Não sei por quê, mas, de uns tempos pra cá, os cinemas foram inundados por documentários sobre músicos famosos. Não falo de cinebiografias, como Ray ou Johnny e June, mas sim de documentários, com os filhos envelhecidos de tal compositor prestando depoimentos, gente nova cantando músicas antigas de um jeito ofensivamente constrangedor, artistas globais declamando letras de maneira teatral... a bossa do momento é produzir esse tipo de filme. No meio de tanta oferta, os resultados são bem desiguais. BLOGIE ajuda o leitor a separar o joio do trigo.
As novidades:
Em cartaz, no circuito comercial, temos quatro documentários musicais.
O melhor e mais interessante é Loki - Arnaldo Baptista, sobre o genial e despirocado líder dos Mutantes. É uma produção do Canal Brasil, e conta com depoimentos de muita gente interessante (companheiros dos Mutantes e do Tropicalismo, principalmente), mas ninguém é tão interessante quanto o próprio Arnaldo. Severamente alterado por mil experiências com drogas e uma tentativa de suicídio na qual perdeu massa encefálica, o cara continua fazendo arte, falando em disco voador e exibindo uma incrível inocência juvenil sobre qualquer assunto. É comovente para qualquer um, e mais ainda para quem (como eu) é fã da música de Arnaldo, seu irmão, Sérgio Dias, e sua ex-namorada e parceira, Rita Lee.
Olha só um teaser do filme, são trinta segundinhos que trazem pedacinhos de Panis et Circensis, Cê tá pensando que sou loki? e a antológica Balada do Louco:
Os outros documentários em cartaz são:
- Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, sobre Wilson Simonal, cuja vida e obra não dão caldo suficiente para garantir o interesse;
- Kurt Cobain - Retrato de Uma Ausência, que traz entrevistas raras com o finado líder do Nirvana - e que só vai interessar para os fãs da banda, pois, no fundo... vamos combinar que Cobain só falava bobagem;
- Cantoras do Rádio, um belo trabalho histórico que recupera cantoras que foram muito famosas nos tempos pré-televisão - mas que é indisfarçavelmente datado;
- E o muito interessante Um Homem de Moral, sobre Paulo Vanzolini, o autor de Ronda e Volta por Cima. Este último é sensacional. Vanzolini é um cara interessante, um biólogo renomado que, entre um trago e outro na noite paulistana, tornou-se compositor central do chamado "samba de paulista", aquela coisa meio melancólica, meio irreverente que os cariocas fingem não entenderem - mas todo mundo gosta (Chico Buarque e Paulinho da Viola estão no filme, prestando seus respeitos ao mestre; já o outro ponta-de-lança do samba de paulista, Adoniran Barbosa, aparece em preciosas imagens de arquivo). O trailer já traz uma bela amostra da sabedoria do homem: frases como "do povo, pessoalmente, de cada um, eu não gosto não; mas, do povo em geral, eu gosto muito!"
Veja o trailer (aliás, que trailer!) de Um Homem de Moral:
Não fica por aí: a produção recente de documentários é extensa e bem servida em DVD. Um dos melhores é Vinícius, sobre o poeta mais famoso e mais amado do Brasil. O filme traz alguns pecados, como Camila Morgado declamando com toda a falsidade do mundo o Soneto de Fidelidade e outras obras-de-arte, além de novos artistas assassinando músicas de Vinícius e seus parceiros. Mas traz imagens de arquivo que, sem exagero, são capazes de levar qualquer um às lágrimas. Os pontos altos são:
1- Vinícius e Tom Jobim, sentados num sofá na casa de Tom, bêbados, cantando juntos Quando a Luz dos Olhos Teus. Coisa linda, e engraçada. Eles cantam praticamente caindo um em cima do outro, enquanto pontuam as falas com declarações de amor ao uísque ("o melhor amigo do homem: o cachorro engarrafado" - Vinícius).
2- Vinícius e Baden Powell, sentados no chão de um apartamento, em uma das famosas "viniçadas", rodeados de gente cantando com eles o Canto de Ossanha. De arrepiar.
3- O poeta, sempre bêbado, conversando com seus filhos mais velhos a falta que ele sente da mãe deles (a primeira de uma legião de esposas, que ele amava profundamente por uns tempos, antes de ir pra próxima). Comove. E diverte.
4- Maria Bethânia contando o causo de como ela apresentou sua amiga a Vinícius, num episódio um tanto breve (digamos, dez minutos) que culminou no pedido de casamento do poeta à moça, que foi sua última esposa.
Outros bons documentários musicais que você acha na locadora: O Mistério do Samba, de Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor, premiado e merecedor de uma olhada com atenção; Titãs - A Vida até Parece uma Festa, dirigido pelo próprio Branco Mello (um dos Titãs), que é valioso pelas imagens de arquivo filmadas pela própria banda ao longo da sua história; e a caixa com 12 DVDs (!) chamada simplesmente Chico Buarque é um daqueles itens que devem ser encerrados num foguete e enviados para Marte, para que outras civilizações conheçam o que de melhor foi produzido pelos primatas deste pedaço do universo.
Mas o melhor de todos é No Direction Home, a obra-prima de Martin Scorsese sobre Bob Dylan, lançada em 2005 e facilmente encontrada nas lojas que ainda ousam vender CDs e DVDs... São quase quatro horas de filme, entre registros antigos e entrevistas atuais, nas quais o próprio Dylan se analisa de uma maneira incrivelmente aberta (o cara não gosta de se explicar) e honesta. É uma aula de cinema e de música, o melhor dos dois mundos, o encontro de dois gênios. Coisa que merece um post dedicado. Fico devendo este.
E vem mais pela frente: está em fase final de produção Mamonas, o Documentário. Aparentemente, este é o que tem mais potencial de influenciar o espírito do momento. BLOGIE prevê, na esteira do lançamento do documentário, um revival forte dos Mamonas Assassinas: a molecada de hoje vai se amarrar tanto quanto a molecada de quinze anos atrás.
Se faltou algo que mereça citação, comente! Tem muita coisa interessante no cinema para quem gosta de música boa!
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