimento depois - e bem no momento em que você pensa "não aguento mais tanta angústia" -, a verdade aparece.

Milk é fruto da obsessão do irregular Gus Van Sant, capaz de gerar ótimos filmes (Elefante, Gênio Indomável, Garotos de Programa, Um Sonho sem Limites) e coisas mais fraquinhas (a refilmagem de Psicose, Encontrando Forrester). Van Sant é um cara obcecado por recriações quase documentais. E por tensão sexual (consumada ou não) entre seus personagens masculinos. As duas coisas se encontram em Milk, a história real do político americano Harvey Milk, notório por ter liderado a causa gay em San Francisco, nos anos 70. O filme é colorido, cheio de vida e abertamente gay.

Portanto, coisas completamente diferentes, não?

No entanto, eles têm algo em comum: ambos são filmes de época (o primeiro, nos anos 30; o segundo, nos anos 70) que mostram a luta incansável de seus protagonistas para combater o modus operandi do Governo vigente e estabelecer um mínimo de justiça. São dois filmes honestos e libertários. E ambos se prestam a botar um botar um bem-vindo ponto final na era Bush, ao mesmo tempo em que celebram os novos ares soprados por Barack Obama.


Harvey Milk sai do armário e muda o jeito de se fazer política

Nesta luta, Milk se sai bem melhor: está apoiado em um elenco sensacional, começando por Sean Penn, que, no papel-título, mostra-se imbatível como ator. Hoje, não tem pra ninguém: o melhor cara do ramo é mesmo Penn. Em Milk, ele mostra que está no topo e dificilmente alguém tira dele o terceiro Oscar.

Além dele, James Franco (o amigo do Peter Parker nos atuais filmes do Homem-Aranha), Josh Brolin (o irmão mais velho dos Goonies, que tem se provado grande ator a partir de Onde os Fracos Não Tem Vez) e Emile Hirsh (Show de Vizinha, Na Natureza Selvagem), todos estão ótimos e dão show.


Se houvesse Oscar para trailer, o de Milk já tinha o seu garantido!


Milk é, claramente, um labour of love de Gus Van Sant, coisa que pode ser verificada até em seu trailer, cuidadosamente tratado como uma obra de arte, ao invés de um anúncio publicitário. De tão convencional, pode ser considerado zebra no Oscar. Mas o que importa é que é um ótimo filme. Não perca.


Angelina Jolie sofre e faz sofrer - mas John Malkovitch redime a todos

A Troca, se não chega a decepcionar, fica bem abaixo da recente safra do grande Clint Eastwood. A "culpa" cai nos ombros cada vez mais estreitos de Angelina Jolie, que agarrou essa oportunidade como o "papel definidor de carreira". Infelizmente, Jolie não arrebata. Ela se esforça bastante, mas seu sofrimento remete mais a Camila Morgado em Olga do que a uma Meryl Streep. Assim, a primeira metade do filme (que deveria ganhar o título de "It's not my son!", coisa que ela berra várias vezes) chega a irritar um pouco.

Mas a coisa melhora na segunda metade, quando John Malkovitch passa a dar as cartas e a coisa se transforma em um filme de tribunal. Aí, temos Clint Eastwood em seu melhor, e a discreta catarse do final serve para evitar que saiamos por aí destruindo a coisa pública ou virando o próprio Dirty Harry. Uma medida piedosa do velho Clint.



Veja o trailer de A Troca. Infelizmente, ele dá mais foco na estrela e menos na parte mais bacana do filme...


Resumo da ópera: ó filme imperdível é Milk. Mas, se você já tiver visto tudo que está em cartaz, vale dar uma olhada em A Troca também. (E são os dois favoritos aos Oscars de melhor ator e atriz - você não vai querer ficar sem opinião na segundona depois da cerimônia...)

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009 - 4 Comentários

O Oscar está fechando cada vez mais seu target: se, nos últimos trinta anos, a cultura dos blockbusters passou a espremer os filmes com temas adultos nos três meses que antecedem o prêmio da Academia, agora a novidade é que mesmo neste período não há vida fácil para aqueles de gosto amargo.

