A perigosa experiência de ficar bêbado na Antártida

Quando você passa nove meses isolado em uma escuridão contínua e congelante, a boa cerveja acaba rápido

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(Elaine Hood / National Science Foundation/Revista VIP)

Chega um momento em todo verão que o clima quente começa a parecer menos uma oportunidade de diversão ao ar livre e mais uma irritação persistente.

Os cariocas transformam a praia em escritório. Os nova-iorquinos aglomeram-se num bar de gelo. Executivos japoneses trocam seus ternos por camisas havaianas.

Em Washington, onde moro, o verão é tão úmido que, quando você vai lá fora – mesmo se não estiver chovendo -, as pessoas o aconselham a não se molhar.

Então era de esperar que, ao ouvir falar de Phil Broughton, um cientista da área da saúde que trabalhara na Estação Polo Sul Amundsen Scott, na Antártida, eu ficasse atraída tanto pelo cenário gelado quanto por sua história surpreendente.

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Quando é verão no hemisfério norte, os dias no Polo Sul atingem mínimas de 38 graus Celsius negativos ou mais, e o continente está nos espasmos de seus seis meses de escuridão anuais.

A cada inverno, os cerca de dez trabalhadores na estação de pesquisa do Polo Sul passam nove meses em isolamento total: nenhum avião pode chegar ou partir até que a base se “aqueça” a 10 graus negativos – de outra forma, o combustível poderia congelar e desligar o motor.

Para manter os trabalhadores, a empresa que administra a estação estoca antes do inverno um armazém com provisões, inclusive muito álcool – afinal, quem não iria querer uma boa reserva de gim antes de embarcar em meses de noite sem fim com os colegas de trabalho?

Para completar as costumeiras cerveja e bebida destilada, alguns trabalhadores que passam o inverno na Antártida levam mimos especiais em seus 56 kg de bagagem permitidos.

“Eu levei licor de Angostura, porque achei que a parte inferior do globo não teria o ingrediente vital para fazer um Manhattan decente”, diz Broughton sobre seu drinque preferido.

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(Reprodução/Revista VIP)

O tempo ocioso de Broughton na Antártida consistia na maior parte em assistir a DVDs deixados por inquilinos anteriores, falar via computador com sua família em casa e ler um sortimento de livros abandonados pelas equipes prévias.

Também havia uma mesa de bilhar, alguns instrumentos de música enferrujados e uma academia “construída para todos os esportes e, portanto, indicada para nenhum”.

Ocasionalmente, eles se entretinham com desafios audaciosos, como sair correndo de uma sauna a 93 graus Celsius para encostar no marco do Polo Sul usando nada além de sapatos (ele fez isso duas vezes).

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(Peter Rejcek/Revista VIP)

Mas havia uma grande desvantagem em viver no que é basicamente a versão terrestre do espaço sideral: o torpor do inverno contínuo se estabelece rapidamente, e o mesmo aconteceu com a depressão e o alcoolismo para alguns dos compatriotas de Broughton.

No papel de barman voluntário da temporada, ele testemunhou em primeira mão o lado feio de viver no “grande lugar morto”.

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(Jeremy Johnson/Revista VIP)

Se a ideia é escapar dos problemas, a Antártida é o lugar mais distante possível, como observou Broughton. Em 2000 ele trabalhava no Vale do Silício, na Califórnia, e depois de um dia particularmente ruim no trabalho voltou para casa, sentou-se diante de seu computador e pensou: “Qual é o lugar mais longe desses idiotas aonde posso ir?”

Teclou “Antártida” em um site de procura de emprego e, em outubro de 2002, estava na parte inferior da Terra, trabalhando para uma fornecedora da Fundação Nacional da Ciência como técnico em ciência criogênica (“Meu trabalho era tomar conta do nitrogênio e do hélio líquidos para experimentos”). Ele ficou ali um ano – inclusive durante um inverno muito longo.

