Nem loira nem gelada

A mestre-cervejeira Kathia Zanatta conta como uma mulher bonita (e competente) sobrevive num meio dominado pelos homens

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Nada é mais mentiroso que a publicidade de cerveja e suas musas. O meio cervejeiro quase só tem homens, com uma atmosfera carregada de testosterona que não ajuda em nada a atrair mulheres – quem dirá mulheres bonitas. Por isso, os olhares se voltam para Kathia Zanatta quando ela chega a alguma degustação ou outro evento que concentre sommeliers, donos de bar, importadores, blogueiros e jornalistas especializados em cerveja. Mas esses olhos não se arregalam apenas para admirar a beleza dessa paulista de 30 anos. Eles prestam atenção no que ela fala: Kathia é uma das melhores profissionais da área no Brasil, engenheira, mestre-cervejeira, sommelière, empresária, consultora, professora e juíza de concursos internacionais.

Também é uma moça do interior de sotaque acentuado, perceptível quando ela descreve características de uma “cerrrveja”, como “corrr”, “turrrbidez” ou “amarrrgorrr”. Uma menina que queria ser bailarina – Kathia dança até hoje – e não se interessava muito em beber cerveja (preferia cuba libre) com os colegas da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, famosa pela excelência acadêmica tanto quanto pela vocação botequeira dos alunos. A especialização na bebida veio por caminhos que não passam pelo bar.

“Eu me interessava pela parte técnica e queria muito morar na Alemanha”, conta Kathia. Do lado de cá, a pergunta seguinte foi, naturalmente, sobre o porquê dessa obsessão germânica. Ela explica que os pais – um comerciante e uma dona de casa – ganharam dinheiro mas não tinham educação superior. Queriam que a filha frequentasse a melhor escola possível e, moradores da pequena Itatiba, encontraram essa escola a 32 quilômetros dali, em Valinhos. Era o Colégio Visconde de Porto Seguro, que antes da Segunda Guerra Mundial se chamava Deutsche Schule (“escola alemã”). Kathia teve educação bilíngue desde os 8 anos de idade.

Enquanto cursava engenharia de alimentos, foi apresentada a uma alemã que fazia intercâmbio e precisava de intérprete. Essa menina tinha um primo que trabalhava na cervejaria Paulaner. Após uma breve troca de e-mails com ele, descolou um estágio, trancou a matrícula e se mudou aos 21 anos para Munique, onde conheceu a weissbier – cerveja de trigo aromática e pouco amarga. “Comecei a beber muita cerveja e engordei 10 quilos.” Por muito, entenda-se 11 copos de meio litro de weiss em um churrasco. “Só saía com as pessoas da cervejaria. Não tinha outra coisa para beber”, justifica-se, para frisar que hoje “jamais” conseguiria beber tanto assim.

Kathia trabalhou em todos os setores da fábrica, onde aprendeu muito do ofício e também a lidar com o preconceito. Por ser mulher e por ser brasileira. “Muitos dos cervejeiros alemães são tradicionalistas… sabe o estereótipo do velhinho barrigudo?” Essa gente conversava em dialeto bávaro sempre que a estagiária estava por perto, para que ela não entendesse patavina. Com o apoio do chefe direto, ela tirou de letra os tiozinhos chatos e concluiu o estágio. De volta ao Brasil, terminou a faculdade e empregou-se na Schincariol (hoje Kirin Brasil), em Itu.

Lá – perdão por destruir as ilusões do leitor interessado na mulher gata, simpática e cervejeira – conheceu Alfredo, também mestre-cervejeiro, então seu chefe e depois marido e parceiro de negócios. Os dois moram em Indaiatuba, perto de Campinas, com uma gata e uma calopsita.

O momento em que Kathia começou a trabalhar na Schin foi bem especial: a cervejaria acabara de adquirir as marcas Eisenbahn e Baden Baden, então microcervejarias pioneiras em rótulos especiais no Brasil. Coube à novata, rapidamente alçada de estagiária a trainee em desenvolvimento de produtos, criar uma receita para a Baden Baden Weiss. Esse trabalho fez com que Kathia buscasse especialização em estilos de cerveja.

Os patrões enviaram Kathia de volta a Munique em 2008, para cursar a Doemens, academia de formação de sommeliers de cerveja. Com o diploma alemão em mãos, criou o curso de cervejas na ABS – Associação Brasileira de Sommeliers, até então aberta apenas aos apreciadores de vinhos. Foi, de certa forma, responsável pelo surgimento de mais profissionais do que o mercado precisava. “Tem muita gente falando besteira, o que é natural. Quem é bom  fica”, diz. Ela compara o trabalho do sommelier ao de um piloto: “A escola dá o brevê, mas você só sabe pilotar depois de muitas horas de voo”. Traduzindo para o cervejês, é preciso beber, ops, degustar muito para ser um sommelier.

Kathia prosseguiu com a educação cervejeira no Instituto Siebel, em Chicago, onde estudou as particularidades de cada estilo. Por falar em estilos, a preferência da mestre-cervejeira recai sobre as bebidas de paladar ácido. “Eu comia limão”, explica. Entre suas favoritas estão as lambics – belgas de fermentação espontânea, que ficam azedas como o pão italiano e desagradam a muita gente. “Adoro que os outros não gostem, porque sobra mais para mim.”

Ao sair da indústria cervejeira, Kathia investiu em três frentes. É uma sommelière autônoma. Junto com o marido e outro sócio, trabalha como consultora e professora no Instituto da Cerveja, um negócio ambicioso que propõe a treinar profissionais de indústrias de qualquer tamanho e dar cursos de especialização para sommeliers.

VIPA terceira empreitada de Kathia é o CluBeer, esquema que, nos moldes dos clubes de vinho (e do antigo Círculo do Livro), envia ao assinante uma seleção mensal de rótulos mediante o pagamento de uma quantia fixa (a partir de R$ 54,70 por quatro cervejas nacionais no plano anual).

Nas três atividades, a bela interage com um público predominantemente masculino – a eterna sina do mundo cervejeiro. Sofre assédio, é claro, principalmente daqueles que não percebem que o marido está ali ao lado nos eventos regados a lagers e ales. “O pessoal bebe, é um momento de descontração, e sempre tem um ou outro engraçadinho.” Como ela lida com isso? “Eu não me importo mais em ser grossa. Se você der trela, está perdida.”

MENINA DO INTERIOR, KATHIA ESTUDOU EM COLÉGIO DE ALEMÃES E SÓ SE INTERESSOU DE FATO POR CERVEJA QUANDO FOI ESTAGIAR NUMA CERVEJARIA EM MUNIQUE. NA FACULDADE, BEBIA CUBA LIBRE

 

TREINE SUA NAMORADA EM 5 PASSOS
Se a sua namorada não gosta muito de beber cerveja, Kathia sugere que você a apresente lentamente os sabores da bebida. “As mulheres têm mais rejeição que os homens ao amargor, mas é só questão de treinar o paladar.”

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Para uma menina que não goste nem um pouco de cerveja, comece com esta witbier – estilo belga bem aromático, feito com trigo e especiarias, sem amargor. É tiro e queda.
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Só recorra a esta paranaense se a aluna mandou bem nas outras fases. É uma double india pale ale com 9,1% de álcool e amargor que, para paladares pouco habituados, pode ser intolerável.
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