Isso fica claro ao vermos que Foi Apenas um Sonho, adaptação do romance de Richard Yates (o nome original, tanto do livro quanto do filme, é Revolutionary Road, bem mais irônico e instigante), recebeu apenas três indicações ao Oscar, todas por categorias secundárias (melhor ator coadjuvante, direção de arte e figurino). O que é uma pena, pois o filme é ótimo.

Frank e April são o casal que se conhece jovem e sonhador, apropriadamente encarnados pela dupla romântica mais vencedora da história do cinema - Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, de Titanic. Em dois minutos de filme, essa fase juvenil do relacionamento é apresentada e cortada direto para a vida que se segue: dois filhos pequenos, trabalho desinteressante para Frank, excesso de tempo livre para April, vidinha vazia para ambos. Estamos no território dos filmes que tratam da falência do sonho americano, do projeto débil que é viver na classe média assentada em ruas tranquilas e casas espaçosas.

















Um trago e colinho não são suficientes para trazer paz à cabeça desse cara...


Para tentar apimentar a vida, e sem saber direito o que estão fazendo, os "jovens Wheeler" (como a corretora de imóveis vivida por Kathy Bates costuma chamá-los) se metem em situações que só pioram a coisa: casos extraconjugais, planos para largar o trabalho e mudança para Paris, pequenas mentiras e grandes discussões.

O filme é dirigido por Sam Mendes, marido de Winslet e vencedor do Oscar por Beleza Americana, outra crônica amarga sobre a vida no subúrbio. A diferença entre Beleza Americana e Foi Apenas um Sonho é que este não abre espaço nem para uma pontinha de redenção (o primeiro oferecia isso, ainda que depois da morte, e com uma boa pontuação de humor ao longo do filme). A visão de Sam Mendes vai na linha "essa vida é tudo de ruim".

Ainda assim, há algo de muito interessante em Foi Apenas um Sonho, e isso é mérito do casal de protagonistas - quando eles sonham com suas mudanças, você acredita; quando dizem se odiar (mesmo se amando), você lamenta. Quando rumam para o fim, você fica olhando para o nada, pensando na vida em termos mais sérios do que gostaria. É impensável por que razão alguém acharia a atuação de Brad Pitt em Benjamin Button superior à de DiCaprio neste filme; é simplesmente uma escolha errada a indicação de Kate Winslet por O Leitor, ao invés desta atuação arrebatadora.


Veja o trailer de Foi Apenas um Sonho. E vá ao cinema!



Foi Apenas um Sonho faz parte da tradição de grandes filmes que estudam a incapacidade humana em manter um relacionamento adulto com um mínimo de estabilidade. Closer, de Mike Nichols, Domicílio Conjugal, de François Truffaut, e metade dos filmes do Woody Allen tratam desse tema com estilos diferentes e igual sucesso.

Mas o filme que mais conversa com Revolutionary Road é Two for the Road (aqui, Um Caminho para Dois), de 1967, dirigido por Stanley Donen. O filme traz Albert Finney e Audrey Hepburn como o casal que enfrenta a crise após dez anos de relacionamento. O cenário, ao invés do lar, é uma viagem pelo sul da França. Os problemas enfrentados, os mesmos (filhos que vieram antes do que se esperava, traições etc). A grande diferença, no entanto, está na maturidade para encarar os problemas e o desafio da vida a dois: enquanto o jovem Sam Mendes e seus personagens com sonhos ainda juvenis rumam para um fim trágico, os mais rodados Donen, Finney e Hepburn permitem-se rir um pouco da situação e buscam o melhor caminho para tocar a vida em frente.

Resumindo: acho que Sam Mendes, quando tiver cinquenta anos, pensará em fazer outro filme com o mesmo tema, mas com um pouco mais de sabedoria, coisa que ele hoje toma por "comodismo". Se fizer isso, ganharemos todos. Ele terá feito outro ótimo filme, valorizando ainda mais a sinceridade de Foi Apenas um Sonho.

E aí, talvez, o Oscar se lembre dele novamente.

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009 - 9 Comentários

Imagine se contratassem o diretor de cinema brasileiro mais estiloso - digamos, Fernando Meirelles - e lhe dessem um baita orçamento para contratar o elenco que quisesse, com aparato técnico de ponta e tudo mais, com o melhor roteirista, para transformar em filme um conto do mais celebrado escritor brasileiro - pode ser A Causa Secreta, do Machado de Assis. E digamos que, para o elenco, contratassem Wagner Moura como protagonista, que abraçaria o trabalho como um papel "definidor de carreira".