O continente é vasto, deserto e um dos locais mais áridos da Terra. Caminhar 1 km pelo gelo glacial exigia entrar em uma armadura, completa com roupas de baixo térmicas e uma parka especial.

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(Michelle Handlin/Revista VIP)

Broughton disse que, apesar de lutar com a pele permanentemente seca e rachada, acabou aclimatando-se ao frio. Primeiro, 1 grau negativo não parecia nada mal, e em alguns dias até mesmo 30 graus negativos podiam ser tolerados, embora brevemente, com uma camiseta.

Broughton é da Flórida, e antes de aterrissar no Polo Sul tinha visto neve um total de cinco vezes. “Agora já vi bastante para o resto da vida”, diz.

Uma população entediada, presa e gelada cria um bar quase naturalmente. O Club 90 South era uma espelunca simples, com painéis de madeira com um buraco na parede que se abria para o exterior, onde os barmen colocavam as Jagermeister, garrafas de destilado alemão à base de ervas e frutas, para gelar.

Engradados maciços de cerveja, vinho e outras bebidas alcoólicas foram levados para lá com a tripulação de inverno, e eles rezavam para que durassem todos os nove meses. A equipe do ano anterior, disse Broughton, viu o estoque de vinho e cerveja acabar cedo.

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(Eli Duke/Revista VIP)

Algum dia alguém fará uma tabela da relação inversa entre “atividades disponíveis” e “álcool consumido”. Outro trabalhador de inverno da Antártida e escritor, Nicholas Johnson, certa vez ofereceu a seguinte lista ao ser questionado sobre o que desejava ter levado com ele:

“Bem agora eu queria ter comigo um kit de fabricar cerveja, outra garrafa de Lagavulin 16 anos, uma seleção maior de vinhos, um dicionário de bolso de grego clássico, a guitarra elétrica que não sobreviveu ao último voo com o correio, um liquidificador, cópias da minha tese com notas dos avaliadores, um ementhal da idade da caverna e uma romã”.

Um dia, no início de sua estadia ali, Broughton entrou no Club 90 South, sentou-se atrás do balcão no único banco disponível e tornou-se o barman padrão do Polo Sul. O bar operava em um sistema de confiança: leve uma bebida, deixe outra.

O sistema não funcionava de forma perfeita – eles logo ficaram sem nada, a não ser sua pior cerveja (a neozelandesa Export Gold), dois meses antes do fim do inverno.

Os funcionários tornaram-se melhores amigos – e daí não tinham mais sobre o que conversar. “Quando um ano se passou, você conhece praticamente as histórias de todo mundo”, ele conta. “Não há escapatória.”

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(Kristina Scheerer/Revista VIP)

Colegas de trabalho que ficaram em casa telefonavam frequentemente, mas se esqueciam de que as pessoas do outro lado da linha estavam presas em uma devastação congelada. “Elas falavam sobre eventos sociais e diziam que você precisava dedicar seu tempo às reuniões departamentais”, diz.

“Eu pensava: `Como foi que acabei tendo essa cultura corporativa nos confins da Terra? ” Por fim, os funcionários predispostos a transtornos afetivos sazonais eram duramente atingidos.

A escuridão e o frio provocavam sonolência e problemas de memória, e com o tempo alguns dos trabalhadores de inverno tornaram-se letárgicos e desorientados. “Esperava-se que você fizesse anotações copiosas para si mesmo em um caderno”, diz Broughton.

“A vida fica dura quando não se consegue lembrar das coisas. O mais estranho para mim foi ter perdido o comando completo da gramática escrita. E eu não me lembro de nada do mês de outubro.”

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(Dave Grisez/Revista VIP)

Havia abstêmios ocasionais e muitos bebedores moderados, mas, para outros, o álcool se tornou um refúgio. “Você vê coisas que o deixam desconfortável. Havia bem uma dúzia de pessoas que bebia para passar o tempo — isso era difícil de ver, e era difícil servi-las, embora de certa forma eu prefira vê-las bebendo na minha frente do que bebendo por conta própria.”