Interessante, não? Pois é mais ou menos isso o que significa, para os americanos, a estreia de O Curioso Caso de Benjamin Button, filme de David Fincher (Clube da Luta) que parte de um conto sinistro de F. Scott Fitzgerald, tido (ao lado de ernest Hemingway) o como grande escritor americano do século 20. A premissa é bem curiosa mesmo: o tal Benjamin Button nasce velho, com ossos e juntas degeneradas e pouco cabelo grisalho, e vai rejuvenescendo, até morrer bebê.
Mais curioso é ter Brad Pitt como protagonista, e saber que é Pitt que aparece em cada momento da vida de Benjamin - seja bebê, imberbe, jovem, velho, muito velho, é sempre Brad Pitt que está ali, se valendo de alguma mágica digital incrível e inédita.

Portanto, é um filme-evento, e é um dos certos indicados a muitos Oscars. (Perdeu um pouco de força ao não ganhar nenhum Globo de Ouro, mas a Academia costuma ser muito mais amiga desse tipo de empreitada.)



Veja o trailer de O Curioso Caso de Benjamin Button!


O filme estreia nesta sexta-feira no Brasil, e certamente vale a ida ao cinema, mas cabe dar uma contida nas expectativas: o resultado não é tão bom quanto a promessa.

Isso acontece, em primeiro lugar, porque da ideia original de Fitzgerald, sobrou pouca coisa (basicamente, só aquele breve resumo aí de cima; o foco e o espírito da coisa é bem diferente); das palavras elegantes do escritor, não sobrou nada. É tudo obra do roteirista Eric Roth, o mesmo do premiado (e excelente) Forrest Gump.

Acontece que Roth desfigurou a reflexão de Fitzgerald e a transformou em outro Forrest Gump: aqui, assim como no filme com Tom Hanks, o protagonista é alguém que, devido a alguma característica excepcional (QI baixo no filme de 1994; relógio biológico ao contrário no de 2008), é condenado a viver na solidão - ainda que ele sempre encontre porto seguro na velha casa de sua mãe e em encontros esporádicos com seu amor de infância. Tudo isso, devidamente encaixado no contexto dos grandes eventos da história americana recente.

É um roteiro muito, muito parecido com Forrest Gump, só que sem a graça deste - e sem o carisma de Tom Hanks. O clima de Benjamin Button é de melancolia do início ao fim, e o trabalho de Brad Pitt é bom, muito bom, mas não mais do que isso. Principalmente na fase jovem de Benjamin, Pitt fica meio sem graça. (Mas sua atuação como velhinho com vitalidade de criança é um show!)











Brad Pitt: velhinho com cara de safado e vitalidade de meninão.


Outro problema está no interesse amoroso do protagonista: a personagem de Cate Blanchet (que também interpreta a garota da infância até a velhice) começa interessante, mas bem na hora do ápice, aquele meio da vida em que os dois são jovens e aptos a consumar um amor que vinha sendo cozido em banho-maria... ela é uma mala. Uma enorme mala sem alça, que fala, fala, fala pelos cotovelos. E você pensa, por que um cara bacana e vivido como Benjamin amarraria seu burro com essa chata?

De resto, os efeitos são muito bons, realmente impressionantes e ganharão aquela premiação técnica do Oscar (maquiagem, efeitos...).

Mas não é o suficiente para fazer um filme realmente memorável. Hollywood continua devendo uma grande adaptação da obra de Fitzgerald. Nos anos 70, Francis Ford Copolla, logo depois de ter brilhado com os dois primeiros Poderosos Chefões, falhara ao ser extremamente reverente em O Grande Gastby. Desta vez, é David Fincher que erra, ao assumir liberdade demais neste Benjamin Button.





















Fitzgerald: ainda não conseguiram fazer um baita filme a partir dos seus baita livros...


Torçamos para alguém encarar Suave é a Noite e finalmente honrar a obra de um escritor que admirava tanto o cinema.

Mas, por ora, o que temos são as duas horas e meia de O Curioso Caso de Benjamin Button - e isso já é melhor do que quase todos os outros filmes em cartaz. Então, esqueçam a frescura confessa deste blogueiro e bom cinema!

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