Broughton disse que tentava oferecer refrigerantes e outras bebidas aos colegas embriagados, mas as opções não alcoólicas não duravam muito. Coca e Mountain Dew acabaram em um mês, e a caixa de vinhos congelou certo dia.

Foram seis meses em que as únicas opções de bebida consistiam em cerveja, destilados e leite em pó (e, claro, a água glacial mais pura deste lado do Mar de Bellingshausen).

Para Broughton, servir alguém em um bar até que a pessoa desmaiasse era às vezes uma opção melhor do que deixá-la vaguear bêbada e sozinha lá fora. Como escreveu recentemente sobre a experiência:

“O perigo mais terrível na Antártida sempre é o de não respeitar o cenário totalmente letal da própria Antártida. Eu ficava bem mais feliz em servir alguém até poder guiá-lo a um sofá, onde ele desmaiaria, do que ver a pessoa cambaleando em direção a uma noite de 24 graus negativos”.

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(Keith Vanderlinde/VIP)

Broughton ouviu que, no ano seguinte, a administração da estação tentou fazer com que os trabalhadores de inverno diminuíssem o consumo de bebidas alcoólicas, mas isso não funcionou bem, como era de esperar.

Mas eles conseguiram diminuir a taxa de fumantes, insistindo que as pessoas fumassem do lado de fora dos dormitórios, em um frio congelante.

Apesar de tudo, Broughton me contou que não passa um dia sem que ele pense na Antártida, e falou que voltaria se tivesse a chance. E ele ainda escolheria o inverno polar em vez da alternativa: o verão de cinco meses de luz de sol ininterrupta.

“O verão na Antártida é uma corrida destrutiva para tentar trancar as janelas e consertar tudo antes que chegue o inverno”, ele conta. “Eu ficaria muito mais feliz fazendo as vezes de guardião da longa noite.”


Cervejas para levar para a Antártida

Dicas da especialista Tatiana Spogis para deixar o ambiente menos frio e hostil

La Trappe Tripel

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(Divulgação/VIP)

 

 

Holanda / 8% / R$ 36,25 / 750 ml

“Do tipo Belgian Tripel, é forte e alcoólica, com cor de mel e uma bela espuma. É doce-amarga e mistura uma potente dose de lúpulo, com notas condimentadas e frutadas.”

 

 

 

 

Speakeasy Double Daddy Imperial IPA

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(Divulgação/VIP)

 

 

EUA / 8,5% / R$ 37,38 / 650 ml

“É uma Imperial IPA, caracterizada por ser muito lupulada. Tem um intenso amargor e uma boa base de malte. É considerada uma das cervejas mais amargas, maltadas e alcoólicas já produzidas.”

 

 

 

 

Bear Republic Big Bear Black Stout

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(Divulgação/VIP)

 

 

EUA / 8,1% / R$ 32,38 / 650 ml

Para não deixar as escuras de lado, esta é do tipo Stout, feita com maltes tostados e torrados, que trazem aconchego com suas notas de chocolate e café e calor pelo teor alcoólico.”

 

 

 

 

Gregorius

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(Divulgação/VIP)

 

 

Áustria / 9,7% / R$ 24,38 / 330 ml

“É uma Strong Dark Ale produzida num Monastério Trapista Austríaco. Licorosa, tem notas de mel, tostado e chocolate. Muito boa para aquecer, já que tem um alto teor alcoólico.”

 

 

 

 

Eggenberg Samichlaus

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(Divulgação/VIP)

 

 

Áustria / 14% / R$ 26,65 / 330 ml

“Esta Strong Dark Lager/Malt Liquor é a cerveja de baixa fermentação (Lager) mais forte do mundo, o que lhe valeu uma menção no Guinness Book of Records.”